Bom texto do Bresser Pereira, exceto pela menção ao vampiro brasileiro. Mas, ..., ninguem é perfeito.
Sempre afirmo que a política é a mais nobre e a mais importante das profissões. É a mais nobre porque apenas homens e mulheres dotados da capacidade de tomar decisões e de qualidade moral são capazes de exercê-la bem. É a mais importante porque a política influencia nossas vidas para o bem ou para o mal, porque é por meio dela que somos governados.
Essa afirmação sobre a nobreza da política sempre causa surpresa em meus interlocutores, porque leem todos os dias notícias sobre a corrupção dos políticos. Assim, a política não estaria associada à virtude da nobreza, e sim ao vício da corrupção.
Foi, portanto, com alegria que li no "Estado de S. Paulo" (14/3) uma entrevista de José Serra a Dora Kramer na qual ele defende "uma prática transformadora na política brasileira, começando pelo repúdio ao mote fatalista e reacionário de que a desonestidade é inerente à vida pública, que o poder necessariamente corrompe o homem".
Terá razão o governador paulista ao rejeitar a visão reacionária da política? Estarei eu correto quando defendo a política apesar dos constantes deslizes dos políticos? Para responder a essas questões, devemos considerar dois conceitos básicos.
O Estado é o sistema constitucional-legal e o aparelho público que o garante; é o instrumento por excelência de ação coletiva da nação; é a lei e a administração pública; é a expressão maior da nossa racionalidade coletiva.
A política, por sua vez, é a prática de argumentar e fazer concessões mútuas para alcançar o poder político e é a arte de governar o Estado moderno que foi inicialmente liberal e depois se tornou democrático. É por meio da política que reformamos permanentemente a sociedade e o Estado para que esse cumpra seu papel contribuindo de forma efetiva para os grandes objetivos políticos das sociedades modernas: segurança, autonomia nacional, desenvolvimento econômico, liberdade, justiça social e proteção do ambiente. Podemos obter algum sucesso na busca individual de nossa felicidade e segurança econômica. Entretanto, os demais objetivos políticos, e mesmo esses dois que acabei de citar, somente poderão ser atingidos por meio da construção política do Estado.
Não podemos esquecer que, conforme ensinou Max Weber, a ética na política é diferente da ética pessoal: é uma ética da responsabilidade, não da convicção. Para governar e promover o bem público, o político deve buscar a maioria e, para isso, é obrigado a fazer acordos ou compromissos que um indivíduo não precisa fazer. Não devemos, porém, confundir com a corrupção essa ética baseada na responsabilidade do político em alcançar bons resultados para a sociedade que governa.
Não se justifica, portanto, a tese do caráter intrinsecamente corrupto da política. A política é o grande instrumento de que dispõe a sociedade para reformar seu Estado. Só por meio da lei e da administração pública que a garante progrediremos na busca da segurança, da liberdade e da justiça. A identificação da política com busca exclusiva do poder pessoal e da riqueza é uma tese neoliberal e autoritária que desmoraliza a política para, assim, legitimar o governo das elites.
Precisamos ser implacáveis em relação à corrupção, mas não é por meio do moralismo negativista que lograremos atingir nossos grandes objetivos políticos. Para isso, não temos alternativa senão pensar a política em termos republicanos de virtude cívica e busca do bem comum.
Só assim estaremos fortalecendo nosso grande instrumento de ação coletiva que é o Estado.
terça-feira, 23 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
Coerência, please
Artigo interessante e otimista do Nakano sobre o impacto da queda do muro de Berlin e a recente crise econômica no debate econômico. Não concordo totalmente com os argumentos apresentados: ele exagera, por ex. o papel do Estado e não menciona o papel dos cursos de pós graduação(mestrado e doutorado)brasileiros na formatação e manutenção da agenda econômica e da linha teorica ainda dominantes. A linha teorica da escola que ele dirige não é em nada diferente das que ele implicitamente critica no texto. Difícil imaginar uma agenda diferente, exceto pela retórica.
O colapso do bloco soviético escancarou o fracasso do planejamento central e acabou com o seu mito. A queda do Muro de Berlim, em 1989, marcou o fim da ideologia do socialismo autoritário abraçado pelas esquerdas e, desde então, passou a prevalecer o outro extremo conservador com o mito do mercado livre, eficiente e que se autorregula. A grande crise e o colapso do sistema financeiro nos EUA e na Europa, em 2008, tornaram a intervenção maciça do Estado uma necessidade absoluta, marcando o fim dessa ideologia neoliberal.
Com o degelo das duas ideologias e a destruição de dois mitos poderosos, o planejamento central e o mercado livre e eficiente, abre-se neste início de década um período que deverá ser muito fértil para a revisão de todo o pensamento econômico com grande liberdade de pensar e abrindo espaço para posições mais pragmáticas e livres dos grilhões das ideologias e dos mitos.
As consequências desse degelo das grandes ideologias terão enorme repercussão. No Brasil, sabidamente a partir da década de 90, a opinião pública foi dominada pelo pensamento neoliberal. As políticas públicas passaram a ser formuladas com base na perspectiva de que, quanto menos Estado, melhor.
Mas os setores que abraçaram o neoliberalismo no Brasil, aliando-se politicamente aos conservadores, não levaram até as últimas consequências a destruição do Estado. Retirou-se da função-objetivo do Estado a promoção do desenvolvimento econômico e mesmo a geração de emprego. Destruiu-se a capacitação técnica de pensar e planejar a longo prazo e, estrategicamente, o futuro do país, supostamente um segmento dominado pelas esquerdas intervencionistas, e manteve-se intacto dentro do Estado o atraso: o segmento patrimonialista, clientelista e burocrático. Paradoxalmente, o neoliberalismo brasileiro impõe uma carga tributária e um imenso custo Brasil que sufocam o mercado.
Agora, abre-se um período de reflexão sem os mitos e dogmas do livre mercado que cerceavam o livre pensar, estabeleciam os limites do que pessoas sérias e respeitáveis poderiam falar. Falar em desenvolvimento econômico deixou de ser assunto de economista desocupado, como censurava um ministro do governo anterior. A política macroeconômica está incorporando o crescimento e a geração de emprego como seus principais objetivos. Controlar o fluxo de capitais e administrar a taxa de câmbio está deixando de ser uma obscenidade. Deficit público para fazer política anticíclica tem o apoio de todos. O Banco Central, pelo resultado da última reunião do Copom, parece começar a se libertar da cegueira imposta pelo pensamento ortodoxo. Com isso, abre-se a possibilidade de nos livrarmos da taxa de juros mais alta do mundo e da taxa de câmbio apreciada que está desindustrializando e transferindo empregos para o exterior.
Em suma, o Brasil está se libertando dos grilhões e da cegueira imposta pelo pensamento dominante no último quarto de século. Com isso, caminhamos para maior pragmatismo e convergência de pensamento, com perspectivas de retomarmos o projeto nacional de desenvolvimento, interrompido em 1980.
Fonte: FSP
O colapso do bloco soviético escancarou o fracasso do planejamento central e acabou com o seu mito. A queda do Muro de Berlim, em 1989, marcou o fim da ideologia do socialismo autoritário abraçado pelas esquerdas e, desde então, passou a prevalecer o outro extremo conservador com o mito do mercado livre, eficiente e que se autorregula. A grande crise e o colapso do sistema financeiro nos EUA e na Europa, em 2008, tornaram a intervenção maciça do Estado uma necessidade absoluta, marcando o fim dessa ideologia neoliberal.
Com o degelo das duas ideologias e a destruição de dois mitos poderosos, o planejamento central e o mercado livre e eficiente, abre-se neste início de década um período que deverá ser muito fértil para a revisão de todo o pensamento econômico com grande liberdade de pensar e abrindo espaço para posições mais pragmáticas e livres dos grilhões das ideologias e dos mitos.
As consequências desse degelo das grandes ideologias terão enorme repercussão. No Brasil, sabidamente a partir da década de 90, a opinião pública foi dominada pelo pensamento neoliberal. As políticas públicas passaram a ser formuladas com base na perspectiva de que, quanto menos Estado, melhor.
Mas os setores que abraçaram o neoliberalismo no Brasil, aliando-se politicamente aos conservadores, não levaram até as últimas consequências a destruição do Estado. Retirou-se da função-objetivo do Estado a promoção do desenvolvimento econômico e mesmo a geração de emprego. Destruiu-se a capacitação técnica de pensar e planejar a longo prazo e, estrategicamente, o futuro do país, supostamente um segmento dominado pelas esquerdas intervencionistas, e manteve-se intacto dentro do Estado o atraso: o segmento patrimonialista, clientelista e burocrático. Paradoxalmente, o neoliberalismo brasileiro impõe uma carga tributária e um imenso custo Brasil que sufocam o mercado.
Agora, abre-se um período de reflexão sem os mitos e dogmas do livre mercado que cerceavam o livre pensar, estabeleciam os limites do que pessoas sérias e respeitáveis poderiam falar. Falar em desenvolvimento econômico deixou de ser assunto de economista desocupado, como censurava um ministro do governo anterior. A política macroeconômica está incorporando o crescimento e a geração de emprego como seus principais objetivos. Controlar o fluxo de capitais e administrar a taxa de câmbio está deixando de ser uma obscenidade. Deficit público para fazer política anticíclica tem o apoio de todos. O Banco Central, pelo resultado da última reunião do Copom, parece começar a se libertar da cegueira imposta pelo pensamento ortodoxo. Com isso, abre-se a possibilidade de nos livrarmos da taxa de juros mais alta do mundo e da taxa de câmbio apreciada que está desindustrializando e transferindo empregos para o exterior.
Em suma, o Brasil está se libertando dos grilhões e da cegueira imposta pelo pensamento dominante no último quarto de século. Com isso, caminhamos para maior pragmatismo e convergência de pensamento, com perspectivas de retomarmos o projeto nacional de desenvolvimento, interrompido em 1980.
Fonte: FSP
domingo, 21 de março de 2010
sábado, 20 de março de 2010
Metaphors of a magnifico, Wallace Stevens
Twenty men crossing a bridge,
Into a village,
Are twenty men crossing twenty bridges,
Into twenty villages,
Or one man
Crossing a single bridge into a village.
This is old song
That will not declare itself . . .
Twenty men crossing a bridge,
Into a village,
Are
Twenty men crossing a bridge
Into a village.
That will not declare itself
Yet is certain as meaning . . .
The boots of the men clump
On the boards of the bridge.
The first white wall of the village
Rises through fruit-trees.
Of what was it I was thinking?
So the meaning escapes.
The first white wall of the village...
The fruit-trees...
Into a village,
Are twenty men crossing twenty bridges,
Into twenty villages,
Or one man
Crossing a single bridge into a village.
This is old song
That will not declare itself . . .
Twenty men crossing a bridge,
Into a village,
Are
Twenty men crossing a bridge
Into a village.
That will not declare itself
Yet is certain as meaning . . .
The boots of the men clump
On the boards of the bridge.
The first white wall of the village
Rises through fruit-trees.
Of what was it I was thinking?
So the meaning escapes.
The first white wall of the village...
The fruit-trees...
sexta-feira, 19 de março de 2010
The big bank fix
Artigo bastante esclarecedor do Robert Skidelsky sobre as dificuldades políticas de reformas do setor bancário americano.
Two alternative approaches dominate current discussions about banking reform: break-up and regulation. The debate goes back to the early days of US President Franklin D. Roosevelt’s “New Deal,” which pitted “trust-busters” against regulators.
In banking, the trust-busters won the day with the Glass-Steagall Act of 1933, which divorced commercial banking from investment banking and guaranteed bank deposits. With the gradual dismantling of Glass-Steagall, and its final repeal in 1999, bankers triumphed over both the busters and the regulators, while maintaining deposit insurance for the commercial banks. It was this largely unregulated system that came crashing down in 2008, with global repercussions.
At the core of preventing another banking crash is solving the problem of moral hazard – the likelihood that a risk-taker who is insured against loss will take more risks. In most countries, if a bank in which I place my money goes bust, the government, not the bank, compensates me. Additionally, the central bank acts as “lender of last resort” to commercial banks considered “too big to fail.” As a result, banks enjoying deposit insurance and access to central bank funds are free to gamble with their depositors’ money; they are “banks with casinos attached to them” in the words of John Kay.
The danger unleashed by sweeping away the Glass-Steagall barrier to moral hazard became clear after Lehman Brothers was allowed to fail in September 2008. Bail-out facilities were then extended ad hoc to investment banks, mortgage providers, and big insurers like AIG, protecting managers, creditors, and stock-holders against loss. (Goldman Sachs became eligible for subsidized Fed loans by turning itself into a holding company). The main part of the banking system was able to take risks without having to foot the bill for failure. Public anger apart, such a system is untenable.
Premature rejection of bank nationalization has left us with the same two alternatives as in 1933: break-up or regulation. Taking his cue from Paul Volcker, a former chairman of the US Federal Reserve, President Barack Obama has proposed a modern form of Glass-Steagall.
Under the Obama-Volcker proposals, commercial banks would be forbidden to engage in proprietary trading – trading on their own account – and from owning hedge funds and private-equity firms. Moreover, they would be limited in their holding of derivative instruments, and Obama has suggested that no commercial bank should hold more than 10% of national deposits. The main idea is to reduce the risks that can be taken by any financial institution that is backed by the federal government.
The alternative regulatory approach, promoted by Nobel Laureate Paul Krugman and the chairman of Britain’s Financial Service Authority, Adair Turner, seeks to use regulation to limit risk-taking without changing the structure of the banking system. A new portfolio of regulations would increase banks’ capital requirements, limit the debt that they could take on, and establish a Consumer Financial Protection Agency to protect naïve borrowers against predatory lending.
This is not an either-or matter. In testimony to the Senate Banking Committee in early February, MIT’s Simon Johnson endorsed the Volcker approach, but also favored strengthening commercial banks’ capital ratios “dramatically” – from about 7% to 25% – and improving bankruptcy procedures through a “living will,” which would freeze some assets, but not others.
Many details of the Obama package are unlikely to survive (if, indeed, the plan itself does). But there are powerful arguments against the principles of his approach. Critics point out that “plain old bad lending” by the commercial banks accounted for 90% of banks’ losses. The classic case is Britain’s Royal Bank of Scotland, which is not an investment bank.
The commercial banks’ main losses were incurred in the residential and commercial housing market. The remedy here is not to break up the banks, but to limit bank loans to this sector – say, by forcing them to hold a certain proportion of mortgages on their books, and by increasing the capital that needs to be held against loans for commercial real estate.
Moreover, many countries with integrated banking systems did not have to bail out any of their financial institutions. Canada’s banks were not too big to fail – just too boring to fail. There is nothing in Canada to rival the power of Wall Street or the City of London. This enabled the government to swim against the tide of financial innovation and de-regulation. It is countries like the US and Britain, with politically dominant financial sectors competing to take over financial leadership of the world, that suffered the heaviest losses.
This is the point that the well-intentioned regulators miss. At root, the battle between the two approaches is a question of power, not of technical financial economics. As Johnson pointed out in his Congressional testimony, “solutions that depend on smarter, better regulatory supervision and corrective action ignore the political constraint on regulation and the political power of big banks.”
Such proposed solutions assume that regulators will be able to identify excess risks, prevent banks from manipulating the regulations, resist political pressure to leave the banks alone, and impose controversial corrective measures “that will be too complicated to defend in public.” They also assume that governments will have to the courage to back them as their opponents accuse them of socialism and crimes against freedom, innovation, dynamism, and so on. In fact, this chorus of abuse has already started, led by Goldman Sachs Chairman Lloyd Blankfein.
There is another interesting parallel with the New Deal. Roosevelt got the Glass-Steagall Act through Congress within a hundred days of his inauguration. Obama has waited over a year to suggest his bank reform, and it is unlikely to pass. This is not just because the banking crisis in 1933 was greater than today’s crisis; it is because much more powerful financial lobbies now stand between pen and policy. If reformers are to win, they must be prepared to fight the world’s most powerful vested interest.
Fonte: Project Syndicate
Two alternative approaches dominate current discussions about banking reform: break-up and regulation. The debate goes back to the early days of US President Franklin D. Roosevelt’s “New Deal,” which pitted “trust-busters” against regulators.
In banking, the trust-busters won the day with the Glass-Steagall Act of 1933, which divorced commercial banking from investment banking and guaranteed bank deposits. With the gradual dismantling of Glass-Steagall, and its final repeal in 1999, bankers triumphed over both the busters and the regulators, while maintaining deposit insurance for the commercial banks. It was this largely unregulated system that came crashing down in 2008, with global repercussions.
At the core of preventing another banking crash is solving the problem of moral hazard – the likelihood that a risk-taker who is insured against loss will take more risks. In most countries, if a bank in which I place my money goes bust, the government, not the bank, compensates me. Additionally, the central bank acts as “lender of last resort” to commercial banks considered “too big to fail.” As a result, banks enjoying deposit insurance and access to central bank funds are free to gamble with their depositors’ money; they are “banks with casinos attached to them” in the words of John Kay.
The danger unleashed by sweeping away the Glass-Steagall barrier to moral hazard became clear after Lehman Brothers was allowed to fail in September 2008. Bail-out facilities were then extended ad hoc to investment banks, mortgage providers, and big insurers like AIG, protecting managers, creditors, and stock-holders against loss. (Goldman Sachs became eligible for subsidized Fed loans by turning itself into a holding company). The main part of the banking system was able to take risks without having to foot the bill for failure. Public anger apart, such a system is untenable.
Premature rejection of bank nationalization has left us with the same two alternatives as in 1933: break-up or regulation. Taking his cue from Paul Volcker, a former chairman of the US Federal Reserve, President Barack Obama has proposed a modern form of Glass-Steagall.
Under the Obama-Volcker proposals, commercial banks would be forbidden to engage in proprietary trading – trading on their own account – and from owning hedge funds and private-equity firms. Moreover, they would be limited in their holding of derivative instruments, and Obama has suggested that no commercial bank should hold more than 10% of national deposits. The main idea is to reduce the risks that can be taken by any financial institution that is backed by the federal government.
The alternative regulatory approach, promoted by Nobel Laureate Paul Krugman and the chairman of Britain’s Financial Service Authority, Adair Turner, seeks to use regulation to limit risk-taking without changing the structure of the banking system. A new portfolio of regulations would increase banks’ capital requirements, limit the debt that they could take on, and establish a Consumer Financial Protection Agency to protect naïve borrowers against predatory lending.
This is not an either-or matter. In testimony to the Senate Banking Committee in early February, MIT’s Simon Johnson endorsed the Volcker approach, but also favored strengthening commercial banks’ capital ratios “dramatically” – from about 7% to 25% – and improving bankruptcy procedures through a “living will,” which would freeze some assets, but not others.
Many details of the Obama package are unlikely to survive (if, indeed, the plan itself does). But there are powerful arguments against the principles of his approach. Critics point out that “plain old bad lending” by the commercial banks accounted for 90% of banks’ losses. The classic case is Britain’s Royal Bank of Scotland, which is not an investment bank.
The commercial banks’ main losses were incurred in the residential and commercial housing market. The remedy here is not to break up the banks, but to limit bank loans to this sector – say, by forcing them to hold a certain proportion of mortgages on their books, and by increasing the capital that needs to be held against loans for commercial real estate.
Moreover, many countries with integrated banking systems did not have to bail out any of their financial institutions. Canada’s banks were not too big to fail – just too boring to fail. There is nothing in Canada to rival the power of Wall Street or the City of London. This enabled the government to swim against the tide of financial innovation and de-regulation. It is countries like the US and Britain, with politically dominant financial sectors competing to take over financial leadership of the world, that suffered the heaviest losses.
This is the point that the well-intentioned regulators miss. At root, the battle between the two approaches is a question of power, not of technical financial economics. As Johnson pointed out in his Congressional testimony, “solutions that depend on smarter, better regulatory supervision and corrective action ignore the political constraint on regulation and the political power of big banks.”
Such proposed solutions assume that regulators will be able to identify excess risks, prevent banks from manipulating the regulations, resist political pressure to leave the banks alone, and impose controversial corrective measures “that will be too complicated to defend in public.” They also assume that governments will have to the courage to back them as their opponents accuse them of socialism and crimes against freedom, innovation, dynamism, and so on. In fact, this chorus of abuse has already started, led by Goldman Sachs Chairman Lloyd Blankfein.
There is another interesting parallel with the New Deal. Roosevelt got the Glass-Steagall Act through Congress within a hundred days of his inauguration. Obama has waited over a year to suggest his bank reform, and it is unlikely to pass. This is not just because the banking crisis in 1933 was greater than today’s crisis; it is because much more powerful financial lobbies now stand between pen and policy. If reformers are to win, they must be prepared to fight the world’s most powerful vested interest.
Fonte: Project Syndicate
quinta-feira, 18 de março de 2010
Em ceu de brigadeiro..
Para o desespero da nova direita e seus aliados de extrema esquerda, os números da economia brasileira insistem em negar o cenario catastrofico por eles previsto. Os numeros do Caged, com o melhor fevereiro da historia, demonstraram a força da recuperação pós crise, com a recuperação de todas a cadeia produtiva e com ótima distribuição geografica, ou seja a recuperação esta disseminada por todos os setores da economia e, tambem, pelo país.
Neste cenario de forte recuperação e com previsão de um crescimento robusto do PIB para este ano é razoavel a preocupação do Bacen com a inflação, assim como a provável elevação da taxa de juros na próxima reunião. Mante-la no mesmo patamar, foi, me parece, uma decisão correta, mas dificilmente esta decisão será mantida na próxima reunião. Não estou defendendo a sua elevação, apenas reconhecendo que tal possibilidade não é todo desprovida de fundamento econômico. Aindo estou pensando no assunto...
Neste cenario de forte recuperação e com previsão de um crescimento robusto do PIB para este ano é razoavel a preocupação do Bacen com a inflação, assim como a provável elevação da taxa de juros na próxima reunião. Mante-la no mesmo patamar, foi, me parece, uma decisão correta, mas dificilmente esta decisão será mantida na próxima reunião. Não estou defendendo a sua elevação, apenas reconhecendo que tal possibilidade não é todo desprovida de fundamento econômico. Aindo estou pensando no assunto...
quarta-feira, 17 de março de 2010
Campo minado?
Bom artigo, da Luciana Coelho, no jornal da ditabranda, sobre os dilemas da retaliação brasileira aos norte-americanos.
"O Brasil está longe do consenso na decisão final sobre a retaliação aos EUA por conta dos subsídios que o país paga a seus produtores de algodão. A desarmonia é mais evidente no que se refere à propriedade intelectual, quando o ineditismo da medida atravanca o caminho da promessa à prática.
Apesar da publicação das duas listas de alvos possíveis das sanções, a cacofonia de pedidos e resistências internas que marcou a elaboração de ambas volta a aparecer na discussão sobre sua aplicação.
Há divergências entre o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior sobre como aplicar as sanções, se de fato elas devem ser a plena força e sobre como dividir custos e benefícios da decisão -tanto os políticos como os econômicos.
Crescem também as dissonâncias entre setores envolvidos na retaliação, sobretudo os agrícolas e o farmacêutico.
Ao quadro se soma a percepção, do lado brasileiro, de que os EUA tentam minar a discussão por dentro, fazendo ofertas de vantagens e/ou pressões pontuais por setor, na expectativa de que eles passem a pressionar contra as sanções .
Após sete anos, a Organização Mundial do Comércio deu ao Brasil em setembro o direito de aplicar sanções contra os EUA em duas frentes. A primeira é a dos bens. A segunda, inédita, é a retaliação cruzada, que permite medidas em outro setor que não o que originou a disputa. O país escolheu o mais sensível deles para os americanos: propriedade intelectual.
O problema é que nem o Brasil nem seu antagonista sabem como lidar com essa nova carta. Os EUA, por ora, pagam para ver se é blefe. E o Brasil, mesmo tendo um trunfo, pode acabar o jogo com o morto na mão.
Existe consenso razoável de que a retaliação em bens, calculada em US$ 591 milhões para os próximos 12 meses, será efetivada. A dúvida paira sobre a retaliação cruzada, que soma US$ 238 milhões.
Aí, à primeira vista, os focos são direitos de autor sobre produtos audiovisuais (filmes, essencialmente) e em patentes de medicamentos. Ambos deixariam de ser pagos no período de aplicação das sanções.
Mas se há um ponto de convergência entre os brasileiros é que os americanos só ouvem a palavra "genéricos". A ameaça à bilheteria de produções hollywoodianas não recebeu mais do que muxoxos dos EUA e o eco de que querem negociar. Na frente interna, foi vista como impopular (o país afinal abraçou a bandeira do combate à pirataria) e pouco eficaz.
Já o foco nas farmacêuticas, o trunfo, esbarra no custo. As sanções são por período limitado, e quebrar a patente de um genérico para produzi-lo no país por um ou dois anos somente não seduz a indústria.
A saída seria a importação de um determinado medicamento genérico de outro país que já quebrou a patente -a Índia, por exemplo. Ainda assim, discute-se se inserir um terceiro governo na história não abriria um flanco para questionamentos dos EUA na própria OMC.
Do lado brasileiro, há quem ache que a mera possibilidade é suficiente para pressionar os americanos. Há quem acredite, contudo, que Washington só levará Brasília a sério se a ameaça virar fato. E há ainda os que apostam que o governo Obama preferirá pagar a conta, para não empenhar seu caro capital político ao mexer com um programa de subsídios -e um lobby agrícola- enraizado no Congresso norte-americano."
Fonte: FSP
"O Brasil está longe do consenso na decisão final sobre a retaliação aos EUA por conta dos subsídios que o país paga a seus produtores de algodão. A desarmonia é mais evidente no que se refere à propriedade intelectual, quando o ineditismo da medida atravanca o caminho da promessa à prática.
Apesar da publicação das duas listas de alvos possíveis das sanções, a cacofonia de pedidos e resistências internas que marcou a elaboração de ambas volta a aparecer na discussão sobre sua aplicação.
Há divergências entre o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior sobre como aplicar as sanções, se de fato elas devem ser a plena força e sobre como dividir custos e benefícios da decisão -tanto os políticos como os econômicos.
Crescem também as dissonâncias entre setores envolvidos na retaliação, sobretudo os agrícolas e o farmacêutico.
Ao quadro se soma a percepção, do lado brasileiro, de que os EUA tentam minar a discussão por dentro, fazendo ofertas de vantagens e/ou pressões pontuais por setor, na expectativa de que eles passem a pressionar contra as sanções .
Após sete anos, a Organização Mundial do Comércio deu ao Brasil em setembro o direito de aplicar sanções contra os EUA em duas frentes. A primeira é a dos bens. A segunda, inédita, é a retaliação cruzada, que permite medidas em outro setor que não o que originou a disputa. O país escolheu o mais sensível deles para os americanos: propriedade intelectual.
O problema é que nem o Brasil nem seu antagonista sabem como lidar com essa nova carta. Os EUA, por ora, pagam para ver se é blefe. E o Brasil, mesmo tendo um trunfo, pode acabar o jogo com o morto na mão.
Existe consenso razoável de que a retaliação em bens, calculada em US$ 591 milhões para os próximos 12 meses, será efetivada. A dúvida paira sobre a retaliação cruzada, que soma US$ 238 milhões.
Aí, à primeira vista, os focos são direitos de autor sobre produtos audiovisuais (filmes, essencialmente) e em patentes de medicamentos. Ambos deixariam de ser pagos no período de aplicação das sanções.
Mas se há um ponto de convergência entre os brasileiros é que os americanos só ouvem a palavra "genéricos". A ameaça à bilheteria de produções hollywoodianas não recebeu mais do que muxoxos dos EUA e o eco de que querem negociar. Na frente interna, foi vista como impopular (o país afinal abraçou a bandeira do combate à pirataria) e pouco eficaz.
Já o foco nas farmacêuticas, o trunfo, esbarra no custo. As sanções são por período limitado, e quebrar a patente de um genérico para produzi-lo no país por um ou dois anos somente não seduz a indústria.
A saída seria a importação de um determinado medicamento genérico de outro país que já quebrou a patente -a Índia, por exemplo. Ainda assim, discute-se se inserir um terceiro governo na história não abriria um flanco para questionamentos dos EUA na própria OMC.
Do lado brasileiro, há quem ache que a mera possibilidade é suficiente para pressionar os americanos. Há quem acredite, contudo, que Washington só levará Brasília a sério se a ameaça virar fato. E há ainda os que apostam que o governo Obama preferirá pagar a conta, para não empenhar seu caro capital político ao mexer com um programa de subsídios -e um lobby agrícola- enraizado no Congresso norte-americano."
Fonte: FSP
terça-feira, 16 de março de 2010
Rogoff
Importante entrevista com O Rogoff, na edição desta terça-feira do jornal da ditabranda. Recomendo, também, a leitura do artigo de um dos donos do jornal sobre a política externa brasileira. Não concordo, necessariamente, com a opinião do autor, porém é um importante primeiro passo na discussão de um tema ausente nos jornais brasileiros. Já o artigo da Catanheda é um ótimo exemplo do complexo de terceiro mundo que ainda predomina na midia nacional.
FOLHA - O senhor afirma que um grande fluxo de capital pode dar a falsa impressão de que o governo promoveu um forte crescimento. Esse é o caso do Brasil, que deve crescer 6% em 2010?
KENNETH ROGOFF - Não estava me referindo especificamente ao Brasil. Mas um país que tenha forte entrada de capital por cinco anos parecerá que tem uma situação melhor do que tem. Muito desse crescimento que o Brasil terá se deve à base de comparação, com a saída da recessão. O Brasil tem muito para ganhar em produtividade e reformas microeconômicas.
FOLHA - O Brasil e outros emergentes terão de tomar medidas para evitar a alta de suas moedas por conta desse capital?
ROGOFF - É sempre importante ficar de olho nas entradas de capital. Os países nessa situação podem adotar medidas "amigas" do mercado para evitar uma entrada excessiva de recursos, que pode ser inconveniente. Para evitar que o real suba, talvez o governo tenha de adotar medidas nesse sentido.
FOLHA - Algum país conseguiu adotar medidas inteligentes nesse sentido? Qual a sua avaliação sobre o imposto aos investidores estrangeiros no Brasil?
ROGOFF - A Índia e alguns países da Ásia estão prestando muita atenção nesse assunto; o Brasil também. E o Brasil tem mais condições de fazer isso porque tem um mercado financeiro muito mais fluído, o que é bastante saudável. Não tenho visto tantas medidas inteligentes dos países emergentes para evitar que suas moedas tenham excesso de volatilidade. O problema é como fazer.
FOLHA - O esquecimento faz parte da natureza dos mercados?
ROGOFF - Não só dos mercados. As pessoas realmente se esquecem. Além de esquecer, negam que algumas coisas tenham acontecido! As crises financeiras acontecem com uma grande regularidade. A Grécia, que todos olham agora, passou quase toda a sua história em default (calote). O Brasil é um dos países que mais estiveram em moratória. O país esteve em default em um a cada quatro anos. Na Grécia, foi um a cada dois anos. Quantas pessoas sabem que a Grécia tem um histórico pior do que o Brasil? Quase ninguém.
FOLHA - Daqui a quanto tempo a crise atual será esquecida?
ROGOFF - Diria que demora uns 15 anos; é o tempo em que uma criança se torna adolescente e acha que está em um mundo diferente. Imagino que hoje algumas pessoas no Brasil não saibam como era a inflação...
FOLHA - Qual país será a próxima Grécia?
ROGOFF - Há vários países vulneráveis na Europa: Hungria, Espanha, Irlanda, Portugal. Não acredito que a Europa terá tanto sucesso em resolver esses problemas.
FOLHA - E fora da Europa?
ROGOFF - Há um número grande de emergentes com uma situação bastante boa. Brasil e América Latina estão melhores do que a Europa.
FOLHA - Por que poucos países nunca entraram em default?
ROGOFF - Parte da razão é que esses países precisavam mais da comunidade financeira. Mas é uma amostra tão pequena que é difícil saber.
FOLHA - O senhor afirma que um grande fluxo de capital pode dar a falsa impressão de que o governo promoveu um forte crescimento. Esse é o caso do Brasil, que deve crescer 6% em 2010?
KENNETH ROGOFF - Não estava me referindo especificamente ao Brasil. Mas um país que tenha forte entrada de capital por cinco anos parecerá que tem uma situação melhor do que tem. Muito desse crescimento que o Brasil terá se deve à base de comparação, com a saída da recessão. O Brasil tem muito para ganhar em produtividade e reformas microeconômicas.
FOLHA - O Brasil e outros emergentes terão de tomar medidas para evitar a alta de suas moedas por conta desse capital?
ROGOFF - É sempre importante ficar de olho nas entradas de capital. Os países nessa situação podem adotar medidas "amigas" do mercado para evitar uma entrada excessiva de recursos, que pode ser inconveniente. Para evitar que o real suba, talvez o governo tenha de adotar medidas nesse sentido.
FOLHA - Algum país conseguiu adotar medidas inteligentes nesse sentido? Qual a sua avaliação sobre o imposto aos investidores estrangeiros no Brasil?
ROGOFF - A Índia e alguns países da Ásia estão prestando muita atenção nesse assunto; o Brasil também. E o Brasil tem mais condições de fazer isso porque tem um mercado financeiro muito mais fluído, o que é bastante saudável. Não tenho visto tantas medidas inteligentes dos países emergentes para evitar que suas moedas tenham excesso de volatilidade. O problema é como fazer.
FOLHA - O esquecimento faz parte da natureza dos mercados?
ROGOFF - Não só dos mercados. As pessoas realmente se esquecem. Além de esquecer, negam que algumas coisas tenham acontecido! As crises financeiras acontecem com uma grande regularidade. A Grécia, que todos olham agora, passou quase toda a sua história em default (calote). O Brasil é um dos países que mais estiveram em moratória. O país esteve em default em um a cada quatro anos. Na Grécia, foi um a cada dois anos. Quantas pessoas sabem que a Grécia tem um histórico pior do que o Brasil? Quase ninguém.
FOLHA - Daqui a quanto tempo a crise atual será esquecida?
ROGOFF - Diria que demora uns 15 anos; é o tempo em que uma criança se torna adolescente e acha que está em um mundo diferente. Imagino que hoje algumas pessoas no Brasil não saibam como era a inflação...
FOLHA - Qual país será a próxima Grécia?
ROGOFF - Há vários países vulneráveis na Europa: Hungria, Espanha, Irlanda, Portugal. Não acredito que a Europa terá tanto sucesso em resolver esses problemas.
FOLHA - E fora da Europa?
ROGOFF - Há um número grande de emergentes com uma situação bastante boa. Brasil e América Latina estão melhores do que a Europa.
FOLHA - Por que poucos países nunca entraram em default?
ROGOFF - Parte da razão é que esses países precisavam mais da comunidade financeira. Mas é uma amostra tão pequena que é difícil saber.
segunda-feira, 15 de março de 2010
domingo, 14 de março de 2010
sábado, 13 de março de 2010
Reflexão n°.1, Murilo Mendes
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
sexta-feira, 12 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
O dólar de duas cabeças
Interessante artigo do Vinicius Torres no jornal da Ditabranda. Confesso que não havia, ainda, pensado no assunto. O argumento do Dib é interessante, mas não de todo convincente.
O Brasil terá duas instituições oficiais com poder e fundos para intervir na taxa de câmbio? Isto é, que possam vender e comprar dólares, de modo a interferir na cotação da moeda americana, em reais? Desde a criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB), em 2008, a hipótese está na cabeça do mercado. Com a regulamentação do Conselho Deliberativo do FSB, em fevereiro, o tema ressurgiu. Ou seja, suspeita-se que, além do Banco Central, o Tesouro possa intervir no câmbio.
O FSB é o cofre que guarda o que o governo chama de sobras do superavit primário, daquilo que poupa anualmente. O dinheiro do FSB seria usado como reserva para anos recessivos e de baixa arrecadação.
Enquanto não é utilizada, tal reserva poderia ser aplicada em títulos estrangeiros. Logo, o fundo pode comprar dólares. A Secretaria-Executiva do Conselho do FSB ficou com a Secretaria do Tesouro, da Fazenda. O Conselho é composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central.
Darwin Dib, economista do Itaú Unibanco, explicita a suspeita do mercado, em relatório do banco. Sob o subtítulo "O Céu é o Limite", Dib começa assim seu texto: "O Tesouro pode agora intervir à vontade no mercado de câmbio".
Hoje, só o Banco Central intervém no câmbio. Compra dólares para as reservas internacionais ou os vende, a depender da situação do mercado.
Em nome do Tesouro, o Banco do Brasil compra moeda estrangeira apenas o bastante para pagar a dívida externa. O Tesouro não tinha, pois, como acumular reservas: o que entrava saía. Com o FSB, poderia haver um segundo caixa cambial.
Uma instituição financeira federal, o Banco do Brasil, seria o agente financeiro do FSB. Na verdade, um Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização seria constituído no BB a fim de operar para o FSB.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse várias vezes a esta coluna que o objetivo do FSB não seria intervir no câmbio. Segundo Mantega, as compras de dólares do FSB seriam espaçadas, vinculadas apenas à "otimização" dos recursos do fundo. Dizia ainda Mantega que tais compras seriam discutidas com o BC de modo a não causar "ruído" na atuação do governo (BC) sobre o câmbio. De resto, o governo não faria mais dívida a fim de engordar o fundo a fim de intervir no câmbio.
Dib argumenta que o Tesouro, entenda-se a Fazenda, vez e outra se manifesta sobre o nível ideal do câmbio, coisa que o BC se recusa a fazer. No regime de metas de inflação, em tese o câmbio flutua livremente. A meta do BC é a inflação, não o preço do real. Um novo agente oficial no câmbio pode dar ao mercado ideias de pisos e tetos de cotação da moeda. Mais, pode cometer intervenções excessivas e desnecessárias no mercado. O que por sua vez poderia suscitar reações do BC.
O FSB, de resto, agiria de modo "invisível", sustenta Dib. Diferentemente das ações do BC, as supostas e possíveis ações do Tesouro não apareceriam nos canais que o mercado observa a fim de verificar o que se passa com fluxos e apostas dos agentes privados (posição dos bancos, variação das reservas internacionais).
Em suma, o texto de Dib diz que o FSB (Fazenda) pode atravessar o samba do câmbio do BC.
Fonte: UOL
O Brasil terá duas instituições oficiais com poder e fundos para intervir na taxa de câmbio? Isto é, que possam vender e comprar dólares, de modo a interferir na cotação da moeda americana, em reais? Desde a criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB), em 2008, a hipótese está na cabeça do mercado. Com a regulamentação do Conselho Deliberativo do FSB, em fevereiro, o tema ressurgiu. Ou seja, suspeita-se que, além do Banco Central, o Tesouro possa intervir no câmbio.
O FSB é o cofre que guarda o que o governo chama de sobras do superavit primário, daquilo que poupa anualmente. O dinheiro do FSB seria usado como reserva para anos recessivos e de baixa arrecadação.
Enquanto não é utilizada, tal reserva poderia ser aplicada em títulos estrangeiros. Logo, o fundo pode comprar dólares. A Secretaria-Executiva do Conselho do FSB ficou com a Secretaria do Tesouro, da Fazenda. O Conselho é composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central.
Darwin Dib, economista do Itaú Unibanco, explicita a suspeita do mercado, em relatório do banco. Sob o subtítulo "O Céu é o Limite", Dib começa assim seu texto: "O Tesouro pode agora intervir à vontade no mercado de câmbio".
Hoje, só o Banco Central intervém no câmbio. Compra dólares para as reservas internacionais ou os vende, a depender da situação do mercado.
Em nome do Tesouro, o Banco do Brasil compra moeda estrangeira apenas o bastante para pagar a dívida externa. O Tesouro não tinha, pois, como acumular reservas: o que entrava saía. Com o FSB, poderia haver um segundo caixa cambial.
Uma instituição financeira federal, o Banco do Brasil, seria o agente financeiro do FSB. Na verdade, um Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização seria constituído no BB a fim de operar para o FSB.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse várias vezes a esta coluna que o objetivo do FSB não seria intervir no câmbio. Segundo Mantega, as compras de dólares do FSB seriam espaçadas, vinculadas apenas à "otimização" dos recursos do fundo. Dizia ainda Mantega que tais compras seriam discutidas com o BC de modo a não causar "ruído" na atuação do governo (BC) sobre o câmbio. De resto, o governo não faria mais dívida a fim de engordar o fundo a fim de intervir no câmbio.
Dib argumenta que o Tesouro, entenda-se a Fazenda, vez e outra se manifesta sobre o nível ideal do câmbio, coisa que o BC se recusa a fazer. No regime de metas de inflação, em tese o câmbio flutua livremente. A meta do BC é a inflação, não o preço do real. Um novo agente oficial no câmbio pode dar ao mercado ideias de pisos e tetos de cotação da moeda. Mais, pode cometer intervenções excessivas e desnecessárias no mercado. O que por sua vez poderia suscitar reações do BC.
O FSB, de resto, agiria de modo "invisível", sustenta Dib. Diferentemente das ações do BC, as supostas e possíveis ações do Tesouro não apareceriam nos canais que o mercado observa a fim de verificar o que se passa com fluxos e apostas dos agentes privados (posição dos bancos, variação das reservas internacionais).
Em suma, o texto de Dib diz que o FSB (Fazenda) pode atravessar o samba do câmbio do BC.
Fonte: UOL
quarta-feira, 10 de março de 2010
On J.D. Salinger
Michael Greenberg, apresenta uma leitura concisa,mas interessante, do Salinger, um dos melhores escritores americanos.
"Rereading J.D. Salinger after his death on January 27, I am struck by an improbable connection between his work and that of Jack Kerouac. Both were writing in the late Forties and Fifties, from opposite ends of the social spectrum, but with a relentless ethos of nonconformism at the center of their fiction. Salinger, however, has none of Kerouac's easy American Romanticism, much less his patriotic celebration of the open road. Salinger's world is one of constricted New York spaces: bathrooms, restaurants, hotel rooms, buses, a tiny obstructed table in a piano bar where one barely has room enough to sit down. The high cost of not conforming is far more palpable in Salinger than in Kerouac. For Salinger's characters, to be different isn't a choice but a kind of incurable affliction, a source of existential crisis rather than social liberation.
There's no alternative "lifestyle" for Holden Caulfield or the members of the Glass family to retreat to, as there is for the Beats, no group of like-minded adventurers. Salinger's characters aren't after thrills. Their quest is for an impossible purity that drives them away from the workaday world, toward a dangerous, self-burying seclusion. "We're...freaks with freakish standards," says Zooey Glass to his sister Franny. "We're the Tattooed Lady, and we're never going to have a minute's peace, the rest of our lives, till everybody else is tattooed, too."
Salinger's subject is the burden of having these freakish standards, of being what Tolstoy called "an aristocrat of the spirit." His freaks are the sort most people would envy—good-looking, witty, talented, well off. But they are paralyzed by their uncompromising sensibility. Franny, a gifted actress, abruptly quits the stage to seek the attainment of satori through repetitive, entrancing prayer. Acting embarrasses her. "I began to feel like such a nasty little egomaniac," she tells her boyfriend. The boyfriend accuses her of behaving as if "you're the only person in the world that's got any goddam sense." He wonders if maybe she's afraid to compete. "It's just the opposite," says Franny.
Don't you see that? I'm afraid I will compete—that's what scares me.... Just because I'm so horribly conditioned to accept everybody else's values, and just because I like applause and people to rave about me, doesn't make it right. I'm ashamed of it. I'm sick of it. I'm sick of not having the courage to be an absolute nobody.
Effortlessly distinguished, Franny seems the furthest you can be from a nobody; in Salinger's world this becomes the logical reason for wanting to be one.
Holden Caulfield in The Catcher in the Rye is beset by a similar crisis of authenticity. It isn't merely that most people are "phony"; the deeper problem is that sincerity itself is suspect. Like the members of the Glass family, Holden lives in a hell of second-guessing, in which every motive—even those behind seemingly altruistic acts—is potentially corrupt. He demands a purity that is impossible because it opposes the basic machinery of human nature. Thus, to be a high-minded lawyer, for instance, who goes about "saving innocent guys' lives," would be tainted by the fact that you wouldn't know
if you did it because you really wanted to save guys' lives, or...you did it because what you real ly wanted to do was be a terrific lawyer, with everybody slapping you on the back and congratulating you in court when the goddam trial was over.... How would you know you weren't being a phony? The trouble is, you wouldn't.
Intent is given equal moral weight to action, even when intent can't be definitively known. Under the circumstances, the only solution is the renunciation of ambition itself. Salinger's characters are like aspiring monks with no religion.
Throughout Salinger's fiction there is a highly defined, consistent aesthetic, so exacting that it negates creative action itself. In The Catcher in the Rye, a virtuosic jazz pianist has stooped to "dumb, show-offy ripples in the high notes, and a lot of other very tricky stuff that gives me a pain in the ass." The people in the club listening to the pianist roar their approval, "the same morons that laugh like hyenas in the movies at stuff that isn't funny." Attending a Broadway play starring the universally worshiped actors Alfred Lunt and Lynn Fontanne, Holden remarks, "They were good, but they were too good." The delivery of their lines was
supposed to be like people really talking and interrupting each other and all. The trouble was, it was too much like people talking and interrupting each other.... If you do something too good, then, after a while, if you don't watch it, you start showing off. And then you're not as good any more.
Holden is instinctively postmodern, too knowing to suspend disbelief, and hyperaware of the motif or trope that is behind every formal performance. At Radio City Music Hall
a guy came out in a tuxedo and roller skates on, and started skating under a bunch of little tables, and telling jokes while he did it. He was a very good skater and all, but I couldn't enjoy it much because I kept picturing him practicing to be a guy that roller-skates on the stage.
To be a true artist, the performer must give up being on stage.
Near the end of the novel Holden has an elaborate fantasy of living in seclusion in a cabin in the country. "I'd have this rule that nobody could do anything phony when they visited me. If anybody tried to do anything phony, they couldn't stay." Holden doesn't make good on the fantasy, but his creator did, living reclusively in Cornish, New Hampshire, for more than fifty years, in what appears to have been a state of relative contentment. According to Salinger he continued to write about the Glass family during those years. He declined to publish these books, if that's what they are, while he was alive, disgusted perhaps with the vagaries of "ego, ego, ego. My own and everybody else's," as Franny put it. He seemed to regard his literary success as a moral stain. It would be hard to think of a contemporary American writer whose personal life was more true to the ethos of his fiction."
Fonte: NYBooks
"Rereading J.D. Salinger after his death on January 27, I am struck by an improbable connection between his work and that of Jack Kerouac. Both were writing in the late Forties and Fifties, from opposite ends of the social spectrum, but with a relentless ethos of nonconformism at the center of their fiction. Salinger, however, has none of Kerouac's easy American Romanticism, much less his patriotic celebration of the open road. Salinger's world is one of constricted New York spaces: bathrooms, restaurants, hotel rooms, buses, a tiny obstructed table in a piano bar where one barely has room enough to sit down. The high cost of not conforming is far more palpable in Salinger than in Kerouac. For Salinger's characters, to be different isn't a choice but a kind of incurable affliction, a source of existential crisis rather than social liberation.
There's no alternative "lifestyle" for Holden Caulfield or the members of the Glass family to retreat to, as there is for the Beats, no group of like-minded adventurers. Salinger's characters aren't after thrills. Their quest is for an impossible purity that drives them away from the workaday world, toward a dangerous, self-burying seclusion. "We're...freaks with freakish standards," says Zooey Glass to his sister Franny. "We're the Tattooed Lady, and we're never going to have a minute's peace, the rest of our lives, till everybody else is tattooed, too."
Salinger's subject is the burden of having these freakish standards, of being what Tolstoy called "an aristocrat of the spirit." His freaks are the sort most people would envy—good-looking, witty, talented, well off. But they are paralyzed by their uncompromising sensibility. Franny, a gifted actress, abruptly quits the stage to seek the attainment of satori through repetitive, entrancing prayer. Acting embarrasses her. "I began to feel like such a nasty little egomaniac," she tells her boyfriend. The boyfriend accuses her of behaving as if "you're the only person in the world that's got any goddam sense." He wonders if maybe she's afraid to compete. "It's just the opposite," says Franny.
Don't you see that? I'm afraid I will compete—that's what scares me.... Just because I'm so horribly conditioned to accept everybody else's values, and just because I like applause and people to rave about me, doesn't make it right. I'm ashamed of it. I'm sick of it. I'm sick of not having the courage to be an absolute nobody.
Effortlessly distinguished, Franny seems the furthest you can be from a nobody; in Salinger's world this becomes the logical reason for wanting to be one.
Holden Caulfield in The Catcher in the Rye is beset by a similar crisis of authenticity. It isn't merely that most people are "phony"; the deeper problem is that sincerity itself is suspect. Like the members of the Glass family, Holden lives in a hell of second-guessing, in which every motive—even those behind seemingly altruistic acts—is potentially corrupt. He demands a purity that is impossible because it opposes the basic machinery of human nature. Thus, to be a high-minded lawyer, for instance, who goes about "saving innocent guys' lives," would be tainted by the fact that you wouldn't know
if you did it because you really wanted to save guys' lives, or...you did it because what you real ly wanted to do was be a terrific lawyer, with everybody slapping you on the back and congratulating you in court when the goddam trial was over.... How would you know you weren't being a phony? The trouble is, you wouldn't.
Intent is given equal moral weight to action, even when intent can't be definitively known. Under the circumstances, the only solution is the renunciation of ambition itself. Salinger's characters are like aspiring monks with no religion.
Throughout Salinger's fiction there is a highly defined, consistent aesthetic, so exacting that it negates creative action itself. In The Catcher in the Rye, a virtuosic jazz pianist has stooped to "dumb, show-offy ripples in the high notes, and a lot of other very tricky stuff that gives me a pain in the ass." The people in the club listening to the pianist roar their approval, "the same morons that laugh like hyenas in the movies at stuff that isn't funny." Attending a Broadway play starring the universally worshiped actors Alfred Lunt and Lynn Fontanne, Holden remarks, "They were good, but they were too good." The delivery of their lines was
supposed to be like people really talking and interrupting each other and all. The trouble was, it was too much like people talking and interrupting each other.... If you do something too good, then, after a while, if you don't watch it, you start showing off. And then you're not as good any more.
Holden is instinctively postmodern, too knowing to suspend disbelief, and hyperaware of the motif or trope that is behind every formal performance. At Radio City Music Hall
a guy came out in a tuxedo and roller skates on, and started skating under a bunch of little tables, and telling jokes while he did it. He was a very good skater and all, but I couldn't enjoy it much because I kept picturing him practicing to be a guy that roller-skates on the stage.
To be a true artist, the performer must give up being on stage.
Near the end of the novel Holden has an elaborate fantasy of living in seclusion in a cabin in the country. "I'd have this rule that nobody could do anything phony when they visited me. If anybody tried to do anything phony, they couldn't stay." Holden doesn't make good on the fantasy, but his creator did, living reclusively in Cornish, New Hampshire, for more than fifty years, in what appears to have been a state of relative contentment. According to Salinger he continued to write about the Glass family during those years. He declined to publish these books, if that's what they are, while he was alive, disgusted perhaps with the vagaries of "ego, ego, ego. My own and everybody else's," as Franny put it. He seemed to regard his literary success as a moral stain. It would be hard to think of a contemporary American writer whose personal life was more true to the ethos of his fiction."
Fonte: NYBooks
terça-feira, 9 de março de 2010
Comunicado MRE-Camex sobre o contencioso do algodão
Decisão correta, mas deve ser vista como ponto de partida para negociações. Não deixa, contudo, de ser um marco, já que o Brasil foi, segundo o FT, o primeiro país em desenvolvimento a tomar tal iniciativa contra os USA e torna-se ainda mais significativo quando se leva em consideração que, como relatado no mesmo jornal,' many years ago a US trade delegate “negotiating” with his Australian counterpart allegedly leant across the table and said: “We eat countries like you for breakfast.” Não se deve, obviamente, exagerar o simbolismo, tão pouco despreza-lo.
"Foi publicada hoje (8/3) a lista final de bens, aprovada pelo Conselho de Ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex), que terão suas alíquotas de Imposto de Importação majoradas para os Estados Unidos da América, conforme autorização do Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) de, 19 de novembro de 2009, no contencioso EUA – Subsídios ao Algodão (DS267). A OMC também foi notificada hoje da mesma lista.
A resolução da Camex entrará em vigor no prazo de trinta dias.
O valor total de retaliação atingido com a lista de bens é de US$ 591 milhões. O restante do valor de retaliação a que tem direito o Brasil – US$ 238 milhões (perfazendo o total autorizado de US$ 829 milhões) – será aplicado nos setores de propriedade intelectual e serviços.
O valor da retaliação autorizado ao Brasil e determinado pelos árbitros da OMC é o segundo maior da história da OMC e decorre do descumprimento, pelos EUA, das determinações dos painéis e do órgão de apelação da OMC, que por quatro vezes confirmaram a incompatibilidade dos subsídios norte-americanos para seus produtores e exportadores de algodão com as regras multilaterais de comércio. As contramedidas autorizadas poderão vigorar enquanto os EUA mantiverem a atual situação de descumprimento dessas regras.
A autorização concedida ao Brasil para aplicar contramedidas, também nas áreas de serviços e propriedade intelectual, é o reconhecimento, pela OMC de que, no presente caso, não seria “praticável” ou “efetivo” adotar contramedidas apenas na área de bens e de que “as circunstâncias são suficientemente sérias” para justificar recursos a medidas em outras áreas, para induzir os EUA a observarem as decisões das mais altas instâncias da OMC. A lista de bens será complementada, no curto prazo, por lista de medidas na área de direitos de propriedade intelectual e outros, uma vez concluído o processo de consulta pública, que deverá ser iniciado até a próxima reunião da Camex, prevista para 23 de março.
O governo brasileiro lamenta ter que adotar as presentes medidas, pois acredita que a retaliação comercial não é o meio mais apropriado para lograr um comércio internacional em bases mais justas. Contudo, após quase oito anos de litígio e mais de quatro anos de descumprimento pelos EUA das decisões do órgão de Solução de Controvérsias, e na ausência do oferecimento de opções concretas e realistas que pudessem permitir a negociação de uma solução satisfatória para o contencioso, resta ao Brasil fazer valer seu direito, autorizado pela OMC. Dessa forma, busca o País salvaguardar a credibilidade e legitimidade do sistema de solução de controvérsias daquela Organização.
O Brasil permanece aberto a um diálogo com os EUA que facilite a busca de solução mutuamente satisfatória para o contencioso."
"Foi publicada hoje (8/3) a lista final de bens, aprovada pelo Conselho de Ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex), que terão suas alíquotas de Imposto de Importação majoradas para os Estados Unidos da América, conforme autorização do Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) de, 19 de novembro de 2009, no contencioso EUA – Subsídios ao Algodão (DS267). A OMC também foi notificada hoje da mesma lista.
A resolução da Camex entrará em vigor no prazo de trinta dias.
O valor total de retaliação atingido com a lista de bens é de US$ 591 milhões. O restante do valor de retaliação a que tem direito o Brasil – US$ 238 milhões (perfazendo o total autorizado de US$ 829 milhões) – será aplicado nos setores de propriedade intelectual e serviços.
O valor da retaliação autorizado ao Brasil e determinado pelos árbitros da OMC é o segundo maior da história da OMC e decorre do descumprimento, pelos EUA, das determinações dos painéis e do órgão de apelação da OMC, que por quatro vezes confirmaram a incompatibilidade dos subsídios norte-americanos para seus produtores e exportadores de algodão com as regras multilaterais de comércio. As contramedidas autorizadas poderão vigorar enquanto os EUA mantiverem a atual situação de descumprimento dessas regras.
A autorização concedida ao Brasil para aplicar contramedidas, também nas áreas de serviços e propriedade intelectual, é o reconhecimento, pela OMC de que, no presente caso, não seria “praticável” ou “efetivo” adotar contramedidas apenas na área de bens e de que “as circunstâncias são suficientemente sérias” para justificar recursos a medidas em outras áreas, para induzir os EUA a observarem as decisões das mais altas instâncias da OMC. A lista de bens será complementada, no curto prazo, por lista de medidas na área de direitos de propriedade intelectual e outros, uma vez concluído o processo de consulta pública, que deverá ser iniciado até a próxima reunião da Camex, prevista para 23 de março.
O governo brasileiro lamenta ter que adotar as presentes medidas, pois acredita que a retaliação comercial não é o meio mais apropriado para lograr um comércio internacional em bases mais justas. Contudo, após quase oito anos de litígio e mais de quatro anos de descumprimento pelos EUA das decisões do órgão de Solução de Controvérsias, e na ausência do oferecimento de opções concretas e realistas que pudessem permitir a negociação de uma solução satisfatória para o contencioso, resta ao Brasil fazer valer seu direito, autorizado pela OMC. Dessa forma, busca o País salvaguardar a credibilidade e legitimidade do sistema de solução de controvérsias daquela Organização.
O Brasil permanece aberto a um diálogo com os EUA que facilite a busca de solução mutuamente satisfatória para o contencioso."
segunda-feira, 8 de março de 2010
Bresser Pereira e o Irã
Meu querido Mestre, Bresser Pereira, esta coberto de razão. Não sei se ele concorda, mas é um dos melhores intelectuais católicos da atualidade.
"A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, esteve no Brasil na semana passada para convencer nosso governo a apoiar novas sanções econômicas contra o Irã, mas não obteve êxito. Talvez porque os interesses do Brasil nesse caso não sejam os mesmos dos EUA, ou porque nossa avaliação do problema da proliferação nuclear seja diferente da americana.
Depois do Iraque e de suas armas de destruição em massa, o Irã se tornou "o grande problema" da política internacional, e os Estados Unidos e a Europa ameaçam esse país com novas sanções, porque estaria construindo capacidade nuclear. Tenho dúvidas de que seja essa a motivação principal contra o Irã, dada a "lógica" da política internacional americana desde o 11 de Setembro, mas não vou me ater a essa questão.
A pergunta mais importante é: será que o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares é tão relevante para a paz mundial? Há um pressuposto tácito entre os bem pensantes de todo o mundo de que o tratado é fundamental para a paz, de forma que ninguém se dispõe a discuti-lo, mas é preciso fazê-lo.
Dois são seus objetivos formais: impedir que novos países se tornem capazes de produzir armas atômicas e promover o desarmamento nuclear dos países potências nucleares. Entretanto, significativamente, nenhum desses dois objetivos definidos em 1970 está sendo cumprido. Depois do tratado, a Índia, o Paquistão, Israel e provavelmente a Coréia do Norte se tornaram potências nucleares. E não houve sanções maiores contra os três primeiros países. Por outro lado, não tenho notícia da redução que o tratado previa dos arsenais atômicos dos grandes países.
Embora isso não esteja escrito, o objetivo maior do tratado é impedir que "países irresponsáveis" se armem nuclearmente. É impossível não estar de acordo com essa idéia. Mas o que é um país responsável? Por que o Paquistão e Israel são responsáveis enquanto o Irã não é? Não tenho dúvida quanto ao perigo de um país como a Coréia do Norte, enquanto é difícil, para mim, ver mais perigo no Irã do que, por exemplo, no Paquistão. O Irã é um grande país, herdeiro de uma civilização milenar. Entre os países do Oriente Médio, só a Turquia se compara a ele em termos de desenvolvimento. E é um país que se sente gravemente ameaçado desde que realizou sua revolução nacionalista e islâmica, em 1979.
A questão da ameaça é importante. Os grandes países não cumpriram o tratado, não se desarmaram, porque isso não é do seu interesse nem, creio eu, do interesse do resto do mundo. Ainda que haja outras razões para a paz mundial existente entre os grandes países desde 1945, a "détente" nuclear continua a ser uma delas. Nenhum país ousa atacar outro que tenha força nuclear. Ora, se a posse de armas atômicas é uma boa razão para a Rússia ou a para China não atacarem os EUA e vice-versa, por que não seria também uma boa razão para Israel não atacar o Irã e vice-versa? Os israelenses não tiveram dúvida quanto a essa questão. Por que os iranianos teriam menos legitimidade em ter a mesma opinião?
As armas nucleares são um perigo para todo o mundo, mas são também uma razão para que potências nucleares não façam mais guerras entre si. Não vivemos no mundo perfeito dos nossos sonhos, mas isso não se deve à existência de armas nucleares. O mundo tem problemas muito mais graves do que a eventual entrada do Irã no clube das potências nucleares. Vamos tratar desses problemas e deixar o Irã em paz."
Fonte: FSP
domingo, 7 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010
The snow man, Wallace Stevens
One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;
And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter
Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,
Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;
And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter
Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,
Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.
sexta-feira, 5 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
Jurassicos
A direita adora acusar a esquerda jurassica de aparelhamento do Estado, esquecendo, naturalmente, que esta foi sua praxis durante o longo período em que, praticamente, detinha o monopolio do poder político. Este dominio ainda é visto como natural, dai a grita em relação a perda dos privilègios mantidos ao longo dos seculos. Sim, seculos porque esquerda no poder, no grande bananão, ainda é uma raridade. Se esse passado faz do discurso da direita um grande exercicio de hipocrisia não justifica, contudo, o aparelhamento colocado em pratica pela esquerda jurassica.
Ao aparelhamento, o bom uso do companheiro de viagem, um novo elemento veio a somar-se a praxis dos jurassicos: o discurso da pluralidade. Naturalmente, como era de se esperar, tem um significado muito peculiar e criativo, reminiscência, quem sabe, de habito adquirido no passado: democracia popular, movimento pela paz entre os povos e outros cujo significado era justamente o oposto... Há uma outra caracteristica, que explica o diminuto espaço dos jurassicos no governo atual: incompetência.
Ao aparelhamento, o bom uso do companheiro de viagem, um novo elemento veio a somar-se a praxis dos jurassicos: o discurso da pluralidade. Naturalmente, como era de se esperar, tem um significado muito peculiar e criativo, reminiscência, quem sabe, de habito adquirido no passado: democracia popular, movimento pela paz entre os povos e outros cujo significado era justamente o oposto... Há uma outra caracteristica, que explica o diminuto espaço dos jurassicos no governo atual: incompetência.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Direita volver
No campeonato de FEBEAPA brasileiro não é fácil escolher o vencedor: a esquerda jurassica ou a velha/nova direita golpista. As tolices da esquerda são bem conhecidas, já as da direita ainda estão camufladas em editoriais e em um número crescente de artigos de sub-intelectuais. Um bom exemplo é o encontro realizado recentemente e objeto da reportagem da Carta Maior, que republicamos abaixo. Há um ponto em comum entre esses vários sub-intelectuais: militancia, no passado, no PCB, que produziu, aliás, um dos mais famosos quadros da direita brasileira- Carlos Lacerda. O odio dessa turma ao PT é bastante conhecido e independente da opinião que cada um de nos possa ter em relação a este partido, há um merito que é inegável: a inclusão dos trabalhadores na política institucional e ter ajudado a enviar o PCB para o lixo da historia. Restaram, no entanto, os seus orfãos que com seu odio nos ajudam a não esquecer porque foram apeados do poder na europa do leste: sempre foram e continuam a ser os inimigos dos trabalhadores e os melhores aliados da direita...
"Se algum estudante ou profissional de comunicação desavisado pagou os R$ 500,00 que custavam a inscrição do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium, acreditando que os debates no evento girariam em torno das reais ameaças a esses direitos fundamentais, pode ter se surpreendido com a verdadeira aula sobre como organizar uma campanha política que foi dada pelos representantes dos grandes veículos de comunicação nesta segunda-feira, em São Paulo.
Promovido por um instituto defensor de valores como a economia de mercado e o direito à propriedade, e que tem entre seus conselheiros nomes como João Roberto Marinho, Roberto Civita, Eurípedes Alcântara e Pedro Bial, o fórum contou com o apoio de entidades como a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), ANER (Associação Nacional de Editores de Revista), ANJ (Associação Nacional de Jornais) e Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade). E dedicou boa parte das suas discussões ao que os palestrantes consideram um risco para a democracia brasileira: a eleição de Dilma Rousseff.
A explicação foi inicialmente dada pelo sociólogo Demétrio Magnoli, que passou os últimos anos combatendo, nos noticiários e páginas dos grandes veículos, políticas de ação afirmativa como as cotas para negros nas universidades. Segundo ele, no início de sua história, o PT abrangia em sua composição uma diversidade maior de correntes, incluindo a presença de lideranças social-democratas. Hoje, para Magnoli, o partido é um aparato controlado por sindicalistas e castristas, que têm respondido a suas bases pela retomada e restauração de um programa político reminiscente dos antigos partidos comunistas.
“Ao longo das quatro candidaturas de Lula, o PT realizou uma mudança muito importante em relação à economia. Mas ao mesmo tempo em que o governo adota um programa econômico ortodoxo e princípios da economia de mercado, o PT dá marcha ré em todos os assuntos que se referem à democracia. Como contraponto à adesão à economia de mercado, retoma as antigas idéias de partido dirigente e de democracia burguesa, cruciais num ideário anti-democrático, e consolida um aparato partidário muito forte que reduz brutalmente a diversidade política no PT. E este movimento é reforçado hoje pelo cenário de emergência do chavismo e pela aliança entre Venezuela e Cuba”, acredita. “O PT se tornou o maior partido do Brasil como fruto da democracia, mas é ambivalente em relação a esta democracia. Ele celebra a Venezuela de Chávez, aplaude o regime castrista em seus documentos oficiais e congressos, e solta uma nota oficial em apoio ao fechamento da RCTV”, diz.
A RCTV é a emissora de TV venezuelana que não teve sua concessão em canal aberto renovada por descumprir as leis do país e articular o golpe de 2000 contra o presidente Hugo Chávez, cujo presidente foi convidado de honra do evento do Instituto Millenium. Hoje, a RCTV opera apenas no cabo e segue enfrentando o governo por se recusar a cumprir a legislação nacional. Por esta atitude, Marcel Granier é considerado pelos organizadores do Fórum um símbolo mundial da luta pela liberdade de expressão – um direito a que, acreditam, o PT também é contra.
“O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso. Mas no Brasil vivemos um debate democrático e o PT, por intermédio do cerceamento da liberdade de imprensa, propõe subverter a democracia pelos processos democráticos”, declarou o filósofo Denis Rosenfield. “A idéia de controle social da mídia é oficial nos programas do PT. O partido poderia ter se tornado social-democrata, mas decidiu que seu caminho seria de restauração stalinista. E não por acaso o centro desta restauração stalinista é o ataque verbal à liberdade de imprensa e expressão”, completou Magnoli.
O tal ataque
Para os pensadores da mídia de direita, o cerco à liberdade de expressão não é novidade no Brasil. E tal cerceamento não nasce da brutal concentração da propriedade dos meios de comunicação característica do Brasil, mas vem se manifestando há anos em iniciativas do governo Lula, em projetos com o da Ancinav, que pretendia criar uma agência de regulação do setor audiovisual, considerado “autoritário, burocratizante, concentracionista e estatizante” pelos palestrantes do Fórum, e do Conselho Federal de Jornalistas, que tinha como prerrogativa fiscalizar o exercício da profissão no país.
“Se o CFJ tivesse vingado, o governo deteria o controle absoluto de uma atividade cuja liberdade está garantida na Constituição Federal. O veneno antidemocrático era forte demais. Mas o governo não desiste. Tanto que em novembro, o Diretório Nacional do PT aprovou propostas para a Conferência Nacional de Comunicação defendendo mecanismos de controle público e sanções à imprensa”, avalia o articulista do Estadão e conhecido membro da Opus Dei, Carlos Alberto Di Franco.
“Tínhamos um partido que passou 20 anos fazendo guerra de valores, sabotando tentativas, atrapalhadas ou não, de estabilização, e que chegou em 2002 com chances de vencer as eleições. E todos os setores acreditaram que eles não queriam fazer o socialismo. Eles nos ofereceram estabilidade e por isso aceitamos tudo”, lamenta Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja, que faz questão de assumir que Fernando Henrique Cardoso está à sua esquerda e para quem o DEM não defende os verdadeiros valores de direita. “A guerra da democracia do lado de cá esta sendo perdida”, disse, num momento de desespero.
O deputado petista Antonio Palocci, convidado do evento, até tentou tranqüilizar os participantes, dizendo que não vê no horizonte nenhum risco à liberdade de expressão no Brasil e que o Presidente Lula respeita e defende a liberdade de imprensa. O ministro Hélio Costa, velho amigo e conhecido dos donos da mídia, também. “Durante os procedimentos que levaram à Conferência de Comunicação, o governo foi unânime ao dizer que em hipótese alguma aceitaria uma discussão sobre o controle social da mídia. Isso não será permitido discutir, do ponto de vista governamental, porque consideramos absolutamente intocável”, garantiu.
Mas não adiantou. Nesta análise criteriosa sobre o Partido dos Trabalhadores, houve quem teorizasse até sobre os malefícios da militância partidária. Roberto Romano, convidado para falar em uma mesa sobre Estado Democrático de Direito, foi categórico ao atacar a prática política e apresentar elementos para a teoria da conspiração que ali se construía, defendendo a necessidade de surgimento de um partido de direita no país para quebrar o monopólio progressivo da esquerda.
“O partido de militantes é um partido de corrosão de caráter. Você não tem mais, por exemplo, juiz ou jornalista; tem um militante que responde ao seu dirigente partidário (...) Há uma cultura da militância por baixo, que faz com que essas pessoas militem nos órgãos públicos. E a escolha do militante vai até a morte. (...) Você tem grupos políticos nas redações que se dão ao direito de fazer censura. Não é por acaso que o PT tem uma massa de pessoas que considera toda a imprensa burguesa como criminosa e mentirosa”, explica.
O “risco Dilma”
Convictos da imposição pelo presente governo de uma visão de mundo hegemônica e de um único conjunto de valores, que estaria lentamente sedimentando-se no país pelas ações do Presidente Lula, os debatedores do Fórum Democracia e Liberdade de Expressão apresentaram aos cerca de 180 presentes e aos internautas que acompanharam o evento pela rede mundial de computadores os riscos de uma eventual eleição de Dilma Rousseff. A análise é simples: ao contrário de Lula, que possui uma “autonomia bonapartista” em relação ao PT, a sustentação de Dilma depende fundamentalmente do Partido dos Trabalhadores. E isso, por si só, já representa um perigo para a democracia e a liberdade de expressão no Brasil.
“O que está na cabeça de quem pode assumir em definitivo o poder no país é um patrimonialismo de Estado. Lula, com seu temperamento conciliador, teve o mérito real de manter os bolcheviques e jacobinos fora do poder. Mas conheço a cabeça de comunistas, fui do PC, e isso não muda, é feito pedra. O perigo é que a cabeça deste novo patrimonialismo de estado acha que a sociedade não merece confiança. Se sentem realmente superiores a nós, donos de uma linha justa, com direito de dominar e corrigir a sociedade segundo seus direitos ideológicos”, afirma o cineasta e comentarista da Rede Globo, Arnaldo Jabor. “Minha preocupação é que se o próximo governo for da Dilma, será uma infiltração infinitas de formigas neste país. Quem vai mandar no país é o Zé Dirceu e o Vaccarezza. A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo”, alerta Jabor.
Para Denis Rosenfield, ao contrário de Lula, que ganhou as eleições fazendo um movimento para o centro do espectro político, Dilma e o PT radicalizaram o discurso por intermédio do debate de idéias em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos 3, lançado pelo governo no final do ano passado. “Observamos no Brasil tendências cada vez maiores de cerceamento da liberdade de expressão. Além do CFJ e da Ancinav, tem a Conferência Nacional de Comunicação, o PNDH-3 e a Conferência de Cultura. Então o projeto é claro. Só não vê coerência quem não quer”, afirma. “Se muitas das intenções do PT não foram realizadas não foi por ausência de vontades, mas por ausência de condições, sobretudo porque a mídia é atuante”, admite.
Hora de reagir
E foi essa atuação consistente que o Instituto Millenium cobrou da imprensa brasileira. Sair da abstração literária e partir para o ataque.
“Se o Serra ganhasse, faríamos uma festa em termos das liberdades. Seria ruim para os fumantes, mas mudaria muito em relação à liberdade de expressão. Mas a perspectiva é que a Dilma vença”, alertou Demétrio Magnoli.
“Então o perigo maior que nos ronda é ficar abstratos enquanto os outros são objetivos e obstinados, furando nossa resistência. A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí. O mundo hoje é de muita liberdade de expressão, inclusive tecnológica, e isso provoca revolta nos velhos esquerdistas. Por isso tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução. Senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva”, disse Jabor, convocando os presentes para a guerra ideológica.
“Na hora em que a imprensa decidir e passar a defender os valores que são da democracia, da economia de mercado e do individualismo, e que não se vai dar trela para quem quer a solapar, começaremos a mudar uma certa cultura”, prevê Reinaldo Azevedo.
Um último conselho foi dado aos veículos de imprensa: assumam publicamente a candidatura que vão apoiar. Espera-se que ao menos esta recomendação seja seguida, para que a posição da grande mídia não seja conhecida apenas por aqueles que puderam pagar R$ 500,00 pela oficina de campanha eleitoral dada nesta segunda-feira."
Fonte: Carta Maior
terça-feira, 2 de março de 2010
Torres a economia e as eleições
Vinicius Torres,no jornal da ditabranda, apresenta uma boa analise do cenário político/econômico do grande bananão. Discordo, no entanto, do peso que ele da ao Aecio. Ele seria relevante se alterasse o estado de espirito do eleitor, ou seja se conseguisse vender a idéia que em seu governo a sensação de bem estar seria ainda melhor que aquela que prevalece no momento atual. É o campo da subjetividade e não é nada fácil interferir nesta esfera da vida humana...
Na melhor das hipóteses para a oposição, a disputa do eventual candidato tucano José Serra contra a lulista Dilma Rousseff será muito apertada, como ficou muito evidente nos resultados da pesquisa Datafolha, publicada no domingo por esta Folha. Trata-se de um aperto que pode em breve se tornar sufocante para o PSDB e seu ainda inefável candidato.
Os empecilhos maiores da oposição ora parecem os seguintes:
1) pelo menos 42% dos entrevistados pelo Datafolha dizem que votariam "com certeza" num candidato apoiado por Lula. No Nordeste, são 56%. É a região onde há mais resistência ao tucanato, menos base política para o PSDB e, enfim, onde as transformações socioeconômicas dos anos Lula foram sentidas com mais intensidade pelo cidadão comum;
2) Lula, tido como "bom/ótimo" por 73% dos ouvidos na pesquisa, ainda não apareceu oficialmente na TV pedindo votos a Dilma, dia após dia, como no horário eleitoral. Um terço do eleitorado ainda não sabe que Lula apoia Dilma;
3) afora a hipótese de nova catástrofe na economia mundial, a sensação de bem-estar material no Brasil vai crescer ao longo do ano;
4) a oposição não tem "discurso", como se diz. Obviamente, porque não tem candidato. Quando tiver, encontrará um território quase todo ocupado pelo lulismo. No que interessa mais imediatamente ao grosso do eleitorado, o lulismo dirá que transferiu mais renda para os pobres, que houve mais empregos, que a renda subiu, que no tempo do governo da agora oposição (FHC) a vida era pior etc. etc.
Como o cidadão comum ainda não está muito preocupado com a eleição, tucanos mais otimistas podem dizer que o resultado da pesquisa é um tanto impressionista. Ou que Serra lidera mesmo sendo ainda o candidato fantasma, e com a máquina lulista a toda.
Podem notar ainda que cerca de dois terços do eleitorado dizem que não deixariam de votar num candidato só porque ele é da oposição. Que Dilma, dia após dia na TV, pode ser um desastre. Até pode.
Resta saber se o leitor liga para isso. Mas, enfim, o que levaria o eleitor a escolher a oposição? Em épocas de crescimento, desemprego em baixa e menos crimes horrendos na TV, a saúde vai ao primeiro lugar das preocupações do eleitor. Na saúde, não aconteceu nada de impressionante e visível nos anos Lula. Mas é possível cavar quantos votos com isso?
Impostos demais, por exemplo, são sempre um mote. Mas a maioria do eleitorado não sabe quanto paga de impostos, a maioria indiretos. Educação? Pesquisas várias mostram que o povo ficou mais satisfeito com a escola, que continua péssima. Mas há mais material, uniforme e comida que no tempo dos pais das crianças, os eleitores.
E é um tema estadual. E um telhado de vidro também da oposição. Recorrer ao confronto de biografias talvez seja uma saída restante. Nessa eleição apertada, ter um vice puxador de votos, carismático, com bom trânsito no "Brasil, brasileiro" e líder em um Estado cheio de votos e "nacionalista" seria muito conveniente. Trata-se, é claro, de Aécio Neves, de Minas.
Fonte: FSP
Na melhor das hipóteses para a oposição, a disputa do eventual candidato tucano José Serra contra a lulista Dilma Rousseff será muito apertada, como ficou muito evidente nos resultados da pesquisa Datafolha, publicada no domingo por esta Folha. Trata-se de um aperto que pode em breve se tornar sufocante para o PSDB e seu ainda inefável candidato.
Os empecilhos maiores da oposição ora parecem os seguintes:
1) pelo menos 42% dos entrevistados pelo Datafolha dizem que votariam "com certeza" num candidato apoiado por Lula. No Nordeste, são 56%. É a região onde há mais resistência ao tucanato, menos base política para o PSDB e, enfim, onde as transformações socioeconômicas dos anos Lula foram sentidas com mais intensidade pelo cidadão comum;
2) Lula, tido como "bom/ótimo" por 73% dos ouvidos na pesquisa, ainda não apareceu oficialmente na TV pedindo votos a Dilma, dia após dia, como no horário eleitoral. Um terço do eleitorado ainda não sabe que Lula apoia Dilma;
3) afora a hipótese de nova catástrofe na economia mundial, a sensação de bem-estar material no Brasil vai crescer ao longo do ano;
4) a oposição não tem "discurso", como se diz. Obviamente, porque não tem candidato. Quando tiver, encontrará um território quase todo ocupado pelo lulismo. No que interessa mais imediatamente ao grosso do eleitorado, o lulismo dirá que transferiu mais renda para os pobres, que houve mais empregos, que a renda subiu, que no tempo do governo da agora oposição (FHC) a vida era pior etc. etc.
Como o cidadão comum ainda não está muito preocupado com a eleição, tucanos mais otimistas podem dizer que o resultado da pesquisa é um tanto impressionista. Ou que Serra lidera mesmo sendo ainda o candidato fantasma, e com a máquina lulista a toda.
Podem notar ainda que cerca de dois terços do eleitorado dizem que não deixariam de votar num candidato só porque ele é da oposição. Que Dilma, dia após dia na TV, pode ser um desastre. Até pode.
Resta saber se o leitor liga para isso. Mas, enfim, o que levaria o eleitor a escolher a oposição? Em épocas de crescimento, desemprego em baixa e menos crimes horrendos na TV, a saúde vai ao primeiro lugar das preocupações do eleitor. Na saúde, não aconteceu nada de impressionante e visível nos anos Lula. Mas é possível cavar quantos votos com isso?
Impostos demais, por exemplo, são sempre um mote. Mas a maioria do eleitorado não sabe quanto paga de impostos, a maioria indiretos. Educação? Pesquisas várias mostram que o povo ficou mais satisfeito com a escola, que continua péssima. Mas há mais material, uniforme e comida que no tempo dos pais das crianças, os eleitores.
E é um tema estadual. E um telhado de vidro também da oposição. Recorrer ao confronto de biografias talvez seja uma saída restante. Nessa eleição apertada, ter um vice puxador de votos, carismático, com bom trânsito no "Brasil, brasileiro" e líder em um Estado cheio de votos e "nacionalista" seria muito conveniente. Trata-se, é claro, de Aécio Neves, de Minas.
Fonte: FSP
segunda-feira, 1 de março de 2010
Bresser Pereira e impostos sobre os ricos
Gostei do artigo do velho mestre Bresser Pereira. Acho que ele tem razão em relação ao imposto, mas no grande bananão qualquer proposta socialmente justa ainda que fundamentada na lógica econômica é, em geral, politicamente dificil de ser implementada.
Nos países ricos -nos EUA, na União Europeia, no Japão-, a recuperação depois da crise financeira global de 2008 é lenta e insuficiente. O desemprego continua crescendo e já está em torno de 10% da população economicamente ativa. Apenas as Bolsas se recuperaram; mas isso não decorreu da melhoria da economia real, e sim do fato que os bancos centrais baixaram os juros e inundaram seus países de liquidez.
Dessa forma, essa recuperação é antes causa de preocupação do que de alegria, porque indica novas bolhas especulativas.
A causa desse mau desempenho está no lado da demanda. As empresas desempregam porque não têm para quem vender. Internamente não há fonte de demanda porque as famílias e as empresas estão pagando suas dívidas para recuperar sua solvência. No plano externo, também não há demanda entre os países ricos, porque aqueles que se endividaram (EUA, Espanha e Irlanda, principalmente) precisam pôr em ordem suas contas.
Diante da crise, a solução adotada por todos os países foi uma política fiscal expansionista que evitou o caos econômico. Mas os gastos fiscais não lograram promover uma recuperação sustentada das economias por duas razões: primeiro porque uma parte desse gasto se traduziu em isenção de impostos para os ricos -um tipo de política com baixo efeito multiplicador; segundo porque mesmo os gastos em investimentos não sinalizaram para os investidores privados perspectiva de crescimento sustentado da demanda, mas apenas aumento "once and for all" da demanda.
Que fazer alternativamente? Economistas como Martin Wolf pedem que os países de renda média aumentem suas importações, mas isso já está acontecendo. Como esses países foram menos atingidos pela crise exatamente porque estavam menos endividados, eles já voltaram a crescer de maneira satisfatória e, em consequência, voltaram a aumentar suas importações. O desempenho relativamente bom do Japão no último trimestre, por exemplo, deveu-se principalmente às importações da China.
Não resta, portanto, alternativa para os países ricos senão manter provisoriamente a política fiscal expansionista, até porque ela está sob seu controle. Mas essa política que envolveu deficit públicos perto de 10% do PIB não pode ser simplesmente continuada. A dívida pública dos países ricos tornou-se altíssima: a do Japão já alcança 226% do PIB, a dos EUA, 99,8%, a da França, 92,5%.
Que fazer então? Uma alternativa é financiar o aumento dos gastos do Estado que tenham efeitos multiplicadores criando demanda e emprego e financiá-los com impostos adicionais e progressivos sobre os ricos -sobre aqueles cuja propensão marginal a consumir é relativamente baixa. Dessa forma, o aumento da poupança privada não neutralizará a expansão do gasto público.
Quando escrevi a primeira versão deste artigo, na semana passada, pensei que estava propondo algo arrojado. Mas descobri em seguida que estava "descobrindo a América" pela segunda vez... Não obstante estar em campanha eleitoral, o governo britânico de Gordon Brown já promoveu o aumento do Imposto de Renda progressivo marginal de 40% para 50%. Mais cedo ou mais tarde essa política terá que ser considerada pelos demais países ricos. Nos 30 Anos Gloriosos do Capitalismo (1949-1978), o Imposto de Renda marginal chegou a alcançar 90%. Foi reduzido nos 30 Anos Neoliberais do Capitalismo. Voltará, agora, a ser elevado não apenas por uma questão de justiça mas também de lógica econômica.
Fonte: FSP
Nos países ricos -nos EUA, na União Europeia, no Japão-, a recuperação depois da crise financeira global de 2008 é lenta e insuficiente. O desemprego continua crescendo e já está em torno de 10% da população economicamente ativa. Apenas as Bolsas se recuperaram; mas isso não decorreu da melhoria da economia real, e sim do fato que os bancos centrais baixaram os juros e inundaram seus países de liquidez.
Dessa forma, essa recuperação é antes causa de preocupação do que de alegria, porque indica novas bolhas especulativas.
A causa desse mau desempenho está no lado da demanda. As empresas desempregam porque não têm para quem vender. Internamente não há fonte de demanda porque as famílias e as empresas estão pagando suas dívidas para recuperar sua solvência. No plano externo, também não há demanda entre os países ricos, porque aqueles que se endividaram (EUA, Espanha e Irlanda, principalmente) precisam pôr em ordem suas contas.
Diante da crise, a solução adotada por todos os países foi uma política fiscal expansionista que evitou o caos econômico. Mas os gastos fiscais não lograram promover uma recuperação sustentada das economias por duas razões: primeiro porque uma parte desse gasto se traduziu em isenção de impostos para os ricos -um tipo de política com baixo efeito multiplicador; segundo porque mesmo os gastos em investimentos não sinalizaram para os investidores privados perspectiva de crescimento sustentado da demanda, mas apenas aumento "once and for all" da demanda.
Que fazer alternativamente? Economistas como Martin Wolf pedem que os países de renda média aumentem suas importações, mas isso já está acontecendo. Como esses países foram menos atingidos pela crise exatamente porque estavam menos endividados, eles já voltaram a crescer de maneira satisfatória e, em consequência, voltaram a aumentar suas importações. O desempenho relativamente bom do Japão no último trimestre, por exemplo, deveu-se principalmente às importações da China.
Não resta, portanto, alternativa para os países ricos senão manter provisoriamente a política fiscal expansionista, até porque ela está sob seu controle. Mas essa política que envolveu deficit públicos perto de 10% do PIB não pode ser simplesmente continuada. A dívida pública dos países ricos tornou-se altíssima: a do Japão já alcança 226% do PIB, a dos EUA, 99,8%, a da França, 92,5%.
Que fazer então? Uma alternativa é financiar o aumento dos gastos do Estado que tenham efeitos multiplicadores criando demanda e emprego e financiá-los com impostos adicionais e progressivos sobre os ricos -sobre aqueles cuja propensão marginal a consumir é relativamente baixa. Dessa forma, o aumento da poupança privada não neutralizará a expansão do gasto público.
Quando escrevi a primeira versão deste artigo, na semana passada, pensei que estava propondo algo arrojado. Mas descobri em seguida que estava "descobrindo a América" pela segunda vez... Não obstante estar em campanha eleitoral, o governo britânico de Gordon Brown já promoveu o aumento do Imposto de Renda progressivo marginal de 40% para 50%. Mais cedo ou mais tarde essa política terá que ser considerada pelos demais países ricos. Nos 30 Anos Gloriosos do Capitalismo (1949-1978), o Imposto de Renda marginal chegou a alcançar 90%. Foi reduzido nos 30 Anos Neoliberais do Capitalismo. Voltará, agora, a ser elevado não apenas por uma questão de justiça mas também de lógica econômica.
Fonte: FSP
domingo, 28 de fevereiro de 2010
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Ho sparso di becchime il davanzale, Eugenio Montale
Ho sparso di becchime il davanzale
per il concerto di domani all'alba.
Ho spento il lume e ho atteso il sonno.
E sulla passerella già comincia
la sfilata dei morti grandi e piccoli
che ho conosciuto in vita. Arduo distinguere
tra chi vorrei e non vorrei che fosse
tornato tra noi. Là dove stanno
sembrano inalterabili per un di più
di sublimata corruzione. Abbiamo
fatto del nostro meglio per peggiorare il mondo.
per il concerto di domani all'alba.
Ho spento il lume e ho atteso il sonno.
E sulla passerella già comincia
la sfilata dei morti grandi e piccoli
che ho conosciuto in vita. Arduo distinguere
tra chi vorrei e non vorrei che fosse
tornato tra noi. Là dove stanno
sembrano inalterabili per un di più
di sublimata corruzione. Abbiamo
fatto del nostro meglio per peggiorare il mondo.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Key Letter by Descartes, Lost for 170 Years, Turns Up at Haverford College
O impacto desta descoberta poderá vir a ser o equivalente as cartas do Ricardo encontradas no seculo passado e publicadas na edição das suas obras completas organizada pelo Sraffa.
A long-lost letter by René Descartes has come to light at Haverford College, where it had lain buried in the archives for more than a century, and the discovery could revolutionize our view of one of the 17th-century French philosopher's major works.
The find, made last month by a Dutch researcher, Erik-Jan Bos of Utrecht University, prompted Mr. Bos to quote another great thinker.
"Eureka," he said he yelled on opening a digital image of the letter that Haverford had scanned from its special collections and e-mailed to him. At the time, nobody knew how important the letter was. In fact, few knew of its existence.
But for Haverford, the discovery was a two-edged sword. The letter, Mr. Bos said, was stolen property.
The president of the Pennsylvania college, Stephen G. Emerson, said this week that when he found out the letter had been stolen—from Paris's Institut de France about 170 years ago—he knew it must be returned. So in June, Mr. Emerson will fly to France with the letter in his carry-on bag, and give it back.
Descartes wrote the letter in 1641 to his friend Marin Mersenne about his major work published that year, Meditations on First Philosophy. According to Mr. Bos, who has done extensive research on Descartes's correspondence, the letter provides an abundance of new information about how the thinker completed his book.
Most important, Mr. Bos said, the letter shows how Descartes drastically changed the book's outline, cutting out three parts entirely. Before the letter was written, Mr. Bos said, "Descartes had a very different idea about how this book should appear."
Para ler o resto do artigo clique aqui
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Miscelâneas
Os bons resultados na arrecadação - apesar da base de comparação não ser uma brastemp - e os números do mercado de trabalho, parecem confirmar o diagnóstico deste blog sobre o estado atual da economia brasileira. O cenário positivo é, seguramente, um desalento para a turma do quanto pior o melhor, uma estranha aliança entre a nova direita e os orfãos da queda do muro.
Mudando de assunto.Política externa não é a minha praia, mas me parece lamentável a reação do atual governo frente ao ocorrido ontem em Cuba em nada, alias, diferente do comportamento equivocado do governo passado em relação ao governo Fugimori.Realismo, nem sempre, é a melhar opção de política de defesa do interesse nacional.
Mudando de assunto.Política externa não é a minha praia, mas me parece lamentável a reação do atual governo frente ao ocorrido ontem em Cuba em nada, alias, diferente do comportamento equivocado do governo passado em relação ao governo Fugimori.Realismo, nem sempre, é a melhar opção de política de defesa do interesse nacional.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Problemas no Imperio
Vinicius Torres Freire, no jornal da Ditabranda. apresenta um bom resumo dos problemas da economia americana. O cenário descrito so surpreende aqueles que ainda acreditam em contos de fadas. Os problemas econômicos são serios e complicam-se ainda mais devido ao clima belicoso existente na esfera política. Esta não é uma historia nova, muito pelo encontrário, é uma repetição - agora como farsa - do ocorrido nos anos 30. Por enquanto ainda esta restrita a esfera política mas há risco crescente que isto venha a ocorrer, também, na esfera econômica. Na europa apesar da Grecia, os problemas estão longe de comparáveis a gravidade do cenário americano.
O cenario é tragico e preocupante, principalmente, por que ate o presente momento, Pepino o breve, vulgo Obama, não demontrou ter o talento necessário para liderar o Imperio neste complicado momento de sua história. Retorica brilhante não é substituto perfeito para a ausência de propostas e coragem política.
"Quem bate? É o frio. Não adianta bater, /que eu não deixo você entrar/ etc.", dizia o jingle de um velhíssimo desenho animado de propaganda de cobertores das Casas Pernambucanas, nos anos 70 do século passado.
Ontem se ouvia muito analista de mercado a dizer que o inverno duro derrubou o ânimo ainda tiritante de americanos, alemães e franceses.
Quem bateu foi o frio? A neve que interditou comércios e obras?
Na verdade, o caldo da economia e da finança mundiais voltou a engrossar. Não se trata de dizer que há catástrofe à vista. Mas houve animação excessiva com os "brotos verdes" da economia, em particular da parte dos donos do dinheiro grosso da finança e de seus porta-vozes.
Felizes com a recuperação rápida do preço de ativos financeiros, acabaram por contagiar além da conta as opiniões dominantes na mídia.
Na economia dita "real", o dinheiro nem de longe desabrochou como no caixa da banca e associados. Este inverno ruim no hemisfério Norte apenas tornou um pouco mais sombria uma recuperação econômica ainda muito nebulosa.
Um indicador de confiança do consumidor americano, o do Conference Board, foi ao nível mais baixo em dez meses. A opinião dos americanos sobre sua situação econômica atual é a pior desde 1983. Pioraram as expectativas de encontrar emprego, de ter um trabalho satisfatório, de ganhar mais.
O desemprego americano é o mais alto desde o início dos 1980; o trabalho precário é mais comum. O índice do Conference Board costuma traduzir com certa precisão a atitude do consumidor -medo de desemprego implica carteira mais fechada.
Faz 17 anos que não havia tantos bancos problemáticos nos Estados Unidos, segundo o FDIC (Federal Deposit Insurance, meio regulador, meio garantidor de depósitos). São bancos bem menores do que aqueles quebrados em 2008 -trata-se de instituições regionais e até municipais. Mas são quase 9% dos bancos.
O risco de quebras continua a crescer. O total de empréstimos bancários continua a cair em 2010. Os consumidores franceses cortaram despesas. Os empresários alemães também ficaram mais desanimados em janeiro, segundo o instituto Ifo. O presidente do banco central britânico, Mervyn King, disse que o crescimento europeu empacou, que isso não é bom para o Reino Unido, e insinua que o BC deles deve continuar a "imprimir dinheiro". São todas notícias de ontem.
Há ainda o caso grego, metáfora para o problema de endividamento excessivo de vários governos europeus. Governos do mundo todo fizeram mais deficit e dívida a fim de conter uma depressão econômica.
Contiveram: o estímulo do gasto público fez as economias andarem mais rápido no final de 2009. Mas o efeito do estimulante passa.
Fica o efeito colateral: dívidas. Governos pagam dívidas aumentando impostos ou cortando gastos. O que reduz o consumo global da economia. A conta vai chegando.
Persiste o temor de que algum governo dê calote, o que seria catastrófico. Mesmo muito a contragosto, é provável que um país rico como a Alemanha evite a quebra de primos pobres. Mas o inverno está passando, e o clima não está nada bom.
Fonte: FSP
O cenario é tragico e preocupante, principalmente, por que ate o presente momento, Pepino o breve, vulgo Obama, não demontrou ter o talento necessário para liderar o Imperio neste complicado momento de sua história. Retorica brilhante não é substituto perfeito para a ausência de propostas e coragem política.
"Quem bate? É o frio. Não adianta bater, /que eu não deixo você entrar/ etc.", dizia o jingle de um velhíssimo desenho animado de propaganda de cobertores das Casas Pernambucanas, nos anos 70 do século passado.
Ontem se ouvia muito analista de mercado a dizer que o inverno duro derrubou o ânimo ainda tiritante de americanos, alemães e franceses.
Quem bateu foi o frio? A neve que interditou comércios e obras?
Na verdade, o caldo da economia e da finança mundiais voltou a engrossar. Não se trata de dizer que há catástrofe à vista. Mas houve animação excessiva com os "brotos verdes" da economia, em particular da parte dos donos do dinheiro grosso da finança e de seus porta-vozes.
Felizes com a recuperação rápida do preço de ativos financeiros, acabaram por contagiar além da conta as opiniões dominantes na mídia.
Na economia dita "real", o dinheiro nem de longe desabrochou como no caixa da banca e associados. Este inverno ruim no hemisfério Norte apenas tornou um pouco mais sombria uma recuperação econômica ainda muito nebulosa.
Um indicador de confiança do consumidor americano, o do Conference Board, foi ao nível mais baixo em dez meses. A opinião dos americanos sobre sua situação econômica atual é a pior desde 1983. Pioraram as expectativas de encontrar emprego, de ter um trabalho satisfatório, de ganhar mais.
O desemprego americano é o mais alto desde o início dos 1980; o trabalho precário é mais comum. O índice do Conference Board costuma traduzir com certa precisão a atitude do consumidor -medo de desemprego implica carteira mais fechada.
Faz 17 anos que não havia tantos bancos problemáticos nos Estados Unidos, segundo o FDIC (Federal Deposit Insurance, meio regulador, meio garantidor de depósitos). São bancos bem menores do que aqueles quebrados em 2008 -trata-se de instituições regionais e até municipais. Mas são quase 9% dos bancos.
O risco de quebras continua a crescer. O total de empréstimos bancários continua a cair em 2010. Os consumidores franceses cortaram despesas. Os empresários alemães também ficaram mais desanimados em janeiro, segundo o instituto Ifo. O presidente do banco central britânico, Mervyn King, disse que o crescimento europeu empacou, que isso não é bom para o Reino Unido, e insinua que o BC deles deve continuar a "imprimir dinheiro". São todas notícias de ontem.
Há ainda o caso grego, metáfora para o problema de endividamento excessivo de vários governos europeus. Governos do mundo todo fizeram mais deficit e dívida a fim de conter uma depressão econômica.
Contiveram: o estímulo do gasto público fez as economias andarem mais rápido no final de 2009. Mas o efeito do estimulante passa.
Fica o efeito colateral: dívidas. Governos pagam dívidas aumentando impostos ou cortando gastos. O que reduz o consumo global da economia. A conta vai chegando.
Persiste o temor de que algum governo dê calote, o que seria catastrófico. Mesmo muito a contragosto, é provável que um país rico como a Alemanha evite a quebra de primos pobres. Mas o inverno está passando, e o clima não está nada bom.
Fonte: FSP
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Caiu a ficha...
Finalmente parece que caiu a ficha e tornou-se consensual a avaliação sobre o bom estado atual da economia brasileira. Temores, infundados, que a economia sucumbiria a crise foram, cuidadosamente, colocados de lado e não se fala mais nisto. É como se tais cenários catastróficos jamais tivessem sido apresentados ao distinto público avido pelas tolices daqueles que ignoram o be a ba da macroeconomia e um pouco da historia econômica do grande bananão.
Se há uma lição a aprender da recente crise é que em se tratando da economia brasileira apostar no pior não é, seguramente, a melhor opção.
Se há uma lição a aprender da recente crise é que em se tratando da economia brasileira apostar no pior não é, seguramente, a melhor opção.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Nakano
Ótimo artigo do Nakano. Não sei se a tese apresentada é correta, mas seguramente ela levanta questões importantes e nos leva a pensar.
Muito tem sido escrito sobre a chamada nova classe média brasileira, e particularmente importantes são as pesquisas pioneiras de Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas. Realmente seus estudos revelam que o Brasil assiste a uma mega-ascensão de famílias pobres para a classe C, que tem renda mensal de R$ 1.115 a R$ 4.808. Desde o Plano Real essa classe passou de 32% da população para 52% hoje. Portanto, a classe média brasileira é enorme e composta de mais de 90 milhões de pessoas.
Neste artigo, quero chamar a atenção para as consequências sobre a dinâmica da economia brasileira e a mudança na pauta política que essa classe emergente está trazendo.
O relevante é entender que as causas maiores dessa grande transformação não foram os programas sociais do governo (Bolsa Família, aumento do salário mínimo e outras formas de transferência de renda), que sem dúvida têm sua contribuição significativa, mas, sim, as mudanças demográficas que ocorreram a rigor em meados da década de 80, quando tivemos uma forte queda na taxa de natalidade. Vinte anos depois, a população jovem que busca emprego começou a se reduzir, mudando totalmente a dinâmica do mercado de trabalho.
De fato, a população brasileira de jovens de 15 a 24 anos atingiu um pico de 35,1 milhões de pessoas em 2004 e começou a declinar a partir de então, tendo atingido 33,9 milhões em 2009. Com isso, a "oferta ilimitada de trabalho" chegou ao fim, e os novos empregos, para serem preenchidos, passaram a oferecer salários mais altos. Esse aumento de emprego vem acompanhado de maior produtividade, sem gerar pressão inflacionária, e também demanda melhor qualificação técnica, isto é, educação com qualidade, que é outra grande transformação que ocorre no Brasil.
As consequências para a dinâmica da economia brasileira são óbvias: passamos a ter endogenamente um mecanismo de crescimento que se retroalimenta, típico das economias capitalistas desenvolvidas. O salário real aumenta e amplia o mercado, que, por sua vez, estimula aumento de investimento e criação de novos empregos, que, acompanhados de incremento de produtividade, podem se sustentar por longo prazo.
A consequência política dessa megatransformação é a mudança da agenda eleitoral. O maior temor que uma nova classe tem é perder as suas conquistas: emprego e acesso a bens de consumo, que lhes dão novo status social. Por isso é conservadora. Não será mais a subclasse social de pobres contra a situação que vai decidir as eleições majoritárias no Brasil. Discurso contra não ganhará mais eleições. Introduziu-se na agenda eleitoral a política macroeconômica voltada para crescimento, criando empregos, sem esquecer a estabilidade. A conjugação dessa dinâmica eleitoral, associada a um mecanismo endógeno de expansão do mercado doméstico, levará a economia brasileira a um crescimento sustentado de longo prazo. As barreiras a esse processo, como as atuais políticas monetária e cambial, terão pelo menos 90 milhões de brasileiros, que, tendo acesso à educação, ganharão consciência política e terão voz decisiva pelo menos nas eleições, e a deste ano será decisiva para o Brasil entrar numa nova era.
Fonte: UOL
Muito tem sido escrito sobre a chamada nova classe média brasileira, e particularmente importantes são as pesquisas pioneiras de Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas. Realmente seus estudos revelam que o Brasil assiste a uma mega-ascensão de famílias pobres para a classe C, que tem renda mensal de R$ 1.115 a R$ 4.808. Desde o Plano Real essa classe passou de 32% da população para 52% hoje. Portanto, a classe média brasileira é enorme e composta de mais de 90 milhões de pessoas.
Neste artigo, quero chamar a atenção para as consequências sobre a dinâmica da economia brasileira e a mudança na pauta política que essa classe emergente está trazendo.
O relevante é entender que as causas maiores dessa grande transformação não foram os programas sociais do governo (Bolsa Família, aumento do salário mínimo e outras formas de transferência de renda), que sem dúvida têm sua contribuição significativa, mas, sim, as mudanças demográficas que ocorreram a rigor em meados da década de 80, quando tivemos uma forte queda na taxa de natalidade. Vinte anos depois, a população jovem que busca emprego começou a se reduzir, mudando totalmente a dinâmica do mercado de trabalho.
De fato, a população brasileira de jovens de 15 a 24 anos atingiu um pico de 35,1 milhões de pessoas em 2004 e começou a declinar a partir de então, tendo atingido 33,9 milhões em 2009. Com isso, a "oferta ilimitada de trabalho" chegou ao fim, e os novos empregos, para serem preenchidos, passaram a oferecer salários mais altos. Esse aumento de emprego vem acompanhado de maior produtividade, sem gerar pressão inflacionária, e também demanda melhor qualificação técnica, isto é, educação com qualidade, que é outra grande transformação que ocorre no Brasil.
As consequências para a dinâmica da economia brasileira são óbvias: passamos a ter endogenamente um mecanismo de crescimento que se retroalimenta, típico das economias capitalistas desenvolvidas. O salário real aumenta e amplia o mercado, que, por sua vez, estimula aumento de investimento e criação de novos empregos, que, acompanhados de incremento de produtividade, podem se sustentar por longo prazo.
A consequência política dessa megatransformação é a mudança da agenda eleitoral. O maior temor que uma nova classe tem é perder as suas conquistas: emprego e acesso a bens de consumo, que lhes dão novo status social. Por isso é conservadora. Não será mais a subclasse social de pobres contra a situação que vai decidir as eleições majoritárias no Brasil. Discurso contra não ganhará mais eleições. Introduziu-se na agenda eleitoral a política macroeconômica voltada para crescimento, criando empregos, sem esquecer a estabilidade. A conjugação dessa dinâmica eleitoral, associada a um mecanismo endógeno de expansão do mercado doméstico, levará a economia brasileira a um crescimento sustentado de longo prazo. As barreiras a esse processo, como as atuais políticas monetária e cambial, terão pelo menos 90 milhões de brasileiros, que, tendo acesso à educação, ganharão consciência política e terão voz decisiva pelo menos nas eleições, e a deste ano será decisiva para o Brasil entrar numa nova era.
Fonte: UOL
domingo, 21 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Fame is a fickle food, Emily Dickinson
Fame is a fickle food
Upon a shifting plate
Whose table once a
Guest but not
The second time is set.
Whose crumbs the crows inspect
And with ironic caw
Flap past it to the Farmer's Corn –
Men eat of it and die.
Upon a shifting plate
Whose table once a
Guest but not
The second time is set.
Whose crumbs the crows inspect
And with ironic caw
Flap past it to the Farmer's Corn –
Men eat of it and die.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Why an american recovery matters
Michal Spence apresenta uma boa análise dos problemas da economia americana.
It is hard to be optimistic about America at present. With the help of crucial government support in the crisis, the US financial sector (or at least parts of it) has bounced back, while America’s real economy struggles with high unemployment, discouraged labor-force dropouts, and damaged balance sheets.
So it is no surprise that the American public and the US Congress are angry. The focus of that anger has been the massive and unwise financial-sector bonuses. As a result, regulatory reforms have thus far consisted of, first, a threat to the Federal Reserve’s autonomy, and, second, a tax on bonuses.
The first idea is a bad one. The latter may be politically mandatory and marginally beneficial in fiscal terms. Its effects on risk-taking are debatable. But the much-needed structural reforms to limit leverage and contain the risks that the financial system periodically imposes on the real economy – and the public purse – have only belatedly gotten off the to-do list, and the prospects of enacting them are difficult to estimate.
In fairness, the new rule proposed by former US Federal Reserve Chairman Paul Volcker to separate financial intermediation from proprietary trading is not a bad idea. Combined with elevated capital requirements for banks, it would reduce the chance of another simultaneous failure of all credit channels. But it is not sufficient. Hedge funds can also destabilize the system, as the collapse of Long Term Capital Management in 1998 demonstrated. So they also need clear, albeit different, limits on leverage.
Para ler o resto do artigo clique aqui
It is hard to be optimistic about America at present. With the help of crucial government support in the crisis, the US financial sector (or at least parts of it) has bounced back, while America’s real economy struggles with high unemployment, discouraged labor-force dropouts, and damaged balance sheets.
So it is no surprise that the American public and the US Congress are angry. The focus of that anger has been the massive and unwise financial-sector bonuses. As a result, regulatory reforms have thus far consisted of, first, a threat to the Federal Reserve’s autonomy, and, second, a tax on bonuses.
The first idea is a bad one. The latter may be politically mandatory and marginally beneficial in fiscal terms. Its effects on risk-taking are debatable. But the much-needed structural reforms to limit leverage and contain the risks that the financial system periodically imposes on the real economy – and the public purse – have only belatedly gotten off the to-do list, and the prospects of enacting them are difficult to estimate.
In fairness, the new rule proposed by former US Federal Reserve Chairman Paul Volcker to separate financial intermediation from proprietary trading is not a bad idea. Combined with elevated capital requirements for banks, it would reduce the chance of another simultaneous failure of all credit channels. But it is not sufficient. Hedge funds can also destabilize the system, as the collapse of Long Term Capital Management in 1998 demonstrated. So they also need clear, albeit different, limits on leverage.
Para ler o resto do artigo clique aqui
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Crise da Grécia não vai contaminar os EUA
Ótimo resumo do debate sobre o impacto da crise grega sobre a economia americana e o papel da política fiscal na superação da crise econômica. Martin Wolf tem razão, ainda não é o momento para o aperto fiscal. Não se deve repetir os erros dos anos 30.
Niall Ferguson não é dado a meias palavras. Por isso, não me surpreendi com sua alegação*, na semana passada, de que os EUA enfrentarão uma crise grega. Mas considerei a ideia um exemplo de histeria.
Da mesma forma que muitos outros países de alta renda, os EUA estão decerto andando por uma corda bamba. Mas os perigos são a frouxidão excessiva em curto prazo e o aperto excessivo em curto prazo. Esse é um dilema do qual Ferguson não parece consciente.
O professor Ferguson afirmou que, de acordo com projeções da Casa Branca, o deficit público federal dos EUA excederá o PIB do país, a partir de 2012; que a previsão é que os EUA jamais voltem a operar com um Orçamento equilibrado; que foi a política monetária, e não os deficit, que salvou a economia; que taxas de juros mais altas estão a caminho; e, além de tudo, que alta dívida fiscal é prejudicial.
Brad DeLong, da Universidade da Califórnia em Berkeley, respondeu afirmando que partes do argumento oferecido por Ferguson estão erradas ou são enganosas: as projeções da Casa Branca são que a dívida federal detida pelo público seja de 71% do PIB em 2012 e de não mais de 77% em 2020; a política monetária não teria sido capaz de produzir nem mesmo a recuperação limitada que estamos vendo, caso não tivesse recebido ajuda; e taxas de juros mais altas podem de fato estar a caminho, mas nada da atual curva de rendimentos sugere que esse seja o caso.
Além disso, não existe necessidade de medidas de equilíbrio do Orçamento em um país cujo PIB nominal cresce ao menos 5% ao ano em tempos normais.
Almoço grátis
O professor Ferguson está tentando apavorar as autoridades norte-americanas para evitar que mantenham ou, ainda melhor, ampliem o estímulo fiscal, se bem que a verdadeira questão seja a sustentabilidade em prazo mais longo. Ele também acusa seus oponentes de acreditar em um "almoço grátis keynesiano". Não é fato. O argumento, em lugar disso, é o de que a produção mais alta agora excede o custo que o serviço da dívida terá amanhã.
O professor Ferguson acredita, em lugar disso, em um almoço grátis conservador. Estamos falando da opinião de que um aperto fiscal agora teria pouco efeito sobre a atividade econômica. Normalmente, quando a política monetária tem margem de manobra e a captação do setor público não sofre restrições, isso seria verdade.
Mas, como apontaram Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), e seus colegas, em relatório recente, "já que a política monetária, incluindo créditos e relaxamento quantitativo, em larga medida atingiu os seus limites, as autoridades econômicas têm pouca chance a não ser depender da política fiscal".
Os países de alta renda que tiveram os mais elevados saltos em deficit e dívidas foram, como não poderia deixar de ser, Irlanda, Espanha, Reino Unido e EUA, exatamente o que haviam previsto Stephen Cecchetti e seus colegas no BIS (Banco de Compensações Internacionais), em estudo divulgado na semana passada. Foram esses os países que tiveram os maiores booms de crédito e bolhas de ativos. Foi neles que os gastos do setor privado sofreram mais restrições após a redução do endividamento.
Os saltos nos deficit fiscais são um reflexo da reacomodação conduzida pelos setores privados em crise. Nos EUA, o balanço financeiro do setor privado (a disparidade entre renda e gastos) se alterou de menos 2,1% do PIB no quarto trimestre de 2007 a mais 6,7% no quarto trimestre de 2009, um movimento da ordem de 8,8% do PIB. Essa virada imensa aconteceu a despeito dos esforços do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para sustentar os empréstimos e gastos. Viradas assim aconteceram nos demais países atingidos pela crise.
Se esses governos tivessem decidido equilibrar seus Orçamentos, como muitos conservadores exigem, dois possíveis desfechos seriam possíveis: o mais plausível seria o de que viveríamos agora uma segunda Grande Depressão; o mais fantasioso seria o de que, a despeito de vasta alta na tributação ou imensos cortes de gastos, o setor privado teria continuado a captar e gastar dinheiro como se não tivesse havido uma crise.
Acreditar em magia
Em outras palavras, um imenso aperto fiscal resultaria na verdade em expansão da economia. Acreditar nisso é como acreditar em magia. A forte elevação nos deficit fiscais foi uma resposta apropriada. Mas o professor Ferguson está certo: todos sabem que esses deficit não podem ser mantidos por prazo indefinido.
Como apontaram Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em estudo recente, quando a relação entre a dívida pública e o PIB excede os 90%, o crescimento médio cai em 1% ao ano. Isso pode ser dispendioso. Além disso, existe o risco de que, em dado momento, haja uma perda de confiança e disparada nas taxas de juros.
A dificuldade, porém, é que, como o McKinsey Global Institute também apontou em relatório recente, "os episódios históricos de redução do endividamento foram dolorosos, durando em média de seis a sete anos e reduzindo em 25% a relação entre dívida e PIB".
A única maneira de acelerar o processo seria por meio de falências em massa ou inflação. Caso essas soluções sejam descartadas, o que existiria para sustentar a demanda? Se a política fiscal também for excluída, a única exceção seria a demanda externa. Mas quem teria chances de compensar a contração da demanda nos EUA e nas demais economias seriamente atingidas? A resposta, infelizmente, é ninguém.
No entanto, como apontou o estudo do BIS, as perspectivas fiscais de longo prazo, ditadas em larga medida pelo envelhecimento da população, são precárias. Projetando com base em pontos de partida bastante desfavoráveis, os autores do estudo do BIS argumentam que a relação entre dívida pública e PIB pode chegar a 250% na Itália, a 300% na Alemanha, a 400% na França, a 450% nos EUA, a 500% no Reino Unido e a 600% no Japão, em 2050.
Caso o objetivo seja impedir que os papéis de dívida soberana desses países de alta renda sejam reduzidos ao status de "junk bonds", essas nações de fato precisam de planos confiáveis de reacomodação. Quanto a isso não existe desacordo. A melhor abordagem seria a redução acentuada no crescimento em longo prazo dos gastos com benefícios. Além disso, quando as economias se recuperarem, ação fiscal de curto prazo será igualmente necessária. As medidas teriam de incluir cortes de gastos e aumentos de impostos, para restaurar a receita perdida na crise.
E com isso chegamos ao grande dilema: e se a redução do endividamento privado e os deficit fiscais persistirem por anos, nos EUA e em outros países, como aconteceu no Japão? Nesse caso, os países de melhor classificação de crédito, entre os quais até mesmo os EUA, poderiam perder toda sua margem de manobra fiscal. Isso ainda não aconteceu no Japão. Pode não acontecer nos EUA, tampouco. Mas a possibilidade ainda assim existe.
Por isso, sim, os países de alta renda enfrentam fortes desafios fiscais. E, sim, os países atingidos pela crise começam de posições fiscais insustentáveis. Mas os EUA não são a Grécia. Além disso, um forte aperto fiscal realizado hoje constituiria um grave erro. Existe um forte risco -na minha opinião, uma certeza- de que isso devolveria o planeta à recessão. O setor privado precisa se curar. Isso, e não a reacomodação fiscal, é a prioridade.
Fonte: UOL
Niall Ferguson não é dado a meias palavras. Por isso, não me surpreendi com sua alegação*, na semana passada, de que os EUA enfrentarão uma crise grega. Mas considerei a ideia um exemplo de histeria.
Da mesma forma que muitos outros países de alta renda, os EUA estão decerto andando por uma corda bamba. Mas os perigos são a frouxidão excessiva em curto prazo e o aperto excessivo em curto prazo. Esse é um dilema do qual Ferguson não parece consciente.
O professor Ferguson afirmou que, de acordo com projeções da Casa Branca, o deficit público federal dos EUA excederá o PIB do país, a partir de 2012; que a previsão é que os EUA jamais voltem a operar com um Orçamento equilibrado; que foi a política monetária, e não os deficit, que salvou a economia; que taxas de juros mais altas estão a caminho; e, além de tudo, que alta dívida fiscal é prejudicial.
Brad DeLong, da Universidade da Califórnia em Berkeley, respondeu afirmando que partes do argumento oferecido por Ferguson estão erradas ou são enganosas: as projeções da Casa Branca são que a dívida federal detida pelo público seja de 71% do PIB em 2012 e de não mais de 77% em 2020; a política monetária não teria sido capaz de produzir nem mesmo a recuperação limitada que estamos vendo, caso não tivesse recebido ajuda; e taxas de juros mais altas podem de fato estar a caminho, mas nada da atual curva de rendimentos sugere que esse seja o caso.
Além disso, não existe necessidade de medidas de equilíbrio do Orçamento em um país cujo PIB nominal cresce ao menos 5% ao ano em tempos normais.
Almoço grátis
O professor Ferguson está tentando apavorar as autoridades norte-americanas para evitar que mantenham ou, ainda melhor, ampliem o estímulo fiscal, se bem que a verdadeira questão seja a sustentabilidade em prazo mais longo. Ele também acusa seus oponentes de acreditar em um "almoço grátis keynesiano". Não é fato. O argumento, em lugar disso, é o de que a produção mais alta agora excede o custo que o serviço da dívida terá amanhã.
O professor Ferguson acredita, em lugar disso, em um almoço grátis conservador. Estamos falando da opinião de que um aperto fiscal agora teria pouco efeito sobre a atividade econômica. Normalmente, quando a política monetária tem margem de manobra e a captação do setor público não sofre restrições, isso seria verdade.
Mas, como apontaram Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), e seus colegas, em relatório recente, "já que a política monetária, incluindo créditos e relaxamento quantitativo, em larga medida atingiu os seus limites, as autoridades econômicas têm pouca chance a não ser depender da política fiscal".
Os países de alta renda que tiveram os mais elevados saltos em deficit e dívidas foram, como não poderia deixar de ser, Irlanda, Espanha, Reino Unido e EUA, exatamente o que haviam previsto Stephen Cecchetti e seus colegas no BIS (Banco de Compensações Internacionais), em estudo divulgado na semana passada. Foram esses os países que tiveram os maiores booms de crédito e bolhas de ativos. Foi neles que os gastos do setor privado sofreram mais restrições após a redução do endividamento.
Os saltos nos deficit fiscais são um reflexo da reacomodação conduzida pelos setores privados em crise. Nos EUA, o balanço financeiro do setor privado (a disparidade entre renda e gastos) se alterou de menos 2,1% do PIB no quarto trimestre de 2007 a mais 6,7% no quarto trimestre de 2009, um movimento da ordem de 8,8% do PIB. Essa virada imensa aconteceu a despeito dos esforços do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para sustentar os empréstimos e gastos. Viradas assim aconteceram nos demais países atingidos pela crise.
Se esses governos tivessem decidido equilibrar seus Orçamentos, como muitos conservadores exigem, dois possíveis desfechos seriam possíveis: o mais plausível seria o de que viveríamos agora uma segunda Grande Depressão; o mais fantasioso seria o de que, a despeito de vasta alta na tributação ou imensos cortes de gastos, o setor privado teria continuado a captar e gastar dinheiro como se não tivesse havido uma crise.
Acreditar em magia
Em outras palavras, um imenso aperto fiscal resultaria na verdade em expansão da economia. Acreditar nisso é como acreditar em magia. A forte elevação nos deficit fiscais foi uma resposta apropriada. Mas o professor Ferguson está certo: todos sabem que esses deficit não podem ser mantidos por prazo indefinido.
Como apontaram Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em estudo recente, quando a relação entre a dívida pública e o PIB excede os 90%, o crescimento médio cai em 1% ao ano. Isso pode ser dispendioso. Além disso, existe o risco de que, em dado momento, haja uma perda de confiança e disparada nas taxas de juros.
A dificuldade, porém, é que, como o McKinsey Global Institute também apontou em relatório recente, "os episódios históricos de redução do endividamento foram dolorosos, durando em média de seis a sete anos e reduzindo em 25% a relação entre dívida e PIB".
A única maneira de acelerar o processo seria por meio de falências em massa ou inflação. Caso essas soluções sejam descartadas, o que existiria para sustentar a demanda? Se a política fiscal também for excluída, a única exceção seria a demanda externa. Mas quem teria chances de compensar a contração da demanda nos EUA e nas demais economias seriamente atingidas? A resposta, infelizmente, é ninguém.
No entanto, como apontou o estudo do BIS, as perspectivas fiscais de longo prazo, ditadas em larga medida pelo envelhecimento da população, são precárias. Projetando com base em pontos de partida bastante desfavoráveis, os autores do estudo do BIS argumentam que a relação entre dívida pública e PIB pode chegar a 250% na Itália, a 300% na Alemanha, a 400% na França, a 450% nos EUA, a 500% no Reino Unido e a 600% no Japão, em 2050.
Caso o objetivo seja impedir que os papéis de dívida soberana desses países de alta renda sejam reduzidos ao status de "junk bonds", essas nações de fato precisam de planos confiáveis de reacomodação. Quanto a isso não existe desacordo. A melhor abordagem seria a redução acentuada no crescimento em longo prazo dos gastos com benefícios. Além disso, quando as economias se recuperarem, ação fiscal de curto prazo será igualmente necessária. As medidas teriam de incluir cortes de gastos e aumentos de impostos, para restaurar a receita perdida na crise.
E com isso chegamos ao grande dilema: e se a redução do endividamento privado e os deficit fiscais persistirem por anos, nos EUA e em outros países, como aconteceu no Japão? Nesse caso, os países de melhor classificação de crédito, entre os quais até mesmo os EUA, poderiam perder toda sua margem de manobra fiscal. Isso ainda não aconteceu no Japão. Pode não acontecer nos EUA, tampouco. Mas a possibilidade ainda assim existe.
Por isso, sim, os países de alta renda enfrentam fortes desafios fiscais. E, sim, os países atingidos pela crise começam de posições fiscais insustentáveis. Mas os EUA não são a Grécia. Além disso, um forte aperto fiscal realizado hoje constituiria um grave erro. Existe um forte risco -na minha opinião, uma certeza- de que isso devolveria o planeta à recessão. O setor privado precisa se curar. Isso, e não a reacomodação fiscal, é a prioridade.
Fonte: UOL
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Como salvar os Piigs
Não sou tão pessimista, mas a análise me parece correta. Há sempre espaço para a política econômica e por isto o pessimismo não se justifica.
Os problemas fiscais da Grécia são, como argumentei muitas vezes, apenas a ponta do iceberg mundial. Pois a próxima rodada da recente crise financeira global será o risco soberano ascendente, especialmente nas economias avançadas que operem com grandes deficit orçamentários e acumulem dívida pública ampla, ao socializar prejuízos financeiros privados a fim de reanimar o crescimento econômico.
De fato, a história sugere que uma severa recessão e socialização de prejuízos privados muitas vezes conduzem a um acúmulo insustentável de dívida pública. Além disso, crises financeiras provocadas por dívidas excessivas no setor privado costumam ser seguidas alguns anos mais tarde por moratórias nacionais e/ou alta inflação.
A Grécia também serve como indicador de alerta para a zona do euro, na qual todas as economias conhecidas como Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) sofrem o problema gêmeo da sustentabilidade de dívidas públicas e da sustentabilidade da dívida externa. A adesão ao euro e as "operações de convergência" conduzidas na alta das Bolsas levaram os rendimentos dos títulos desses países a se aproximar do oferecido pelos títulos da dívida pública alemã, e o boom de crédito resultante sustentou um crescimento excessivo do consumo.
A maioria dessas economias estava sofrendo de uma perda de mercados de exportação diante de concorrentes asiáticos cujos trabalhadores recebem salários mais baixos. Na Espanha e na Irlanda, um boom de habitação exacerbou os desequilíbrios externos ao reduzir a poupança nacional, estimulando o consumo e o investimento residencial. E a valorização do euro nos últimos anos serviu como golpe final contra a competitividade.
Assim, restaurar a competitividade, e não apenas um ajuste fiscal, é necessário para a retomada do crescimento sustentável. Existem apenas três maneiras de fazê-lo. Uma década de deflação seria uma resposta, mas isso seria acompanhado por estagnação econômica e, como aconteceu na Argentina no começo da década, resultaria em situação política insustentável, conduzindo a uma desvalorização (ou seja, ao abandono do euro) e a uma moratória.
Acelerar as reformas estruturais que estimulam a produtividade e manter sob controle o crescimento dos salários no setor privado e no setor público é a abordagem correta, mas igualmente difícil de implementar em termos políticos. Ou um euro mais fraco poderia ser adotado, se o BCE se dispusesse a afrouxar a política monetária ainda mais -o que não é provável. No entanto, um euro mais baixo não eliminaria a necessidade de reformas estruturais nesses países.
Alternativa FMI
Um programa informal de resgate ou um programa concreto do Fundo Monetário Internacional (FMI) poderia reforçar fortemente a credibilidade de uma política de reposicionamento fiscal e de reformas estruturais. Se o programa for informal, a Comissão Europeia imporia condições fiscais e estruturais à Grécia, enquanto a União Europeia e/ou o BCE ofereceria as verbas, que seriam necessárias.
Os mercados continuarão céticos, especialmente se a implementação resultar em manifestações de rua, tumultos, greves e manobras legislativas para postergar as medidas. Até que a credibilidade seja restabelecida, o risco de um ataque especulativo contra os títulos de dívida pública persistiria, dados os deficit orçamentários e a necessidade de rolar dívidas. Porque a União Europeia não tem histórico no que tange a impor condições e o financiamento pelo BCE seria percebido como uma forma de resgate, um programa formal do FMI seria a melhor abordagem. Os programas de mais sucesso empreendidos diante de um risco de crise de financiamento de dívida pública e/ou externa foram aqueles como no México, Turquia e Brasil.
Garantias de empréstimos pela Alemanha e/ou União Europeia são menos desejáveis do que um programa do FMI, porque é muito difícil desenvolver e implementar de maneira confiável a condicionalidade dessas garantias. O apoio do FMI, por outro lado, é desembolsado em parcelas e condicionado à realização de objetivos.
As autoridades gregas e a União Europeia vinham negando até recentemente que houvesse necessidade de um pacote de empréstimos, devido à preocupação de que isso pudesse ser visto como um sinal de fraqueza. Trata-se de um erro grave. Ajuste fiscal e reformas sem verbas de apoio são mais suscetíveis de fracasso.
Ao mesmo tempo, se a Grécia não ajustar plenamente suas políticas a fim de restaurar a sustentabilidade fiscal e a competitividade, um resgate parcial pela União Europeia e BCE continua provável, a fim de evitar o risco de contágio no restante da zona do euro. Uma moratória na Grécia, afinal, teria os mesmos efeitos mundiais que o colapso do Lehman Brothers teve em 2008.
A União Europeia e o BCE estão preocupados com o risco moral de qualquer "resgate". Mas é exatamente por isso que um programa confiável do FMI, vinculando apoio financeiro à realização gradual de reformas estruturais e fiscais, seria o caminho certo para salvar a Grécia e os demais Piigs.
Nouriel Roubini
Fonte: UOL.
Os problemas fiscais da Grécia são, como argumentei muitas vezes, apenas a ponta do iceberg mundial. Pois a próxima rodada da recente crise financeira global será o risco soberano ascendente, especialmente nas economias avançadas que operem com grandes deficit orçamentários e acumulem dívida pública ampla, ao socializar prejuízos financeiros privados a fim de reanimar o crescimento econômico.
De fato, a história sugere que uma severa recessão e socialização de prejuízos privados muitas vezes conduzem a um acúmulo insustentável de dívida pública. Além disso, crises financeiras provocadas por dívidas excessivas no setor privado costumam ser seguidas alguns anos mais tarde por moratórias nacionais e/ou alta inflação.
A Grécia também serve como indicador de alerta para a zona do euro, na qual todas as economias conhecidas como Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) sofrem o problema gêmeo da sustentabilidade de dívidas públicas e da sustentabilidade da dívida externa. A adesão ao euro e as "operações de convergência" conduzidas na alta das Bolsas levaram os rendimentos dos títulos desses países a se aproximar do oferecido pelos títulos da dívida pública alemã, e o boom de crédito resultante sustentou um crescimento excessivo do consumo.
A maioria dessas economias estava sofrendo de uma perda de mercados de exportação diante de concorrentes asiáticos cujos trabalhadores recebem salários mais baixos. Na Espanha e na Irlanda, um boom de habitação exacerbou os desequilíbrios externos ao reduzir a poupança nacional, estimulando o consumo e o investimento residencial. E a valorização do euro nos últimos anos serviu como golpe final contra a competitividade.
Assim, restaurar a competitividade, e não apenas um ajuste fiscal, é necessário para a retomada do crescimento sustentável. Existem apenas três maneiras de fazê-lo. Uma década de deflação seria uma resposta, mas isso seria acompanhado por estagnação econômica e, como aconteceu na Argentina no começo da década, resultaria em situação política insustentável, conduzindo a uma desvalorização (ou seja, ao abandono do euro) e a uma moratória.
Acelerar as reformas estruturais que estimulam a produtividade e manter sob controle o crescimento dos salários no setor privado e no setor público é a abordagem correta, mas igualmente difícil de implementar em termos políticos. Ou um euro mais fraco poderia ser adotado, se o BCE se dispusesse a afrouxar a política monetária ainda mais -o que não é provável. No entanto, um euro mais baixo não eliminaria a necessidade de reformas estruturais nesses países.
Alternativa FMI
Um programa informal de resgate ou um programa concreto do Fundo Monetário Internacional (FMI) poderia reforçar fortemente a credibilidade de uma política de reposicionamento fiscal e de reformas estruturais. Se o programa for informal, a Comissão Europeia imporia condições fiscais e estruturais à Grécia, enquanto a União Europeia e/ou o BCE ofereceria as verbas, que seriam necessárias.
Os mercados continuarão céticos, especialmente se a implementação resultar em manifestações de rua, tumultos, greves e manobras legislativas para postergar as medidas. Até que a credibilidade seja restabelecida, o risco de um ataque especulativo contra os títulos de dívida pública persistiria, dados os deficit orçamentários e a necessidade de rolar dívidas. Porque a União Europeia não tem histórico no que tange a impor condições e o financiamento pelo BCE seria percebido como uma forma de resgate, um programa formal do FMI seria a melhor abordagem. Os programas de mais sucesso empreendidos diante de um risco de crise de financiamento de dívida pública e/ou externa foram aqueles como no México, Turquia e Brasil.
Garantias de empréstimos pela Alemanha e/ou União Europeia são menos desejáveis do que um programa do FMI, porque é muito difícil desenvolver e implementar de maneira confiável a condicionalidade dessas garantias. O apoio do FMI, por outro lado, é desembolsado em parcelas e condicionado à realização de objetivos.
As autoridades gregas e a União Europeia vinham negando até recentemente que houvesse necessidade de um pacote de empréstimos, devido à preocupação de que isso pudesse ser visto como um sinal de fraqueza. Trata-se de um erro grave. Ajuste fiscal e reformas sem verbas de apoio são mais suscetíveis de fracasso.
Ao mesmo tempo, se a Grécia não ajustar plenamente suas políticas a fim de restaurar a sustentabilidade fiscal e a competitividade, um resgate parcial pela União Europeia e BCE continua provável, a fim de evitar o risco de contágio no restante da zona do euro. Uma moratória na Grécia, afinal, teria os mesmos efeitos mundiais que o colapso do Lehman Brothers teve em 2008.
A União Europeia e o BCE estão preocupados com o risco moral de qualquer "resgate". Mas é exatamente por isso que um programa confiável do FMI, vinculando apoio financeiro à realização gradual de reformas estruturais e fiscais, seria o caminho certo para salvar a Grécia e os demais Piigs.
Nouriel Roubini
Fonte: UOL.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010
sábado, 13 de fevereiro de 2010
O outro carnaval, Carlos Drummond de Andrade
Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Moral convictions
É a minha serie favorita...
After working as a crime reporter in Montreal, Canada, René Balcer landed a television gig in 1990 writing for a new police drama created by the Hollywood screenwriter Dick Wolf. It was supposed to be NBC’s next big hit, but that show, “Nasty Boys,” was canceled in midseason. Balcer went on to write for Wolf’s other pilot, an underdog series called “Law & Order” that was gaining critical attention. Unlike such popular dramas as “L.A. Law” and “Hill Street Blues,” the show focused on the criminal proceedings rather than on the cops’ and lawyers’ personal lives. Shot with hand-held cameras, “Law & Order” also had a gritty style that looked like nothing else on network television at the time. Last September, “Law & Order” began its 20th season, tying with “Gunsmoke” for the longest-running prime-time drama in American history.
In this conversation, Mr. Balcer, now the show’s executive writer and producer, talks about the drama’s ability to remain topical as it draws from headlines and debates relating to terrorism, torture and abortion that were unimaginable 20 years ago.
How did your earlier career in reporting affect your television writing and producing?
It gave me an appreciation of what detectives see on the ground, the kind of decisions they have to make, how they get sensitized and desensitized to the violence they encounter. Detectives see people at their worst moment in life; that colors their perspective. But good detectives can talk to anybody, be it a drunk on the sidewalk or a bank president, and make that person feel he is their best friend.
“Law & Order” is often advertised as “ripped from the headlines.” What is the process behind fleshing out a news story into a teleplay?
We take the headline and use it as a jumping-off point from which we tell an entirely different story. We focus on what kind of issues the story raises and what it says about human nature.
A recent episode drew from an attempted bombing of a Jewish center in Riverdale, N.Y., in May 2009, in which a police informant gave plotters a fake explosive substance and the New York Police Department apprehended them. How did you use this as a jumping-off point?
One of the problems with terrorist investigations is the police’s reliance on informants. It’s difficult for undercover cops to infiltrate terrorist cells because the cells deal only with people they know. This is a problem not just for New York and the United States but also for international terrorist investigations. Getting inside Al Qaeda is impossible unless you start working with someone who is already in it. It’s dicey when you’re relying on civilian informants, who had been active plotters and have now decided to cooperate.
The case of the attempted Riverdale bombing is about terrorism, but we built the episode around the informant. This character became interesting in the context of his personal dilemma, as well as the compromises he had to make to maintain his credibility with the friends he’s informing on and with the police. A lot of informants used in terrorist investigations are recent immigrants, and the police have no choice but to work with what they’ve got.
Detective Cyrus Lupo, played by Jeremy Sisto, was formerly a member of the N.Y.P.D. Intelligence Division, which investigates terrorist cells abroad. What was the inspiration for this character?
The N.Y.P.D. maintains around 70 detectives who are posted overseas for two to four years. These detectives do not have authority to carry a weapon or make arrests; they interact with local police to get advance information, such as terrorist and suicide-bombing methods, that would be useful to the N.Y.P.D.’s investigations back home. These detectives are also sent to gather intelligence on possible terrorist plots in New York City. In fact, a number of detectives were stationed in Afghanistan and Iraq back in 2001 and 2002, conducting and assisting in interrogations of detainees. The program started right after the terrorist attacks of Sept. 11, and the division has been very effective, sometimes more effective than the F.B.I. or the C.I.A., in collecting information overseas.
That’s what Detective Lupo did prior to joining the precinct on “Law & Order.” It gives him a different perspective on his job, on the city, on America. He has a more worldly view of things than other characters we have seen on the show. I’ve always loved Lord Jim types; he’s a very romantic character.
In this season’s premiere, the Manhattan district attorney, Jack McCoy, played by Sam Waterston, prosecuted a former Justice Depart-ment attorney for “depraved indifference murder” because the interrogation techniques he sanctioned in a memo, drafted in New York City, led to the death of an Abu Ghraib prisoner. What was the reaction to the premise?
Salon.com and Huffington Post loved it. Sean Hannity and Bill O’Reilly hated it. They thought this was René Balcer’s liberal fantasy. How dare the show take the Bush administration to task, they suggested, and what’s wrong with torture anyway? The fact is that in a 2002 memo, before he was attorney general, Alberto Gonzales wrote that one of his real concerns was that a local district attorney might prosecute a member of the administration for torture. He envisioned the possibility. I know some localities—Berkeley, for example—are looking into how they can assert such jurisdiction. So it’s not so far-fetched.
How are real crime scenes different from those portrayed on television?
You can show as much blood and guts as you want, but what you can’t show is the smell of blood and charred flesh.
In an interview with NPR’s “Fresh Air,” Dick Wolf called the first half of the show a murder mystery and the second half a moral mystery. Why a “moral mystery,” and not just a “legal mystery?”
In the second half, you dig into questions about the administration of justice: Should we prosecute? What is the measure of justice here? Should we make a deal? What are the different levels of culpability and liability? As these questions get answered, the fundamental issues arise.
A recent episode, for example, was based on the shooting of George Tiller, a doctor who performed late-term abortions. The real trial had not yet occurred, but on the show there is a justification defense: The defendant shot the doctor in order to prevent him from performing a late-term abortion. So the doctor was killed in defense of a particular life.
The show’s trial explores different aspects of the abortion debate. The defense invites testimony from a woman who had discussed on television her decision to take her pregnancy to term, rather than do a late-term abortion, even though her child would be born missing half her brain and would not live more than a day. The defense argued that the defendant had seen this woman’s story, [and that it] affected his thinking about abortion [and motivated him to murder the doctor]. During the courtroom testimony, the woman explains that, though her child died in her arms, this was her way of respecting the child’s dignity. The witness makes clear, however, that she is not anti-abortion, that it was just the right decision to make. After hearing this testimony, the assistant district attorney, Connie Rubirosa, suddenly rethinks her take-no-prisoners pro-choice position. She is now asking where…my privacy ends and where another life’s dignity begins.
In terms of the “moral mystery” in the second half, we are re-evaluating Roe v. Wade and the assumptions that buttressed it 35 years ago. For example, certain birth defects were death sentences then, but now in many cases medical advancements can offer a quality of life not previously available. Now we have a bill of rights for disabled Americans. How does that affect fetuses with disabilities? Aren’t their rights protected? A lot of the ground rules have changed.
So is Roe v. Wade a decision to be revisited? Should it be put back to the states to decide? Should the viability of a fetus outside the uterus, which is usually at 22 weeks, become a factor as far as abortion on demand is a defensible position?
There have been a number of Catholic characters over the years on “Law & Order,” and certain archetypes have emerged. Jack McCoy is lapsed but with righteous moral convictions; Detective Mike Logan was a cynic, having been sexually abused by a parish priest; Detective Rey Curtis was devout. What unites these characters? Do they all have savior complexes?
(Laughs.) I suppose all these characters have that social activist side to Catholicism, the kind of activism that Pope John Paul II hated and that led him to suspend that Nicaraguan priest [Miguel d’Escoto Brockmann for his involvement in the Sandinista National Liberation Front]. I think the belief in public and community service is the common ground where these characters would meet.
Fonte: America magazine
After working as a crime reporter in Montreal, Canada, René Balcer landed a television gig in 1990 writing for a new police drama created by the Hollywood screenwriter Dick Wolf. It was supposed to be NBC’s next big hit, but that show, “Nasty Boys,” was canceled in midseason. Balcer went on to write for Wolf’s other pilot, an underdog series called “Law & Order” that was gaining critical attention. Unlike such popular dramas as “L.A. Law” and “Hill Street Blues,” the show focused on the criminal proceedings rather than on the cops’ and lawyers’ personal lives. Shot with hand-held cameras, “Law & Order” also had a gritty style that looked like nothing else on network television at the time. Last September, “Law & Order” began its 20th season, tying with “Gunsmoke” for the longest-running prime-time drama in American history.
In this conversation, Mr. Balcer, now the show’s executive writer and producer, talks about the drama’s ability to remain topical as it draws from headlines and debates relating to terrorism, torture and abortion that were unimaginable 20 years ago.
How did your earlier career in reporting affect your television writing and producing?
It gave me an appreciation of what detectives see on the ground, the kind of decisions they have to make, how they get sensitized and desensitized to the violence they encounter. Detectives see people at their worst moment in life; that colors their perspective. But good detectives can talk to anybody, be it a drunk on the sidewalk or a bank president, and make that person feel he is their best friend.
“Law & Order” is often advertised as “ripped from the headlines.” What is the process behind fleshing out a news story into a teleplay?
We take the headline and use it as a jumping-off point from which we tell an entirely different story. We focus on what kind of issues the story raises and what it says about human nature.
A recent episode drew from an attempted bombing of a Jewish center in Riverdale, N.Y., in May 2009, in which a police informant gave plotters a fake explosive substance and the New York Police Department apprehended them. How did you use this as a jumping-off point?
One of the problems with terrorist investigations is the police’s reliance on informants. It’s difficult for undercover cops to infiltrate terrorist cells because the cells deal only with people they know. This is a problem not just for New York and the United States but also for international terrorist investigations. Getting inside Al Qaeda is impossible unless you start working with someone who is already in it. It’s dicey when you’re relying on civilian informants, who had been active plotters and have now decided to cooperate.
The case of the attempted Riverdale bombing is about terrorism, but we built the episode around the informant. This character became interesting in the context of his personal dilemma, as well as the compromises he had to make to maintain his credibility with the friends he’s informing on and with the police. A lot of informants used in terrorist investigations are recent immigrants, and the police have no choice but to work with what they’ve got.
Detective Cyrus Lupo, played by Jeremy Sisto, was formerly a member of the N.Y.P.D. Intelligence Division, which investigates terrorist cells abroad. What was the inspiration for this character?
The N.Y.P.D. maintains around 70 detectives who are posted overseas for two to four years. These detectives do not have authority to carry a weapon or make arrests; they interact with local police to get advance information, such as terrorist and suicide-bombing methods, that would be useful to the N.Y.P.D.’s investigations back home. These detectives are also sent to gather intelligence on possible terrorist plots in New York City. In fact, a number of detectives were stationed in Afghanistan and Iraq back in 2001 and 2002, conducting and assisting in interrogations of detainees. The program started right after the terrorist attacks of Sept. 11, and the division has been very effective, sometimes more effective than the F.B.I. or the C.I.A., in collecting information overseas.
That’s what Detective Lupo did prior to joining the precinct on “Law & Order.” It gives him a different perspective on his job, on the city, on America. He has a more worldly view of things than other characters we have seen on the show. I’ve always loved Lord Jim types; he’s a very romantic character.
In this season’s premiere, the Manhattan district attorney, Jack McCoy, played by Sam Waterston, prosecuted a former Justice Depart-ment attorney for “depraved indifference murder” because the interrogation techniques he sanctioned in a memo, drafted in New York City, led to the death of an Abu Ghraib prisoner. What was the reaction to the premise?
Salon.com and Huffington Post loved it. Sean Hannity and Bill O’Reilly hated it. They thought this was René Balcer’s liberal fantasy. How dare the show take the Bush administration to task, they suggested, and what’s wrong with torture anyway? The fact is that in a 2002 memo, before he was attorney general, Alberto Gonzales wrote that one of his real concerns was that a local district attorney might prosecute a member of the administration for torture. He envisioned the possibility. I know some localities—Berkeley, for example—are looking into how they can assert such jurisdiction. So it’s not so far-fetched.
How are real crime scenes different from those portrayed on television?
You can show as much blood and guts as you want, but what you can’t show is the smell of blood and charred flesh.
In an interview with NPR’s “Fresh Air,” Dick Wolf called the first half of the show a murder mystery and the second half a moral mystery. Why a “moral mystery,” and not just a “legal mystery?”
In the second half, you dig into questions about the administration of justice: Should we prosecute? What is the measure of justice here? Should we make a deal? What are the different levels of culpability and liability? As these questions get answered, the fundamental issues arise.
A recent episode, for example, was based on the shooting of George Tiller, a doctor who performed late-term abortions. The real trial had not yet occurred, but on the show there is a justification defense: The defendant shot the doctor in order to prevent him from performing a late-term abortion. So the doctor was killed in defense of a particular life.
The show’s trial explores different aspects of the abortion debate. The defense invites testimony from a woman who had discussed on television her decision to take her pregnancy to term, rather than do a late-term abortion, even though her child would be born missing half her brain and would not live more than a day. The defense argued that the defendant had seen this woman’s story, [and that it] affected his thinking about abortion [and motivated him to murder the doctor]. During the courtroom testimony, the woman explains that, though her child died in her arms, this was her way of respecting the child’s dignity. The witness makes clear, however, that she is not anti-abortion, that it was just the right decision to make. After hearing this testimony, the assistant district attorney, Connie Rubirosa, suddenly rethinks her take-no-prisoners pro-choice position. She is now asking where…my privacy ends and where another life’s dignity begins.
In terms of the “moral mystery” in the second half, we are re-evaluating Roe v. Wade and the assumptions that buttressed it 35 years ago. For example, certain birth defects were death sentences then, but now in many cases medical advancements can offer a quality of life not previously available. Now we have a bill of rights for disabled Americans. How does that affect fetuses with disabilities? Aren’t their rights protected? A lot of the ground rules have changed.
So is Roe v. Wade a decision to be revisited? Should it be put back to the states to decide? Should the viability of a fetus outside the uterus, which is usually at 22 weeks, become a factor as far as abortion on demand is a defensible position?
There have been a number of Catholic characters over the years on “Law & Order,” and certain archetypes have emerged. Jack McCoy is lapsed but with righteous moral convictions; Detective Mike Logan was a cynic, having been sexually abused by a parish priest; Detective Rey Curtis was devout. What unites these characters? Do they all have savior complexes?
(Laughs.) I suppose all these characters have that social activist side to Catholicism, the kind of activism that Pope John Paul II hated and that led him to suspend that Nicaraguan priest [Miguel d’Escoto Brockmann for his involvement in the Sandinista National Liberation Front]. I think the belief in public and community service is the common ground where these characters would meet.
Fonte: America magazine
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