Como sempre, em se tratando de um artigo do Martin Wolf, leitura obrigatoria.
Os países credores estão preocupados com a segurança de seu dinheiro. É isso o que liga duas das principais histórias econômicas da semana passada: o ataque da chanceler Angela Merkel às políticas monetárias adotadas pelos bancos centrais, incluindo o seu próprio e o Banco Central Europeu (BCE); e a pressão sobre Tim Geithner, o secretário do Tesouro americano, para convencer seus anfitriões em Pequim de que seu investimento em moeda e papéis do governo americano está seguro. Mas está? A resposta é: apenas se os países credores facilitarem o ajuste na balança global de pagamentos. Os países devedores ou exportarão sua saída desta crise ou serão levados a algum tipo de calote. Os credores terão que escolher qual.
A Alemanha e a China têm muito em comum: elas possuem os dois maiores superávits em conta corrente do mundo, de US$ 235 bilhões e US$ 440 bilhões, respectivamente, em 2008; e ambas também são potências de exportação de produtos manufaturados. Como resultado, elas sofreram como o colapso da demanda dos compradores superendividados de suas exportações. Logo, ambas se sentem terrivelmente injustiçadas. Por que, elas se perguntam, sua população virtuosa deve sofrer porque seus clientes se permitiram ficar tão quebrados?
A Alemanha e a China também são muito diferentes: a Alemanha é uma produtora global de bens manufaturados altamente competitiva. Mas também é uma potência regional que compartilha seu dinheiro com seus vizinhos desde 1999. Seu problema é que seus superávits foram compensados pelo excesso de gasto privado de seus vizinhos. Agora que os tomadores de empréstimos estão falidos, a demanda doméstica de seus países também está sofrendo um colapso. Isso leva a uma imensa expansão dos déficits fiscais e pressão para políticas monetárias mais brandas por parte do BCE. Logo, Merkel busca minar a independência do banco central alemão, visando proteger a meta ainda mais vital da estabilidade monetária.
A Alemanha pode ser a principal economia da Europa. Mas a China é uma superpotência nascente. Sem ter a intenção, ela já sacudiu a economia mundial. A incorporação deste colosso dinâmico na economia mundial envolve imensos ajustes. Isso já está evidente em qualquer discussão de uma saída sustentada da crise.
Um recente estudo da Goldman Sachs -infelizmente, não disponível publicamente- lança uma luz fascinante sobre o impacto da ascensão da China na economia mundial.* Em particular, ele amplia a análise do papel dos "desequilíbrios globais", sobre os quais eu (e muitos outros) tenho escrito.
O estudo aponta para quatro características salientes da economia mundial durante esta década: um aumento global imenso nos desequilíbrios em conta corrente (com o surgimento, em particular, de imensos superávits nas economias emergentes); um declínio global nos rendimentos reais e nominais de todas as formas de dívida; um aumento nos retornos globais sobre o capital físico; e um aumento no "prêmio de risco no mercado acionário" -a diferença entre o rendimento dos lucros nas ações e o rendimento real dos títulos. Eu acrescentaria a esta lista a forte pressão para baixo sobre os preços em dólar de muitos bens manufaturados.
O estudo argumenta que a hipótese padrão da "abundância de poupança global" ajuda a explicar os primeiros dois fatos. De fato, ele nota que uma alternativa popular -uma política monetária muito frouxa- não explica as taxas reais de longo prazo persistentemente baixas. Mas, ele acrescenta, isso não explica a terceira e quarta (ou minha quinta) características.
Segundo o estudo, um aumento imenso na oferta de mão-de-obra global e a extrema aversão ao risco dos novos credores nos países emergentes explicam a terceira e quarta características. Como nota o estudo, "o acúmulo de ativos líquidos no exterior se deve totalmente a aquisições do setor público... e foi canalizado principalmente para as reservas". As economias emergentes asiáticas -a China, acima de tudo- dominaram esses fluxos.
Os imensos fluxos externos foram consequência de decisões políticas, dentre as quais o regime cambial foi o mais importante. A decisão de manter as taxas de juros baixas também colocou um teto aos preços em dólar de muitos fabricantes. Eu acrescentaria que o estouro da bolha do mercado de ações em 2000 também aumentou a percepção de risco no mercado de ações e aumentou a atração pelos supostamente seguros instrumentos de crédito, cujo inchaço vimos nos anos 2000. A pressão sobre os salários também pode ter encorajado a dependência dos empréstimos e, assim, contribuído para alimentar as bolhas de crédito dos anos 2000.
Os autores concluem que os baixos rendimentos dos títulos causados pela abundância de reservas levou aos empréstimos desenfreados cujos resultados estamos vendo agora. Com uma melhor regulamentação, a confusão seria menor, como o Fundo Monetário Internacional argumenta acertadamente em seu recente Panorama Econômico Mundial. Mas alguém tinha que emprestar esse dinheiro. Se não fossem os lares, quem o teria feito -os governos, incorrendo em déficits fiscais ainda maiores, ou as corporações, já repletas de lucros? Esta é tanto uma história macroeconômica quanto uma de falta de regulamentação tola e gananciosa.
Mas ela não é apenas história. Ela pesa igualmente sobre a saída da crise pelo mundo. A característica dominante da economia atual é que os antigos tomadores de empréstimo privados estão, para colocar de forma branda, quebrados. Para sustentar os gastos, os bancos centrais estão sendo obrigados a realizar as emissões monetárias das quais Merkel suspeita e os governos estão sendo levados a um endividamento imenso, para compensar a poupança privada maior do que a desejada.
Hoje, a Alemanha quer preservar o valor de seu dinheiro, enquanto a China está desesperada para preservar o valor de seus ativos externos. São metas compreensíveis. Mas, para que isso aconteça, os países devedores precisam estabilizar suas economias sem outra rodada de altos empréstimos privados ou de aumento ilimitado da dívida do governo. Ambos os caminhos levarão no final a calotes, inflação ou ambos, e assim a perdas para os credores. A única alternativa é os devedores pagarem sua saída. No nível de um país inteiro, isso significa um grande aumento líquido nas exportações. Mas se os países endividados quiserem atingir esta meta, em uma economia mundial vigorosa, os países com superávit devem expandir fortemente a demanda, em relação à oferta.
A decisão da China de acumular cerca de US$ 2 trilhões em reservas de moeda estrangeira foi, no meu entender, um erro. Agora ela tem uma opção. Se ela quiser que seus investimentos no Estados Unidos sejam seguros, ele tem que facilitar o ajuste na balança global de pagamentos. Se ela e outros países com superávit quiserem incorrer em imensos superávits e acumular vastas reservas financeiras, eles devem esperar calotes. Não é possível ter tanto ativos estrangeiros seguros quanto enormes superávits. Eles devem escolher entre eles. Pode parecer injusto. Mas quem disse que a vida é justa?
segunda-feira, 15 de junho de 2009
domingo, 14 de junho de 2009
sábado, 13 de junho de 2009
Winter Landscape, John Berryman
The three men coming down the winter hill
In brown, with tall poles and a pack of hounds
At heel, through the arrangement of the trees,
Past the five figures at the burning straw,
Returning cold and silent to their town,
Returning to the drifted snow, the rink
Lively with children, to the older men,
The long companions they can never reach,
The blue light, men with ladders, by the church
The sledge and shadow in the twilit street,
Are not aware that in the sandy time
To come, the evil waste of history
Outstretched, they will be seen upon the brow
Of that same hill: when all their company
Will have been irrecoverably lost,
These men, this particular three in brown
Witnessed by birds will keep the scene and say
By their configuration with the trees,
The small bridge, the red houses and the fire,
What place, what time, what morning occasion
Sent them into the wood, a pack of hounds
At heel and the tall poles upon their shoulders,
Thence to return as now we see them and
Ankle-deep in snow down the winter hill
Descend, while three birds watch and the fourth flies.
In brown, with tall poles and a pack of hounds
At heel, through the arrangement of the trees,
Past the five figures at the burning straw,
Returning cold and silent to their town,
Returning to the drifted snow, the rink
Lively with children, to the older men,
The long companions they can never reach,
The blue light, men with ladders, by the church
The sledge and shadow in the twilit street,
Are not aware that in the sandy time
To come, the evil waste of history
Outstretched, they will be seen upon the brow
Of that same hill: when all their company
Will have been irrecoverably lost,
These men, this particular three in brown
Witnessed by birds will keep the scene and say
By their configuration with the trees,
The small bridge, the red houses and the fire,
What place, what time, what morning occasion
Sent them into the wood, a pack of hounds
At heel and the tall poles upon their shoulders,
Thence to return as now we see them and
Ankle-deep in snow down the winter hill
Descend, while three birds watch and the fourth flies.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Cristianismo e marxismo
Resumo da Lecture "Christianity, Marxisn - Liberation Theology", apresentada pelo teologo luterano Wolfhart Pannenberg, nos USA em 1987. As razões contrárias ao marxismo, por ele apresentadas, ainda me parecerem validas e, importantes, principalmente, devido a atual crise econômica que pode dar novo alento aos defensores desta controversa união.
"Pannenberg contends that there are two basic reasons why Christians cannot use Marxism as a scientific, sociological tool in the task of understanding the dynamic of oppression in contemporary societies. First, building on the work of the Polish philosopher Adam Schaff and the Swiss theologian Fritz Lieb, Pannenberg; declared that Marxism harbors a flawed understanding of the person, an understanding that is irreconcilable with Christianity. Marxism declares the person to be a function of society. Each individual is the product of social interaction and therefore thoroughly dependent on social context. This idea gives rise to the Marxist rejection of religion. The religious claim that each person is endowed with dignity from his or her relation to God alienates the person from his or her true nature. To the Marxist, therefore, the church's existence testifies to the continuing presence of alienation in the social system, an alienation that ought to vanish after the socialist revolution.
That Pannenberg himself understands the social context's significant role in the development of the person is evidenced in his Anthropology. However, he concluded in his recent lecture that from the perspective of Christian personalism, it is actually the Marxist proposal that results in alienation. By suggesting that the individual is exclusively social, Marx alienates the individual "from the constitutive center of his or her human life, i.e., from God." In so doing Marxism deprives persons of autonomy and human dignity.
Further, the Marxist understanding of human nature views social history as the process of the human species' selfcreation. Christianity sees in this proposal a disastrous attempt to emancipate humanity from divine providence by setting the creation above the Creator. This Marxist proposal is too optimistic concerning human nature, for it fails to recognize the problem of sin as pride.
According to Pannenberg, this atheistic orientation "is not an accidental element in Marxist thought," but is intimately connected with the anthropology underlying its social theory. For this reason one cannot "use Marxist economic descriptions without buying their atheist implications. "
[...]
Pannenberg's second point, although not as significant theologically and philosophically as the first, is also formidable. He claims that as an economic theory Marxism is an unscientific oversimplification of complex realities. Contrary to Marx's theory, labor is not the only source of economic value, especially in the current technological age. On the basis of this observation, Parmenberg asserts that the question of economic and social justice is far more complex than Marxist categories would indicate. Marxism, therefore, is not an ideologically neutral, analytic instrument, as liberation theologians claim. Nor is it scientific, as its historically false prediction of the demise of the middle class has shown.
In spite of its flaws, Marxism, Pannenberg admits, is undeniably appealing to both Western and Third World intellectuals. He maintains that this is probably so because the system imparts moral value to political involvement in the class struggle. But in the end those who engage in this movement "turn out to be victims of the seductive power of an ideology."
Although he is sharply critical of Marxism and any theology that appeals to Marxist categories, Pannenberg is not unconcerned about social justice in Third World countries. In the closing section of his lecture, he affirmed recent Vatican statements on social justice. He also called for involvement in the struggle against "examples of clear injustice" in the world. He admitted that his proposal appears modest compared with "the quest for justice in the full and complete sense of the word." But in its defense he cited Alasdair MacIntyre's conclusion in After Virtue (University of Notre Dame Press, 1984) that no generally accepted concept of justice is available therefore, "even justice can only be provisional this side of the eschatological fullness of the kingdom of God."
Fonte:Stanley J. Grenz, Pannenberg on Marxism: Insights and Generalizations.
"Pannenberg contends that there are two basic reasons why Christians cannot use Marxism as a scientific, sociological tool in the task of understanding the dynamic of oppression in contemporary societies. First, building on the work of the Polish philosopher Adam Schaff and the Swiss theologian Fritz Lieb, Pannenberg; declared that Marxism harbors a flawed understanding of the person, an understanding that is irreconcilable with Christianity. Marxism declares the person to be a function of society. Each individual is the product of social interaction and therefore thoroughly dependent on social context. This idea gives rise to the Marxist rejection of religion. The religious claim that each person is endowed with dignity from his or her relation to God alienates the person from his or her true nature. To the Marxist, therefore, the church's existence testifies to the continuing presence of alienation in the social system, an alienation that ought to vanish after the socialist revolution.
That Pannenberg himself understands the social context's significant role in the development of the person is evidenced in his Anthropology. However, he concluded in his recent lecture that from the perspective of Christian personalism, it is actually the Marxist proposal that results in alienation. By suggesting that the individual is exclusively social, Marx alienates the individual "from the constitutive center of his or her human life, i.e., from God." In so doing Marxism deprives persons of autonomy and human dignity.
Further, the Marxist understanding of human nature views social history as the process of the human species' selfcreation. Christianity sees in this proposal a disastrous attempt to emancipate humanity from divine providence by setting the creation above the Creator. This Marxist proposal is too optimistic concerning human nature, for it fails to recognize the problem of sin as pride.
According to Pannenberg, this atheistic orientation "is not an accidental element in Marxist thought," but is intimately connected with the anthropology underlying its social theory. For this reason one cannot "use Marxist economic descriptions without buying their atheist implications. "
[...]
Pannenberg's second point, although not as significant theologically and philosophically as the first, is also formidable. He claims that as an economic theory Marxism is an unscientific oversimplification of complex realities. Contrary to Marx's theory, labor is not the only source of economic value, especially in the current technological age. On the basis of this observation, Parmenberg asserts that the question of economic and social justice is far more complex than Marxist categories would indicate. Marxism, therefore, is not an ideologically neutral, analytic instrument, as liberation theologians claim. Nor is it scientific, as its historically false prediction of the demise of the middle class has shown.
In spite of its flaws, Marxism, Pannenberg admits, is undeniably appealing to both Western and Third World intellectuals. He maintains that this is probably so because the system imparts moral value to political involvement in the class struggle. But in the end those who engage in this movement "turn out to be victims of the seductive power of an ideology."
Although he is sharply critical of Marxism and any theology that appeals to Marxist categories, Pannenberg is not unconcerned about social justice in Third World countries. In the closing section of his lecture, he affirmed recent Vatican statements on social justice. He also called for involvement in the struggle against "examples of clear injustice" in the world. He admitted that his proposal appears modest compared with "the quest for justice in the full and complete sense of the word." But in its defense he cited Alasdair MacIntyre's conclusion in After Virtue (University of Notre Dame Press, 1984) that no generally accepted concept of justice is available therefore, "even justice can only be provisional this side of the eschatological fullness of the kingdom of God."
Fonte:Stanley J. Grenz, Pannenberg on Marxism: Insights and Generalizations.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
''Meirelles peitou o mercado inteiro. Foi histórico''
Li a excelente entrevista do Mendonça de Barros depois de escrever o último post. Acho que ele está correto na análise da dinamica da taxa de cambio, ou então sou tão louco quanto ele.
Ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ex-ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso, o economista e engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros é um grande crítico da sobretaxa de juros. Mas também vai contra a corrente que defende uma intervenção maior do governo no câmbio. Ontem, ele se disse muito surpreso com o que classificou como "atitude corajosa" do Banco Central e disse que o presidente da instituição, Henrique Meirelles, "peitou" o mercado. Mendonça de Barros foi um dos que haviam depositado todas as fichas na aposta de corte de 0,75 ponto porcentual. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como o sr. classifica o corte de 1 ponto porcentual?
Foi muita coragem do (Henrique) Meirelles. Ele peitou o mercado inteiro. Foi uma decisão histórica. O BC tem razão em dizer que não tem como comandar a taxa de câmbio, porque o real hoje se tornou moeda internacional. Mas, por causa disso, o BC também não tem o direito de manter a taxa de juros tão acima da de outros países, com uma inflação a quase 4,5%. A decisão, repito, histórica, foi nessa direção. Está certo que o PIB (Produto Interno Bruto, de -0,8% no primeiro trimestre) foi melhor do que se esperava, mas foi ruim ainda. Não sei se isso pesou na reunião, mas certamente pesou no mercado, que vai ter de se explicar, que projetou uma queda muito maior (para o PIB do período). É muito cedo ainda para definir.
O que esse corte indica para o futuro?
Uma expectativa de a Selic chegar a, pelo menos, 8,75% na próxima reunião do Copom. Meu número é até um pouco mais baixo. Mas eu não esperava que o BC tivesse coragem para promover essa queda de um ponto, que certamente terá as razões explicadas na ata. Agora, é histórico porque ele peitou o mercado e geralmente o BC não faz isso. O que vamos ver na sexta-feira (primeiro dia útil após a decisão) é como o mercado vai trabalhar com a taxa longa. Porque a taxa longa, de um ano, que corrige o crédito, já está a 12%, o que é alto comparado a outros países.
Que taxa de juros hoje acompanharia de forma mais eficiente o câmbio no nível em que está?
Acho que temos de construir essa taxa através do juro real. Se ponderar que a inflação está ancorada numa expectativa de 4,5%, uma taxa de 8,5% já estaria num nível alto comparado a outros países.
E qual o nível ideal?
Não tem nível ideal. Minha tese é que o BC, por razões históricas, sempre trabalhou com taxa de juros real maior do que eventualmente fosse necessário para estabilizar a inflação na meta, porque o nosso passado nos condena. Só que isso mudou agora, com o real como moeda forte. Portanto, o BC não tem mais condição de manter uma sobretaxa de juros diante de um real que o mercado internacional vai arbitrar. O real hoje é uma alternativa para quem tem ativos em dólar. Essa é a novidade, que estou rouco de tanto falar e as pessoas ficam pensando que eu sou louco. Eu posso ser um monte de coisas, mas louco, não. E aí temos de acompanhar o mercado com a internacionalização da nossa moeda.
Essa valorização do real não é artificial, então, na sua opinião?
Não tem nada artificial. E não é valorização do real, mas desvalorização do dólar em relação a moedas que são mais confiáveis hoje. Esse é o movimento que está acontecendo. Está todo mundo com medo do dólar, sobreaplicado em dólar, e aí começam a aparecer alternativas, como o real. O endividamento será menor nos próximos dois anos, a economia brasileira está crescendo e vai continuar e isso o Banco Central tem de considerar. Não dá para serem cautelosos demais. Tem até outra palavra, mas não gosto de usar. Fico satisfeito de ver que eles perderam um pouco isso.
O sr. quer dizer que o Banco Central abandonou o conservadorismo?
Não é conservadorismo pelo seguinte: como temos um passado de inflação que nos condena, o BC sempre preferiu errar para mais. Só que isso não dá para fazer mais por causa da internacionalização do real.
O sr. chegou a defender uma Selic de 8% e, se a economia não aguentasse, o retorno a um nível mais alto. Esse vaivém não seria mais prejudicial?
Bem, primeiro acho que aguenta hoje 8%. Segundo, é uma fronteira nova e quando se lida com coisas novas, não tem a história para trás para te ajudar, então se tem de correr um certo risco. Não acho que vai acontecer nada. Essa decisão é histórica e a frase que já falei várias vezes é: "Não cobrem o Banco Central porque ele não tem como interferir na taxa de câmbio". Agora, o BC não pode trabalhar com uma taxa de juros real tão diferente da de outros países.
Fonte: O Estado
Ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ex-ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso, o economista e engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros é um grande crítico da sobretaxa de juros. Mas também vai contra a corrente que defende uma intervenção maior do governo no câmbio. Ontem, ele se disse muito surpreso com o que classificou como "atitude corajosa" do Banco Central e disse que o presidente da instituição, Henrique Meirelles, "peitou" o mercado. Mendonça de Barros foi um dos que haviam depositado todas as fichas na aposta de corte de 0,75 ponto porcentual. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como o sr. classifica o corte de 1 ponto porcentual?
Foi muita coragem do (Henrique) Meirelles. Ele peitou o mercado inteiro. Foi uma decisão histórica. O BC tem razão em dizer que não tem como comandar a taxa de câmbio, porque o real hoje se tornou moeda internacional. Mas, por causa disso, o BC também não tem o direito de manter a taxa de juros tão acima da de outros países, com uma inflação a quase 4,5%. A decisão, repito, histórica, foi nessa direção. Está certo que o PIB (Produto Interno Bruto, de -0,8% no primeiro trimestre) foi melhor do que se esperava, mas foi ruim ainda. Não sei se isso pesou na reunião, mas certamente pesou no mercado, que vai ter de se explicar, que projetou uma queda muito maior (para o PIB do período). É muito cedo ainda para definir.
O que esse corte indica para o futuro?
Uma expectativa de a Selic chegar a, pelo menos, 8,75% na próxima reunião do Copom. Meu número é até um pouco mais baixo. Mas eu não esperava que o BC tivesse coragem para promover essa queda de um ponto, que certamente terá as razões explicadas na ata. Agora, é histórico porque ele peitou o mercado e geralmente o BC não faz isso. O que vamos ver na sexta-feira (primeiro dia útil após a decisão) é como o mercado vai trabalhar com a taxa longa. Porque a taxa longa, de um ano, que corrige o crédito, já está a 12%, o que é alto comparado a outros países.
Que taxa de juros hoje acompanharia de forma mais eficiente o câmbio no nível em que está?
Acho que temos de construir essa taxa através do juro real. Se ponderar que a inflação está ancorada numa expectativa de 4,5%, uma taxa de 8,5% já estaria num nível alto comparado a outros países.
E qual o nível ideal?
Não tem nível ideal. Minha tese é que o BC, por razões históricas, sempre trabalhou com taxa de juros real maior do que eventualmente fosse necessário para estabilizar a inflação na meta, porque o nosso passado nos condena. Só que isso mudou agora, com o real como moeda forte. Portanto, o BC não tem mais condição de manter uma sobretaxa de juros diante de um real que o mercado internacional vai arbitrar. O real hoje é uma alternativa para quem tem ativos em dólar. Essa é a novidade, que estou rouco de tanto falar e as pessoas ficam pensando que eu sou louco. Eu posso ser um monte de coisas, mas louco, não. E aí temos de acompanhar o mercado com a internacionalização da nossa moeda.
Essa valorização do real não é artificial, então, na sua opinião?
Não tem nada artificial. E não é valorização do real, mas desvalorização do dólar em relação a moedas que são mais confiáveis hoje. Esse é o movimento que está acontecendo. Está todo mundo com medo do dólar, sobreaplicado em dólar, e aí começam a aparecer alternativas, como o real. O endividamento será menor nos próximos dois anos, a economia brasileira está crescendo e vai continuar e isso o Banco Central tem de considerar. Não dá para serem cautelosos demais. Tem até outra palavra, mas não gosto de usar. Fico satisfeito de ver que eles perderam um pouco isso.
O sr. quer dizer que o Banco Central abandonou o conservadorismo?
Não é conservadorismo pelo seguinte: como temos um passado de inflação que nos condena, o BC sempre preferiu errar para mais. Só que isso não dá para fazer mais por causa da internacionalização do real.
O sr. chegou a defender uma Selic de 8% e, se a economia não aguentasse, o retorno a um nível mais alto. Esse vaivém não seria mais prejudicial?
Bem, primeiro acho que aguenta hoje 8%. Segundo, é uma fronteira nova e quando se lida com coisas novas, não tem a história para trás para te ajudar, então se tem de correr um certo risco. Não acho que vai acontecer nada. Essa decisão é histórica e a frase que já falei várias vezes é: "Não cobrem o Banco Central porque ele não tem como interferir na taxa de câmbio". Agora, o BC não pode trabalhar com uma taxa de juros real tão diferente da de outros países.
Fonte: O Estado
Surpresa
Redução de um ponto percentual. Confesso minha surpresa, mas não discordância com a decisão. Diante das perspectivas para a inflação a queda, mais acentuada, é plenamente justificada. Apesar de justifica-la, não parece ser a única explicação: me parece que o Bacen está testando o piso da taxa de juros, que, como argumenta Keynes, é um fenomeno fundamentalmente convencional, ou seja determinado pelas convenções dos agentes econômicos. Sabemos que altera-las não é tarefa nada fácil, ainda que, naturalmente, necessarias.
Um outro aspecto interessante é o impacto desta decisão sobre a taxa de câmbio. A turma de sempre argumenta que a apreciaçao da moeda nacional é consequencia do diferencial de juros. É uma oportunidade de ouro para fazer o teste do pudim. Algum impacto é esperado, mas aposto que não será forte o suficiente para alterar a dinamica da taxa de cambio.
Um outro aspecto interessante é o impacto desta decisão sobre a taxa de câmbio. A turma de sempre argumenta que a apreciaçao da moeda nacional é consequencia do diferencial de juros. É uma oportunidade de ouro para fazer o teste do pudim. Algum impacto é esperado, mas aposto que não será forte o suficiente para alterar a dinamica da taxa de cambio.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
O eterno retorno...
Divertido artigo do Alexandre "eram os deuses os astronautas" sobre o velho problema do câmbio. O argumento apresentado não é novo, mas correto e, alias, já havia sido apresentado em artigo recente - não lembro o nome do autor, mas não era o alexandre - no mesmo jornal da Ditabranda. Aparentemente, a turma de sempre não leu o artigo. Nenhuma surpresa...
Um outro artigo, interessante, e com argumentação diferente da apresentada pelo Alexandre, saiu hoje no mesmo jornal. O autor é o esforçado economista da Ditadura. Cada vez mais niilista, lembra algumas verdades incomodas, mas que não justificam o comportamento por ele adotado em artigos recentes.
"Certas afirmações sobre a recente apreciação do câmbio no Brasil me lembram uma velha história. Um cientista, apreciador de bebidas mais fortes, resolveu testar o que causava suas monumentais ressacas. Assim, na segunda-feira tomou gim e tônica, sofrendo a inevitável ressaca. Na terça, uísque e tônica, com as mesmas consequências. Na quarta, cachaça e tônica, enquanto na quinta e na sexta foram testadas tequila e tônica seguidas de bourbon e tônica. No sábado, confiante, apesar da cabeça latejando, concluiu: a causa da ressaca é a água tônica.
Já nossos keynesianos de quermesse (incluindo os que em dezembro, com o dólar a R$ 2,40, reclamavam da depreciação excessiva da moeda) apontam a taxa de juros como o fator que tem levado ao fortalecimento do real, aparentemente alheios ao fato de o diferencial entre o juro brasileiro e o americano ser hoje menor do que há alguns meses, quando o real era bem mais fraco. De fato, em dezembro a diferença de taxas era de 13,5%, caindo para algo como 10%. Se o juro explica tudo e era maior lá atrás, por que a moeda só se valorizou agora?
Mas, se não é a água tônica, o que poderia estar causando o barateamento do dólar? A primeira coisa a notar é que esse fenômeno não é local, mas nitidamente global. Assim, o índice DXY, que mede o valor do dólar contra uma cesta de seis moedas (euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço), mostra uma queda de quase 11% da moeda norte-americana nos últimos três meses.
Isso dito, a apreciação do real é mais intensa que a depreciação global do dólar, o que poderia sugerir que, ao final da história, a taxa de juros teve um papel relevante. Mas não. O gráfico mostra o desempenho das moedas importantes que mais se fortaleceram no ano, do real ao dólar neozelandês. Não parece ser possível atribuir esse desempenho às taxas de juros, pois, além de muito diferentes entre si, houve em todos os países uma redução expressiva do diferencial de juros. Por outro lado, à exceção da libra esterlina, todas as campeãs guardam uma característica comum: são moedas de países exportadores de commodities.
O gráfico mostra também a evolução dos preços de commodities em 2009, medido pelo índice CRB, que revela uma apreciação da ordem de 16% no período, não muito distinta do desempenho das moedas. Da mesma forma, quando preços de commodities caíram quase 25% no último trimestre do ano passado, as moedas-commodities despencaram, apesar do aumento do diferencial de taxa de juros então observado.
Isso não significa que a redução dos juros que já vem acontecendo, associada à melhora das perspectivas inflacionárias, não possa ter algum impacto sobre o câmbio, ainda que insuficiente para compensar a melhora do ambiente externo. O fundamental, porém, é não perder de vista que o BC possui apenas um instrumento, a taxa de juros, que deve continuar a ser guiada pelo compromisso com a meta de inflação, e não pela tentativa (inútil) de fixação da taxa de câmbio, como tentado no passado. A alternativa é ressaca na certa."
Fonte: FSP
Um outro artigo, interessante, e com argumentação diferente da apresentada pelo Alexandre, saiu hoje no mesmo jornal. O autor é o esforçado economista da Ditadura. Cada vez mais niilista, lembra algumas verdades incomodas, mas que não justificam o comportamento por ele adotado em artigos recentes.
"Certas afirmações sobre a recente apreciação do câmbio no Brasil me lembram uma velha história. Um cientista, apreciador de bebidas mais fortes, resolveu testar o que causava suas monumentais ressacas. Assim, na segunda-feira tomou gim e tônica, sofrendo a inevitável ressaca. Na terça, uísque e tônica, com as mesmas consequências. Na quarta, cachaça e tônica, enquanto na quinta e na sexta foram testadas tequila e tônica seguidas de bourbon e tônica. No sábado, confiante, apesar da cabeça latejando, concluiu: a causa da ressaca é a água tônica.
Já nossos keynesianos de quermesse (incluindo os que em dezembro, com o dólar a R$ 2,40, reclamavam da depreciação excessiva da moeda) apontam a taxa de juros como o fator que tem levado ao fortalecimento do real, aparentemente alheios ao fato de o diferencial entre o juro brasileiro e o americano ser hoje menor do que há alguns meses, quando o real era bem mais fraco. De fato, em dezembro a diferença de taxas era de 13,5%, caindo para algo como 10%. Se o juro explica tudo e era maior lá atrás, por que a moeda só se valorizou agora?
Mas, se não é a água tônica, o que poderia estar causando o barateamento do dólar? A primeira coisa a notar é que esse fenômeno não é local, mas nitidamente global. Assim, o índice DXY, que mede o valor do dólar contra uma cesta de seis moedas (euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço), mostra uma queda de quase 11% da moeda norte-americana nos últimos três meses.
Isso dito, a apreciação do real é mais intensa que a depreciação global do dólar, o que poderia sugerir que, ao final da história, a taxa de juros teve um papel relevante. Mas não. O gráfico mostra o desempenho das moedas importantes que mais se fortaleceram no ano, do real ao dólar neozelandês. Não parece ser possível atribuir esse desempenho às taxas de juros, pois, além de muito diferentes entre si, houve em todos os países uma redução expressiva do diferencial de juros. Por outro lado, à exceção da libra esterlina, todas as campeãs guardam uma característica comum: são moedas de países exportadores de commodities.
O gráfico mostra também a evolução dos preços de commodities em 2009, medido pelo índice CRB, que revela uma apreciação da ordem de 16% no período, não muito distinta do desempenho das moedas. Da mesma forma, quando preços de commodities caíram quase 25% no último trimestre do ano passado, as moedas-commodities despencaram, apesar do aumento do diferencial de taxa de juros então observado.
Isso não significa que a redução dos juros que já vem acontecendo, associada à melhora das perspectivas inflacionárias, não possa ter algum impacto sobre o câmbio, ainda que insuficiente para compensar a melhora do ambiente externo. O fundamental, porém, é não perder de vista que o BC possui apenas um instrumento, a taxa de juros, que deve continuar a ser guiada pelo compromisso com a meta de inflação, e não pela tentativa (inútil) de fixação da taxa de câmbio, como tentado no passado. A alternativa é ressaca na certa."
Fonte: FSP
terça-feira, 9 de junho de 2009
Quanto melhor é melhor...
Para tristeza da direita civilizada e da extrema esquerda deslumbrada, o numero do PIB do trimestre- retação de 0,8% - indica que a crise atual, não traduziu-se ainda - e dificilmente será diferente no futuro - em uma crise com a mesma dimensão das anteriores. Alias, este foi o topico da reportagem do jornal da Ditabranda nesta segunda-feira. Curioso, mas nem tanto, afinal o setor mais atingido, como haviamos comentado em outro post, foi e, continua a ser, o segmento ligado a exportação, ou seja ela não contaminou, significativamente, outros setores da economia. É verdade que a geração de emprego anda anemica e deverá manter este comportamento por algum tempo, mas a recuperação, ainda que lenta, já é visivel. A tão criticada política social do atual governo, também, desempenhou papel importante e isto parece ser o que mais incomoda a turma de sempre. Pobres se alimentando é algo inaceitável, ou melhor imperdoável, não combina com o retrato que fazem do grande bananão. Não é nada exótico.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Rasgando a fantasia...
Discurso aqui, acola,... criticas contundentes ao protecionismo...Mas a tentação era forte demais para resistir e, como era esperado, o governo rasgou a fantasia e assumiu, definitivamente e escancaradamente, a sua porção protecionista. Levando-se em conta a linha teorica da atual equipe econômica, ate que demorou um tempo razoavel. Não há, naturalmente, justificativa econômica para as medidas, quem sabe em outro depto...Cala te boca...
É, no entanto, no minimo curioso e estranho: o governo corta imposto para ajudar o setor e depois aprova medidas que encarecem o custo de produção deste mesmo setor. Obviamente a conta será paga pelo consumidor que, mais uma vez, vai ajudar a engordar os lucros da burguesia industrial brasileira. Eficiente somente na defesa dos seus interesses e cada vez mais egoista....
Que maravilha...
É, no entanto, no minimo curioso e estranho: o governo corta imposto para ajudar o setor e depois aprova medidas que encarecem o custo de produção deste mesmo setor. Obviamente a conta será paga pelo consumidor que, mais uma vez, vai ajudar a engordar os lucros da burguesia industrial brasileira. Eficiente somente na defesa dos seus interesses e cada vez mais egoista....
Que maravilha...
domingo, 7 de junho de 2009
sábado, 6 de junho de 2009
The Refugees, Randall Jarrell
In the shabby train no seat is vacant.
The child in the ripped mask
Sprawls undisturbed in the waste
Of the smashed compartment. Is their calm extravagant?
They had faces and lives like you. What was it they possessed
That they were willing to trade for this?
The dried blood sparkles along the mask
Of the child who yesterday possessed
A country welcomer than this.
Did he? All night into the waste
The train moves silently. The faces are vacant.
Have none of them found the cost extravagant?
How could they? They gave what they possessed.
Here all the purses are vacant.
And what else could satisfy the extravagant
Tears and wish of the child but this?
Impose its canceling terrible mask
On the days and faces and lives they waste?
What else are their lives but a journey to the vacant
Satisfaction of death? And the mask
They wear tonight through their waste
Is death's rehearsal. Is it really extravagant
To read in their faces: What is there we possessed
That we were unwilling to trade for this?
The child in the ripped mask
Sprawls undisturbed in the waste
Of the smashed compartment. Is their calm extravagant?
They had faces and lives like you. What was it they possessed
That they were willing to trade for this?
The dried blood sparkles along the mask
Of the child who yesterday possessed
A country welcomer than this.
Did he? All night into the waste
The train moves silently. The faces are vacant.
Have none of them found the cost extravagant?
How could they? They gave what they possessed.
Here all the purses are vacant.
And what else could satisfy the extravagant
Tears and wish of the child but this?
Impose its canceling terrible mask
On the days and faces and lives they waste?
What else are their lives but a journey to the vacant
Satisfaction of death? And the mask
They wear tonight through their waste
Is death's rehearsal. Is it really extravagant
To read in their faces: What is there we possessed
That we were unwilling to trade for this?
sexta-feira, 5 de junho de 2009
The functional man. Capitalism, property, role of the states
Importante e controverso artigo do Ernst-Wolfgang Böckenförde, filosofo católico, sobre a crise econômica e o capitalismo. Manifesto anti-capitalista, segundo Sandro Magister, retoma teses superadas do Marx e de outros pensadores e apresenta uma visão romantica do mundo anterior ao capitalismo, já criticada pelo conhecido teologo luterano Wolfhart Pannenberg. Serve, contudo, como uma especie de aquecimento para a tão esperada nova enciclica social do Bento XVI, a "Caritas in veritate", prometida para o dia 29 de junho
"The financial and consequently economic crisis that has struck us and is still far from over raises many questions. Was it caused by the irresponsibility and greed of various banks, especially investment banks? Or by the lack of strict rules for the international financial markets, by the lack of effective oversight of banks and finance, by the separation and independence of a virtual (and acrobatic) economy from the real economy of production and assets? Probably a number of such factors contributed, combined with a naive trust in a "free" and unregulated market.
But looking for causes only in this direction does not take us very far. In fact, the system that has been set up in this area for decades with success and with significant material profits, but also with a growing distance between poor and rich, that "turbo-capitalism" (called this by Helmut Schmidt) which reached a new level with globalization before causing a collapse, cannot be defined and explained only by making reference to the wrongful actions of individual persons or even of groups.
This certainly could have played a part, but more generally it is a matter of the results of an established and very widespread system of interaction that follows its own functional logic, and subjects everything else to it. This system of interaction was transformed into a system of action: modern capitalism. This forges the economic (and in part the non-economic) activity of individuals, and integrates it into the system. These individuals are certainly the ones who act, but in their action they do not follow so much their own free impulses as the stimuli produced by the system and its functional logic.
THE INHUMAN CHARACTER OF CAPITALISM
But how does modern capitalism present itself more precisely as a system of action? We can get help in this from a great humanistic sociologist of the last century, Hans Freyer. In his book "Theorie des gegenwärtigen Zeitalters [Theory of the present era]," he discusses "secondary systems" as specific products of the modern industrialized world, and analyzes their structure in detail (1).
The secondary systems are characterized by the fact that they develop processes of action that are not connected to preexisting arrangements, but are based on a few functional principles that give them their form and makeup. These processes of action integrate man not as a person in his entirety, but only with the active forces and the functions that are required by the principles and their implementation. What persons are or should be is left aside.
These kinds of processes of action are developed and consolidated in a diffuse system characterized by its specific functional rationality, which overlaps existing social reality, influencing, changing, and shaping it.
This is the key to analyzing capitalism as a system of action. It is based on just a few premises: the general freedom of the individual and of associations of individuals in matters of purchasing and contracts; full freedom in matters of transferring goods, business, and capital across national borders; the guarantee and free control of personal property (including the right of succession), intending by property the possession of goods and money, but also of information, technology, and capacity.
The functional objective is the general liberation of a potentially unlimited profit interest, in addition to the possibilities for earnings and production, which operate on the free market and enter into competition with each other. The decisive impulse is given by an egotistical individualism that drives the persons involved to buy, innovate, and profit. This impulse constitutes the engine, the active principle; it does not pursue a preexisting content objective that establishes measures and limits, but an unlimited expansion, growth and enrichment. For this reason, it is necessary to eliminate or set aside all of the obstacles and regulations that are not required by the aforementioned premises. The only regulating principle must be the free market."
Para ler o resto do artigo clique aqui
"The financial and consequently economic crisis that has struck us and is still far from over raises many questions. Was it caused by the irresponsibility and greed of various banks, especially investment banks? Or by the lack of strict rules for the international financial markets, by the lack of effective oversight of banks and finance, by the separation and independence of a virtual (and acrobatic) economy from the real economy of production and assets? Probably a number of such factors contributed, combined with a naive trust in a "free" and unregulated market.
But looking for causes only in this direction does not take us very far. In fact, the system that has been set up in this area for decades with success and with significant material profits, but also with a growing distance between poor and rich, that "turbo-capitalism" (called this by Helmut Schmidt) which reached a new level with globalization before causing a collapse, cannot be defined and explained only by making reference to the wrongful actions of individual persons or even of groups.
This certainly could have played a part, but more generally it is a matter of the results of an established and very widespread system of interaction that follows its own functional logic, and subjects everything else to it. This system of interaction was transformed into a system of action: modern capitalism. This forges the economic (and in part the non-economic) activity of individuals, and integrates it into the system. These individuals are certainly the ones who act, but in their action they do not follow so much their own free impulses as the stimuli produced by the system and its functional logic.
THE INHUMAN CHARACTER OF CAPITALISM
But how does modern capitalism present itself more precisely as a system of action? We can get help in this from a great humanistic sociologist of the last century, Hans Freyer. In his book "Theorie des gegenwärtigen Zeitalters [Theory of the present era]," he discusses "secondary systems" as specific products of the modern industrialized world, and analyzes their structure in detail (1).
The secondary systems are characterized by the fact that they develop processes of action that are not connected to preexisting arrangements, but are based on a few functional principles that give them their form and makeup. These processes of action integrate man not as a person in his entirety, but only with the active forces and the functions that are required by the principles and their implementation. What persons are or should be is left aside.
These kinds of processes of action are developed and consolidated in a diffuse system characterized by its specific functional rationality, which overlaps existing social reality, influencing, changing, and shaping it.
This is the key to analyzing capitalism as a system of action. It is based on just a few premises: the general freedom of the individual and of associations of individuals in matters of purchasing and contracts; full freedom in matters of transferring goods, business, and capital across national borders; the guarantee and free control of personal property (including the right of succession), intending by property the possession of goods and money, but also of information, technology, and capacity.
The functional objective is the general liberation of a potentially unlimited profit interest, in addition to the possibilities for earnings and production, which operate on the free market and enter into competition with each other. The decisive impulse is given by an egotistical individualism that drives the persons involved to buy, innovate, and profit. This impulse constitutes the engine, the active principle; it does not pursue a preexisting content objective that establishes measures and limits, but an unlimited expansion, growth and enrichment. For this reason, it is necessary to eliminate or set aside all of the obstacles and regulations that are not required by the aforementioned premises. The only regulating principle must be the free market."
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quinta-feira, 4 de junho de 2009
Metas inflacionárias ou de câmbio
Como mencionado em outro post o velho problema esta de volta: a apreciação do cambio. As vozes de sempre voltam a martelar e como sempre sem apresentar uma proposta para solucionar o problema. Os juros estão altos, argumentam eles, e a solução seria uma nova queda, quem sabe juros reais proximos de zero ou negativo. Ok, mas como resolver o problema do investimento direto. Sim, porque ele, como todos sabem, não são atraidos pelo diferencial do juros ou será que esqueceram deste pequeno detalhe?
O Brasil é um porto seguro, não somente devido aos juros altos, mas, também, devido ao conjunto da obra, ou seja, a boa situação econômica que apresenta se comparada a outros países- inclusive os emergentes. Essa é a grande ironia: é a boa política econômica, tão criticada pela turma de sempre, que torna o país atrativo ao capital externo. Reduzir os juros, tem, naturalmente, algum impacto na apreciação, mas não tão forte quanto o desejado.
Ah! e as exportações,..., já estão sofrendo com os problemas da economia mundial com a moeda apreciada... será um total desastre. Já ouvi esse argumento antes e ele provou estar errado, por que seria diferente agora? Mesmo aceitando que ele está correto, resta a questão inicial: como resolver o problema? Abandonar o sistema de metas inflacionárias e trabalhar com o sistema de metas de taxa de câmbio? Loucura?, nem tanto esta era a proposta de um economista desenvolvimentista de Oxford, o Valpy FitzGerald. Interessado? é so procurar nos textos para discussão do depto de economia de Oxford.
O Brasil é um porto seguro, não somente devido aos juros altos, mas, também, devido ao conjunto da obra, ou seja, a boa situação econômica que apresenta se comparada a outros países- inclusive os emergentes. Essa é a grande ironia: é a boa política econômica, tão criticada pela turma de sempre, que torna o país atrativo ao capital externo. Reduzir os juros, tem, naturalmente, algum impacto na apreciação, mas não tão forte quanto o desejado.
Ah! e as exportações,..., já estão sofrendo com os problemas da economia mundial com a moeda apreciada... será um total desastre. Já ouvi esse argumento antes e ele provou estar errado, por que seria diferente agora? Mesmo aceitando que ele está correto, resta a questão inicial: como resolver o problema? Abandonar o sistema de metas inflacionárias e trabalhar com o sistema de metas de taxa de câmbio? Loucura?, nem tanto esta era a proposta de um economista desenvolvimentista de Oxford, o Valpy FitzGerald. Interessado? é so procurar nos textos para discussão do depto de economia de Oxford.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Aumento das taxas dos títulos do governo prova que a política está funcionando
Li o artigo do Niall Ferguson e tendo a concordar com a resposta do Martin Wolf no artigo abaixo. Ainda não li o do John Taylor que, também, publicou um pequeno livro sobre a atual crise econômica. O livro esta na minha lista de compras na Amazon. Dai vai levar um tempo razoável...
Os Estados Unidos (e vários outros países ricos) estão no caminho do Armageddon fiscal? Os recentes aumentos das taxas dos títulos do governo provam que os investidores estão preocupados com as perspectivas fiscais? Minhas respostas para estas perguntas são: não e não. Isso não significa que não há motivo para preocupação. Mas sim que há argumentos poderosos contra a retração fiscal no momento e fortes motivos para apreciar os movimentos recentes no mercado de títulos.
Na semana passada, o "Financial Times" publicou duas colunas argumentando que o caminho fiscal americano era insustentável, um de autoria de John Taylor, da Universidade de Stanford, e o outro de Niall Ferguson, o historiador de Harvard. O segundo era um comentário sobre um debate com, entre outros, o colunista do "New York Times" e ganhador do Nobel, Paul Krugman, no final de abril.
Em um ponto todos os analistas sérios concordam: a dívida pública não pode subir, em relação ao produto interno bruto, sem limite. Para embarcar no estímulo fiscal a curto prazo, é preciso se manter crível a longo prazo.
Então, onde está o desacordo? O prof. Ferguson apresentou três opiniões: primeiro, o aumento recente nas taxas dos títulos do governo americano mostram que o mercado de títulos está "cedendo" antes da imensa emissão por parte do governo; segundo, os déficits fiscais imensos são tanto desnecessários quanto contraproducentes; e, finalmente, há motivo para temer um resultado inflacionário. São pontos de vista compartilhados por muitos. Estão certos?
O primeiro ponto está, com base nas evidências, errado. O aumento nas taxas do títulos é uma normalização desejável após um pânico. Os investidores correram para o dólar e títulos do governo. Agora estão saindo de novo. Bem-vindo ao mundo volúvel dos mercados financeiros.
Ao final de dezembro de 2008, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano caiu para o nível assustadoramente baixo de 2,1%, em comparação a próximo de 4% em outubro. Em parte em consequência desta queda e em parte devido ao aumento surpreendente do rendimento dos títulos protegidos contra a inflação (Tips), a expectativa implícita era de que a inflação chegaria a uma baixa próxima de zero. O medo de deflação tinha se tornado real demais.
O que aconteceu foi um retorno repentino à normalidade: após alguma turbulência, o rendimento dos títulos convencionais do governo americano fechou em 3,5% na semana passada, enquanto o rendimento dos Tips caiu para 1,9%. Logo, a inflação esperada atingiu um nível de acordo com os objetivos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), de próximo de 1,6%. Praticamente o mesmo aconteceu no Reino Unido, com um aumento da inflação esperada de perto de 1,3%, em março, para 2,3%. O medo do colapso deflacionário passou. Viva!
É verdade que os spreads entre os títulos americanos convencionais e os títulos emitidos pela Alemanha e Reino Unido estreitaram. Mas os rendimentos americanos estiveram extraordinariamente deprimidos durante o pânico. A normalidade retorna.
Se as expectativas de inflação não são dignas de preocupação até o momento, o que dizer de outras preocupações causadas pela grande emissão de títulos, como uma saída forçada do mercado dos tomadores de empréstimo privados? Isso apareceria no aumento das taxas de juros reais. De novo, é grande a evidência do contrário.
O mais recente rendimento dos Tips está abaixo de 2%, enquanto os dos títulos indexados britânicos está próximo de 1%. Enquanto isso, à medida que cresce a confiança, os spreads entre os títulos corporativos e do Tesouro caíram. Também é possível fazer uso das estimativas de inflação esperada a partir dos títulos do governo para estimar as taxas de juros reais sobre os títulos corporativos. Elas também caíram acentuadamente. Apesar dos títulos de maior risco estarem rendendo mais do que há dois anos, eles estão rendendo bem menos do que no final de 2008. Esta também é uma notícia muito boa.
Agora vejamos a política fiscal. O argumento apresentado pelos oponentes é tanto de que a política fiscal sempre foi desnecessária e ineficaz ou, como sugere o prof. Ferguson, redundante, porque esta não é uma "Grande Depressão". Os monetaristas argumentam que a política fiscal sempre é desnecessária, já que a expansão monetária basta. Os economistas que acreditam na "equivalência ricardiana" - que leva o nome do economista do início do século 19, David Ricardo - argumentam que a política fiscal é ineficaz, porque os lares compensarão qualquer não poupança por parte do governo com suas próprias poupanças mais altas.
Os economistas discordam ferozmente nestes pontos. Minha abordagem é "keynesiana": em momentos extremos, o excesso de poupança desejada em relação ao investimento aumenta. De novo, a política monetária, apesar de importante, se torna menos eficaz quando as taxas de juros estão em zero. Então é sábio usar tanto o cinto monetário quanto o suspensório fiscal.
Uma recessão profunda prova que há um aumento imenso no excesso de poupança desejada em pleno emprego, como argumenta o prof. Krugman. No presente, portanto, os déficits fiscais não estão tirando do mercado o setor privado. Eles o estão enchendo, ao apoiar a demanda, que sustenta os empregos e lucros.
O prof. Ferguson argumenta que a expansão fiscal foi desnecessária porque se trata apenas de uma recessão moderada. A questão, entretanto, é por que é apenas uma recessão moderada, já que os precursores de uma depressão certamente estavam presentes.
As respostas, em parte, são as políticas monetárias agressivas dos bancos centrais e o resgate do sistema financeiro. Mas isso foi tudo? O que teria acontecido se os governos tivessem decidido cortar os gastos e aumentar os impostos? Alguém poderia discordar de quanto afrouxamento fiscal deliberado era necessário. Mas um dos motivos mais importantes para esta não ser a Grande Depressão é que aprendemos a lição daquela experiência e a do Japão nos anos 90: não endurecer a política fiscal muito cedo. Além disso, economias historicamente bem dirigidas certamente são confortavelmente capazes de suportar níveis elevados de endividamento público.
Isto então, nos trás para a última preocupação: o medo de inflação. Esta é essencialmente a pergunta sobre como sair das atuais políticas extremas. As pessoas precisam acreditar que as atuais políticas fiscal e monetária extraordinariamente agressivas serão revertidas. Se não acreditarem nisso, poderia muito bem ocorrer um grande aumento das expectativas inflacionárias muito antes da economia mundial se recuperar. Se isso acontecer, os autores de políticas seriam pegos em um arrocho doloroso e o mundo poderia de fato parar em uma estagflação ao estilo anos 70.
As políticas excepcionais usadas para lidar com as circunstâncias extremas estão funcionando. Agora, como resultado, os autores de políticas estão caminhando por uma corda bamba: de um lado está a retirada prematura e um retorno a uma recessão profunda; do outro está o aumento das expectativas inflacionárias e a estagflação. É irresponsabilidade insistir tanto em um endurecimento imediato quanto em um afrouxamento persistente das políticas. Tanto os Estados Unidos quanto o Reino Unido agora correm o risco do segundo. Mas seus críticos correm o risco de cometer um erro igual e oposto. A resposta é tanto clara quanto arriscada: escolher um forte endurecimento, mas não ainda.
Os Estados Unidos (e vários outros países ricos) estão no caminho do Armageddon fiscal? Os recentes aumentos das taxas dos títulos do governo provam que os investidores estão preocupados com as perspectivas fiscais? Minhas respostas para estas perguntas são: não e não. Isso não significa que não há motivo para preocupação. Mas sim que há argumentos poderosos contra a retração fiscal no momento e fortes motivos para apreciar os movimentos recentes no mercado de títulos.
Na semana passada, o "Financial Times" publicou duas colunas argumentando que o caminho fiscal americano era insustentável, um de autoria de John Taylor, da Universidade de Stanford, e o outro de Niall Ferguson, o historiador de Harvard. O segundo era um comentário sobre um debate com, entre outros, o colunista do "New York Times" e ganhador do Nobel, Paul Krugman, no final de abril.
Em um ponto todos os analistas sérios concordam: a dívida pública não pode subir, em relação ao produto interno bruto, sem limite. Para embarcar no estímulo fiscal a curto prazo, é preciso se manter crível a longo prazo.
Então, onde está o desacordo? O prof. Ferguson apresentou três opiniões: primeiro, o aumento recente nas taxas dos títulos do governo americano mostram que o mercado de títulos está "cedendo" antes da imensa emissão por parte do governo; segundo, os déficits fiscais imensos são tanto desnecessários quanto contraproducentes; e, finalmente, há motivo para temer um resultado inflacionário. São pontos de vista compartilhados por muitos. Estão certos?
O primeiro ponto está, com base nas evidências, errado. O aumento nas taxas do títulos é uma normalização desejável após um pânico. Os investidores correram para o dólar e títulos do governo. Agora estão saindo de novo. Bem-vindo ao mundo volúvel dos mercados financeiros.
Ao final de dezembro de 2008, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano caiu para o nível assustadoramente baixo de 2,1%, em comparação a próximo de 4% em outubro. Em parte em consequência desta queda e em parte devido ao aumento surpreendente do rendimento dos títulos protegidos contra a inflação (Tips), a expectativa implícita era de que a inflação chegaria a uma baixa próxima de zero. O medo de deflação tinha se tornado real demais.
O que aconteceu foi um retorno repentino à normalidade: após alguma turbulência, o rendimento dos títulos convencionais do governo americano fechou em 3,5% na semana passada, enquanto o rendimento dos Tips caiu para 1,9%. Logo, a inflação esperada atingiu um nível de acordo com os objetivos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), de próximo de 1,6%. Praticamente o mesmo aconteceu no Reino Unido, com um aumento da inflação esperada de perto de 1,3%, em março, para 2,3%. O medo do colapso deflacionário passou. Viva!
É verdade que os spreads entre os títulos americanos convencionais e os títulos emitidos pela Alemanha e Reino Unido estreitaram. Mas os rendimentos americanos estiveram extraordinariamente deprimidos durante o pânico. A normalidade retorna.
Se as expectativas de inflação não são dignas de preocupação até o momento, o que dizer de outras preocupações causadas pela grande emissão de títulos, como uma saída forçada do mercado dos tomadores de empréstimo privados? Isso apareceria no aumento das taxas de juros reais. De novo, é grande a evidência do contrário.
O mais recente rendimento dos Tips está abaixo de 2%, enquanto os dos títulos indexados britânicos está próximo de 1%. Enquanto isso, à medida que cresce a confiança, os spreads entre os títulos corporativos e do Tesouro caíram. Também é possível fazer uso das estimativas de inflação esperada a partir dos títulos do governo para estimar as taxas de juros reais sobre os títulos corporativos. Elas também caíram acentuadamente. Apesar dos títulos de maior risco estarem rendendo mais do que há dois anos, eles estão rendendo bem menos do que no final de 2008. Esta também é uma notícia muito boa.
Agora vejamos a política fiscal. O argumento apresentado pelos oponentes é tanto de que a política fiscal sempre foi desnecessária e ineficaz ou, como sugere o prof. Ferguson, redundante, porque esta não é uma "Grande Depressão". Os monetaristas argumentam que a política fiscal sempre é desnecessária, já que a expansão monetária basta. Os economistas que acreditam na "equivalência ricardiana" - que leva o nome do economista do início do século 19, David Ricardo - argumentam que a política fiscal é ineficaz, porque os lares compensarão qualquer não poupança por parte do governo com suas próprias poupanças mais altas.
Os economistas discordam ferozmente nestes pontos. Minha abordagem é "keynesiana": em momentos extremos, o excesso de poupança desejada em relação ao investimento aumenta. De novo, a política monetária, apesar de importante, se torna menos eficaz quando as taxas de juros estão em zero. Então é sábio usar tanto o cinto monetário quanto o suspensório fiscal.
Uma recessão profunda prova que há um aumento imenso no excesso de poupança desejada em pleno emprego, como argumenta o prof. Krugman. No presente, portanto, os déficits fiscais não estão tirando do mercado o setor privado. Eles o estão enchendo, ao apoiar a demanda, que sustenta os empregos e lucros.
O prof. Ferguson argumenta que a expansão fiscal foi desnecessária porque se trata apenas de uma recessão moderada. A questão, entretanto, é por que é apenas uma recessão moderada, já que os precursores de uma depressão certamente estavam presentes.
As respostas, em parte, são as políticas monetárias agressivas dos bancos centrais e o resgate do sistema financeiro. Mas isso foi tudo? O que teria acontecido se os governos tivessem decidido cortar os gastos e aumentar os impostos? Alguém poderia discordar de quanto afrouxamento fiscal deliberado era necessário. Mas um dos motivos mais importantes para esta não ser a Grande Depressão é que aprendemos a lição daquela experiência e a do Japão nos anos 90: não endurecer a política fiscal muito cedo. Além disso, economias historicamente bem dirigidas certamente são confortavelmente capazes de suportar níveis elevados de endividamento público.
Isto então, nos trás para a última preocupação: o medo de inflação. Esta é essencialmente a pergunta sobre como sair das atuais políticas extremas. As pessoas precisam acreditar que as atuais políticas fiscal e monetária extraordinariamente agressivas serão revertidas. Se não acreditarem nisso, poderia muito bem ocorrer um grande aumento das expectativas inflacionárias muito antes da economia mundial se recuperar. Se isso acontecer, os autores de políticas seriam pegos em um arrocho doloroso e o mundo poderia de fato parar em uma estagflação ao estilo anos 70.
As políticas excepcionais usadas para lidar com as circunstâncias extremas estão funcionando. Agora, como resultado, os autores de políticas estão caminhando por uma corda bamba: de um lado está a retirada prematura e um retorno a uma recessão profunda; do outro está o aumento das expectativas inflacionárias e a estagflação. É irresponsabilidade insistir tanto em um endurecimento imediato quanto em um afrouxamento persistente das políticas. Tanto os Estados Unidos quanto o Reino Unido agora correm o risco do segundo. Mas seus críticos correm o risco de cometer um erro igual e oposto. A resposta é tanto clara quanto arriscada: escolher um forte endurecimento, mas não ainda.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O ano passado em Marienbad
... E o esperado aconteceu, a GM foi estatizada. Os problemas dessa empresa eram bem conhecidos e a crise foi, simplesmente, o tiro de misericordia no grande simbolo do capitalismo americano. A nova empresa será menor e dificilmente conseguira, algum dia, ser tão importante quanto a velha GM. É o fim de uma era, mas seguramente não é o fim do capitalismo americano. É, contudo, mais uma fase no longo processo de decadência do Imperio. Afinal, nenhum Imperio é eterno. Resta saber o papel de Pepino, o breve,vulgo Obama, nesse processo. Reversão do processo é dificil, mas não impossível. Eu, contudo, não apostaria nessa possibilidade.
Equanto isto, no grande bananão, apesar dos desejos contrários da direita civilizada e da extrema esquerda deslumbrada, a economia, aos poucos, vai se recuperando do panico do final do ano passado. Ate parece cena de filme, me vem a mente, pelo menos um nome: o ano passado em Marienbad.
Equanto isto, no grande bananão, apesar dos desejos contrários da direita civilizada e da extrema esquerda deslumbrada, a economia, aos poucos, vai se recuperando do panico do final do ano passado. Ate parece cena de filme, me vem a mente, pelo menos um nome: o ano passado em Marienbad.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Uivando para a Lua
Gostei muito desse artigo do Ponde. Ele explica com sua verve habitual a relação de um certo anti-clericalismo tolo e outros neobobos com a religião.
Não sou contra a religião. Ser religioso não implica ser menos inteligente, informado ou ético. Tem muita gente "inteligente" que comete erros ridículos como esse. Nem todo religioso uiva para a Lua. Tampouco os religiosos detêm o monopólio do apetite por matar seus semelhantes. Religiosos ou não, gostamos de matar e odiar. O século 20 destruiu qualquer ilusão quanto à doçura ou autocrítica dos ateus ou dos que creem na "história" ou na ciência.
Mas de fato há riscos específicos na crença religiosa, ainda mais em tempos de indústria cultural. Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos. Em matéria de religião, quanto mais velha, melhor. Outra coisa: se passou pela Califórnia, a chance de a religião ficar boba aumenta muito.
Mas existem umas "novas" religiões por aí, que Deus me perdoe. Pegue o exemplo do tal neopaganismo da deusa-mãe. Pessoas de boa-fé simpáticas aos paganismos antigos devem tomar cuidado com a literatura barata que é comum nessa área. Procurem trabalhos de historiadores da Antiguidade e da Idade Média reconhecidos, e não livros de auto-ajuda espiritual escritos por picaretas quânticos. Infelizmente, muitos dos neopagãos soam como adolescentes mal-informados e de idade um pouco passadinha.
O termo "paganismo" aqui normalmente quer dizer religião celta, mas às vezes pode ser uma salada mista com a Isis egípcia e o Odin escandinavo. Percebe-se que a atitude é basicamente a mesma de quem escolhe uma calça jeans, um CD ou uma praia "cabeça". Na falta de informação arqueológica significativa sobre essas religiões "celtas" (fato que os neopagãos desconhecem), filmes ruins e literatura barata entram no lugar, compondo o imaginário "histórico" acerca do passado celta, que é sempre visto como harmonioso e sábio como se houvesse algum passado harmonioso e sábio em nossa história.
Um dos exemplos da visão adolescente nesse caso é achar que o cristianismo destruiu uma religião (das bruxas celtas) que vivia em paz com o mundo. Não existe religião na história que não tenha tido seu quinhão de sordidez, mas "crianças" não entendem isso. Segundo algumas fontes romanas (não cristãs), há suspeita de que alguns dos cultos "celtas" praticavam sacrifícios humanos, o que para os romanos era um pouco fora dos limites. Os romanos eram conhecidos por sua tolerância religiosa (Roma não foi um desfile de Neros), se eles destruíram alguns desses cultos, é porque coisa boa não era.
O imaginário adolescente é claro: o cristianismo, este perverso, patriarcal, destruiu uma sociedade onde homens e mulheres viviam em comunhão sem opressão. Para eles, queimaram-se milhares de mulheres e homens inteligentíssimos na Idade Média. A verdade é que provavelmente a maior parte dessas infelizes vítimas era gente boba mesmo. Pergunta: como seria o mundo se o paganismo tivesse vencido?
Responderiam os "adoradores da deusa": viveríamos num mundo sem classes, sem machismo, sem ódio, sem guerras, mas, ainda assim, rico, com antibióticos, internet, sexo aos montes, aviões e baladas.
As bobagens também aparecem no uso absurdo de referências advindas de sistemas religiosos que ainda existem. Por exemplo, alguns neopagãos afirmam que a cabala (mística judaica medieval) foi uma criação egípcia pré-era cristã! A tal "árvore da cabala", onde aparecem os atributos de Deus, é uma das coisas que mais sofrem com o besteirol neopagão. A culpa do mau uso da cabala é, em parte, infelizmente, de alguns "cabalistas" judeus atuais que a vendem como receita barata de conseguir dinheiro, amor e sexo. Jung também vira bobagem nas mãos dos neopagãos: tudo é "arquétipo" a serviço de qualquer ideia besta que você tenha.
O neopaganismo é em grande parte invenção de caras ingleses esquisitos e suas namoradas mal-amadas do século 20 mesmo. Junte-se a isso um pouco de física quântica (aquela que, segundo alguns "entendidos", faz acontecer tudo o que você quiser contanto que se diga a palavra mágica "energia!"), a mania incontrolável de falar sobre si mesma, uma pitada de feminismo místico, e você será uma neobruxa.
Tenho um critério para levar religiosos a sério: se usar a palavra "energia" e disser que posso fazer tudo o que eu quiser porque tudo o que preciso saber está em meu inconsciente, pulo fora. O próximo passo dele será uivar para a Lua.
Fonte: FSP
Não sou contra a religião. Ser religioso não implica ser menos inteligente, informado ou ético. Tem muita gente "inteligente" que comete erros ridículos como esse. Nem todo religioso uiva para a Lua. Tampouco os religiosos detêm o monopólio do apetite por matar seus semelhantes. Religiosos ou não, gostamos de matar e odiar. O século 20 destruiu qualquer ilusão quanto à doçura ou autocrítica dos ateus ou dos que creem na "história" ou na ciência.
Mas de fato há riscos específicos na crença religiosa, ainda mais em tempos de indústria cultural. Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos. Em matéria de religião, quanto mais velha, melhor. Outra coisa: se passou pela Califórnia, a chance de a religião ficar boba aumenta muito.
Mas existem umas "novas" religiões por aí, que Deus me perdoe. Pegue o exemplo do tal neopaganismo da deusa-mãe. Pessoas de boa-fé simpáticas aos paganismos antigos devem tomar cuidado com a literatura barata que é comum nessa área. Procurem trabalhos de historiadores da Antiguidade e da Idade Média reconhecidos, e não livros de auto-ajuda espiritual escritos por picaretas quânticos. Infelizmente, muitos dos neopagãos soam como adolescentes mal-informados e de idade um pouco passadinha.
O termo "paganismo" aqui normalmente quer dizer religião celta, mas às vezes pode ser uma salada mista com a Isis egípcia e o Odin escandinavo. Percebe-se que a atitude é basicamente a mesma de quem escolhe uma calça jeans, um CD ou uma praia "cabeça". Na falta de informação arqueológica significativa sobre essas religiões "celtas" (fato que os neopagãos desconhecem), filmes ruins e literatura barata entram no lugar, compondo o imaginário "histórico" acerca do passado celta, que é sempre visto como harmonioso e sábio como se houvesse algum passado harmonioso e sábio em nossa história.
Um dos exemplos da visão adolescente nesse caso é achar que o cristianismo destruiu uma religião (das bruxas celtas) que vivia em paz com o mundo. Não existe religião na história que não tenha tido seu quinhão de sordidez, mas "crianças" não entendem isso. Segundo algumas fontes romanas (não cristãs), há suspeita de que alguns dos cultos "celtas" praticavam sacrifícios humanos, o que para os romanos era um pouco fora dos limites. Os romanos eram conhecidos por sua tolerância religiosa (Roma não foi um desfile de Neros), se eles destruíram alguns desses cultos, é porque coisa boa não era.
O imaginário adolescente é claro: o cristianismo, este perverso, patriarcal, destruiu uma sociedade onde homens e mulheres viviam em comunhão sem opressão. Para eles, queimaram-se milhares de mulheres e homens inteligentíssimos na Idade Média. A verdade é que provavelmente a maior parte dessas infelizes vítimas era gente boba mesmo. Pergunta: como seria o mundo se o paganismo tivesse vencido?
Responderiam os "adoradores da deusa": viveríamos num mundo sem classes, sem machismo, sem ódio, sem guerras, mas, ainda assim, rico, com antibióticos, internet, sexo aos montes, aviões e baladas.
As bobagens também aparecem no uso absurdo de referências advindas de sistemas religiosos que ainda existem. Por exemplo, alguns neopagãos afirmam que a cabala (mística judaica medieval) foi uma criação egípcia pré-era cristã! A tal "árvore da cabala", onde aparecem os atributos de Deus, é uma das coisas que mais sofrem com o besteirol neopagão. A culpa do mau uso da cabala é, em parte, infelizmente, de alguns "cabalistas" judeus atuais que a vendem como receita barata de conseguir dinheiro, amor e sexo. Jung também vira bobagem nas mãos dos neopagãos: tudo é "arquétipo" a serviço de qualquer ideia besta que você tenha.
O neopaganismo é em grande parte invenção de caras ingleses esquisitos e suas namoradas mal-amadas do século 20 mesmo. Junte-se a isso um pouco de física quântica (aquela que, segundo alguns "entendidos", faz acontecer tudo o que você quiser contanto que se diga a palavra mágica "energia!"), a mania incontrolável de falar sobre si mesma, uma pitada de feminismo místico, e você será uma neobruxa.
Tenho um critério para levar religiosos a sério: se usar a palavra "energia" e disser que posso fazer tudo o que eu quiser porque tudo o que preciso saber está em meu inconsciente, pulo fora. O próximo passo dele será uivar para a Lua.
Fonte: FSP
domingo, 31 de maio de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
Not Ideas About the Thing But the Thing Itself, Wallace Stevens
At the earliest ending of winter,
In March, a scrawny cry from outside
Seemed like a sound in his mind.
He knew that he heard it,
A bird's cry at daylight or before,
In the early March wind.
The sun was rising at six,
No longer a battered panache above snow . . .
It would have been outside.
It was not from the vast ventriloquism
Of sleep's faded papier mâché . . .
The sun was coming from outside.
That scrawny cry—it was
A chorister whose c preceded the choir.
It was part of the colossal sun,
Surrounded by its choral rings,
Still far away. It was like
A new knowledge of reality.
In March, a scrawny cry from outside
Seemed like a sound in his mind.
He knew that he heard it,
A bird's cry at daylight or before,
In the early March wind.
The sun was rising at six,
No longer a battered panache above snow . . .
It would have been outside.
It was not from the vast ventriloquism
Of sleep's faded papier mâché . . .
The sun was coming from outside.
That scrawny cry—it was
A chorister whose c preceded the choir.
It was part of the colossal sun,
Surrounded by its choral rings,
Still far away. It was like
A new knowledge of reality.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Fraca demanda doméstica é um problema crônico na Europa
Mais um artigo de leitura obrigatória do Martin Wolf. Enquanto isso, no grande bananão temos que conviver com jornalistas econômicos mediocres e a turma de sempre.
Por que a União Europeia está sofrendo tanto em uma crise que teve início nos Estados Unidos? A resposta é encontrada em quatro fraquezas: primeiro, a Alemanha, a maior economia da UE, é altamente dependente dos gastos nos países estrangeiros; segundo, várias economias da Europa Ocidental estão sofrendo de colapsos na demanda pós-bolha; terceiro, partes da Europa Central e Oriental também estão sendo forçadas a cortar gastos; e, quarto, os bancos europeus provaram ser vulneráveis tanto à crise americana quanto às dificuldades mais próximas de casa. Dadas estas realidades, a recuperação provavelmente será lenta e dolorosa.
Segundo as mais recentes previsões de consenso, a economia da UE deverá sofrer uma retração de 3,6% neste ano e de 3,7% na zona do euro, enquanto a previsão de retração nos Estados Unidos é de apenas 2,9%. Logo, a crise pune os frugais mais do que os perdulários. Parece tão injusto. Mas não é: os frugais dependem dos perdulários.
Um comentário na previsão de primavera da Comissão Europeia chega ao âmago do problema: "Como as exportações geralmente são o primeiro componente para recuperação do ciclo de negócios na zona do euro", ela argumenta, "o panorama das exportações é a chave". A zona do euro é a segunda maior economia do mundo. Por que deveria depender da recuperação da demanda externa? A resposta está na Alemanha. A Comissão prevê que a queda líquida das exportações será responsável por 3/5 da retração econômica de 5,4% neste ano.
Uma forma de ilustrar o que está acontecendo é em termos de balanços setoriais -a diferença entre renda e gastos (ou poupança e investimento) nos três principais setores: governo, privado e exterior. Por definição, a soma deles é zero. Normalmente, as mudanças no balanço do setor privado movem a economia. Quando o setor privado reduz seus gastos, o déficit em conta corrente encolhe e o balanço fiscal deteriora. Qual dos dois predomina depende de como uma economia em particular funciona.
Nós podemos determinar balanços implícitos do setor privado a partir das previsões da Comissão. Dentro da zona do euro, a Holanda e a Alemanha tiveram enormes superávits privados em 2007, de 9,5% e 7,8% do produto interno bruto, respectivamente. Seus superávits em conta corrente foram de 9,8% e 7,6%% do PIB, respectivamente. No geral, entretanto, a zona do euro não teve quase nenhum superávit no setor privado e em conta corrente. Logo, os superávits da Alemanha e Holanda foram compensados por déficits em outros lugares. Os da Espanha foram os mais importantes: o déficit do setor privado alimentado pela bolha foi de 12,3% do PIB em 2007 e seu déficit em conta corrente de 10,1%. Mas Grécia, Irlanda e Portugal também tiveram grandes déficits no setor privado e em conta corrente.
Entre 2007 e 2009, os balanços dos setor privado dos países com bolha estão previstos para oscilar dramaticamente para o superávit, de 15,8% do PIB na Irlanda e 14% na Espanha. Em ambos os países, a principal compensação será uma enorme deterioração nas posições fiscais, mas os balanços exteriores também deverão melhorar, em 3,6% e 3,2% do PIB, respectivamente. A previsão para o balanço privado do Reino Unido é de que melhore em 8,9% do PIB, compensado pela enorme deterioração da posição fiscal. Nos Estados Unidos, a previsão é de que o balanço privado passe de um déficit de 2,4% do PIB para um superávit de 8,6% ao longo de dois anos, uma alteração de 11% do PIB.
Resumindo, nas economias pós-bolha o setor privado deverá gastar muito menos, em relação à renda, neste ano do que há dois anos. O impacto sobre os países com superávit, dependentes das exportações do setor manufatureiro, tem sido devastador. Na Alemanha, o balanço do setor privado pouco deverá mudar mas, sendo uma economia dependente das exportações, será terrivelmente afetado pelos declínios nos gastos em outros lugares.
O impacto da crise na Europa Central e Oriental também é notável. Segundo o mais recente Panorama Econômico Mundial, os fluxos de capital para a Europa emergente cairão de 9,5% do PIB em 2007 para -0,7% neste ano. A mudança forçará declínios imensos nos déficits externos e grandes recessões. Os números para os minúsculos países bálticos são extraordinários: as reduções nos déficits em conta corrente previstas pela Comissão são de 21% do PIB para Letônia, 17% para a Estônia e 13% para a Lituânia entre 2007 e 2009. Na Letônia, o balanço do setor privado deverá sofrer uma alteração de 32% do PIB em dois anos. Não é de se estranhar que a Comissão preveja que o PIB poderá encolher em 13% na Letônia, 11% na Lituânia e 10% na Estônia em 2009.
O setor bancário da Europa também foi terrivelmente danificado. Segundo o mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional, as baixas esperadas nos ativos dos bancos em 2009 e 2010 são de US$ 750 bilhões na zona do euro e US$ 200 bilhões no Reino Unido, contra apenas US$ 550 bilhões nos Estados Unidos. Além disso, o capital necessário para reduzir a alavancagem dos bancos da zona do euro para 25 para 1 seria de US$ 375 bilhões e o dos bancos do Reino Unido de US$ 125 bilhões, contra US$ 275 bilhões para os bancos americanos. Os bancos ocidentais também estão altamente expostos na Europa Central e Oriental: como comentou a Comissão, "os bancos dos 'velhos' países membros representam cerca 950 bilhões de participação estrangeira nos 'novos' países membros e outros mercados emergentes europeus, em um total de cerca de 82% da participação estrangeira total. Em termos absolutos, as maiores exposições são dos bancos da Áustria, Alemanha, Itália e França".
Os detalhes podem parecer complexos. Mas o ponto fundamental não é: a economia europeia ganhou uma ilusão de saúde com gastos insustentáveis em países periféricos em seu oeste, sul e leste. As bolhas de preços dos ativos, o crescimento do crédito e booms de investimento que caracterizaram estes gastos todos sofreram colapso, ao mesmo tempo em que uma bolha ainda mais significativa estourou nos Estados Unidos. O timing não é, é claro, coincidência. O colapso devastou a atividade nos países dependentes de exportação, dentre os quais a Alemanha é o mais importante. Além disso, como resultado da má gestão de risco, muitos bancos europeus também foram seriamente atingidos.
A questão é se a economia europeia pode esperar retornar à saúde via uma recuperação normal liderada pelo setor privado. Infelizmente, nas economias pós-bolha uma recuperação dessas é improvável: seria preciso esperar pelo acúmulo de ainda mais dívida por parte dos já altamente endividados.
Isto deixa duas respostas europeias, uma provável mas indesejável, a segunda improvável mas desejável. A resposta provável é que a demanda será estimulada por expansões fiscais insustentáveis nas economias pós-bolha. A resposta improvável é que a demanda privada aumentará nas economias com crédito, particularmente na Alemanha. Na ausência de ambas, a Europa esperará pelos Estados Unidos gastarem até retornarem ao vigor (temporário). É um quadro triste, independente do que "os brotos verdes" possam parecer mostrar.
Por que a União Europeia está sofrendo tanto em uma crise que teve início nos Estados Unidos? A resposta é encontrada em quatro fraquezas: primeiro, a Alemanha, a maior economia da UE, é altamente dependente dos gastos nos países estrangeiros; segundo, várias economias da Europa Ocidental estão sofrendo de colapsos na demanda pós-bolha; terceiro, partes da Europa Central e Oriental também estão sendo forçadas a cortar gastos; e, quarto, os bancos europeus provaram ser vulneráveis tanto à crise americana quanto às dificuldades mais próximas de casa. Dadas estas realidades, a recuperação provavelmente será lenta e dolorosa.
Segundo as mais recentes previsões de consenso, a economia da UE deverá sofrer uma retração de 3,6% neste ano e de 3,7% na zona do euro, enquanto a previsão de retração nos Estados Unidos é de apenas 2,9%. Logo, a crise pune os frugais mais do que os perdulários. Parece tão injusto. Mas não é: os frugais dependem dos perdulários.
Um comentário na previsão de primavera da Comissão Europeia chega ao âmago do problema: "Como as exportações geralmente são o primeiro componente para recuperação do ciclo de negócios na zona do euro", ela argumenta, "o panorama das exportações é a chave". A zona do euro é a segunda maior economia do mundo. Por que deveria depender da recuperação da demanda externa? A resposta está na Alemanha. A Comissão prevê que a queda líquida das exportações será responsável por 3/5 da retração econômica de 5,4% neste ano.
Uma forma de ilustrar o que está acontecendo é em termos de balanços setoriais -a diferença entre renda e gastos (ou poupança e investimento) nos três principais setores: governo, privado e exterior. Por definição, a soma deles é zero. Normalmente, as mudanças no balanço do setor privado movem a economia. Quando o setor privado reduz seus gastos, o déficit em conta corrente encolhe e o balanço fiscal deteriora. Qual dos dois predomina depende de como uma economia em particular funciona.
Nós podemos determinar balanços implícitos do setor privado a partir das previsões da Comissão. Dentro da zona do euro, a Holanda e a Alemanha tiveram enormes superávits privados em 2007, de 9,5% e 7,8% do produto interno bruto, respectivamente. Seus superávits em conta corrente foram de 9,8% e 7,6%% do PIB, respectivamente. No geral, entretanto, a zona do euro não teve quase nenhum superávit no setor privado e em conta corrente. Logo, os superávits da Alemanha e Holanda foram compensados por déficits em outros lugares. Os da Espanha foram os mais importantes: o déficit do setor privado alimentado pela bolha foi de 12,3% do PIB em 2007 e seu déficit em conta corrente de 10,1%. Mas Grécia, Irlanda e Portugal também tiveram grandes déficits no setor privado e em conta corrente.
Entre 2007 e 2009, os balanços dos setor privado dos países com bolha estão previstos para oscilar dramaticamente para o superávit, de 15,8% do PIB na Irlanda e 14% na Espanha. Em ambos os países, a principal compensação será uma enorme deterioração nas posições fiscais, mas os balanços exteriores também deverão melhorar, em 3,6% e 3,2% do PIB, respectivamente. A previsão para o balanço privado do Reino Unido é de que melhore em 8,9% do PIB, compensado pela enorme deterioração da posição fiscal. Nos Estados Unidos, a previsão é de que o balanço privado passe de um déficit de 2,4% do PIB para um superávit de 8,6% ao longo de dois anos, uma alteração de 11% do PIB.
Resumindo, nas economias pós-bolha o setor privado deverá gastar muito menos, em relação à renda, neste ano do que há dois anos. O impacto sobre os países com superávit, dependentes das exportações do setor manufatureiro, tem sido devastador. Na Alemanha, o balanço do setor privado pouco deverá mudar mas, sendo uma economia dependente das exportações, será terrivelmente afetado pelos declínios nos gastos em outros lugares.
O impacto da crise na Europa Central e Oriental também é notável. Segundo o mais recente Panorama Econômico Mundial, os fluxos de capital para a Europa emergente cairão de 9,5% do PIB em 2007 para -0,7% neste ano. A mudança forçará declínios imensos nos déficits externos e grandes recessões. Os números para os minúsculos países bálticos são extraordinários: as reduções nos déficits em conta corrente previstas pela Comissão são de 21% do PIB para Letônia, 17% para a Estônia e 13% para a Lituânia entre 2007 e 2009. Na Letônia, o balanço do setor privado deverá sofrer uma alteração de 32% do PIB em dois anos. Não é de se estranhar que a Comissão preveja que o PIB poderá encolher em 13% na Letônia, 11% na Lituânia e 10% na Estônia em 2009.
O setor bancário da Europa também foi terrivelmente danificado. Segundo o mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional, as baixas esperadas nos ativos dos bancos em 2009 e 2010 são de US$ 750 bilhões na zona do euro e US$ 200 bilhões no Reino Unido, contra apenas US$ 550 bilhões nos Estados Unidos. Além disso, o capital necessário para reduzir a alavancagem dos bancos da zona do euro para 25 para 1 seria de US$ 375 bilhões e o dos bancos do Reino Unido de US$ 125 bilhões, contra US$ 275 bilhões para os bancos americanos. Os bancos ocidentais também estão altamente expostos na Europa Central e Oriental: como comentou a Comissão, "os bancos dos 'velhos' países membros representam cerca 950 bilhões de participação estrangeira nos 'novos' países membros e outros mercados emergentes europeus, em um total de cerca de 82% da participação estrangeira total. Em termos absolutos, as maiores exposições são dos bancos da Áustria, Alemanha, Itália e França".
Os detalhes podem parecer complexos. Mas o ponto fundamental não é: a economia europeia ganhou uma ilusão de saúde com gastos insustentáveis em países periféricos em seu oeste, sul e leste. As bolhas de preços dos ativos, o crescimento do crédito e booms de investimento que caracterizaram estes gastos todos sofreram colapso, ao mesmo tempo em que uma bolha ainda mais significativa estourou nos Estados Unidos. O timing não é, é claro, coincidência. O colapso devastou a atividade nos países dependentes de exportação, dentre os quais a Alemanha é o mais importante. Além disso, como resultado da má gestão de risco, muitos bancos europeus também foram seriamente atingidos.
A questão é se a economia europeia pode esperar retornar à saúde via uma recuperação normal liderada pelo setor privado. Infelizmente, nas economias pós-bolha uma recuperação dessas é improvável: seria preciso esperar pelo acúmulo de ainda mais dívida por parte dos já altamente endividados.
Isto deixa duas respostas europeias, uma provável mas indesejável, a segunda improvável mas desejável. A resposta provável é que a demanda será estimulada por expansões fiscais insustentáveis nas economias pós-bolha. A resposta improvável é que a demanda privada aumentará nas economias com crédito, particularmente na Alemanha. Na ausência de ambas, a Europa esperará pelos Estados Unidos gastarem até retornarem ao vigor (temporário). É um quadro triste, independente do que "os brotos verdes" possam parecer mostrar.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Plural
Sempre que ouço a palavra plural, lembro de duas outras palavras usadas no passado, na epoca da guerra fria: democracia popular. Era assim que os regimes anti-capitalistas se autodenominavam, naturamente, não eram democráticos, e tão pouco populares. Quando alguem usa a expressão visão plural, ambiente plural, o significado parece ser o mesmo: justificar o injustificavel. Não por acaso o mesmo argumento é usado pela direita nos campi americano. Aqui, como lá, é a estratégia da minoria, interessada em incluir autores e ou visões, que por critérios acadêmicos, estariam ausentes do curriculum. Está é uma pratica que nega o principio básico da vida acadêmica, que deve ser meritocrático e livre de qualquer forma de patrulhamento ideológico. A única regra para inclusão de um autor ou pensamento deve ser sua relevância acadêmica e não sua visão política. Se usarmos o critério de afinidade ideológica, excluiriamos reacionários do quilate de T.S.Eliot, Pound e Celine, para ficar em uma lista de escritores bem conhecidos pelo talento e visão política no campo da direita pouco civilizada.
É um equivoco, me parece, incorporar à vida acadêmica, clivagens do mundo político, e transformar a vida acadêmica em uma reprodução em escala menor do que há de pior no mundo político. O mesmo argumento é valido para as disputas internas à comunidade dos economistas. Um minímo de civilidade e de linguagem comum são fundamentais, mas raras neste ambiente.
É um equivoco, me parece, incorporar à vida acadêmica, clivagens do mundo político, e transformar a vida acadêmica em uma reprodução em escala menor do que há de pior no mundo político. O mesmo argumento é valido para as disputas internas à comunidade dos economistas. Um minímo de civilidade e de linguagem comum são fundamentais, mas raras neste ambiente.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
The crisis of 2008: structural lessons
Interessante artigo do Acemoglu sobre a crise econômica. Concordo com a auto-critica e com os temores em relação a turma de sempre.
We do not yet know whether the global financial
and economic crisis of 2008 will go down in
history as a momentous or even uniquely catastrophic
event. Unwritten history is full of events that
contemporaries thought were epochal and are today
long forgotten. And on the other side of the scale, there
were many in the early stages of the Great Depression
that belittled its import. Though it is too soon to tell
how the second half of 2008 will feature in history
books, there should be no doubt that it signifies a critical
opportunity for the discipline of economics. It is an
opportunity for us - and here I mean the majority of the
economics profession, unfortunately myself included -
to be disabused of certain notions that we should not
have so accepted in the first place. It is also an opportunity
for us to step back and consider what the most
important lessons we have learned from our theoretical
and empirical investigations - that remain untarnished
by recent events - are and ask whether they can provide
us with guidance in current policy debates.
This Policy Insight first provides my views on what
intellectual errors we have made and what lessons these
errors offer us moving forward. My main objective,
however, is not to dwell on the intellectual currents of
the past, but to stress that economic theory still has a
lot to teach us and policy makers as we make our way
through the crisis. I would like to argue that several economic
principles related to the most important aspect
of economic performance, the long-run growth potential
of nations, are still valid and hold important lessons
in our intellectual and practical deliberations on policy.
But, curiously, these principles have played little role in
recent academic debates and have been entirely absent
in policy debates. As academic economists, it is these
principles and the implications of current policies for
the growth potential of the global economy that we
should be reminding policymakers of.
Para ler o resto do "paper" clique aqui
We do not yet know whether the global financial
and economic crisis of 2008 will go down in
history as a momentous or even uniquely catastrophic
event. Unwritten history is full of events that
contemporaries thought were epochal and are today
long forgotten. And on the other side of the scale, there
were many in the early stages of the Great Depression
that belittled its import. Though it is too soon to tell
how the second half of 2008 will feature in history
books, there should be no doubt that it signifies a critical
opportunity for the discipline of economics. It is an
opportunity for us - and here I mean the majority of the
economics profession, unfortunately myself included -
to be disabused of certain notions that we should not
have so accepted in the first place. It is also an opportunity
for us to step back and consider what the most
important lessons we have learned from our theoretical
and empirical investigations - that remain untarnished
by recent events - are and ask whether they can provide
us with guidance in current policy debates.
This Policy Insight first provides my views on what
intellectual errors we have made and what lessons these
errors offer us moving forward. My main objective,
however, is not to dwell on the intellectual currents of
the past, but to stress that economic theory still has a
lot to teach us and policy makers as we make our way
through the crisis. I would like to argue that several economic
principles related to the most important aspect
of economic performance, the long-run growth potential
of nations, are still valid and hold important lessons
in our intellectual and practical deliberations on policy.
But, curiously, these principles have played little role in
recent academic debates and have been entirely absent
in policy debates. As academic economists, it is these
principles and the implications of current policies for
the growth potential of the global economy that we
should be reminding policymakers of.
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terça-feira, 26 de maio de 2009
Mais uma idéia fora de lugar
Bresser Pereira retoma um ponto que já foi muito controverso: controle de capitais na entrada. Depois da experiencia de alguns países ele deixou de ser tabu e passou a ser uma medida aceitável em situações em que ela é o opção menos ruim. Não me parece ser o caso atual do Brasil. Por enquanto é mais uma ídéia fora de lugar.
" Na semana passada, minha mulher, que não é economista, mas psicanalista, vendo o real voltar a se valorizar, disse-me que esse vaivém era muito ruim e, usando seu bom senso, perguntou por que não se limitavam a entrada e a saída de capitais. Não se limita a entrada de capitais, respondi-lhe, porque essa política vai contra os princípios fundamentalistas neoliberais aprendidos pelos economistas nas suas escolas e porque não interessa aos países ricos que os países em desenvolvimento tenham taxas de câmbio competitivas.
Já quanto à saída de capitais, a história é outra: não se deve limitá-las porque isso é sinal de fragilidade financeira do país, sinal de que ele não controlou seu déficit público e aceitou o "bom" conselho de "crescer com poupança externa", deixando, assim, que o país fosse inundado de dólares, euros e ienes.
A taxa de câmbio é o preço que, se os mercados funcionassem como seus fundamentalistas supõem, flutuaria mantendo-se razoavelmente estável e garantindo o equilíbrio da conta corrente do país. Entretanto, como esse excelente coordenador da economia que é o mercado não é capaz de realizar essa tarefa específica, a flutuação da taxa de câmbio nos países em desenvolvimento tem um viés para o lado da apreciação que, não sendo corrigido pelo governo, termina em crise de balanço de pagamentos. As causas dessa tendência são estruturais, associadas à doença holandesa e à maior rentabilidade dos investimentos, às quais se somam as políticas da ortodoxia convencional de crescimento com poupança externa, âncora cambial e taxas de juros elevadas.
Dada a existência dessa volatilidade e, principalmente, dessa tendência à sobreapreciação, os países em desenvolvimento bem-sucedidos administram sua taxa de câmbio evitando que a sobreapreciação ocorra. No passado, faziam isso com o regime de câmbio fixo, mas aos poucos ficou claro que era melhor deixar a moeda nacional flutuar no mercado e, ao mesmo tempo, administrá-la.
Essa era a prática recomendada por Keynes; é o que o bom senso determina. A ortodoxia neoliberal, porém, chama essa prática de "flutuação suja", insiste em que o mercado é bom coordenador do câmbio, apesar de todas as evidências em contrário, e, novamente contra toda evidência, afirma que é impossível administrar o câmbio e, finalmente, condena às chamas do inferno quem defender o controle de entradas quando os influxos de capital forem muito grandes; só economistas "populistas" poderiam fazer isso.
O problema não é apenas ideológico. Interessa aos operadores financeiros que haja flutuações no câmbio dos países em desenvolvimento porque essa é uma origem de seus ganhos. E principalmente interessa aos países ricos de onde nos vem a "verdade econômica" que a taxa de câmbio nos países em desenvolvimento tenda a ser alta. Dessa forma, sua desvantagem nos mercados internacionais causada por seus salários mais altos é compensada pelo câmbio sobreapreciado nos países em desenvolvimento, principalmente nos países de renda média que são seus grandes concorrentes.
O mal maior que os países em desenvolvimento enfrentam é a fragilidade financeira internacional. Se o país adotar uma política macroeconômica correta, baseada em Orçamento público equilibrado, juros moderados e câmbio competitivo, o país não precisará controlar a entrada de capitais, a não ser em momentos especiais. Se ouvir o fundamentalismo, estará sempre à beira da crise e pedindo ajuda a seus concorrentes mais ricos"
Fonte: FSP
" Na semana passada, minha mulher, que não é economista, mas psicanalista, vendo o real voltar a se valorizar, disse-me que esse vaivém era muito ruim e, usando seu bom senso, perguntou por que não se limitavam a entrada e a saída de capitais. Não se limita a entrada de capitais, respondi-lhe, porque essa política vai contra os princípios fundamentalistas neoliberais aprendidos pelos economistas nas suas escolas e porque não interessa aos países ricos que os países em desenvolvimento tenham taxas de câmbio competitivas.
Já quanto à saída de capitais, a história é outra: não se deve limitá-las porque isso é sinal de fragilidade financeira do país, sinal de que ele não controlou seu déficit público e aceitou o "bom" conselho de "crescer com poupança externa", deixando, assim, que o país fosse inundado de dólares, euros e ienes.
A taxa de câmbio é o preço que, se os mercados funcionassem como seus fundamentalistas supõem, flutuaria mantendo-se razoavelmente estável e garantindo o equilíbrio da conta corrente do país. Entretanto, como esse excelente coordenador da economia que é o mercado não é capaz de realizar essa tarefa específica, a flutuação da taxa de câmbio nos países em desenvolvimento tem um viés para o lado da apreciação que, não sendo corrigido pelo governo, termina em crise de balanço de pagamentos. As causas dessa tendência são estruturais, associadas à doença holandesa e à maior rentabilidade dos investimentos, às quais se somam as políticas da ortodoxia convencional de crescimento com poupança externa, âncora cambial e taxas de juros elevadas.
Dada a existência dessa volatilidade e, principalmente, dessa tendência à sobreapreciação, os países em desenvolvimento bem-sucedidos administram sua taxa de câmbio evitando que a sobreapreciação ocorra. No passado, faziam isso com o regime de câmbio fixo, mas aos poucos ficou claro que era melhor deixar a moeda nacional flutuar no mercado e, ao mesmo tempo, administrá-la.
Essa era a prática recomendada por Keynes; é o que o bom senso determina. A ortodoxia neoliberal, porém, chama essa prática de "flutuação suja", insiste em que o mercado é bom coordenador do câmbio, apesar de todas as evidências em contrário, e, novamente contra toda evidência, afirma que é impossível administrar o câmbio e, finalmente, condena às chamas do inferno quem defender o controle de entradas quando os influxos de capital forem muito grandes; só economistas "populistas" poderiam fazer isso.
O problema não é apenas ideológico. Interessa aos operadores financeiros que haja flutuações no câmbio dos países em desenvolvimento porque essa é uma origem de seus ganhos. E principalmente interessa aos países ricos de onde nos vem a "verdade econômica" que a taxa de câmbio nos países em desenvolvimento tenda a ser alta. Dessa forma, sua desvantagem nos mercados internacionais causada por seus salários mais altos é compensada pelo câmbio sobreapreciado nos países em desenvolvimento, principalmente nos países de renda média que são seus grandes concorrentes.
O mal maior que os países em desenvolvimento enfrentam é a fragilidade financeira internacional. Se o país adotar uma política macroeconômica correta, baseada em Orçamento público equilibrado, juros moderados e câmbio competitivo, o país não precisará controlar a entrada de capitais, a não ser em momentos especiais. Se ouvir o fundamentalismo, estará sempre à beira da crise e pedindo ajuda a seus concorrentes mais ricos"
Fonte: FSP
segunda-feira, 25 de maio de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
The Cat And The Moon, William Butler Yeats
The cat went here and there
And the moon spun round like a top,
And the nearest kin of the moon,
The creeping cat, looked up.
Black Minnaloushe stared at the moon,
For, wander and wail as he would,
The pure cold light in the sky
Troubled his animal blood.
Minnaloushe runs in the grass
Lifting his delicate feet.
Do you dance, Minnaloushe, do you dance?
When two close kindred meet.
What better than call a dance?
Maybe the moon may learn,
Tired of that courtly fashion,
A new dance turn.
Minnaloushe creeps through the grass
From moonlit place to place,
The sacred moon overhead
Has taken a new phase.
Does Minnaloushe know that his pupils
Will pass from change to change,
And that from round to crescent,
From crescent to round they range?
Minnaloushe creeps through the grass
Alone, important and wise,
And lifts to the changing moon
His changing eyes.
And the moon spun round like a top,
And the nearest kin of the moon,
The creeping cat, looked up.
Black Minnaloushe stared at the moon,
For, wander and wail as he would,
The pure cold light in the sky
Troubled his animal blood.
Minnaloushe runs in the grass
Lifting his delicate feet.
Do you dance, Minnaloushe, do you dance?
When two close kindred meet.
What better than call a dance?
Maybe the moon may learn,
Tired of that courtly fashion,
A new dance turn.
Minnaloushe creeps through the grass
From moonlit place to place,
The sacred moon overhead
Has taken a new phase.
Does Minnaloushe know that his pupils
Will pass from change to change,
And that from round to crescent,
From crescent to round they range?
Minnaloushe creeps through the grass
Alone, important and wise,
And lifts to the changing moon
His changing eyes.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Entendendo a dinâmica do real
Havia planejado comentar hoje o comportamento recente do real, mas depois de ler o excelente artigo do Mendonça de Barros, achei melhor simplesmente republica-lo no blog. Ele explica com elegância e maestria - que eu dificilmente conseguiria chegar próximo - o velho/novo problema da taxa de cambio. Apenas exclareço que estou entre aqueles que acreditam que em um sistema de metas de inflação a taxa de cambio deve variar livremente, não por omissão do Bacen - que deve sim fazer intervenções pontuais e usar a oportunidade para aumentar o volume de reservas -, mas por decorrência desse modelo de política monetária. Sobre inflation targeting e cambio recomendo a leitura do paper The Relationship Between Exchange Rates and Inflation Targeting Revisited, Sebastian Edwards, NBER, wp 12163
"Na última quarta, o Banco Central comprou mais de US$ 1 bilhão para evitar uma valorização significativa do real. No momento seguinte à realização do leilão, nossa moeda retomou o caminho de alta, flertando com a cotação de R$ 2,00. Apenas uma piora nos mercados internacionais na parte final do dia -e que continuou ontem- evitou que essa fronteira simbólica fosse cruzada. Mas, se o otimismo permanecer, será uma questão de tempo para que o mercado teste novamente o Banco Central.
Com o expressivo fortalecimento do real -quase 10% neste mês-, volta ao debate a questão da taxa de câmbio no Brasil. Como sempre, as questões econômicas acabam por radicalizar as posições dos analistas.
De um lado, estão os que defendem uma intervenção agressiva do BC para anular esse movimento e culpam os juros elevados por tudo o que está acontecendo. De outro, estão os que dizem que em um regime de metas de inflação a taxa de câmbio deve variar livremente seguindo as forças de mercado.
Não vou entrar no mérito dessas duas posições. Quero apenas dividir com o leitor da Folha meu entendimento sobre as forças que estão atuando no câmbio neste momento. Acredito que vivemos uma dinâmica nova, criada principalmente pelo otimismo com que os mercados internacionais veem hoje a economia brasileira. Passar pela crise em condições satisfatórias foi fundamental para consolidar essa avaliação.
Credenciado por isso, o real mudou de qualidade e passou a fazer parte de um seleto grupo de moedas emergentes.
Essa cesta flutua em função da força ou da fraqueza da moeda americana nos mercados, medida principalmente em relação ao euro e ao iene japonês. Em setembro, quando a falência do Lehman Brothers colocou o sistema financeiro mundial à beira do precipício, houve corrida ao dólar. Naquele momento de pânico, ele foi visto como moeda refúgio dos capitais financeiros e como proteção de patrimônio em geral. O resultado foi uma desvalorização generalizada da maioria das moedas, principalmente as dos emergentes. O real foi apanhado por essa tormenta e perdeu quase 40% de seu valor. O mesmo ocorreu com o won coreano, o peso mexicano, a lira turca e outras moedas emergentes. Mesmo o euro e a libra inglesa perderam valor.
Em meados de março, com a volta de certa dose de confiança em relação à recuperação da economia mundial, esse movimento começou a ser revertido. Os dólares acumulados nos dias de pânico estão sendo reciclados, provocando uma mudança na sua valorização dos últimos meses. A contrapartida desse movimento é o fortalecimento das demais moedas, principalmente algumas ligadas às economias que se portaram bem na crise, como o real.
Nossa moeda está sendo procurada de maneira intensa por investidores ansiosos em diversificar seus investimentos. Uma nova onda de entrada de capitais está ocorrendo e, se não acontecer uma reversão das expectativas em relação à economia mundial, deve continuar. Esse movimento é difícil de ser controlado sem uma coordenação entre bancos centrais, pois não é localizado apenas no Brasil. O BC pode apenas modular a valorização via compras da moeda americana no mercado, pela colocação dos chamados "swaps" cambiais reversos e por uma redução mais agressiva da taxa de juros Selic. Tentar administrar o valor do real sem levar em consideração essa nova dinâmica pode custar muito caro."
ps: recomendo fortemente a leitura da entrevista do Nouriel Roubini na Folha de hoje. acho que ele tem razão em relação a crise bancária ou de crédito. nos, usa, realmente ela esta longe do fim...
Fonte: FSP
"Na última quarta, o Banco Central comprou mais de US$ 1 bilhão para evitar uma valorização significativa do real. No momento seguinte à realização do leilão, nossa moeda retomou o caminho de alta, flertando com a cotação de R$ 2,00. Apenas uma piora nos mercados internacionais na parte final do dia -e que continuou ontem- evitou que essa fronteira simbólica fosse cruzada. Mas, se o otimismo permanecer, será uma questão de tempo para que o mercado teste novamente o Banco Central.
Com o expressivo fortalecimento do real -quase 10% neste mês-, volta ao debate a questão da taxa de câmbio no Brasil. Como sempre, as questões econômicas acabam por radicalizar as posições dos analistas.
De um lado, estão os que defendem uma intervenção agressiva do BC para anular esse movimento e culpam os juros elevados por tudo o que está acontecendo. De outro, estão os que dizem que em um regime de metas de inflação a taxa de câmbio deve variar livremente seguindo as forças de mercado.
Não vou entrar no mérito dessas duas posições. Quero apenas dividir com o leitor da Folha meu entendimento sobre as forças que estão atuando no câmbio neste momento. Acredito que vivemos uma dinâmica nova, criada principalmente pelo otimismo com que os mercados internacionais veem hoje a economia brasileira. Passar pela crise em condições satisfatórias foi fundamental para consolidar essa avaliação.
Credenciado por isso, o real mudou de qualidade e passou a fazer parte de um seleto grupo de moedas emergentes.
Essa cesta flutua em função da força ou da fraqueza da moeda americana nos mercados, medida principalmente em relação ao euro e ao iene japonês. Em setembro, quando a falência do Lehman Brothers colocou o sistema financeiro mundial à beira do precipício, houve corrida ao dólar. Naquele momento de pânico, ele foi visto como moeda refúgio dos capitais financeiros e como proteção de patrimônio em geral. O resultado foi uma desvalorização generalizada da maioria das moedas, principalmente as dos emergentes. O real foi apanhado por essa tormenta e perdeu quase 40% de seu valor. O mesmo ocorreu com o won coreano, o peso mexicano, a lira turca e outras moedas emergentes. Mesmo o euro e a libra inglesa perderam valor.
Em meados de março, com a volta de certa dose de confiança em relação à recuperação da economia mundial, esse movimento começou a ser revertido. Os dólares acumulados nos dias de pânico estão sendo reciclados, provocando uma mudança na sua valorização dos últimos meses. A contrapartida desse movimento é o fortalecimento das demais moedas, principalmente algumas ligadas às economias que se portaram bem na crise, como o real.
Nossa moeda está sendo procurada de maneira intensa por investidores ansiosos em diversificar seus investimentos. Uma nova onda de entrada de capitais está ocorrendo e, se não acontecer uma reversão das expectativas em relação à economia mundial, deve continuar. Esse movimento é difícil de ser controlado sem uma coordenação entre bancos centrais, pois não é localizado apenas no Brasil. O BC pode apenas modular a valorização via compras da moeda americana no mercado, pela colocação dos chamados "swaps" cambiais reversos e por uma redução mais agressiva da taxa de juros Selic. Tentar administrar o valor do real sem levar em consideração essa nova dinâmica pode custar muito caro."
ps: recomendo fortemente a leitura da entrevista do Nouriel Roubini na Folha de hoje. acho que ele tem razão em relação a crise bancária ou de crédito. nos, usa, realmente ela esta longe do fim...
Fonte: FSP
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Boas noticias
"A taxa de desocupação ficou praticamente estável, pois suas variações em relação a março (9,0%) de 2009 e também a abril de 2008 (8,5%) não foram estatisticamente significativas. O rendimento médio real habitual dos trabalhadores (R$ 1.318,40) recuou (- 0,7%) na comparação mensal e teve alta de 3,2% frente a abril de 2008."(ibge)
Não é dificil imaginar a reação da direita civilizada e da extrema esquerda deslumbrada com números que insistem em negar o sonho deles. Como diria o velho poeta, não seria o caso de mudar a realidade para ajustar-se as previsões?
Já o esforçado economista da ditadura, no jornal da ditabranda, argumenta que o Fed não deveria ter deixado o Lehman Brothers ir a breca. Chama a decisão de grande barbeiragem. Ele parece esquecer que salvar esse banco seria simplesmente jogar o problema para o futuro e com uma gravidade ainda maior: o comportamento que gerou a crise não se alteraria. Melhor reler Hayek.
Não é dificil imaginar a reação da direita civilizada e da extrema esquerda deslumbrada com números que insistem em negar o sonho deles. Como diria o velho poeta, não seria o caso de mudar a realidade para ajustar-se as previsões?
Já o esforçado economista da ditadura, no jornal da ditabranda, argumenta que o Fed não deveria ter deixado o Lehman Brothers ir a breca. Chama a decisão de grande barbeiragem. Ele parece esquecer que salvar esse banco seria simplesmente jogar o problema para o futuro e com uma gravidade ainda maior: o comportamento que gerou a crise não se alteraria. Melhor reler Hayek.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
De esquerda, mas católico...
No fim semana um amigo me apresentou como "um economista de esquerda, mas católico". Hoje no seminário em Barueri, meus alunos apresentaram uma opinião diferente: voce é de direita. Desta vez não fiquei surpreso. Na primeira vez, quando havia , recentemente, retornado da Inglaterra, a surpresa foi grande. Afinal meus amigos e colegas em Oxford me consideravam não apenas de esquerda, mas, também, marxista. É verdade que minha orientadora, me achava neoclassico, mas de esquerda. Quem tem razão? Acho que meu amigo.
Não assumir posições populistas e manter-se fiel a teoria econômica aceita pela maioria dos economistas mundo afora, parece ser uma receita perfeita para ser colocado no campo da direita. Não é agradavel, mas pior julgo ser colocado no campo da heterodoxia de galinheiro. Felizmente esse não é o caso do meu colega de seminário: um jovem economista marxista, mas que em se tratanto de análise macroeconômica é um ótimo keynesiano puro sangue, o que, alias, diz muito sobre a irrelevância da economia marxista. Não sei se ele concorda, mas... em nada altera a sua excelente apresentação. Ainda há esperança...
Não assumir posições populistas e manter-se fiel a teoria econômica aceita pela maioria dos economistas mundo afora, parece ser uma receita perfeita para ser colocado no campo da direita. Não é agradavel, mas pior julgo ser colocado no campo da heterodoxia de galinheiro. Felizmente esse não é o caso do meu colega de seminário: um jovem economista marxista, mas que em se tratanto de análise macroeconômica é um ótimo keynesiano puro sangue, o que, alias, diz muito sobre a irrelevância da economia marxista. Não sei se ele concorda, mas... em nada altera a sua excelente apresentação. Ainda há esperança...
terça-feira, 19 de maio de 2009
Dia de cão...
Liguei as 14:00 e prometeram retorno a normalidade em duas horas: todo o sistema havia caido, argumentou o atendente. 17:00 volta, mas logo cai. Liguei novamente e a mesma promessa, retorno em duas horas e nada. Ligo para o UOL. Nada, nada, nada... Meia noite e continuava fora do ar. Acordo, ligo para o UOL e sou informado que ela constinua instavel. De fato está, mas ,por enquanto, é possível navegar, ate quando, sabe se lá.
Abro o jornal da Ditabranda e, para minha surpresa, nenhuma menção na primeira pagina, apenas uma "notinha" no caderno "cotidiano". Coisas do bananão: uma grande empresa deixa os seus clientes na mão e aquele que se considera o melhor e mais influente jornal do pais, faz uma não cobertura do problema.
Dificil a vida nos tristes trópicos. Regulamentanção, por estas bandas, é papo para boi dormir.
Abro o jornal da Ditabranda e, para minha surpresa, nenhuma menção na primeira pagina, apenas uma "notinha" no caderno "cotidiano". Coisas do bananão: uma grande empresa deixa os seus clientes na mão e aquele que se considera o melhor e mais influente jornal do pais, faz uma não cobertura do problema.
Dificil a vida nos tristes trópicos. Regulamentanção, por estas bandas, é papo para boi dormir.
domingo, 17 de maio de 2009
sábado, 16 de maio de 2009
Nocturnos de la ventana, Federico García Lorca
1
Alta va la luna.
Bajo corre el viento.
(Mis largas miradas,
exploran el cielo.)
Luna sobre el agua.
Luna bajo el viento.
(Mis cortas miradas,
exploran el suelo.)
Las voces de dos niñas
venían. Sin esfuerzo,
de la luna del agua,
me fui a la del cielo.
2
Un brazo de la noche
entra por mi ventana.
Un gran brazo moreno
con pulseras de agua.
Sobre un cristal azul
jugaba al río mi alma.
Los instantes heridos
por el reloj... pasaban.
3
Asomo la cabeza
por mi ventana, y veo
cómo quiere cortarla
la cuchilla del viento.
En esta guillotina
invisible, yo he puesto
la cabeza sin ojos
de todos mis deseos.
Y un olor de limón
llenó el instante inmenso,
mientras se convertía
en flor de gasa el viento.
4
Al estanque se le ha muerto
hoy una niña de agua.
Está fuera del estanque,
sobre el suelo amortajada.
De la cabeza a sus muslos
un pez la cruza, llamándola.
El viento le dice "niña",
mas no puede despertarla.
El estanque tiene suelta
su cabellera de algas
y al aire sus grises tetas
estremecidas de ranas.
Dios te salve. Rezaremos
a Nuestra Señora de Agua
por la niña del estanque
muerta bajo las manzanas.
Yo luego pondré a su lado
dos pequeñas calabazas
para que se tenga a flote,
¡ay!, sobre la mar salada.
Alta va la luna.
Bajo corre el viento.
(Mis largas miradas,
exploran el cielo.)
Luna sobre el agua.
Luna bajo el viento.
(Mis cortas miradas,
exploran el suelo.)
Las voces de dos niñas
venían. Sin esfuerzo,
de la luna del agua,
me fui a la del cielo.
2
Un brazo de la noche
entra por mi ventana.
Un gran brazo moreno
con pulseras de agua.
Sobre un cristal azul
jugaba al río mi alma.
Los instantes heridos
por el reloj... pasaban.
3
Asomo la cabeza
por mi ventana, y veo
cómo quiere cortarla
la cuchilla del viento.
En esta guillotina
invisible, yo he puesto
la cabeza sin ojos
de todos mis deseos.
Y un olor de limón
llenó el instante inmenso,
mientras se convertía
en flor de gasa el viento.
4
Al estanque se le ha muerto
hoy una niña de agua.
Está fuera del estanque,
sobre el suelo amortajada.
De la cabeza a sus muslos
un pez la cruza, llamándola.
El viento le dice "niña",
mas no puede despertarla.
El estanque tiene suelta
su cabellera de algas
y al aire sus grises tetas
estremecidas de ranas.
Dios te salve. Rezaremos
a Nuestra Señora de Agua
por la niña del estanque
muerta bajo las manzanas.
Yo luego pondré a su lado
dos pequeñas calabazas
para que se tenga a flote,
¡ay!, sobre la mar salada.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Não será desta vez...
Os números insistem em negar a materialização do cenário apocaliptico previsto para a economia brasileira - desejado? - pelos economistas da direita civilizada e da extrema esquerda deslumbrada(iletrada, diria um velho amigo, em matéria econômica). É o caso, por ex,do números do Sinalizador da Produção Industrial (SPI), que na opinião do Paulo Picchetti(IBRE-FGV), sinalizam uma recuperação que é "na verdade, um movimento de retomada de quem está saindo do fundo do poço". Concordo com a avaliação dele: o pior já passou. Mas não se deve esperar o paraiso ao virar a esquina.
Surpreendente a declaração, honesta, da Fazenda: em geral o agente político, de qualquer governo, sempre pinta um cenário mais roseo que a realidade. Crescimento próximo de zero é o que espero, mas a economia brasileira tem uma longa historia de desmentir previsões pessimistas.
Enquanto isso no Imperio,..., não há grandes novidades. Continua a dança de sempre a espera da nova onda: dificuldades no pagamento dos cartões de crédito.
Surpreendente a declaração, honesta, da Fazenda: em geral o agente político, de qualquer governo, sempre pinta um cenário mais roseo que a realidade. Crescimento próximo de zero é o que espero, mas a economia brasileira tem uma longa historia de desmentir previsões pessimistas.
Enquanto isso no Imperio,..., não há grandes novidades. Continua a dança de sempre a espera da nova onda: dificuldades no pagamento dos cartões de crédito.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Estudo do BC desvenda canais de transmissão da política de juros
O "paper" parece interessante e promissor, mas ainda não consegui uma cópia.
O Banco Central revela, pela primeira vez, como os movimentos na taxa básica de juros afetam a atividade econômica e a inflação. Um estudo, a ser apresentado hoje no seminário anual de metas de inflação, que marca dos dez anos desse regime no Brasil, explicita pela primeira vez como agem os chamados canais de transmissão da política monetária. O principal deles é o juro cobrado nos empréstimos a pessoas físicas. Quando o BC aperta a política monetária, esse canal responde por 62% da retração da atividade econômica.
Os bancos centrais em geral, incluindo o BC brasileiro, sabem pouco sobre como a política monetária se transmite para a economia. Quando o BC sobe os juros, é como se apertasse um botão de uma máquina que, mais para frente, vai provocar contração na atividade econômica e queda da inflação. O que acontece exatamente dentro da máquina é bastante incerto e muda ao longo do tempo. Um canal de política monetária que, em um momento, parece mais poderoso pode perder força em um contexto diferente.
Dois pesquisadores do BC, André Minella e Nelson F. Souza-Sobrinho, construíram um modelo matemático e estatístico que procura reproduzir o funcionamento da economia. A revelação é que os juros do crédito a pessoas físicas respondem pelo maior efeito sobre a atividade econômica. Não é de se estranhar, já que, nos últimos anos, o crédito ganhou importância como um dos motores do consumo. Do início de 1999, ano da adoção do sistema de metas de inflação, até agora, o crédito subiu de 26% para 42,5% do Produto Interno Bruto. A importância do canal juros ao consumidor sobre a atividade é também compatível com o peso, de cerca de dois terços, do consumo na demanda agregada.
O segundo fator mais importante é o juro do crédito a empresas, que responde por 24% da contração da atividade econômica. Não estranha o efeito ser relativamente reduzido na comparação com o crédito aos consumidores, dizem os pesquisadores, já que a taxa de investimento é de cerca de 20%. Além disso, argumentam, uma boa parte do financiamento às empresas é feita por meio de crédito direcionado e por por bancos oficiais e, por isso, estão menos sujeitos aos efeitos das variações da Selic. O terceiro canal mais importante é o da demanda externa, que responde por 14% do declínio na atividade econômica.
Os pesquisadores fizeram dois exercícios econométricos para avaliar o efeito dos juros sobre a inflação. Num deles, que não inclui o chamado canal das expectativas, descobriram que 40% da redução da inflação ocorre por meio dos juros cobrados de pessoas físicas. O canal câmbio também responde por cerca de 40% da redução da inflação. Na teoria, altas de juros levam à apreciação cambial, que, por sua vez, levam a inflação menor. Esse resultado pode sugerir que o câmbio tem papel central no processo de desinflação. Mas essas conclusões devem ser vistas com cuidado. Na série estatística com a qual os pesquisadores trabalharam, houve intensos movimentos de câmbio, e isso tem influência nos resultados. Mais recentemente, os movimentos de câmbio não tem sido acompanhados, tão de perto, por oscilações na taxa de inflação.
O terceiro fator mais importante na redução da inflação é o canal dos juros para as empresas, com uma contribuição de 16%. Um dos problemas do exercício acima é que ele não leva em conta o canal das expectativas, algo central em um regime de metas de inflação. Quando esse fator é incluído nas contas, descobre-se que esse é o fator mais importante. Cerca de 80% da redução da inflação, segundo os pesquisadores, ocorre pelo canal das expectativas. O cambio responde por 12%; os juros às pessoas físicas, por 6,4%; e os juros às empresas, por 1,7%. Esse é um resultado da credibilidade da política monetária. Quanto mais crível a política monetária, menos a atividade econômica precisa se retrair para baixar a inflação.
Com esse estudo, é possível saber com precisão como a recente baixa de juros vai atingir a atividade e a inflação? É provável que não. A crise internacional provocou, aparentemente, uma quebra estrutural.
Fonte: Valor Econômico/Alex Ribeiro -14/05/09
O Banco Central revela, pela primeira vez, como os movimentos na taxa básica de juros afetam a atividade econômica e a inflação. Um estudo, a ser apresentado hoje no seminário anual de metas de inflação, que marca dos dez anos desse regime no Brasil, explicita pela primeira vez como agem os chamados canais de transmissão da política monetária. O principal deles é o juro cobrado nos empréstimos a pessoas físicas. Quando o BC aperta a política monetária, esse canal responde por 62% da retração da atividade econômica.
Os bancos centrais em geral, incluindo o BC brasileiro, sabem pouco sobre como a política monetária se transmite para a economia. Quando o BC sobe os juros, é como se apertasse um botão de uma máquina que, mais para frente, vai provocar contração na atividade econômica e queda da inflação. O que acontece exatamente dentro da máquina é bastante incerto e muda ao longo do tempo. Um canal de política monetária que, em um momento, parece mais poderoso pode perder força em um contexto diferente.
Dois pesquisadores do BC, André Minella e Nelson F. Souza-Sobrinho, construíram um modelo matemático e estatístico que procura reproduzir o funcionamento da economia. A revelação é que os juros do crédito a pessoas físicas respondem pelo maior efeito sobre a atividade econômica. Não é de se estranhar, já que, nos últimos anos, o crédito ganhou importância como um dos motores do consumo. Do início de 1999, ano da adoção do sistema de metas de inflação, até agora, o crédito subiu de 26% para 42,5% do Produto Interno Bruto. A importância do canal juros ao consumidor sobre a atividade é também compatível com o peso, de cerca de dois terços, do consumo na demanda agregada.
O segundo fator mais importante é o juro do crédito a empresas, que responde por 24% da contração da atividade econômica. Não estranha o efeito ser relativamente reduzido na comparação com o crédito aos consumidores, dizem os pesquisadores, já que a taxa de investimento é de cerca de 20%. Além disso, argumentam, uma boa parte do financiamento às empresas é feita por meio de crédito direcionado e por por bancos oficiais e, por isso, estão menos sujeitos aos efeitos das variações da Selic. O terceiro canal mais importante é o da demanda externa, que responde por 14% do declínio na atividade econômica.
Os pesquisadores fizeram dois exercícios econométricos para avaliar o efeito dos juros sobre a inflação. Num deles, que não inclui o chamado canal das expectativas, descobriram que 40% da redução da inflação ocorre por meio dos juros cobrados de pessoas físicas. O canal câmbio também responde por cerca de 40% da redução da inflação. Na teoria, altas de juros levam à apreciação cambial, que, por sua vez, levam a inflação menor. Esse resultado pode sugerir que o câmbio tem papel central no processo de desinflação. Mas essas conclusões devem ser vistas com cuidado. Na série estatística com a qual os pesquisadores trabalharam, houve intensos movimentos de câmbio, e isso tem influência nos resultados. Mais recentemente, os movimentos de câmbio não tem sido acompanhados, tão de perto, por oscilações na taxa de inflação.
O terceiro fator mais importante na redução da inflação é o canal dos juros para as empresas, com uma contribuição de 16%. Um dos problemas do exercício acima é que ele não leva em conta o canal das expectativas, algo central em um regime de metas de inflação. Quando esse fator é incluído nas contas, descobre-se que esse é o fator mais importante. Cerca de 80% da redução da inflação, segundo os pesquisadores, ocorre pelo canal das expectativas. O cambio responde por 12%; os juros às pessoas físicas, por 6,4%; e os juros às empresas, por 1,7%. Esse é um resultado da credibilidade da política monetária. Quanto mais crível a política monetária, menos a atividade econômica precisa se retrair para baixar a inflação.
Com esse estudo, é possível saber com precisão como a recente baixa de juros vai atingir a atividade e a inflação? É provável que não. A crise internacional provocou, aparentemente, uma quebra estrutural.
Fonte: Valor Econômico/Alex Ribeiro -14/05/09
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Alexandre "eram os deuses astronautas"
Bom artigo do Alexandre "eram os deuses astronautas". Ele tem toda razão, como alias reconheço em meu artigo no PUC em Noticias: a heterodoxia deveria reconhecer os meritos da política do Bacen.
Há riscos, obviamente, na mudança de rumos, mas dado o cenário atual da economia mundial, ele me parece necessário. Não confundir, contudo, alterações de política, com adoção do mambo jambo econômico.
"Há certo consenso de que o Brasil estará entre as primeiras economias que se recuperarão do forte choque externo. Em que pese o impacto negativo da queda das exportações, a verdade é que, em contraste com episódios anteriores, a crise internacional não se traduziu em contrapartida doméstica. Não vivemos uma crise fiscal, nem uma crise financeira, nem, por fim, uma crise do balanço de pagamentos, graças às políticas responsáveis adotadas antes do colapso global.
Já examinei aqui o papel central da mudança do perfil da dívida pública. Por conta da acumulação de reservas e da atuação do BC no mercado de derivativos, a dívida deixou de ser majoritariamente denominada em moeda estrangeira; ao contrário, o governo se tornou credor líquido em dólares, de modo que a depreciação da moeda reduziu a dívida pública, aliviando, ao invés de agravar, a situação fiscal.
Um fenômeno semelhante -a mudança do endividamento para o investimento direto- se passou no campo do financiamento externo da economia, também colaborando para a estabilidade do país ante a crise e, portanto, para as condições de retomada à frente. Entre 2003 e 2008, o ingresso de investimento direto estrangeiro atingiu pouco mais de US$ 140 bilhões, enquanto o investimento brasileiro no exterior ficou pouco aquém de US$ 75 bilhões. Nesse mesmo período, a dívida externa, líquida de reservas, caiu US$ 145 bilhões.
A contrapartida dessa mudança ficou aparente na evolução da conta corrente, em particular no que se refere ao serviço do capital estrangeiro. O pagamento de juros caiu à metade do que era, mas o pagamento de dividendos, pouco superior a US$ 5 bilhões/ano entre 2001 e 2003, chegou a quase US$ 34 bilhões no ano passado.
Poderia parecer um mau negócio, pois o retorno do investimento é, pelas razões examinadas abaixo, geralmente superior ao custo da dívida. Há, porém, motivo para crer que, ao final da história, foi uma boa escolha, dadas duas diferenças cruciais entre juros e dividendos.
Em primeiro lugar, o pagamento de dividendos se move em linha com o desempenho econômico: em bons anos, paga-se mais, mas, nos anos ruins, quando os lucros encolhem, os montantes caem. Em contraste, o pagamento de juros tipicamente não se altera com o estado da economia. Faça chuva ou faça sol, o pagamento é devido, o que, em épocas de vacas magras, pode se tornar um problema, como, aliás, a história revela.
Além disso, o pagamento de juros é usualmente denominado em moeda estrangeira, enquanto os dividendos são calculados sobre lucros gerados em moeda doméstica. Assim, a depreciação da moeda não altera o montante de juros devidos (em dólares), embora reduza o pagamento de dividendos.
Assim, no primeiro trimestre deste ano o déficit em conta corrente encolheu cerca de US$ 6 bilhões na comparação com o mesmo período em 2008. Desses, US$ 5 bilhões são devidos à menor remessa de dividendos, refletindo tanto a reversão cíclica como a desvalorização da moeda. Em outras palavras, quase 90% do ajuste externo se deu à custa do investidor estrangeiro, dentro, é bom dizer, das regras do jogo.
Vale notar que essa mudança no padrão de financiamento não ocorreu por acaso, mas resulta também de decisões de política, como as medidas de liberalização na área cambial e de capitais, pois não há quem coloque recursos onde existam riscos de não poder retirá-los. Continuamos, pois, a colher os frutos das políticas "ortodoxas" ao mesmo tempo em que flertamos com seu abandono. O que restará para colher nos " próximos anos?
Alexandre Schwartsman
Fonte: FSP
Há riscos, obviamente, na mudança de rumos, mas dado o cenário atual da economia mundial, ele me parece necessário. Não confundir, contudo, alterações de política, com adoção do mambo jambo econômico.
"Há certo consenso de que o Brasil estará entre as primeiras economias que se recuperarão do forte choque externo. Em que pese o impacto negativo da queda das exportações, a verdade é que, em contraste com episódios anteriores, a crise internacional não se traduziu em contrapartida doméstica. Não vivemos uma crise fiscal, nem uma crise financeira, nem, por fim, uma crise do balanço de pagamentos, graças às políticas responsáveis adotadas antes do colapso global.
Já examinei aqui o papel central da mudança do perfil da dívida pública. Por conta da acumulação de reservas e da atuação do BC no mercado de derivativos, a dívida deixou de ser majoritariamente denominada em moeda estrangeira; ao contrário, o governo se tornou credor líquido em dólares, de modo que a depreciação da moeda reduziu a dívida pública, aliviando, ao invés de agravar, a situação fiscal.
Um fenômeno semelhante -a mudança do endividamento para o investimento direto- se passou no campo do financiamento externo da economia, também colaborando para a estabilidade do país ante a crise e, portanto, para as condições de retomada à frente. Entre 2003 e 2008, o ingresso de investimento direto estrangeiro atingiu pouco mais de US$ 140 bilhões, enquanto o investimento brasileiro no exterior ficou pouco aquém de US$ 75 bilhões. Nesse mesmo período, a dívida externa, líquida de reservas, caiu US$ 145 bilhões.
A contrapartida dessa mudança ficou aparente na evolução da conta corrente, em particular no que se refere ao serviço do capital estrangeiro. O pagamento de juros caiu à metade do que era, mas o pagamento de dividendos, pouco superior a US$ 5 bilhões/ano entre 2001 e 2003, chegou a quase US$ 34 bilhões no ano passado.
Poderia parecer um mau negócio, pois o retorno do investimento é, pelas razões examinadas abaixo, geralmente superior ao custo da dívida. Há, porém, motivo para crer que, ao final da história, foi uma boa escolha, dadas duas diferenças cruciais entre juros e dividendos.
Em primeiro lugar, o pagamento de dividendos se move em linha com o desempenho econômico: em bons anos, paga-se mais, mas, nos anos ruins, quando os lucros encolhem, os montantes caem. Em contraste, o pagamento de juros tipicamente não se altera com o estado da economia. Faça chuva ou faça sol, o pagamento é devido, o que, em épocas de vacas magras, pode se tornar um problema, como, aliás, a história revela.
Além disso, o pagamento de juros é usualmente denominado em moeda estrangeira, enquanto os dividendos são calculados sobre lucros gerados em moeda doméstica. Assim, a depreciação da moeda não altera o montante de juros devidos (em dólares), embora reduza o pagamento de dividendos.
Assim, no primeiro trimestre deste ano o déficit em conta corrente encolheu cerca de US$ 6 bilhões na comparação com o mesmo período em 2008. Desses, US$ 5 bilhões são devidos à menor remessa de dividendos, refletindo tanto a reversão cíclica como a desvalorização da moeda. Em outras palavras, quase 90% do ajuste externo se deu à custa do investidor estrangeiro, dentro, é bom dizer, das regras do jogo.
Vale notar que essa mudança no padrão de financiamento não ocorreu por acaso, mas resulta também de decisões de política, como as medidas de liberalização na área cambial e de capitais, pois não há quem coloque recursos onde existam riscos de não poder retirá-los. Continuamos, pois, a colher os frutos das políticas "ortodoxas" ao mesmo tempo em que flertamos com seu abandono. O que restará para colher nos " próximos anos?
Alexandre Schwartsman
Fonte: FSP
terça-feira, 12 de maio de 2009
Cade os economistas marxistas...
Crise econômica em escala mundial. Este era o grande sonho e previsão dos economistas marxistas e, curiosamente, ate o momento não encontrei nenhum trabalho interessante deles sobre a atual crise. Afinal o que aconteceu com o programa de pesquisa marxista? Esgotamento? Não é o que parece estar ocorrendo com outros programas de pesquisas, caso por ex. dos keynesianos, walrasianos, (neo)wicksellianos e ate mesmo os austriacos. Todos estão produzindo reflexões interessantes sobre a crise.
Recuperar a abordagem regulacionista parece ser a opção de alguns marxistas, mas os limites dessa abordagem já são por demais conhecidos e reconhecidos, ate mesmo por alguns dos seus (ex) membros mais importantes, caso, por ex, de Aglieta.
Há trabalhos de sociologos e filosofos marxistas - alguns interessantes -, mas de economistas, por enquanto nada. É lamentavel, se lembrarmos a qualidade e importância da produção de alguns economistas marxistas do passado.
Recuperar a abordagem regulacionista parece ser a opção de alguns marxistas, mas os limites dessa abordagem já são por demais conhecidos e reconhecidos, ate mesmo por alguns dos seus (ex) membros mais importantes, caso, por ex, de Aglieta.
Há trabalhos de sociologos e filosofos marxistas - alguns interessantes -, mas de economistas, por enquanto nada. É lamentavel, se lembrarmos a qualidade e importância da produção de alguns economistas marxistas do passado.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Bento XVI chega a Israel
Curiosamente, no maior país(nominalmente) Católico, do mundo, a visita do Bento XVI a Terra Santa, tem recebido pouco espaço na mídia. O anticlericalismo, vulgar, continua sendo a regra, inclusive onde não deveria ser hegemonico: desnecessário mencionar o nome do lugar.
O papa Bento XVI chegou a Tel Avive, Israel, na manhã de hoje, 11, e foi recebido pelo presidente israelita Shimon Peres, e pelo primeiro-ministro Benjamin Netanvahu. “É uma missão espiritual da maior importância: uma missão de paz, querendo semear a tolerância e erradicar a intolerância do Estado hebraico. Eu respeito a sua posição e sua ação para por fim à violência e ao ódio do mundo e estou confiante de que o diálogo entre o Judaísmo e o Cristianismo continuará no espírito dos profetas", afirmou o presidente israelita.
Bento XVI fez votos para que “reais progressos e estabilidade” possam ser conseguidos e destacou o papel das famílias “enquanto veículos de paz”. “Tomo o meu lugar na longa fila de peregrinos cristãos vindos a estes lugares, uma fila que remonta aos primeiros séculos da história da Igreja e que – estou certo – prosseguirá no futuro. Venho, como tantos outros antes de mim, para rezar nos lugares santos, para rezar especialmente pela paz – paz aqui na Terra Santa, e paz em todo o mundo”.
Sobre as três grandes religiões monoteístas do mundo, o pontífice afirmou que têm veneração pela Terra Santa. Ele disse que por isso, todos os peregrinos devem ter a “possibilidade de a eles aceder livremente e sem restrições, de tomar parte a cerimônias religiosas e de promover a necessária manutenção dos edifícios de culto situados nos lugares sagrados”.
O papa lembrou-se do significado da palavra Jerusalém [cidade de paz], porém ressaltou a falta de paz que falta aos habitantes da Terra Santa. “Embora Jerusalém signifique cidade de paz, é de toda a evidência que ao longo de décadas a paz tem tragicamente vindo a faltar aos habitantes desta Terra Santa. As esperanças, de inumeráveis homens, mulheres e crianças, de um futuro estável e mais seguro depende do êxito das negociações de paz entre israelitas e palestinianos”.
Concluindo seu discurso, Bento XVI saudou, de modo especial, os fiéis e bispos católicos, exprimindo a sua alegria por esta visita pastoral. Ele fez ainda menção ao encerramento do Ano da Família, precisamente na visita a Nazareth, e confiou às comunidades cristãs da Terra Santa uma missão: “Através do vosso testemunho fiel àquele que pregou o perdão e a reconciliação, através do vosso empenho em defender a sacralidade de cada vida humana, podereis fornecer um contributo particular para que cessem as hostilidades que desde há tanto tempo afligem esta terra. Rezo para que a continuidade da vossa presença em Israel e nos territórios Palestinianos produza muitos frutos na promoção da paz e do respeito mútuo entre todos os povos que vivem nas terras da Bíblia”
Fonte: CNBB
domingo, 10 de maio de 2009
sábado, 9 de maio de 2009
The Mother Of God, William Butler Yeats
The threefold terror of love; a fallen flare
Through the hollow of an ear;
Wings beating about the room;
The terror of all terrors that I bore
The Heavens in my womb.
Had I not found content among the shows
Every common woman knows,
Chimney corner, garden walk,
Or rocky cistern where we tread the clothes
And gather all the talk?
What is this flesh I purchased with my pains,
This fallen star my milk sustains,
This love that makes my heart's blood stop
Or strikes a Sudden chill into my bones
And bids my hair stand up?
Through the hollow of an ear;
Wings beating about the room;
The terror of all terrors that I bore
The Heavens in my womb.
Had I not found content among the shows
Every common woman knows,
Chimney corner, garden walk,
Or rocky cistern where we tread the clothes
And gather all the talk?
What is this flesh I purchased with my pains,
This fallen star my milk sustains,
This love that makes my heart's blood stop
Or strikes a Sudden chill into my bones
And bids my hair stand up?
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Metas de inflação
Pois é,..., não demorou muito para aparecer a primeira resposta ao artigo do Wolf( post de ontem). Melhor dizendo, tentativa de resposta, já que o artigo do ex-professor da Gavea, parece desconhecer por completo o debate sobre os limites e problemas do sistema de metas de inflação. Enquanto Wolf está preocupado em abrir o debate sobre os problemas enfrentados pelo policy maker, o ex-professor, parece mais preocupado em reafirmar a "fé", desprovida de razão, em um dado modelo de política monetária.
"Entre as vítimas da atual crise estão as convicções sobre a racionalidade da política monetária que foi construída nos últimos 20 ou 30 anos. O celebrado articulista Martin Wolf, do Financial Times, publicou na edição de quarta-feira um artigo que é um bom exemplo de como convicções baseadas em camadas finas de reflexão quebram com facilidade e afundam as vítimas incautas nas águas geladas da confusão mental. Motivado pela saia-justa em que se encontra a maioria dos bancos centrais no mundo, o articulista afirma que a crise requer que se redesenhe a abordagem da estratégia de metas. Será?
Mesmo depois que a Grande Recessão tiver dado lugar à recuperação, a busca por uma "nova racionalidade" ressoará a música da tolerância inflacionária que sempre deleita os ouvidos dos governantes. Tempos de déficits salvadores, dívidas perdoadas, intervenções bem-intencionadas, redistribuições ferozes de renda e riqueza costumam ser sucedidos por novas dificuldades: Estados gestores, preços relativos distorcidos e conciliação via inflação. A alta de preços persistente é a "solução" para as distorções que não puderem ser conciliadas por mais impostos e outros sacrifícios direcionados.
Mas as instituições equipadas para evitar a desorganização inflacionária, os bancos centrais, estão sob fogo em toda parte. No centro do sistema, seus balanços explodem com ativos sem preços. Uma mistura de "afrouxamento quantitativo" com afrouxamento normativo e qualitativo. Na periferia do sistema os estragos apenas começam. Os balanços dos Tesouros são onerados por operações de salvamento e de generosas compensações, que terão, mais cedo ou mais tarde, de ser financiadas. Se a recuperação for rápida, a valorização dos ativos e as receitas tributárias diminuem os custos. Se demorar mais do que os governantes imaginam, como é mais provável, resta um processo potencialmente explosivo de acumulação de passivos públicos.
Uma linha curiosa de raciocínio leva à conclusão, como a de Wolf, de que os bancos centrais estão "presos a estratégias ultrapassadas". Não entendo. Afinal, se houve (e de fato houve) erros na condução da política monetária americana na era Greenspan, foram o julgamento sobre a eternidade da Grande Moderação e sobre a capacidade de autorregulação do sistema financeiro. Greenspan errou porque não reagiu a tempo aos excessos. Enquanto, no centro do sistema econômico global, os bancos centrais são culpados por terem agido de forma pró-cíclica, na periferia do sistema econômico global a insatisfação com os bancos centrais tem sido capitalizada pelos novos porta-estandartes de velhas ideias, brandindo suas espadas contra o dragão da maldade das taxas de juros contracíclicas.
Tal como os ludistas, que na revolução industrial investiam contra as máquinas que aumentavam a produtividade do trabalho, os modernos ludistas, que investem contra a lógica da política monetária, defendem políticas ainda mais expansionistas onde a crise é menos severa e menos expansionistas onde a recessão é mais devastadora. Os autos da fé antimonetarista onde são imolados os banqueiros centrais mostram saudade das virtudes da maleabilidade permitida pela inflação.
A confusão mental produz esse milagre. Mas não produz receita para uma política econômica coerente. A coerência exige que o banco central tenha capacidade e independência para interromper um ciclo de euforia, o que é naturalmente frustrante para os políticos que julgam produzir felicidade perene com crédito farto. Alan Greenspan só conseguiu fazer o bem e gerar baixos custos de investimento porque, antes dele, Paul Volcker não relutou em contrariar as expectativas de mercado e a vontade dos políticos.
O Banco Central celebra dez anos da estratégia de metas no Brasil. Essa estratégia tem sido um sucesso na manutenção da confiança. A política monetária foi mais pró-cíclica precisamente nos EUA, que não adotam as metas. Como mostrou John Taylor, o Fed praticou taxas de juros bem abaixo das que resultariam de uma regra de Taylor, uma regularidade empírica que consegue explicar o que fazem os bancos centrais bem-sucedidos, não importa muito o que dizem que fazem.
Aqui, como em todos os países onde foi adotada, a estratégia de metas não é o Santo Graal da política monetária, mas uma forma de organizar o debate econômico mundial em torno do que se pode esperar do Banco Central em termos minimamente racionais. "
*Dionísio Dias Carneiro, economista, é diretor da Galanto Consultoria e do IEPE/CdG
Fonte: O Estado
"Entre as vítimas da atual crise estão as convicções sobre a racionalidade da política monetária que foi construída nos últimos 20 ou 30 anos. O celebrado articulista Martin Wolf, do Financial Times, publicou na edição de quarta-feira um artigo que é um bom exemplo de como convicções baseadas em camadas finas de reflexão quebram com facilidade e afundam as vítimas incautas nas águas geladas da confusão mental. Motivado pela saia-justa em que se encontra a maioria dos bancos centrais no mundo, o articulista afirma que a crise requer que se redesenhe a abordagem da estratégia de metas. Será?
Mesmo depois que a Grande Recessão tiver dado lugar à recuperação, a busca por uma "nova racionalidade" ressoará a música da tolerância inflacionária que sempre deleita os ouvidos dos governantes. Tempos de déficits salvadores, dívidas perdoadas, intervenções bem-intencionadas, redistribuições ferozes de renda e riqueza costumam ser sucedidos por novas dificuldades: Estados gestores, preços relativos distorcidos e conciliação via inflação. A alta de preços persistente é a "solução" para as distorções que não puderem ser conciliadas por mais impostos e outros sacrifícios direcionados.
Mas as instituições equipadas para evitar a desorganização inflacionária, os bancos centrais, estão sob fogo em toda parte. No centro do sistema, seus balanços explodem com ativos sem preços. Uma mistura de "afrouxamento quantitativo" com afrouxamento normativo e qualitativo. Na periferia do sistema os estragos apenas começam. Os balanços dos Tesouros são onerados por operações de salvamento e de generosas compensações, que terão, mais cedo ou mais tarde, de ser financiadas. Se a recuperação for rápida, a valorização dos ativos e as receitas tributárias diminuem os custos. Se demorar mais do que os governantes imaginam, como é mais provável, resta um processo potencialmente explosivo de acumulação de passivos públicos.
Uma linha curiosa de raciocínio leva à conclusão, como a de Wolf, de que os bancos centrais estão "presos a estratégias ultrapassadas". Não entendo. Afinal, se houve (e de fato houve) erros na condução da política monetária americana na era Greenspan, foram o julgamento sobre a eternidade da Grande Moderação e sobre a capacidade de autorregulação do sistema financeiro. Greenspan errou porque não reagiu a tempo aos excessos. Enquanto, no centro do sistema econômico global, os bancos centrais são culpados por terem agido de forma pró-cíclica, na periferia do sistema econômico global a insatisfação com os bancos centrais tem sido capitalizada pelos novos porta-estandartes de velhas ideias, brandindo suas espadas contra o dragão da maldade das taxas de juros contracíclicas.
Tal como os ludistas, que na revolução industrial investiam contra as máquinas que aumentavam a produtividade do trabalho, os modernos ludistas, que investem contra a lógica da política monetária, defendem políticas ainda mais expansionistas onde a crise é menos severa e menos expansionistas onde a recessão é mais devastadora. Os autos da fé antimonetarista onde são imolados os banqueiros centrais mostram saudade das virtudes da maleabilidade permitida pela inflação.
A confusão mental produz esse milagre. Mas não produz receita para uma política econômica coerente. A coerência exige que o banco central tenha capacidade e independência para interromper um ciclo de euforia, o que é naturalmente frustrante para os políticos que julgam produzir felicidade perene com crédito farto. Alan Greenspan só conseguiu fazer o bem e gerar baixos custos de investimento porque, antes dele, Paul Volcker não relutou em contrariar as expectativas de mercado e a vontade dos políticos.
O Banco Central celebra dez anos da estratégia de metas no Brasil. Essa estratégia tem sido um sucesso na manutenção da confiança. A política monetária foi mais pró-cíclica precisamente nos EUA, que não adotam as metas. Como mostrou John Taylor, o Fed praticou taxas de juros bem abaixo das que resultariam de uma regra de Taylor, uma regularidade empírica que consegue explicar o que fazem os bancos centrais bem-sucedidos, não importa muito o que dizem que fazem.
Aqui, como em todos os países onde foi adotada, a estratégia de metas não é o Santo Graal da política monetária, mas uma forma de organizar o debate econômico mundial em torno do que se pode esperar do Banco Central em termos minimamente racionais. "
*Dionísio Dias Carneiro, economista, é diretor da Galanto Consultoria e do IEPE/CdG
Fonte: O Estado
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Bancos centrais devem visar mais do que apenas a inflação
Os problemas e limites do modelo de metas inflacionárias são bem conhecidos, mas devido ao "relativo sucesso" no Brasil, raramente comentados em público. O debate no grande bananão acabou restrito a questão dos juros elevados, ignorando, totalmente, sua relação, obvia, como o modelo de política monetária adotado. Quem sabe a crise e o artigo abaixo do Martim Wolf, consigam mudar este cenário.
O estabelecimento de meta de inflação fracassou? Os bancos centrais em grande parte escaparam da culpa pela crise. Mas eles merecem isso?
Há mais de cinco anos, Ben Bernanke, o atual presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), fez um discurso sobre a "Grande Moderação" - a decrescente volatilidade da inflação e do produto em relação às duas décadas anteriores. Nele, ele enfatizou o papel da política monetária aprimorada. Os banqueiros centrais se sentiam orgulhosos de si mesmos. O orgulho precede uma queda. Hoje, eles estão lidando com a mais profunda recessão desde os anos 30, um sistema bancário cuja vida depende do governo e o risco de deflação. Como as coisas deram tão erradas?
Isso não é coisa pouca. Ao longo de quase três décadas, os legisladores e os acadêmicos se tornaram cada vez mais confiantes de que tinham encontrado, na meta inflacionária, o santo graal do dinheiro fiduciário. Foi uma longa jornada desde o padrão ouro do século 19, passando pelo padrão restaurado de câmbio-ouro dos anos 20, caos monetário dos anos 30, sistema Bretton Woods de taxas de câmbio ajustáveis dos 50 e 60, fim da convertibilidade do dólar em ouro em 1971 e metas monetárias dos anos 70 e 80.
Frederic Mishkin, da Universidade de Colúmbia, um ex-diretor do Federal Reserve e um forte defensor de meta de inflação, argumentou, em um livro publicado em 2007, que a meta de inflação é uma "uma estratégia que inclui a informação para a condução da política monetária".* Em outras palavras, a meta de inflação permite a consideração de todas as variáveis relevantes - taxa de câmbio, preço das ações, preços dos imóveis e os preços dos títulos de longo prazo - via seu impacto sobre a atividade e inflação potencial. Agora que estamos convivendo com a implosão do sistema financeiro, esta visão não é mais plausível.
Não menos desacreditada é a visão relacionada, também promovida pelo Fed, de que é melhor lidar com o pós-estouro das bolhas de preços de ativos do que estourá-las antecipadamente. O prof. Mishkin escreveu que "é altamente presunçoso achar que as autoridades do governo, mesmo que sejam banqueiros centrais, saibam mais que os mercados privados quais devem ser os preços dos ativos". Hoje, poucos se importariam com tal presunção, dados os custos das crises financeiras que seguem as bolhas de preços de ativos acompanhadas por grandes expansões no crédito privado.
A complacência em relação à Grande Moderação levou primeiro ao Grande Desemaranhamento e então à Grande Recessão. O setor privado foi complacente em relação ao risco. Mas também o foram os legisladores.
E que papel exerceu a política monetária? Eu posso identificar três críticas relacionadas aos bancos centrais.
Primeiro, John Taylor, da Universidade de Stanford, um ex-funcionário do governo Bush, argumenta que o Fed perdeu seu rumo ao manter as taxas de juros baixas demais no início dos anos 2000 e assim ignorando sua epônima regra de Taylor, que relaciona as taxas de juros à inflação e produção.** Isto causou o boom imobiliário e o subsequente estouro destrutivo.
O prof. Taylor tem um ponto adicional: ao baixar demais as taxas, o Fed, segundo ele, também fez com que baixassem as taxas oferecidas por outros bancos centrais, portanto gerando bolhas por grande parte do mundo. Em retrospecto, por exemplo, a autonomia do Banco da Inglaterra era muito menor do que a imaginada: quanto maior a diferença da taxa de juro com a dos Estados Unidos, mais dinheiro especulativo ingressava. Isso induziu uma queda dos padrões da concessão de crédito e assim uma bolha de crédito.
Segundo, vários críticos argumentam que os bancos centrais deviam visar os preços dos ativos por causa dos enormes estragos subsequentes que os estouros das bolhas provocam. A. Andrew Smithers, da Smithers & Co. com sede em Londres, nota em um recente relatório ("Inflação: Nem Inevitável e Nem Útil", 30 de abril de 2009), que "ao permitir bolhas de ativos, os bancos centrais perderam o controle de suas economias, de forma que os riscos tanto de inflação quanto de deflação aumentaram".
Logo, quando os preços nominais dos ativos e o crédito associado se desalinham da renda nominal e dos preços dos bens e serviços, uma entre duas coisas provavelmente acontecerá: um colapso dos preços dos ativos, com ameaça de falência em massa, depressão e deflação; ou os preços de bens e serviços são elevados a um nível consistente com os preços altos dos ativos, sendo que neste caso há inflação. A curto prazo, os bancos centrais também se veem voltados a políticas monetárias não convencionais que apresentam efeitos monetários imprevisíveis.
Finalmente, os economistas da tradição "austríaca" argumentam que o erro foi estabelecer taxas de juros abaixo da "taxa natural". Isso, argumentou Friedrich Hayek, também aconteceu nos anos 20. O resultado é uma alocação imprópria de recursos. Também gera um crescimento explosivo de crédito inseguro. Então, em uma recessão - como argumentou o economista americano, Irving Fisher, em seu "Debt-Deflation Theory of Great Depressions", publicado em 1933 - a deflação no balancete se estabelecerá, agravada enormemente pela queda dos preços e encolhimento da renda.
Seja qual for a crítica que se aceite, parece claro, olhando para trás, que a política monetária foi muito frouxa. Como resultado, nós agora enfrentamos dois desafios: limpar a bagunça e desenvolver uma nova abordagem à política monetária.
Para a primeira, nós temos três alternativas: liquidação, inflação ou crescimento. Uma política de liquidação ocorreria por meio de falência em massa e o colapso de grande parte do crédito existente. Esta é uma escolha insana. Uma política deliberada de inflação redespertaria as expectativas inflacionárias e levaria, inevitavelmente, a outra recessão, visando restabelecer a estabilidade monetária. Isso nos deixa apenas o crescimento. É essencial sustentar a demanda e retornar ao crescimento sem inflar outra bolha de crédito. Isso será difícil. Por este motivo é que não deveríamos ter caído no atoleiro, para começar.
Para a segunda, a escolha a curto prazo certamente será "meta de inflação" mais algo. Descartada deve ser a abordagem de "gestão de risco" do Fed, que provocou uma resposta desnecessariamente assimétrica aos choques econômicos negativos. Adotada deve ser uma "tendência contra o vento" sempre que os preços dos ativos subirem rapidamente e a níveis excepcionalmente altos, juntamente com uma abordagem contracíclica "macroprudente" às exigências do capital em instituições financeiras importantes para o sistema.
Esta crise não prevista é certamente um desastre para a política monetária. A maioria das pessoas - eu entre elas - achou que tínhamos finalmente encontrado o santo graal. Agora sabemos que era uma miragem. Esta pode ser a última chance do dinheiro fiduciário. Se não conseguir ser aprimorado para funcionar melhor do que antes, quem sabe o que nossos filhos poderão decidir? Talvez, em desespero, eles até mesmo adotarão o que ainda considero ser o absurdo do ouro.
O estabelecimento de meta de inflação fracassou? Os bancos centrais em grande parte escaparam da culpa pela crise. Mas eles merecem isso?
Há mais de cinco anos, Ben Bernanke, o atual presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), fez um discurso sobre a "Grande Moderação" - a decrescente volatilidade da inflação e do produto em relação às duas décadas anteriores. Nele, ele enfatizou o papel da política monetária aprimorada. Os banqueiros centrais se sentiam orgulhosos de si mesmos. O orgulho precede uma queda. Hoje, eles estão lidando com a mais profunda recessão desde os anos 30, um sistema bancário cuja vida depende do governo e o risco de deflação. Como as coisas deram tão erradas?
Isso não é coisa pouca. Ao longo de quase três décadas, os legisladores e os acadêmicos se tornaram cada vez mais confiantes de que tinham encontrado, na meta inflacionária, o santo graal do dinheiro fiduciário. Foi uma longa jornada desde o padrão ouro do século 19, passando pelo padrão restaurado de câmbio-ouro dos anos 20, caos monetário dos anos 30, sistema Bretton Woods de taxas de câmbio ajustáveis dos 50 e 60, fim da convertibilidade do dólar em ouro em 1971 e metas monetárias dos anos 70 e 80.
Frederic Mishkin, da Universidade de Colúmbia, um ex-diretor do Federal Reserve e um forte defensor de meta de inflação, argumentou, em um livro publicado em 2007, que a meta de inflação é uma "uma estratégia que inclui a informação para a condução da política monetária".* Em outras palavras, a meta de inflação permite a consideração de todas as variáveis relevantes - taxa de câmbio, preço das ações, preços dos imóveis e os preços dos títulos de longo prazo - via seu impacto sobre a atividade e inflação potencial. Agora que estamos convivendo com a implosão do sistema financeiro, esta visão não é mais plausível.
Não menos desacreditada é a visão relacionada, também promovida pelo Fed, de que é melhor lidar com o pós-estouro das bolhas de preços de ativos do que estourá-las antecipadamente. O prof. Mishkin escreveu que "é altamente presunçoso achar que as autoridades do governo, mesmo que sejam banqueiros centrais, saibam mais que os mercados privados quais devem ser os preços dos ativos". Hoje, poucos se importariam com tal presunção, dados os custos das crises financeiras que seguem as bolhas de preços de ativos acompanhadas por grandes expansões no crédito privado.
A complacência em relação à Grande Moderação levou primeiro ao Grande Desemaranhamento e então à Grande Recessão. O setor privado foi complacente em relação ao risco. Mas também o foram os legisladores.
E que papel exerceu a política monetária? Eu posso identificar três críticas relacionadas aos bancos centrais.
Primeiro, John Taylor, da Universidade de Stanford, um ex-funcionário do governo Bush, argumenta que o Fed perdeu seu rumo ao manter as taxas de juros baixas demais no início dos anos 2000 e assim ignorando sua epônima regra de Taylor, que relaciona as taxas de juros à inflação e produção.** Isto causou o boom imobiliário e o subsequente estouro destrutivo.
O prof. Taylor tem um ponto adicional: ao baixar demais as taxas, o Fed, segundo ele, também fez com que baixassem as taxas oferecidas por outros bancos centrais, portanto gerando bolhas por grande parte do mundo. Em retrospecto, por exemplo, a autonomia do Banco da Inglaterra era muito menor do que a imaginada: quanto maior a diferença da taxa de juro com a dos Estados Unidos, mais dinheiro especulativo ingressava. Isso induziu uma queda dos padrões da concessão de crédito e assim uma bolha de crédito.
Segundo, vários críticos argumentam que os bancos centrais deviam visar os preços dos ativos por causa dos enormes estragos subsequentes que os estouros das bolhas provocam. A. Andrew Smithers, da Smithers & Co. com sede em Londres, nota em um recente relatório ("Inflação: Nem Inevitável e Nem Útil", 30 de abril de 2009), que "ao permitir bolhas de ativos, os bancos centrais perderam o controle de suas economias, de forma que os riscos tanto de inflação quanto de deflação aumentaram".
Logo, quando os preços nominais dos ativos e o crédito associado se desalinham da renda nominal e dos preços dos bens e serviços, uma entre duas coisas provavelmente acontecerá: um colapso dos preços dos ativos, com ameaça de falência em massa, depressão e deflação; ou os preços de bens e serviços são elevados a um nível consistente com os preços altos dos ativos, sendo que neste caso há inflação. A curto prazo, os bancos centrais também se veem voltados a políticas monetárias não convencionais que apresentam efeitos monetários imprevisíveis.
Finalmente, os economistas da tradição "austríaca" argumentam que o erro foi estabelecer taxas de juros abaixo da "taxa natural". Isso, argumentou Friedrich Hayek, também aconteceu nos anos 20. O resultado é uma alocação imprópria de recursos. Também gera um crescimento explosivo de crédito inseguro. Então, em uma recessão - como argumentou o economista americano, Irving Fisher, em seu "Debt-Deflation Theory of Great Depressions", publicado em 1933 - a deflação no balancete se estabelecerá, agravada enormemente pela queda dos preços e encolhimento da renda.
Seja qual for a crítica que se aceite, parece claro, olhando para trás, que a política monetária foi muito frouxa. Como resultado, nós agora enfrentamos dois desafios: limpar a bagunça e desenvolver uma nova abordagem à política monetária.
Para a primeira, nós temos três alternativas: liquidação, inflação ou crescimento. Uma política de liquidação ocorreria por meio de falência em massa e o colapso de grande parte do crédito existente. Esta é uma escolha insana. Uma política deliberada de inflação redespertaria as expectativas inflacionárias e levaria, inevitavelmente, a outra recessão, visando restabelecer a estabilidade monetária. Isso nos deixa apenas o crescimento. É essencial sustentar a demanda e retornar ao crescimento sem inflar outra bolha de crédito. Isso será difícil. Por este motivo é que não deveríamos ter caído no atoleiro, para começar.
Para a segunda, a escolha a curto prazo certamente será "meta de inflação" mais algo. Descartada deve ser a abordagem de "gestão de risco" do Fed, que provocou uma resposta desnecessariamente assimétrica aos choques econômicos negativos. Adotada deve ser uma "tendência contra o vento" sempre que os preços dos ativos subirem rapidamente e a níveis excepcionalmente altos, juntamente com uma abordagem contracíclica "macroprudente" às exigências do capital em instituições financeiras importantes para o sistema.
Esta crise não prevista é certamente um desastre para a política monetária. A maioria das pessoas - eu entre elas - achou que tínhamos finalmente encontrado o santo graal. Agora sabemos que era uma miragem. Esta pode ser a última chance do dinheiro fiduciário. Se não conseguir ser aprimorado para funcionar melhor do que antes, quem sabe o que nossos filhos poderão decidir? Talvez, em desespero, eles até mesmo adotarão o que ainda considero ser o absurdo do ouro.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
O tunel sem fim
O esforçado economista da ditadura e novo "darling" da esquerda deslumbrada, parece cansado do novo papel - greta garbo quem diria... - e lembra, em artigo no jornal da ditabranda, que " a crise de 2008 mostra, na verdade, uma falha do Estado-regulador, corrompido pela ideologia do "mercado perfeito". Não fala a favor da ressuscitação do Estado-produtor como tendo sido sugerido por alguns afoitos". Ele tem toda razão quanto a crise ser deste tipo particular de Estado, mas erra ao fazer a ligação com a tal ideologia. A crise mostra os limites da regulamentação que independe desta ou daquela ideologia. Ela, também, recoloca a seguinte questão: se é muito importante para quebrar, então não deveria ser privado, já que sabemos não existir regulamentação perfeita. É so consultar os trabalhos do finado J.J.Laffont.
Os números da produção industrial não são uma Brastemp, mas no atual cenário mundial, mesmo números como estes, são um verdadeiro alivio. Nenhuma surpresa, tambem, em relação ao setor automobilistico: havia nos numeros muita antecipação de compra.
Enquanto isto no Imperio, Pepino o Breve, descobriu o que já sabiamos: vai ter que colocar mais dim dim em vários bancos. Alguem ai está vendo luz no fim do tunel?
Os números da produção industrial não são uma Brastemp, mas no atual cenário mundial, mesmo números como estes, são um verdadeiro alivio. Nenhuma surpresa, tambem, em relação ao setor automobilistico: havia nos numeros muita antecipação de compra.
Enquanto isto no Imperio, Pepino o Breve, descobriu o que já sabiamos: vai ter que colocar mais dim dim em vários bancos. Alguem ai está vendo luz no fim do tunel?
terça-feira, 5 de maio de 2009
Uma boa noticia.
Abro o jornal e la esta a manchete sobre o setor externo: era o único aspecto negativo dos dados comércio internacional e foi justamente o escolhido pelo jornal da Ditabranda. Era naturalmente esperado, afinal manufaturados é o setor mais fortemente atingindo pela crise, motivo de contração de economias importantes como a alemã e a japonesa, por ex. Portanto, nenhum novidade.
O ponto positivo é a recuperação espetacular das exportações em relação ao mês passado;14,8 e pequena queda nas exportações;-5,6. Em momento de forte retração no comércio internacional, os números são muito bons. Eles são explicados pelo bom desempenho da economia chinesa, o que, alias, não deixa de ser surpreendemente, mas são, tambem, o resultado de um longo processo de diversificação das pautas de exportação, que por sinal ainda continua ocorrendo.
Há quem veja esta alteração da composição da pauta, como sendo um processo de retorno ao passado, mas me parece ser um equivoco. Ela simplesmente demonstra a força da economia brasileira, algo dificil de ser aceito pela direita civilizada e a esquerda deslumbrada.
O ponto positivo é a recuperação espetacular das exportações em relação ao mês passado;14,8 e pequena queda nas exportações;-5,6. Em momento de forte retração no comércio internacional, os números são muito bons. Eles são explicados pelo bom desempenho da economia chinesa, o que, alias, não deixa de ser surpreendemente, mas são, tambem, o resultado de um longo processo de diversificação das pautas de exportação, que por sinal ainda continua ocorrendo.
Há quem veja esta alteração da composição da pauta, como sendo um processo de retorno ao passado, mas me parece ser um equivoco. Ela simplesmente demonstra a força da economia brasileira, algo dificil de ser aceito pela direita civilizada e a esquerda deslumbrada.
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