quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Obama
Ótimo artigo do Martin Wolf do FT sobre Obama e a política econômica americana.
Uma ambulância para no acostamento para ajudar um homem com ataque cardíaco. Após medidas extremas, o paciente sobrevive. Dois anos depois, longe de mostrar-se agradecido, ele processa os médicos e paramédicos. Não fosse sua interferência, insiste o paciente, ele estaria como novo. Quanto ao ataque cardíaco, foi um evento menor. Ele teria ficado bem melhor, caso tivesse sido deixado sozinho.
Essa é a situação em que o dr. Barack Obama se encontra. Uma grande parte do povo americano esqueceu-se há tempos da gravidade do ataque cardíaco financeiro que atingiu os Estados Unidos no outono setentrional de 2008. Os republicanos convenceram muitos eleitores de que o atual mal-estar é explicado pela intervenção dos democratas e não pela catástrofe legada por George W. Bush. Isso é um golpe de propaganda.
O presidente Obama merece receber a culpa pelas repercussões? Não e sim. Não, porque em princípio o tratamento foi correto; sim, porque na prática foi demasiado cauteloso.
É essencial lembrar-se do contexto. Grandes crises financeiras provocam danos prolongados. Como ressaltaram Carmen Reinhart, da University of Maryland, e Kenneth Rogoff, da Harvard University, em uma atualização de seu trabalho anterior: "Com muita frequência, o cenário decorrente das crises financeiras tem três características em comum. Primeira, os colapsos dos mercados de ativos são profundos e prolongados (...) Segunda, vem acompanhado de profundos declínios na produção e emprego (...) Terceira, o valor real dos títulos de dívidas do governo tende a decolar." Como sempre, os riscos vão crescendo despreocupadamente no ciclo de alta e se materializam no de queda.
Como destacaram a professora Reinhart e Vincent Reinhart, do American Enterprise Institute, em artigo apresentado no simpósio de política econômica deste ano em Jackson Hole, os EUA tiveram em comum com vários outros países de alta renda (mais notavelmente, Espanha, Reino Unido e Irlanda) uma alta acentuada nos preços residenciais, no crédito e no balanço patrimonial do setor financeiro: entre 1997 e 2007, os preços reais das residências nos EUA subiram 87%, a taxa da dívida do setor financeiro em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 52% e a taxa de endividamento privado total em comparação ao PIB cresceu 101%. Era um desastre esperando para acontecer. O que tornou administrar o colapso muito mais difícil foi o fato, demonstrado no artigo de Reinhart e Reinhart, de que esta foi, de longe, a maior crise financeira mundial desde a Segunda Guerra Mundial.
Então, como a economia dos EUA se saiu nesta crise? Bastante bem, em alguns aspectos, especialmente na produção econômica geral; não tão bem em outros, mais notavelmente o desemprego. Na média, o PIB real per capita (pela paridade do poder de compra) caiu 9,3% nas crises anteriores estudadas no trabalho dos professores Reinhart e Rogoff. Desta vez, a queda nos EUA foi de 5,4%. O índice de desemprego aumentou, em média, 7 pontos percentuais nas crises anteriores. Desta vez, o desemprego subiu 5,7 pontos percentuais.
Esse contraste, entre o fraco desempenho dos EUA no desemprego e um desempenho melhor na produção, em termos históricos, manifesta-se analogamente nas comparações entre os EUA e outros países grandes de alta renda. Apesar de ser o epicentro da crise, o EUA sofreram um declínio proporcional na produção per capita menor do que nos outros países grandes de alta renda, com exceção da França. Mas o desemprego aumentou bem mais nos EUA do que nos outros países. A explicação é que o crescimento da produtividade nos EUA foi excepcionalmente forte, especialmente em 2009.
O que, então, esse desempenho nos diz sobre a política econômica dos EUA? A resposta é que se saiu bem em termos do que realmente atacou, mas foi bem menos bem-sucedida em termos do que não atacou.
Como Lawrence Summers, principal assessor econômico do presidente, destacou em 7 de outubro na conferência "View from the Top", do "Financial Times", realizada em Nova York, o foco do governo estava no "retorno à estabilidade, confiança e fluxo de crédito, para dar suporte a uma recuperação forte". Os elementos eram: apoio ao sistema financeiro - por meio do programa governamental de recuperação de ativos problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), herdado do governo anterior, por meio de garantias financeiras e dos "testes de estresse" sobre as instituições bancárias; os estímulos fiscais; e as ações do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para sustentar o fluxo de crédito.
Por sua natureza, tais políticas funcionam ao sustentar a demanda e, portanto, a produção. Seu impacto no emprego (e desemprego) é indireto. Como se constatou depois, o crescimento na produtividade foi tão forte, que um desempenho não tão ruim na produção foi insuficiente para evitar o aumento no desemprego. Seria de se esperar que os defensores do livre mercado concluíssem que a economia dos EUA e, particularmente, seu mercado de trabalho continuam flexíveis, sob seu presidente "socialista". Seria de se esperar que concluíssem também que havia necessidade de mais estímulos. Afinal, foram bastante modestos: os estímulos fiscais foram inferiores a 6% do PIB e, portanto, representam menos de 20% dos déficits acumulados de 2009, 2010 e 2011, enquanto a política monetária está presa em uma armadilha de liquidez.
A verdade é que a política não fracassou nem foi imprudente, mas foi tímida e, portanto, não conseguiu ter êxito. Um grande erro foi não abordar o mercado de trabalho diretamente, talvez com o corte temporário da tributação sobre as folhas de pagamento. Houve outros erros: o esforço para reduzir o excesso de dívidas das famílias deveria ter sido mais forte.
Infelizmente, os republicanos foram bem-sucedidos em persuadir uma parte grande o suficiente do povo americano de que se o paciente tivesse sido deixado sozinho, hoje estaria em perfeito estado de saúde. Isso, certamente, é um conto de ficção. Mas os eleitores, naturalmente, prestam pouca atenção às calamidades evitadas. Eles se concentram apenas em saber até que ponto a experiência prática não chega ao que eles desejam. Obama não ganha crédito pelas calamidades evitadas e recebe grande parte da culpa pelo que não se evitou. As aspirações de sua retórica, sem dúvida, agravaram a decepção.
A disposição do presidente de pedir pouco acabou revelando-se um imenso erro estratégico. Permite a seus oponentes argumentar que os democratas receberam o que quiseram e que o que eles queriam acabou fracassando. Se o presidente não tivesse conseguido tudo o que havia pedido, ele poderia argumentar que o resultado não foi por sua culpa. Com a expectativa de que haverá um impasse político, novas ações agora serão bloqueadas. Uma década perdida parece bastante provável. Isso seria uma calamidade para os EUA - e o mundo.
Fonte: Valor
terça-feira, 26 de outubro de 2010
As quatro familias
Abro o jornal e encontro a manchete requentada sobre a Erenice e "surprise , surprise" a noticia sobre as falcatruas no Metro do Governo Serra/Goldman. Como era de se esperar, mesmo quando faz um bom trabalho de investigação que compromete o Serra o jornal da Ditabranda prefere um destaque menor na primeira pagina e nas paginas internas a noticia se perde entre várias outras anti-Dilma. Comportamento curioso e em forte contraste com o passado, quando descobertas semelhantes tinham direito a manchete com letras garrafais. É como se publicasse a noticia com medo, ou quem sabe é um aviso: conheço seus podres e se eleito posso usa-lo para derrota-lo. Mas é muito estranho, muito mesmo.
Já a Globo que não tinha muita respeitabilidade, parece ter perdido o que restava: o JN transformou-se em mistura de tabloide com panfleto de extrema direita. O impacto sobre o negocio, não deverá ser pequeno e podemos estarmos assistindo a passagem do bastão da Globo para a Record. Não exatamente motivo pra comemoração. É preciso democratizar o acesso a informações e para tanto o melhor caminho me parece ser aumentar a concorrência no setor e uma banda larga boa e barata. A democracia brasileira não pode ficar prisioneira do poder de quatro familias. Naturalmente, a solução mais interferência do Estado não é razoável e não menos perigosa que a situação atual. Alias, é bom deixar claro: NÃO É A SOLUÇÃO.
Já a Globo que não tinha muita respeitabilidade, parece ter perdido o que restava: o JN transformou-se em mistura de tabloide com panfleto de extrema direita. O impacto sobre o negocio, não deverá ser pequeno e podemos estarmos assistindo a passagem do bastão da Globo para a Record. Não exatamente motivo pra comemoração. É preciso democratizar o acesso a informações e para tanto o melhor caminho me parece ser aumentar a concorrência no setor e uma banda larga boa e barata. A democracia brasileira não pode ficar prisioneira do poder de quatro familias. Naturalmente, a solução mais interferência do Estado não é razoável e não menos perigosa que a situação atual. Alias, é bom deixar claro: NÃO É A SOLUÇÃO.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Semana decisiva
Semana decisiva em que a Direita, principalmente a Nova Direita, vai usar todas as suas armas, baixarias, mentiras para reverter a curva da Dilma e, se necessário, ganhar no tapetão. Se não for possível vencer, pelo menos conseguem outro objetivo: fragilizar a administração da Dilma, repetindo o expediente usado contra o JK e Allende no Chile. É jogo duro e os velhos comunas aliados do Serra( a Nova Direita) tem longa experiência que somada a da velha direita torna o cenário ainda mais perigoso. Todo cuidado é pouco.
Hoje tem debate na Record , mas devido ao horário, 23hs, será um treinamento para o debate que importa, o da Globo. Alias, mais importante que o próprio debate é a edição do JN do debate é ai que mora o perigo. Não é o momento para baixar a guarda e comemorar. Não se morre na vespera e tão pouco se ganha eleição antes da abertura das urnas.
Hoje tem debate na Record , mas devido ao horário, 23hs, será um treinamento para o debate que importa, o da Globo. Alias, mais importante que o próprio debate é a edição do JN do debate é ai que mora o perigo. Não é o momento para baixar a guarda e comemorar. Não se morre na vespera e tão pouco se ganha eleição antes da abertura das urnas.
domingo, 24 de outubro de 2010
sábado, 23 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Trecho de "The Spiritual Roots of Europe: Yesterday, Today, and Tomorrow" do Ratzinger/Bento XVI
Ler os trabalhos do Ratzinger/Bento XVI é sempre um prazer e infelizmente, aparentemente, poucos, no grande bananão conhecem a sua rica produção. O trecho abaixo, por ex, permite uma leitura bem diferente da difundida em verso e prosa sobre sua visão política.
Let us return to the situation in Europe. In the nineteenth century, the two models that I described above were joined by a third, socialism, which quickly split into two different branches, one totalitarian and the other democratic. Democratic socialism managed to fit within the two existing models as a welcome counterweight to the radical liberal positions, which it developed and corrected. It also managed to appeal to various religious denominations. In England it became the political party of the Catholics, who had never felt at home among either the Protestant conservatives or the liberals. In Wilhelmine Germany, too, Catholic groups felt closer to democratic socialism than to the rigidly Prussian and Protestant conservative forces. In many respects, democratic socialism was and is close to Catholic social doctrine, and has in any case made a remarkable contribution to the formation of a social consciousness.
The totalitarian model, by contrast, was associated with a rigidly materialistic, atheistic philosophy of history: it saw history deterministically, as a road of progress that passes first through a religious and then through a liberal phase to arrive at an absolute, ultimate society in which religion is surpassed as a relic of the past and collective happiness is guaranteed by the workings of material conditions.
This scientific façade hides a dogmatic intolerance that views the spirit as produced by matter, and morals as produced by circumstances. According to its dictates, morals should be defined and practiced on the basis of society's purposes, and everything is deemed moral that helps to usher in the final state of happiness. This dogmatism completely subverts the values that built Europe. It also breaks with the entire moral tradition of humankind by rejecting the existence of values independent of the goals of material progress. Depending on circumstance, anything can become legitimate and even necessary; anything can become moral in the new sense of the term. Even humankind itself can be treated as an instrument, since the individual does not matter, only the future, the cruel deity adjudicating over one and all.
The communist systems collapsed under the weight of their own fallacious economic dogmatism. Commentators have nevertheless ignored all too readily the role in this demise played by the communists' contempt for human rights and their subjugation of morals to the demands of the system and the promises of the future. The greatest catastrophe encountered by such systems was not economic. It was the starvation of souls and the destruction of the moral conscience.
The essential problem of our times, for Europe and for the world, is that although the fallacy of the communist economy has been recognized — so much so that former communists have unhesitatingly become economic liberals — the moral and religious question that it used to address has been almost totally repressed. The unresolved issue of Marxism lives on: the crumbling of man's original uncertainties about God, himself, and the universe. The decline of a moral conscience grounded in absolute values is still our problem today. Left untreated, it could lead to the self-destruction of the European conscience, which we must begin to consider as a real danger — above and beyond the decline predicted by Spengler.
Fonte: "The Spiritual Roots of Europe: Yesterday, Today, and Tomorrow"
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Mais concorrência é a solução...
O caso do estranho objeto que pousou na careca do Chaves da Nova Direita é patetico e lembra o famoso caso do goleiro Rojas no Maracanã. A verdade parece ser o seu grande problema, ela esta sempre ausente no seu discurso e pratica política, como ficou claro no caso do aborto, dossie, entre tantos outros. Como era de se esperar a mídia, em particular a Globo, transforma cada mentira em verdade, pensando que com isto consegue ludibriar o distinto publico eleitor. O objetivo, no caso do objeto, é influenciar o resultado da pesquisa Data Folha desta sexta-feira. Evitar uma queda do seu candidato tornou-se uma questão de vida e morte.
Manipular eleições parece estar no DNA da Globo: Brizola, Lula em 89, Marta na disputa para ir ao segundo turno na eleição para governador são os casos mais conhecidos. Não por acaso a Globo sempre foi o ninho predileto do esgoto do esgoto da política nacional: os comunistas do ex-PCB( Partido Comunista Brasileiro). Mas é claro que eles simplesmente reforçaram o DNA golpista conhecido desde a campanha contra o Vargas.
E ainda falam de liberdade de imprensa, que é bom deixar bem claro é fundamental para o bom funcionamento da democracia. É função da imprensa vascullhar a vida de todo candidato e não apenas dos inimigos do dono do veiculo de comunicação. Para tanto é fundamental uma maior concorrência no setor, ainda o melhor antidoto contra o poder unificado das quatro familia.
Manipular eleições parece estar no DNA da Globo: Brizola, Lula em 89, Marta na disputa para ir ao segundo turno na eleição para governador são os casos mais conhecidos. Não por acaso a Globo sempre foi o ninho predileto do esgoto do esgoto da política nacional: os comunistas do ex-PCB( Partido Comunista Brasileiro). Mas é claro que eles simplesmente reforçaram o DNA golpista conhecido desde a campanha contra o Vargas.
E ainda falam de liberdade de imprensa, que é bom deixar bem claro é fundamental para o bom funcionamento da democracia. É função da imprensa vascullhar a vida de todo candidato e não apenas dos inimigos do dono do veiculo de comunicação. Para tanto é fundamental uma maior concorrência no setor, ainda o melhor antidoto contra o poder unificado das quatro familia.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Novidades do front...
Uma pequena reação do dolar e os otimistas de plantão comemoram a solução do problema cambial. Como dizia um velho amigo: solução do que cara palida!!!!, ainda segundo este mesmo velho amigo, mais conversa para boi dormir. Como já mencionado em outros posts o governo não pode ficar de braços cruzados, porem achar que soluções na linha do aumento do IOF va resolver o problema é ser levado por um gigantesco auto-engano. O problema cambial requer solução negociada no G20 e o ponta pé inicial tem que ser dado pelo Velho Imperio e o candidato a Novo Imperio.
Enquanto isto no front eleitoral, segundo a Folha, a esposa do candidato da Nova Direita fez aborto no quarto mês e como é difícil imaginar que esta decisão não tenha sido discutida pelo casal, é possível afirmar que sua defesa da vida não passa de mais uma promessa eleitoral para enganar o distinto público eleitor religioso. Alias, esta mudança repentina no campo religioso vem a somar-se a sua conversão ao populismo político e econômico com as promessas de aumento do salário minimo, bolsa familia e outras do mesmo naipe. Fico imaginando qual será a reação dos economistas serristas e outros criticos acidos do populismo diante desta mudança. Será que a Rua Itapeva vai de fato apoia-lo? Mas o mais assustador é seu comportamento explicitamente Bonapartista que, contudo, não me surpreende: já havia comentado com amigos no Facebook que ele é o Chaves da Nova Direita. Os serristas ficaram injuriados com a comparação, mas ela me aparece apropriada quando o Candidato da Nova Direita afirma insistentemente que se eleito vai governar acima dos partidos.
Noite memorável no TUCA, o teatro da Católica de SP, em evento promovido por advogados em apoio a Dilma.
Enquanto isto no front eleitoral, segundo a Folha, a esposa do candidato da Nova Direita fez aborto no quarto mês e como é difícil imaginar que esta decisão não tenha sido discutida pelo casal, é possível afirmar que sua defesa da vida não passa de mais uma promessa eleitoral para enganar o distinto público eleitor religioso. Alias, esta mudança repentina no campo religioso vem a somar-se a sua conversão ao populismo político e econômico com as promessas de aumento do salário minimo, bolsa familia e outras do mesmo naipe. Fico imaginando qual será a reação dos economistas serristas e outros criticos acidos do populismo diante desta mudança. Será que a Rua Itapeva vai de fato apoia-lo? Mas o mais assustador é seu comportamento explicitamente Bonapartista que, contudo, não me surpreende: já havia comentado com amigos no Facebook que ele é o Chaves da Nova Direita. Os serristas ficaram injuriados com a comparação, mas ela me aparece apropriada quando o Candidato da Nova Direita afirma insistentemente que se eleito vai governar acima dos partidos.
Noite memorável no TUCA, o teatro da Católica de SP, em evento promovido por advogados em apoio a Dilma.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Delfim sobre Lula e F.D.Roosevelt
De vez em quando o esforçado economista da Ditadura da uma dentro. É o caso deste artigo sobre Lula e F.D Roosevelt.
Qualquer semelhança entre a agressão da mídia no Brasil aos programas de Lula e as reações da mídia nos EUA ao New Deal, nos anos 30, não é só coincidência
Em abril de 2008, escrevi um comentário comparando o PAC e o Fome Zero do governo Lula aos programas de obras públicas e de combate ao desemprego sob o guarda-chuva do New Deal de FD Roosevelt, o presidente que conseguiu tirar a economia americana da Grande Depressão produzida a partir da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Três quartos de século separam essas experiências: na primeira metade da década 1930-1940, os EUA e o mundo mergulharam numa crise sem precedentes.
Quando Roosevelt tomou posse, em 1933, para seu primeiro mandato, o PIB americano havia sido reduzido a praticamente a metade (56,4 bilhões de dólares) do que era em 1929 (103 bilhões de dólares).
Apesar da tragédia do desemprego, que chegava a 30% da força de trabalho, os EUA eram uma nação próspera. Havia muita riqueza e uma boa parte da sociedade afluente aceitava o desemprego como contingência natural numa economia de mercado. A melhor coisa que os governos deviam fazer era ficar fora disso.
Roosevelt surpreendeu, já no discurso de posse, anunciando o fim da era da indiferença: “Temos 15 milhões de sujeitos passando fome e nós vamos dar de comer a eles. O governo entende que é sua obrigação providenciar trabalho para que eles mesmos voltem a sustentar suas famílias.”
Para escândalo de muitos, seu governo pôs em marcha dois enormes programas, nunca antes tentados naquele país, de amparo ao trabalho e combate à miséria, com investimentos públicos em obras, cuja principal prioridade era absorver mão de obra (uma espécie de PAC). O empreendimento-símbolo foi a criação da TVA (Tennessee Valley Authority), que construiu barragens para a produção de energia e gerenciou os projetos de irrigação para a produção de alimentos.
Esses programas sofreram pesado bombardeio da oposição conservadora, que, a título de defender a livre iniciativa, esconjurava a intervenção estatal no setor privado, porque interferia na oferta e procura de mão de obra, desvirtuando o funcionamento do mercado de trabalho… Um dado interessante é que os ataques da mídia republicana evitavam agredir o presidente (e seus altos níveis de popularidade), concentrando toda a fúria contra a figura de Harry Hopkins, principal mentor dos programas de amparo ao trabalhador e gerente de obras públicas, qualificado de “perigoso socialista”. Qualquer semelhança com as agressões midiáticas recentes aos programas Fome Zero, Luz para Todos e ao PAC não é simples coincidência…
Hoje, ninguém duvida que o New Deal foi decisivo para a reconstrução da confiança dos americanos nos fundamentos do regime de economia de mercado. Suas ações ajudaram a salvar o capitalismo, na medida em que os milhões de trabalhadores que recuperaram os empregos voltaram “a acreditar na vontade e na capacidade do governo de intervir na economia para proporcionar uma igualdade mais substancial de oportunidades” (FDR numa de suas falas no rádio, Conversa ao Pé do Fogo).
O fato é que o PIB americano cresceu durante o primeiro e segundo mandatos e, em 1940, havia recuperado o nível que perdera desde o início da grande crise, medindo 101,4 bilhões de dólares. Roosevelt completou um terceiro mandato presidencial e ainda foi eleito (no fim da Segunda Guerra Mundial), para um quarto mandato, mas faleceu antes de exercê-lo.
Quando Lula assumiu o primeiro mandato, em 2002, a economia brasileira não estava na situação desesperadora da americana em 1933, mas contabilizava algo como 12% de desemprego da população economicamente ativa e vinha de um período de 20 anos de medíocre crescimento, com a renda per capita praticamente estagnada. Seu governo pôs em prática os programas de combate à fome que prometera no prólogo de sua Carta aos Brasileiros e posteriormente o PAC, que soma o investimento público e obras privadas, com foco na recuperação da desgastada infraestrutura de transportes, da matriz energética e na indústria da habitação. Setores de grande demanda de mão de obra e de promoção do desenvolvimento.
Oito anos depois (e 15 milhões de empregos a mais), os resultados são visíveis: queda acentuada das taxas do desemprego (para menos de 7% da população economicamente ativa), crescimento da renda e dos níveis de consumo da população, recuperação da autoestima do trabalhador e uma sociedade que adquiriu condições de oferecer substancial melhora na distribuição de oportunidades. Isso, tendo atravessado a segunda pior crise da economia mundial dos últimos 80 anos, com o PIB crescendo em 2010 acima de 7%.
Fonte: Carta Capital
Qualquer semelhança entre a agressão da mídia no Brasil aos programas de Lula e as reações da mídia nos EUA ao New Deal, nos anos 30, não é só coincidência
Em abril de 2008, escrevi um comentário comparando o PAC e o Fome Zero do governo Lula aos programas de obras públicas e de combate ao desemprego sob o guarda-chuva do New Deal de FD Roosevelt, o presidente que conseguiu tirar a economia americana da Grande Depressão produzida a partir da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Três quartos de século separam essas experiências: na primeira metade da década 1930-1940, os EUA e o mundo mergulharam numa crise sem precedentes.
Quando Roosevelt tomou posse, em 1933, para seu primeiro mandato, o PIB americano havia sido reduzido a praticamente a metade (56,4 bilhões de dólares) do que era em 1929 (103 bilhões de dólares).
Apesar da tragédia do desemprego, que chegava a 30% da força de trabalho, os EUA eram uma nação próspera. Havia muita riqueza e uma boa parte da sociedade afluente aceitava o desemprego como contingência natural numa economia de mercado. A melhor coisa que os governos deviam fazer era ficar fora disso.
Roosevelt surpreendeu, já no discurso de posse, anunciando o fim da era da indiferença: “Temos 15 milhões de sujeitos passando fome e nós vamos dar de comer a eles. O governo entende que é sua obrigação providenciar trabalho para que eles mesmos voltem a sustentar suas famílias.”
Para escândalo de muitos, seu governo pôs em marcha dois enormes programas, nunca antes tentados naquele país, de amparo ao trabalho e combate à miséria, com investimentos públicos em obras, cuja principal prioridade era absorver mão de obra (uma espécie de PAC). O empreendimento-símbolo foi a criação da TVA (Tennessee Valley Authority), que construiu barragens para a produção de energia e gerenciou os projetos de irrigação para a produção de alimentos.
Esses programas sofreram pesado bombardeio da oposição conservadora, que, a título de defender a livre iniciativa, esconjurava a intervenção estatal no setor privado, porque interferia na oferta e procura de mão de obra, desvirtuando o funcionamento do mercado de trabalho… Um dado interessante é que os ataques da mídia republicana evitavam agredir o presidente (e seus altos níveis de popularidade), concentrando toda a fúria contra a figura de Harry Hopkins, principal mentor dos programas de amparo ao trabalhador e gerente de obras públicas, qualificado de “perigoso socialista”. Qualquer semelhança com as agressões midiáticas recentes aos programas Fome Zero, Luz para Todos e ao PAC não é simples coincidência…
Hoje, ninguém duvida que o New Deal foi decisivo para a reconstrução da confiança dos americanos nos fundamentos do regime de economia de mercado. Suas ações ajudaram a salvar o capitalismo, na medida em que os milhões de trabalhadores que recuperaram os empregos voltaram “a acreditar na vontade e na capacidade do governo de intervir na economia para proporcionar uma igualdade mais substancial de oportunidades” (FDR numa de suas falas no rádio, Conversa ao Pé do Fogo).
O fato é que o PIB americano cresceu durante o primeiro e segundo mandatos e, em 1940, havia recuperado o nível que perdera desde o início da grande crise, medindo 101,4 bilhões de dólares. Roosevelt completou um terceiro mandato presidencial e ainda foi eleito (no fim da Segunda Guerra Mundial), para um quarto mandato, mas faleceu antes de exercê-lo.
Quando Lula assumiu o primeiro mandato, em 2002, a economia brasileira não estava na situação desesperadora da americana em 1933, mas contabilizava algo como 12% de desemprego da população economicamente ativa e vinha de um período de 20 anos de medíocre crescimento, com a renda per capita praticamente estagnada. Seu governo pôs em prática os programas de combate à fome que prometera no prólogo de sua Carta aos Brasileiros e posteriormente o PAC, que soma o investimento público e obras privadas, com foco na recuperação da desgastada infraestrutura de transportes, da matriz energética e na indústria da habitação. Setores de grande demanda de mão de obra e de promoção do desenvolvimento.
Oito anos depois (e 15 milhões de empregos a mais), os resultados são visíveis: queda acentuada das taxas do desemprego (para menos de 7% da população economicamente ativa), crescimento da renda e dos níveis de consumo da população, recuperação da autoestima do trabalhador e uma sociedade que adquiriu condições de oferecer substancial melhora na distribuição de oportunidades. Isso, tendo atravessado a segunda pior crise da economia mundial dos últimos 80 anos, com o PIB crescendo em 2010 acima de 7%.
Fonte: Carta Capital
domingo, 17 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Presidente dos ricos....
A economia americana, como mencionado em varios posts, continua patinando e o FED mantem sua política de uma nota só: inundando o mundo de dolares. O objetivo é obvio: eliminar o risco de deflação da economia americana transferindo-o para o resto do mundo. Neste cenário do salve-se quem puder parece piada de mal gosto o argumento que o Brasil poderia implementar medidas que resolveria o problema da apreciação cambial. As vezes me pergunto em qual mundo vivem os autores deste tipo de propostas. É claro que ficar sentado, tão pouco ajuda, mas é preciso ficar claro que as medidas são apenas paliativas e que a solução requer uma negociação internacional que ainda não esta no horizonte devido as eleições americanas.
Enquanto isto no grande bananão o candidato da Nova Direita se esmera em vender ilusões na forma de propostas insanas de aumento do salário minimo e do Bolsa Familia. E pensar que em outra encarnação - ou seria face - ele se mostrava um político com propostas para a área econômica com alguma racionalidade. O desejo de ser eleito faz milagres... mas no improvável cenário de sua eleição não será nada fácil administrar este tipo de expectativa, principalmente levando-se em conta que ele não é exatamente conhecido por ser um ótimo executivo.
Eu do meu lado, continuo confiando no bom senso do eleitor em não eleger um Presidente dos ricos. Sim, dos ricos, como diria milha falecida avo, uma católica que não perdia uma missa, e nunca se deixava levar pelas aparências ou lenga, lenga dos politicos.
Enquanto isto no grande bananão o candidato da Nova Direita se esmera em vender ilusões na forma de propostas insanas de aumento do salário minimo e do Bolsa Familia. E pensar que em outra encarnação - ou seria face - ele se mostrava um político com propostas para a área econômica com alguma racionalidade. O desejo de ser eleito faz milagres... mas no improvável cenário de sua eleição não será nada fácil administrar este tipo de expectativa, principalmente levando-se em conta que ele não é exatamente conhecido por ser um ótimo executivo.
Eu do meu lado, continuo confiando no bom senso do eleitor em não eleger um Presidente dos ricos. Sim, dos ricos, como diria milha falecida avo, uma católica que não perdia uma missa, e nunca se deixava levar pelas aparências ou lenga, lenga dos politicos.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Memorias
O post de ontem poderá passar a falsa impressão que em algum momento da minha juventude tenha sido atraido pelo catolicismo marxista. Aconteceu justamente o contrário: agravou a crise normal, me parece, naquela idade e me afastou da religião. Faltava a este tipo de catolicismo os elementos que faziam parte da minha infância em uma familia e comunidade profundamente católicas. Por paradoxal que possa parecer, no período na minha juventude em que acreditava na fantasia marxista, nunca perdi minha atração pelo catolicismo popular das festas da minha infância com sua liturgia e mistérios que tanto me encantavam e ainda encanta. A idéia de usar o pulpito para pregações politico partidárias que agradava a tantos militantes de esquerda nunca foi do meu agrado. Não me parecia correto, mas um verdadeiro sacrilégio. É claro que era uma reação sem nenhum fundamento em leituras, apenas baseado em valores em que fui educado.
O retorno a Igreja, por uma feliz coincidência, aconteceu em Oxford, onde comecei a frequentar as missas em uma igreja, que se não estou errado, era a mesma do Oratorio do Cardeal Newman. A liturgia era em inglês, mas todo o ambiente me parecia totalmente familiar e me fazia sentir em casa, o que raramente era o caso nas missas no Brasil. Desnecessário mencionar que tão pouco via com bons olhos o sucesso de movimento católico de forte apelo midiatico. Em sintese, em se tratando de catolicismo o meu lado é bem claro: me sinto bem na companhia de Ratzinger, Lubac, Balthasar e Guardini.
O retorno a Igreja, por uma feliz coincidência, aconteceu em Oxford, onde comecei a frequentar as missas em uma igreja, que se não estou errado, era a mesma do Oratorio do Cardeal Newman. A liturgia era em inglês, mas todo o ambiente me parecia totalmente familiar e me fazia sentir em casa, o que raramente era o caso nas missas no Brasil. Desnecessário mencionar que tão pouco via com bons olhos o sucesso de movimento católico de forte apelo midiatico. Em sintese, em se tratando de catolicismo o meu lado é bem claro: me sinto bem na companhia de Ratzinger, Lubac, Balthasar e Guardini.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
O esgoto do esgoto...e o grande desafio
O Partido "Piores Salários Do Brasil", é curiosamente o que mais abriga ex-militantes do esgoto do esgoto da política nacional, os ex-comunistas do PCB, a melhor escola de quadros da direita brasileira. Há quem ainda fica surpreso com esta informação. Não seria o PT? De fato há varios ex-membros deste equivoco histórico, ou havia, principalmente no Rio, coincidentemente vários deles envolvidos nos escandalos da atual administração o que de modo algum me surpreende: moralidade e etica nunca foi o forte do pensamento marxista.
A baixaria da campanha do candidato da Nova e da Velha direita também não me surpreende, ao contrário, era o esperado já que os stalinistas tem uma longa história de praticas de assassinato de carater, mentiras, difamaçôes, etc, que primam pelo profissionalismo ausente em táticas parecidas, mas amadoras, usadas pela Velha Direita. A eficiência é duvidosa, mas em eleição disputada é suficiente para garantir o resultado esperado. Aliados ocasionais serão, naturalmente, trocados por outros mais convenientes.
Como mencionado em outros posts, continuo onde sempre estive: do lado daqueles que defendem uma sociedade mais justa e solidaria, porem, sem as ilusões que tinha aos 20 e poucos anos em relação ao marxismo em relação ao qual compartilho a avaliação do Kolakowski: a grande fantasia do seculo xx, ou seria mentira? Acho que a resposta seria a duas. Pensar um agir católico pós catolicismo marxista, sem cair na tentação de um retorno a um período de ouro que nunca existiu é o grande desafio do intelectual católico brasileiro, na minha modesta opinião.
A baixaria da campanha do candidato da Nova e da Velha direita também não me surpreende, ao contrário, era o esperado já que os stalinistas tem uma longa história de praticas de assassinato de carater, mentiras, difamaçôes, etc, que primam pelo profissionalismo ausente em táticas parecidas, mas amadoras, usadas pela Velha Direita. A eficiência é duvidosa, mas em eleição disputada é suficiente para garantir o resultado esperado. Aliados ocasionais serão, naturalmente, trocados por outros mais convenientes.
Como mencionado em outros posts, continuo onde sempre estive: do lado daqueles que defendem uma sociedade mais justa e solidaria, porem, sem as ilusões que tinha aos 20 e poucos anos em relação ao marxismo em relação ao qual compartilho a avaliação do Kolakowski: a grande fantasia do seculo xx, ou seria mentira? Acho que a resposta seria a duas. Pensar um agir católico pós catolicismo marxista, sem cair na tentação de um retorno a um período de ouro que nunca existiu é o grande desafio do intelectual católico brasileiro, na minha modesta opinião.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Nelson Rodrigues
Nunca fui um grade fã do Nelson Rodrigues, vi filmes baseados em suas peças, assisti a adaptações memoráveis dirigidas pelo Antunes na TV Cultura, mas nunca achei nada de especial. Não mudei minha avaliação e ainda considero apenas "veu de noiva"uma obra prima. Admiro, no entanto, o seu talento de frasista. Há várias inesqueciveis e uma, em particular, que cai como uma luva para descrever o marxismo talebã: "no Brasil, o marxismo adquiriu uma forma difusa, volatizada, atmosférica. É-se marxista sem estudar, sem pensar, sem ler, sem escrever, apenas respirando". Há bons marxistas no grande bananão e por isto me parece injusta a afirmação sem o adjetivo talebã. É claro que considero o marxismo um projeto de pesquisa esgotado e não vejo nenhum futuro na proposta 68 de um catolicismo marxista, mas reconheço, no entanto, que se excluirmos sinteses exóticas, há quem ainda persiste, com suficiente seriedade intelectual, na senda do velho Barba e esta presente, com todo direito, alias, na grande feira de idéias chamada Universidade. Infelizmente, ate mesmo este marxismo academicamente serio, recusa-se a reconhecer o mesmo direito ao pensamento religioso, em particular o católico, ate mesmo na sua própria casa.
domingo, 10 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Nota da CNBB em relação ao Momento Eleitoral
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por meio de sua Presidência, congratula-se com o Povo Brasileiro pelo exercício da cidadania na realização do primeiro turno das eleições gerais, quando foram eleitos os representantes para o Poder Legislativo e definidos os Governadores de diversas unidades da Federação, bem como o nome daqueles que serão submetidos a novo escrutínio em 2º turno, para a Presidência da República e alguns governos estaduais e distrital.
A CNBB congratula-se também pelos frutos benéficos decorrentes da aprovação da Lei da Ficha Limpa, que está oferecendo um novo paradigma para o processo eleitoral, mesmo se ainda tantos obstáculos a essa Lei tenham de ser superados.
Entretanto, lamentamos profundamente que o nome da CNBB - e da própria Igreja Católica – tenha sido usado indevidamente ao longo da campanha, sendo objeto de manipulação. Certamente, é direito – e, mesmo, dever – de cada Bispo, em sua Diocese, orientar seus próprios diocesanos, sobretudo em assuntos que dizem respeito à fé e à moral cristã. A CNBB é um organismo a serviço da comunhão e do diálogo entre os Bispos, de planejamento orgânico da pastoral da Igreja no Brasil, e busca colaborar na edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária.
Neste sentido, queremos reafirmar os termos da Nota de 16.09.2010, na qual esclarecemos que “falam em nome da CNBB somente a Assembléia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência”. Recordamos novamente que, da parte da CNBB, permanece como orientação, neste momento de expressão do exercício da cidadania em nosso País, a Declaração sobre o Momento Político Nacional, aprovada este ano em sua 48ª Assembléia Geral.
Reafirmamos, ainda, que a CNBB não indica nenhum candidato, e recordamos que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão. Diante de tão grande responsabilidade, exortamos os fiéis católicos a terem presentes critérios éticos, entre os quais se incluem especialmente o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.
Confiando na intercessão de Nossa Senhora Aparecida, invocamos as bênçãos de Deus para todo o Povo Brasileiro.
Brasília, 08 de outubro de 2010
P. nº 0849/10
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB
Fonte: cnbb.org
A CNBB congratula-se também pelos frutos benéficos decorrentes da aprovação da Lei da Ficha Limpa, que está oferecendo um novo paradigma para o processo eleitoral, mesmo se ainda tantos obstáculos a essa Lei tenham de ser superados.
Entretanto, lamentamos profundamente que o nome da CNBB - e da própria Igreja Católica – tenha sido usado indevidamente ao longo da campanha, sendo objeto de manipulação. Certamente, é direito – e, mesmo, dever – de cada Bispo, em sua Diocese, orientar seus próprios diocesanos, sobretudo em assuntos que dizem respeito à fé e à moral cristã. A CNBB é um organismo a serviço da comunhão e do diálogo entre os Bispos, de planejamento orgânico da pastoral da Igreja no Brasil, e busca colaborar na edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária.
Neste sentido, queremos reafirmar os termos da Nota de 16.09.2010, na qual esclarecemos que “falam em nome da CNBB somente a Assembléia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência”. Recordamos novamente que, da parte da CNBB, permanece como orientação, neste momento de expressão do exercício da cidadania em nosso País, a Declaração sobre o Momento Político Nacional, aprovada este ano em sua 48ª Assembléia Geral.
Reafirmamos, ainda, que a CNBB não indica nenhum candidato, e recordamos que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão. Diante de tão grande responsabilidade, exortamos os fiéis católicos a terem presentes critérios éticos, entre os quais se incluem especialmente o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.
Confiando na intercessão de Nossa Senhora Aparecida, invocamos as bênçãos de Deus para todo o Povo Brasileiro.
Brasília, 08 de outubro de 2010
P. nº 0849/10
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB
Fonte: cnbb.org
Ainda o câmbio
Ótimo artigo do Mendonça de Barros sobre o câmbio. Como já comentamos em vários posts é um problema que requer negociação internacional. Ações individuais, conseguem, no máximo resultado de curto prazo a um custo fiscal que não é pequeno.
O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, acertou em cheio ao declarar publicamente que vivemos uma verdadeira guerra monetária mundial. Para que sua imagem fosse perfeita, faltou apenas que adicionasse um adjetivo -não declarado- para descrevê-la.
O ministro foi a única autoridade internacional a ter coragem de denunciar a tentativa de usar as taxas de câmbio desvalorizadas como instrumento de estímulo ao crescimento. Fica fácil entender a ousadia do ministro brasileiro: nosso país é um dos que mais vêm sofrendo as consequências negativas dessa guerra escondida.
Mas, se o ministro acertou em cheio em sua denúncia, a decisão de dobrar o valor do IOF, cobrado na entrada de dólares para aplicação nos gordos juros pagos pelo Tesouro brasileiro, mostra que ele ainda não entendeu a dinâmica atual dos mercados de câmbio.
Foi importante dar nome aos bois no momento em que as lideranças mundiais evitam falar publicamente sobre essa questão. Mas o próximo passo será discutir a questão de forma clara e abrangente nos fóruns internacionais, como os próximos encontros do FMI e do grupo dos 20.
O leitor da Folha precisa entender que a guerra de moedas ocorre já há muito tempo e o que estamos vendo agora é uma situação extrema devido à forte recessão econômica no mundo desenvolvido.
Várias economias importantes, como o Japão e a Coreia, e, mais recentemente, a China, usaram de forma sistemática a arma de moedas desvalorizadas em relação às dos países mais ricos -principalmente em relação ao dólar americano- para crescer de forma sustentada.
Mesmo o Brasil usou em seu passado de crises a arma da moeda fraca para dar sustentação às nossas exportações, principalmente as de produtos industriais.
Mas, como a história nunca se repete da mesma forma, a crise bancária nas nações desenvolvidas mudou o cenário mundial e fez com que a política cambial dos países asiáticos ganhasse outra dimensão. Com o crescimento chinês sustentando as economias emergentes e os EUA e a Europa lutando para sair da recessão, a equação do câmbio desvalorizado mudou de sinal.
Em outras palavras, são agora os EUA, a Alemanha e a Itália que precisam exportar para o mundo em desenvolvimento e tentar reverter o quadro recessivo e de altos índices de desemprego em que estão mergulhados. Para tanto, o dólar e o euro precisam se desvalorizar em relação às moedas das nações emergentes para viabilizar o crescimento.
Mas, como sempre acontece nos momentos mais difíceis da economia mundial, não há ainda condições políticas para fazer esse movimento de forma coordenada. E, sem uma atuação conjunta dos bancos centrais no processo de corrigir e de estabilizar as taxas de câmbio, a probabilidade de sucesso de iniciativas isoladas, como a do governo brasileiro, é muito baixa.
O caso do Japão talvez seja mais representativo dessa afirmação de que o ativismo isolado do ministro Mantega está fadado ao insucesso.
Recentemente, o governo japonês mobilizou quase US$ 30 bilhões para tentar trazer o iene para um nível menos destruidor da indústria japonesa e, menos de um mês após esse movimento agressivo, a moeda está mais forte do que antes.
Se o Japão, com juros de 0% ao ano e com uma capacidade de intervenção nos mercados muito maior do que a nossa, não consegue isoladamente evitar o fortalecimento de sua moeda, imagine o Brasil. Com os juros de longo prazo dos títulos emitidos pelo governo brasileiro próximos de 12% ao ano, a decisão de agir isoladamente me parece algo semelhante a "enxugar gelo".
Enquanto escrevia esta coluna, o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, veio a público propor uma discussão séria e articulada para pôr fim a essa guerra surda.
Os EUA foram parte fundamental para viabilizar a política de moedas fracas adotadas pelas economias da Ásia até hoje, mas já não têm mais condições financeiras e econômicas de continuar com esse papel.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
"Nota da Comissão Brasileira Justiça e Paz "
O MOMENTO POLÍTICO E A RELIGIÃO
“Amor e Verdade se encontrarão. Justiça e Paz se abraçarão" (Salmo 85)
A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) está preocupada com o momento político na sua relação com a religião. Muitos grupos, em nome da fé cristã, têm criado dificuldades para o voto livre e consciente. Desconsideram a manifestação da presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 16 de setembro, “Na proximidade das eleições”, quando reiterou a posição da 48ª Assembléia Geral da entidade, realizada neste ano em Brasília. Esses grupos continuaram, inclusive, usando o nome da CNBB, induzindo erroneamente os fiéis a acreditarem que ela tivesse imposto veto a candidatos nestas eleições.
Continua sendo instrumentalizada eleitoralmente a nota da presidência do Regional Sul 1 da CNBB, fato que consideramos lamentável, porque tem levado muitos católicos a se afastarem de nossas comunidades e paróquias.
Constrangem nossa conciência cidadã, como cristãos, atos, gestos e discursos que ferem a maturidade da democracia, desrespeitam o direito de livre decisão, confundindo os cristãos e comprometendo a comunhão eclesial.
Os eleitores têm o direito de optar pela candidatura à Presidência da República que sua consciência lhe indicar, como livre escolha, tendo como referencial valores éticos e os princípios da Doutrina Social da Igreja, como promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, com a inclusão social de todos os cidadãos e cidadãs, principalmente dos empobrecidos.
Nesse sentido, a CBJP, em parceria com outras entidades, realizou debate, transmitido por emissoras de inspiração cristã, entre as candidaturas à Presidência da Republica no intento de refletir os desafios postos ao Brasil na perspectiva de favorecer o voto consciente e livre. Igualmente, co-patrocinou um subsídio para formação da cidadania, sob o título: “Eleições 2010: chão e horizonte”.
A Comissão Brasileira Justiça e Paz, nesse tempo de inquietudes, reafirma os valores e princípios que norteiam seus passos e a herança de pessoas como Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes, Margarida Alves, Madre Cristina, Tristão de Athayde, Ir. Dorothy, entre tantos outros. Estes, motivados pela fé, defenderam a liberdade, quando vigorava o arbítrio; a defesa e o anúncio da liberdade de expressão, em tempos de censura; a anistia, ampla, geral e irrestrita, quando havia exílios; a defesa da dignidade da pessoa humana, quando se trucidavam e aviltavam pessoas.
Compartilhamos a alegria da luz, em meio a sombras, com os frutos da Lei da Ficha Limpa como aprimoraramento da democracia. Esta Lei de Iniciativa Popular uniu a sociedade e sintonizou toda a igreja com os reclamos de uma política a serviço do bem comum e o zelo pela justiça e paz.
Brasília, 06 de Outubro de 2010.
Comissão Brasileira Justiça e Paz,
Organismo da CNBB"
Fonte: Zero hora
“Amor e Verdade se encontrarão. Justiça e Paz se abraçarão" (Salmo 85)
A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) está preocupada com o momento político na sua relação com a religião. Muitos grupos, em nome da fé cristã, têm criado dificuldades para o voto livre e consciente. Desconsideram a manifestação da presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 16 de setembro, “Na proximidade das eleições”, quando reiterou a posição da 48ª Assembléia Geral da entidade, realizada neste ano em Brasília. Esses grupos continuaram, inclusive, usando o nome da CNBB, induzindo erroneamente os fiéis a acreditarem que ela tivesse imposto veto a candidatos nestas eleições.
Continua sendo instrumentalizada eleitoralmente a nota da presidência do Regional Sul 1 da CNBB, fato que consideramos lamentável, porque tem levado muitos católicos a se afastarem de nossas comunidades e paróquias.
Constrangem nossa conciência cidadã, como cristãos, atos, gestos e discursos que ferem a maturidade da democracia, desrespeitam o direito de livre decisão, confundindo os cristãos e comprometendo a comunhão eclesial.
Os eleitores têm o direito de optar pela candidatura à Presidência da República que sua consciência lhe indicar, como livre escolha, tendo como referencial valores éticos e os princípios da Doutrina Social da Igreja, como promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, com a inclusão social de todos os cidadãos e cidadãs, principalmente dos empobrecidos.
Nesse sentido, a CBJP, em parceria com outras entidades, realizou debate, transmitido por emissoras de inspiração cristã, entre as candidaturas à Presidência da Republica no intento de refletir os desafios postos ao Brasil na perspectiva de favorecer o voto consciente e livre. Igualmente, co-patrocinou um subsídio para formação da cidadania, sob o título: “Eleições 2010: chão e horizonte”.
A Comissão Brasileira Justiça e Paz, nesse tempo de inquietudes, reafirma os valores e princípios que norteiam seus passos e a herança de pessoas como Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes, Margarida Alves, Madre Cristina, Tristão de Athayde, Ir. Dorothy, entre tantos outros. Estes, motivados pela fé, defenderam a liberdade, quando vigorava o arbítrio; a defesa e o anúncio da liberdade de expressão, em tempos de censura; a anistia, ampla, geral e irrestrita, quando havia exílios; a defesa da dignidade da pessoa humana, quando se trucidavam e aviltavam pessoas.
Compartilhamos a alegria da luz, em meio a sombras, com os frutos da Lei da Ficha Limpa como aprimoraramento da democracia. Esta Lei de Iniciativa Popular uniu a sociedade e sintonizou toda a igreja com os reclamos de uma política a serviço do bem comum e o zelo pela justiça e paz.
Brasília, 06 de Outubro de 2010.
Comissão Brasileira Justiça e Paz,
Organismo da CNBB"
Fonte: Zero hora
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Novos tempos
O resultado da eleição não foi o que eu esperava, mas nos últimos dias já havia ficado claro que o segundo turno era provável. Uma curiosa aliança composta basicamente de saudosos do Brasil antes de 1964, estava fazendo uma trabalho eficiente de disseminação do medo e preconceitos. Como era de se esperar contava com o apoio generoso da velha direita e da nova direita, os ex-comunistas do decrepito e extinto PCB.
O poder eleitoral dos evangelicos é um fato novo e fascinante para os estudiosos da religião, particularmente sociologos da religião da linha escolha pública. O pluralismo religioso é algo que veio pra ficar, assim como seu peso eleitoral e manipulação em torno do mesmo. Há quem fale na reprodução no grande bananão da aliança crista conservadora americana. É uma hipotese interessante e com grande possibilidade de ser verdadeira.
Há um outro aspecto a ele ligado, mas focado em um setor especifico e que mais uma vez reproduz a experiencia americana. Trata-se da versão dos tristes trópicos da cultural wars dos campi americanos. Uma reacão controversa à tomada de poder da geração 68 de varios deptos da área de humanidades em importantes universidades americana. Economia não foi um deles, já que no Imperio era e continua a ser basicamente uma fortaleza neoclassica. Aqui, dependendo, da instituição é o último reduto do marxismo talebã e dificilmente passara incólume.
O poder eleitoral dos evangelicos é um fato novo e fascinante para os estudiosos da religião, particularmente sociologos da religião da linha escolha pública. O pluralismo religioso é algo que veio pra ficar, assim como seu peso eleitoral e manipulação em torno do mesmo. Há quem fale na reprodução no grande bananão da aliança crista conservadora americana. É uma hipotese interessante e com grande possibilidade de ser verdadeira.
Há um outro aspecto a ele ligado, mas focado em um setor especifico e que mais uma vez reproduz a experiencia americana. Trata-se da versão dos tristes trópicos da cultural wars dos campi americanos. Uma reacão controversa à tomada de poder da geração 68 de varios deptos da área de humanidades em importantes universidades americana. Economia não foi um deles, já que no Imperio era e continua a ser basicamente uma fortaleza neoclassica. Aqui, dependendo, da instituição é o último reduto do marxismo talebã e dificilmente passara incólume.
domingo, 3 de outubro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Porque hoje é sexta feira...
Sexta-feira, chuva e transito complicado funciona como lembrança para a incompetência dos gestores públicos em pensar uma solução para os graves problemas da capital do estado mais rico da União. Debates sobre politicas públicas é uma raridade nos tristes trópicos e no caso da eleição deste ano para presidente e governador esta ausência fez se presente nos debates entre os candidatos. A palavra debate, infelizmente, não é a mais apropriada para descrever a encenação apresentada em diferentes mídias sempre com a direção de mestres especializados em evitar o que deveria ser o objeto dos encontros: debates...
Estranho mundo este o nosso, no passado, quando o silêncio dos cemiterios era lei, encontravamos meios para quebra-lo e estavamos prontos para ouvir um argumento e depois rebate-lo. Perdemos a doçura, o amargo reina absoluto, e o obscurantismo saudosista infiltra-se onde menos se esperava. O que antes se apresentava como esquerda, ainda que autoritária, hoje transformou-se nova direita chic e rancorosa; o catolicismo marxista caminhou para um dos dois extremos: um ultra esquerdismo divertido , mas inconsequente e, no outro extremo, uma surpreendente tentativa de retorno ao mundo pré 1964.
Tempos sombrios ou o velorio dos sonhos ingenuos dos terriveis anos 60?
Estranho mundo este o nosso, no passado, quando o silêncio dos cemiterios era lei, encontravamos meios para quebra-lo e estavamos prontos para ouvir um argumento e depois rebate-lo. Perdemos a doçura, o amargo reina absoluto, e o obscurantismo saudosista infiltra-se onde menos se esperava. O que antes se apresentava como esquerda, ainda que autoritária, hoje transformou-se nova direita chic e rancorosa; o catolicismo marxista caminhou para um dos dois extremos: um ultra esquerdismo divertido , mas inconsequente e, no outro extremo, uma surpreendente tentativa de retorno ao mundo pré 1964.
Tempos sombrios ou o velorio dos sonhos ingenuos dos terriveis anos 60?
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Repartição de renda faz sua última eleição
Não sou o único a chamar os ex-comunistas(PCB) de nova direita. Em artigo genial no Valor um dos melhores intelectuais brasileiros, Wanderley Guilherme dos Santos, usa expressão semelhante: "a nova direita chic, os comunistas nostálgicos". Ele esta se referindo, naturalmente, aos ex-comunistas alojados no partido do candidato da Nova Direita.
No mesmo jornal, uma longa matéria com o Plinio, que, ao contrário do que pensava, esta cada vez mais longe daquilo que defino como católico. É lamentável...
abaixo o artigo do Wanderley:
Registro dois óbitos iminentes: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda e o do poder desestabilizador da grande mídia. São movimentos dessa natureza que brazilianistas e a nova direita chic, os comunistas nostálgicos, não antecipam. Há quem acredite que nada mudou no Brasil desde a Primeira Missa. Outros, que mudou para pior desde a Primeira República. São ecos do passado, nutridos pela lerdeza real com que o país tem resolvido alguns problemas clássicos da modernidade. A urbanização custou a chegar, assim como a industrialização e a transformação da estrutura ocupacional. Argentina, Chile e Uruguai brilhavam com taxas européias de urbanização e alfabetização (nada de industrialização, é bem verdade) quando o mundo era campestre e a poesia e o romance, bucólicos. Em um par de décadas, contudo, a urbanização e a transformação ocupacional brasileiras bateram recordes históricos, deixando na rabeira não só a América do Sul, mas China, Índia e, em alguns aspectos, a Rússia, inventando ao longo da travessia um eleitorado de 136 milhões de votantes, indomável a qualquer elite leninista e, cada vez mais, insubmissa ao comando coronelista. A poda das oligarquias hereditárias ocorre de Norte a Sul do país. Por fim, descobriu-se uma classe média (próxima de 90 milhões de pessoas) quase do tamanho do Japão. Dezenas de milhões de "japoneses", digamos assim, falando português, mas com igual apetite consumista, invadiram as lojas de eletrodomésticos, de roupas, agências de viagens, aviões, hotéis e, até mesmo, as revendedoras de automóveis japoneses propriamente ditos. Não há nostalgia que suporte isso sem virar ressentimento. Mas, a contragosto, será nesse depósito que a história obrigará os conservadores a colher votos no futuro.
Do berço ao túmulo, a população brasileira passou a ser assistida por complexa rede de políticas sociais institucionalmente inéditas, em grande parte, e incomparáveis em sua cobertura. Multidões foram extraídas à miséria e à pobreza em prazo mínimo, se confrontado aos quase cem anos que o sistema social europeu exigiu para ser elaborado e implementado. Evidentemente, nossos séculos preguiçosos legaram tal espetáculo de carências que a profunda subversão de prioridades operada pela era Lula não está senão a meio caminho da empreitada em seus efeitos estruturais. Metas ainda por atingir, ocasionais gestões deficientes, equívocos de formulação inicial de alguns programas fazem parte da história real do período e comparecem na queda de braço das argumentações eleitorais. Mas não é nesse discurso ao tele-espectador que se encontra o coração da matéria.
de parte das políticas sociais em curso dispensa intermediários. Os atingidos têm acesso direto aos benefícios, extinguindo-se o pedágio de gratidão que deveriam pagar aos agentes executivos das ações distributivas. A fruição dos bens sociais a que têm direito independe de conexão com algum doador individualizado, subordinando-se tão somente ao vínculo formal com a apropriada agência de implementação. O funcionamento do sistema, naturalmente, claudica aqui e ali e a eficiência da máquina não é uniforme. Isso tende a melhorar. E tende a melhorar na exata medida em que os beneficiados deixam de aceitar o serviço ou o bem como favor (a cavalo dado não se olham os dentes) e a entendê-lo como obrigação do Estado. Nessa mesma medida o voto-gratidão ou se transforma em voto-confiança ou migra. Em breve a população brasileira sentirá a rede social em expansão (volume e qualidade) como estado da natureza, solo sobre o qual se desloca sem prévia licença de autoridade política a que deva lealdade. Certamente que o eleitorado, sobretudo o mais antigo, preserva um estoque de confiança nas lideranças que deram origem à re-fundação do pacto político original. Mas a simples lembrança daquele momento pode se tornar insuficiente para a renovação da confiança. E é assim que deve ser.
Parte considerável da nova classe média tende ao conservadorismo por entender com absoluta lucidez que existem limites à mobilidade social ascendente e que mudanças, dadas certas circunstâncias, serão, provavelmente, para pior. É sociológica e economicamente impossível que a totalidade das pessoas que alcançaram ou venham a alcançar em breve o topo salarial ou de posição em algum ramo do comércio, serviços ou ocupação industrial, se transfiram para um patamar acima na estratificação social, dando início a nova trajetória ascendente. A maioria das moças e rapazes que, recém alfabetizados ou saídos de escolas profissionalizantes, encontram vagas em abundância como atendentes, vendedoras, caixas, recepcionistas etc., irão se aposentar na mesma profissão ou em profissão aparentada. Algumas chegarão a supervisora ou gerente de filial; pouquíssimas a postos de direção. Grandes agregados sociais não costumam pular dois degraus na estratificação, independente da orientação dos governos e dos sociólogos de boa vontade. A ascensão inter-geracional é outra história. Em uma geração, porém, o jovem que se entusiasmava com o fervilhante trânsito social é o mesmo adulto maduro que, seguro em sua posição atual e aposentadoria próxima, teme promessas de solavancos sociais. O mais provável é que o solavanco o desaloje. Alguns chamam o fenômeno de "aversão ao risco", mas podemos chamá-lo, sem ofensa, de "potencial de votos conservadores". Em próximas eleições, o aceno da consolidação de conquistas feitas pode ser tão ou mais atraente do que prometida alvorada de grandes transformações.
E eis que o poder desestabilizador da grande mídia parece agônico. Poder que detinha menos em função do jornalismo político investigativo, exacerbado em períodos eleitorais, e mais pelas ilações que faz, os olhos que a liam e os ouvidos que as ouviam. Acusar a mídia de omitir informações, procede, com frequência, mas é trivial. Negar os resultados reais do jornalismo investigativo é tolo e inútil. O mesmo leitor que recusa o exagero aceita o fato comprovado. E o que importa, em primeiro lugar, são os fatos comprovados. Culpa cabe ao governo, ao atual, aos anteriores e a todos os que vierem depois, por entregarem seus eleitores e apoiadores aos embaraços de se verem expostos aos resultados de uma política negligente de recrutamento de pessoal para cargos de absoluta relevância e respeitabilidade. Não é aceitável, em nenhum governo, que ocupantes de cargos de confiança estejam a salvo para operar sem sistemático escrutínio da legalidade e lisura de seus atos. Os órgãos de segurança do governo devem ser responsabilizados pelas constantes provas de incompetência que vêm dando. Um aparato estatal oligárquico, historicamente destituído de capacidade operacional para implementar políticas de grande envergadura - por isso mesmo obrigado a recrutar rapidamente quadros capazes, mediante concursos e funções de confiança - está especialmente sujeito a ser penetrado por funcionários cuja idoneidade ainda está para ser comprovada. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, antes que meramente burocrático. Não é o governo que se torna vulnerável. Isso pode passar. São os seus eleitores que se envergonham e gaguejam, pagando enorme preço em estima social pela confiança que depositaram em governantes, e que a transferiram à desonra. Por isso, não é a grande mídia a responsável. Ao contrário, deve-se ao jornalismo investigativo de boa fé a fiscalização que órgãos governamentais deixam escapar e que a desídia de uma oposição de nariz arrebitado não exercita.
Referia-me ao jornalismo investigativo de boa fé. As ilações editoriais pertencem a outro departamento. Fora da temperatura eleitoral, não há pessoa de bom senso suscetível à idéia de que o presidente Luiz Inácio, ou qualquer outro presidente normal, tenha montado um governo para saquear o país ou promover o nepotismo como política oficial. Não haveria recursos, tempo e sequer mão de obra para, ao mesmo tempo, reduzir espetacularmente a miséria, redistribuir renda e estimular o desenvolvimento econômico. A transferência de significado dos reais ilícitos administrativos para deliberadas intenções políticas se deve ao exercício do poder desestabilizador da grande mídia. Não consta de nenhuma apuração jornalística nem faz qualquer sentido no contexto geral das eleições. Mas é recorrente no Brasil. Assim aconteceu em 1950, 1954, 1960, 1964, no século passado, e em 2002 e 2006, no atual. Ao contrário de épocas pretéritas, todavia, suspeito que esse poder desestabilizador agoniza e, por isso, esperneia.
Tudo começou, creio, com a decisão do então presidente Fernando Henrique Cardoso de criar o Ministério da Defesa, entregando seu comando a um civil. O grande economista Inácio Rangel sorriria ao verificar que, mais uma vez, teria que ser um membro da elite a tomar medidas bastante ousadas. Fernando Henrique, candidato preferencial que fora da oficialidade militar, fez, sem susto, o que Lula, certamente, não teria condições de fazer, à época. Firmou-se constitucional precedente e a sucessão de ministros naturalizou a condição civil do cargo. Despreocupado com problemas de soberania, contudo, Fernando Henrique levou as Forças Armadas à mesma dieta do resto do funcionalismo público e das instituições do Estado, fazendo-as raquíticas, quando não as esfacelando. Outra vez, coube agora ao ex-espantalho Lula, comprometido com a recuperação do povo e da soberania nacional, re-incorporar as Forças Armadas à sociedade e integrá-las em projeto comum. Hoje, nem o Exército nem as demais forças militares estão em busca de identidade, como diria o sociólogo Edmundo Campos, distinta da identidade dos demais segmentos do país. Não obstante resquícios de privilégios, preconceitos e temores herdados de passado nem tão remoto, o entendimento entre as instituições civis e militares se manifesta na total discrição e profissionalismo com que os responsáveis pelos comandos armados têm agido de tempos para cá. Na verdade, o que está fugindo ao poder desestabilizador da grande mídia são os olhos e ouvidos militares. Ela nunca interpretou, fora raros momentos, o sentimento da maioria da população, valham as sucessivas derrotas de seus candidatos como recibo da afirmativa. Mas vociferava aboletada em tanques. Hoje, resta-lhe o potencial para assassinatos de caráter - algo ainda terrivelmente assustador. Tímidas tentativas de se aconchegarem aos bivaques, entretanto, diria o marechal Castelo Branco, têm sido apenas patéticas.
A influência dos meios de comunicação nos processos eleitorais é inteiramente normal em democracias. Inevitável, ademais. Perigoso é quando, além da malícia retórica, o poder desestabilizador busca se realizar, irresponsável, pela mão de terceiros. Isso, parece, está fora de cogitação. A propósito, em 2012 o opúsculo "Quem Dará o Golpe no Brasil?" completará cinquenta aninhos.
E para não dizer que não falei de flores: o poder desestabilizador se concentra, hoje, nesse fóssil institucional que é a Justiça Eleitoral.
No mesmo jornal, uma longa matéria com o Plinio, que, ao contrário do que pensava, esta cada vez mais longe daquilo que defino como católico. É lamentável...
abaixo o artigo do Wanderley:
Registro dois óbitos iminentes: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda e o do poder desestabilizador da grande mídia. São movimentos dessa natureza que brazilianistas e a nova direita chic, os comunistas nostálgicos, não antecipam. Há quem acredite que nada mudou no Brasil desde a Primeira Missa. Outros, que mudou para pior desde a Primeira República. São ecos do passado, nutridos pela lerdeza real com que o país tem resolvido alguns problemas clássicos da modernidade. A urbanização custou a chegar, assim como a industrialização e a transformação da estrutura ocupacional. Argentina, Chile e Uruguai brilhavam com taxas européias de urbanização e alfabetização (nada de industrialização, é bem verdade) quando o mundo era campestre e a poesia e o romance, bucólicos. Em um par de décadas, contudo, a urbanização e a transformação ocupacional brasileiras bateram recordes históricos, deixando na rabeira não só a América do Sul, mas China, Índia e, em alguns aspectos, a Rússia, inventando ao longo da travessia um eleitorado de 136 milhões de votantes, indomável a qualquer elite leninista e, cada vez mais, insubmissa ao comando coronelista. A poda das oligarquias hereditárias ocorre de Norte a Sul do país. Por fim, descobriu-se uma classe média (próxima de 90 milhões de pessoas) quase do tamanho do Japão. Dezenas de milhões de "japoneses", digamos assim, falando português, mas com igual apetite consumista, invadiram as lojas de eletrodomésticos, de roupas, agências de viagens, aviões, hotéis e, até mesmo, as revendedoras de automóveis japoneses propriamente ditos. Não há nostalgia que suporte isso sem virar ressentimento. Mas, a contragosto, será nesse depósito que a história obrigará os conservadores a colher votos no futuro.
Do berço ao túmulo, a população brasileira passou a ser assistida por complexa rede de políticas sociais institucionalmente inéditas, em grande parte, e incomparáveis em sua cobertura. Multidões foram extraídas à miséria e à pobreza em prazo mínimo, se confrontado aos quase cem anos que o sistema social europeu exigiu para ser elaborado e implementado. Evidentemente, nossos séculos preguiçosos legaram tal espetáculo de carências que a profunda subversão de prioridades operada pela era Lula não está senão a meio caminho da empreitada em seus efeitos estruturais. Metas ainda por atingir, ocasionais gestões deficientes, equívocos de formulação inicial de alguns programas fazem parte da história real do período e comparecem na queda de braço das argumentações eleitorais. Mas não é nesse discurso ao tele-espectador que se encontra o coração da matéria.
de parte das políticas sociais em curso dispensa intermediários. Os atingidos têm acesso direto aos benefícios, extinguindo-se o pedágio de gratidão que deveriam pagar aos agentes executivos das ações distributivas. A fruição dos bens sociais a que têm direito independe de conexão com algum doador individualizado, subordinando-se tão somente ao vínculo formal com a apropriada agência de implementação. O funcionamento do sistema, naturalmente, claudica aqui e ali e a eficiência da máquina não é uniforme. Isso tende a melhorar. E tende a melhorar na exata medida em que os beneficiados deixam de aceitar o serviço ou o bem como favor (a cavalo dado não se olham os dentes) e a entendê-lo como obrigação do Estado. Nessa mesma medida o voto-gratidão ou se transforma em voto-confiança ou migra. Em breve a população brasileira sentirá a rede social em expansão (volume e qualidade) como estado da natureza, solo sobre o qual se desloca sem prévia licença de autoridade política a que deva lealdade. Certamente que o eleitorado, sobretudo o mais antigo, preserva um estoque de confiança nas lideranças que deram origem à re-fundação do pacto político original. Mas a simples lembrança daquele momento pode se tornar insuficiente para a renovação da confiança. E é assim que deve ser.
Parte considerável da nova classe média tende ao conservadorismo por entender com absoluta lucidez que existem limites à mobilidade social ascendente e que mudanças, dadas certas circunstâncias, serão, provavelmente, para pior. É sociológica e economicamente impossível que a totalidade das pessoas que alcançaram ou venham a alcançar em breve o topo salarial ou de posição em algum ramo do comércio, serviços ou ocupação industrial, se transfiram para um patamar acima na estratificação social, dando início a nova trajetória ascendente. A maioria das moças e rapazes que, recém alfabetizados ou saídos de escolas profissionalizantes, encontram vagas em abundância como atendentes, vendedoras, caixas, recepcionistas etc., irão se aposentar na mesma profissão ou em profissão aparentada. Algumas chegarão a supervisora ou gerente de filial; pouquíssimas a postos de direção. Grandes agregados sociais não costumam pular dois degraus na estratificação, independente da orientação dos governos e dos sociólogos de boa vontade. A ascensão inter-geracional é outra história. Em uma geração, porém, o jovem que se entusiasmava com o fervilhante trânsito social é o mesmo adulto maduro que, seguro em sua posição atual e aposentadoria próxima, teme promessas de solavancos sociais. O mais provável é que o solavanco o desaloje. Alguns chamam o fenômeno de "aversão ao risco", mas podemos chamá-lo, sem ofensa, de "potencial de votos conservadores". Em próximas eleições, o aceno da consolidação de conquistas feitas pode ser tão ou mais atraente do que prometida alvorada de grandes transformações.
E eis que o poder desestabilizador da grande mídia parece agônico. Poder que detinha menos em função do jornalismo político investigativo, exacerbado em períodos eleitorais, e mais pelas ilações que faz, os olhos que a liam e os ouvidos que as ouviam. Acusar a mídia de omitir informações, procede, com frequência, mas é trivial. Negar os resultados reais do jornalismo investigativo é tolo e inútil. O mesmo leitor que recusa o exagero aceita o fato comprovado. E o que importa, em primeiro lugar, são os fatos comprovados. Culpa cabe ao governo, ao atual, aos anteriores e a todos os que vierem depois, por entregarem seus eleitores e apoiadores aos embaraços de se verem expostos aos resultados de uma política negligente de recrutamento de pessoal para cargos de absoluta relevância e respeitabilidade. Não é aceitável, em nenhum governo, que ocupantes de cargos de confiança estejam a salvo para operar sem sistemático escrutínio da legalidade e lisura de seus atos. Os órgãos de segurança do governo devem ser responsabilizados pelas constantes provas de incompetência que vêm dando. Um aparato estatal oligárquico, historicamente destituído de capacidade operacional para implementar políticas de grande envergadura - por isso mesmo obrigado a recrutar rapidamente quadros capazes, mediante concursos e funções de confiança - está especialmente sujeito a ser penetrado por funcionários cuja idoneidade ainda está para ser comprovada. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, antes que meramente burocrático. Não é o governo que se torna vulnerável. Isso pode passar. São os seus eleitores que se envergonham e gaguejam, pagando enorme preço em estima social pela confiança que depositaram em governantes, e que a transferiram à desonra. Por isso, não é a grande mídia a responsável. Ao contrário, deve-se ao jornalismo investigativo de boa fé a fiscalização que órgãos governamentais deixam escapar e que a desídia de uma oposição de nariz arrebitado não exercita.
Referia-me ao jornalismo investigativo de boa fé. As ilações editoriais pertencem a outro departamento. Fora da temperatura eleitoral, não há pessoa de bom senso suscetível à idéia de que o presidente Luiz Inácio, ou qualquer outro presidente normal, tenha montado um governo para saquear o país ou promover o nepotismo como política oficial. Não haveria recursos, tempo e sequer mão de obra para, ao mesmo tempo, reduzir espetacularmente a miséria, redistribuir renda e estimular o desenvolvimento econômico. A transferência de significado dos reais ilícitos administrativos para deliberadas intenções políticas se deve ao exercício do poder desestabilizador da grande mídia. Não consta de nenhuma apuração jornalística nem faz qualquer sentido no contexto geral das eleições. Mas é recorrente no Brasil. Assim aconteceu em 1950, 1954, 1960, 1964, no século passado, e em 2002 e 2006, no atual. Ao contrário de épocas pretéritas, todavia, suspeito que esse poder desestabilizador agoniza e, por isso, esperneia.
Tudo começou, creio, com a decisão do então presidente Fernando Henrique Cardoso de criar o Ministério da Defesa, entregando seu comando a um civil. O grande economista Inácio Rangel sorriria ao verificar que, mais uma vez, teria que ser um membro da elite a tomar medidas bastante ousadas. Fernando Henrique, candidato preferencial que fora da oficialidade militar, fez, sem susto, o que Lula, certamente, não teria condições de fazer, à época. Firmou-se constitucional precedente e a sucessão de ministros naturalizou a condição civil do cargo. Despreocupado com problemas de soberania, contudo, Fernando Henrique levou as Forças Armadas à mesma dieta do resto do funcionalismo público e das instituições do Estado, fazendo-as raquíticas, quando não as esfacelando. Outra vez, coube agora ao ex-espantalho Lula, comprometido com a recuperação do povo e da soberania nacional, re-incorporar as Forças Armadas à sociedade e integrá-las em projeto comum. Hoje, nem o Exército nem as demais forças militares estão em busca de identidade, como diria o sociólogo Edmundo Campos, distinta da identidade dos demais segmentos do país. Não obstante resquícios de privilégios, preconceitos e temores herdados de passado nem tão remoto, o entendimento entre as instituições civis e militares se manifesta na total discrição e profissionalismo com que os responsáveis pelos comandos armados têm agido de tempos para cá. Na verdade, o que está fugindo ao poder desestabilizador da grande mídia são os olhos e ouvidos militares. Ela nunca interpretou, fora raros momentos, o sentimento da maioria da população, valham as sucessivas derrotas de seus candidatos como recibo da afirmativa. Mas vociferava aboletada em tanques. Hoje, resta-lhe o potencial para assassinatos de caráter - algo ainda terrivelmente assustador. Tímidas tentativas de se aconchegarem aos bivaques, entretanto, diria o marechal Castelo Branco, têm sido apenas patéticas.
A influência dos meios de comunicação nos processos eleitorais é inteiramente normal em democracias. Inevitável, ademais. Perigoso é quando, além da malícia retórica, o poder desestabilizador busca se realizar, irresponsável, pela mão de terceiros. Isso, parece, está fora de cogitação. A propósito, em 2012 o opúsculo "Quem Dará o Golpe no Brasil?" completará cinquenta aninhos.
E para não dizer que não falei de flores: o poder desestabilizador se concentra, hoje, nesse fóssil institucional que é a Justiça Eleitoral.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Martin Wolf e o Brasil
Gostei, como sempre, da análise do Martin Wolf, mas não compartilho seu pessimismo em relação ao Brasil. Recomendo, também a leitura da entrevista dele publicado na edição de hoje, quarta-feira, do Valor. A sugestão de crise em uma economia emergente não me parece um exagero, porem sugerir que o Brasil possa ser esta economia é um grande equivoco, que ele felizmente não comete, mas que provavelmente será visto como confirmação de tese semelhante defendida por alguns dos meus amigos economistas. É bom deixar claro que são bons economistas. Naturalmente, discordo da avaliação deles.
"Estamos no meio de uma guerra cambial internacional, de um enfraquecimento geral das moedas. Isso nos ameaça porque tira a nossa competitividade". Essa queixa feita por Guido Mantega, o ministro das Fazenda do Brasil, é plenamente compreensível.
Numa era de demanda insuficiente, emissores de reservas cambiais adotam expansão monetária, e não emissores reagem com intervenção cambial. Aqueles, como o Brasil, que não estão entre os primeiros e preferem não copiar os últimos, se deparam com uma disparada nas suas moedas. Eles temem os resultados.
Essa não é a primeira vez que ocorrem esses tipos de conflitos cambiais. Em setembro de 1985, os governos da França, Alemanha Ocidental, Japão, EUA e Reino Unido se encontraram no Plaza Hotel em Nova York e acertaram a depreciação do dólar dos EUA. Ainda antes, em agosto de 1971, o presidente Richard Nixon impôs o "choque Nixon", lançando uma sobretaxa de importação de 10% e encerrando a conversibilidade do dólar em ouro. Os dois eventos refletiram o desejo dos EUA de desvalorizar o dólar. O país tem o mesmo desejo hoje. Mas desta vez é diferente: o centro da atenção não é um aliado obediente, como o Japão, mas a próxima superpotência do mundo, a China.
Quando dois elefantes desse porte lutam, os espectadores podem ser pisoteados. Eis três fatos, relevantes para as guerras cambiais atuais.
Primeiro, como resultado da crise, o mundo desenvolvido está sofrendo uma demanda cronicamente deficiente. Em nenhuma das seis maiores economias de alta renda - EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália - o Produto Interno Bruto no segundo trimestre deste ano retornou ao ponto onde esteve no primeiro trimestre de 2008. Essas economias agora operam num nível até 10% abaixo das suas tendências passadas. Uma indicação do excesso de oferta é a queda no núcleo da inflação para perto de 1% nos EUA e na zona do euro: a deflação acena. Esses países anseiam por crescimento puxado por exportações. Isso vale tanto para os países com déficits na balança comercial ( EUA) como para os que têm superávits ( Alemanha e Japão). No todo, porém, isso só poderá acontecer se os países emergentes se moverem na direção de déficits em conta corrente.
Segundo, os setores privados estão trabalhando exatamente nessa direção. Nas suas projeções de abril (prestes a serem atualizadas), o Institute for International Finance (IIF), com sede em Washington, sugeriu que neste ano o fluxo líquido de financiamento privado externo que ingressará nos países emergentes será de US$ 746 bilhões. Esse montante seria parcialmente compensado por uma saída líquida de recursos privados desses países, da ordem de US$ 566 bilhões. Mesmo assim, também com um superávit de US$ 320 bilhões em conta corrente, e com modestos ingressos de capital oficial, o saldo externo do mundo emergente, sem intervenção oficial, seria um superávit de US$ 535 bilhões. Sem a intervenção, porém, isso não poderia acontecer: a conta corrente precisa equilibrar o fluxo líquido de capital. O ajuste ocorreria com uma taxa de câmbio mais alta. No fim, o mundo emergente teria um déficit em conta corrente financiado por um ingresso líquido de capital provado vindo dos países de alta renda. Realmente, isso é exatamente o que seria de se esperar que aconteça.
Terceiro, esse ajuste natural continua sendo frustrado pelo acúmulo de reservas cambiais. Essas somas representam uma saída de capital oficial. Entre janeiro de 1999 e julho de 2008, as reservas oficiais do mundo cresceram de US$ 1,615 trilhão para US$ 7,534 trilhões, um aumento espantoso de US$ 5,918 trilhões. Esse aumento foi uma forma de autosseguro depois das crises anteriores. Realmente, as reservas foram consumidas durante essa crise; encolheram em US$ 472 bilhões entre julho de 2008 e fevereiro de 2009. Sem dúvida, isso ajudou países sem reservas a amortecer o impacto. Mas esse uso de reservas representou meros 6% do nível anterior à crise. Além disso, entre fevereiro de 2009 e maio de 2010, as reservas aumentaram em US$ 1,324 trilhão adicional, para atingir um valor próximo de US$ 8,385 trilhões. O mercantilismo vive!
A China é o interventor dominante, respondendo por 40% do acúmulo desde fevereiro de 2009. Até junho de 2010, suas reservas atingiram US$ 2,45 trilhões, 30% do total mundial e um desconcertante percentual de 50% do seu próprio PIB. Esse acúmulo deve ser visto como um enorme subsídio às exportações.
Jamais na história humana o governo de uma superpotência emprestou tanto ao governo de outra. Há quem afirme - Komal Sri-Kumar, do Trust Company of the West, no Financial Times de ontem, por exemplo - que esse tipo de administração da taxa de câmbio não é manipuladora, ao contrário das opiniões do Congresso dos EUA, já que o ajuste pode ocorrer por meio de "mudanças nos custos e preços internos". Esse argumento seria mais convincente se a China não tivesse se empenhado tanto e de forma tão bem-sucedida para suprimir as consequências monetárias e, portanto, inflacionárias, da sua intervenção. Enquanto isso, o ajuste inevitável na direção dos déficits em conta corrente no mundo emergente está sendo deslocado para países que são atraentes aos ingressos de capital e que também relutam ou são incapazes de intervir nos mercados cambiais na escala necessária. Pobre Brasil! Será que estaríamos presenciando o tiro de largada para a próxima crise financeira num mercado emergente?
John Connally, secretário do Tesouro de Nixon, teria dito aos europeus que o dólar "é a nossa moeda, mas seu problema". Os chineses respondem à altura. Na ausência de ajustes cambiais, estamos testemunhando uma forma de operação militar monetária: na realidade, os EUA estão tentando inflacionar a China, e a China, a deflacionar os EUA. Os dois lados estão convencidos de que estão certos; nenhum está tendo êxito; e o resto do mundo sofre.
Não é difícil enxergar o ponto de vista da China; o país está desesperado em evitar o que ele considera como o terrível destino do Japão após o acordo do Plaza. Com sua competitividade nas exportações prejudicada pela forte alta na sua moeda e pressionado pelos EUA a reduzir seu superávit em conta corrente, o Japão optou não pelas necessárias reformas estruturais, mas por uma enorme expansão monetária. A bolha consequente ajudou a produzir a "década perdida" dos anos de 1990. Outrora recordista mundial, o Japão caiu numa depressão. Para a China, obviamente, qualquer desfecho semelhante seria uma catástrofe. Ao mesmo tempo, é difícil conceber uma configuração robusta da economia mundial sem vastos ingressos líquidos de capital dos países de alta renda rumarem para os demais.
O que se necessita é um caminho para esses ajustes globais necessários. Isso exigirá não somente uma determinação para cooperar, que agora parece estar extremamente em falta, como também maior imaginação sobre reformas internas e internacionais. Eu gostaria de ser otimista. Mas não estou: é muito improvável que um mundo que pratica políticas de autoproteção tenha um final feliz.
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
Fonte: Valor
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Igreja e Evangelicos
Há um aspecto interessante nesta eleição e que ainda não recebeu a devida atenção da midia nacional. Dos quatros candidatos a Presidência, 3 são quadros formados pela Igreja: Serra, já é bem conhecido; hoje evangelica, Marina é um dos produtos do período da Teologia da Libertação. Plinio é um dos grandes quadros da Igreja e um dos poucos que realmente me parece ser ainda católico, apesar da sua inacreditável guinada para a ultra esquerda. No caso do Serra já era esperado a sua opção pelo extremo oposto:a velha e decrepita direita nacional.
Apesar deste histórico a Igreja está longe de ocupar o mesmo espaço que, no passado, tinha na arena política nacional. O crescimento dos evangelicos, por outro lado, é impressionante e um dado novo que poderá ter consequências interessantes no mercado eleitoral
Apesar deste histórico a Igreja está longe de ocupar o mesmo espaço que, no passado, tinha na arena política nacional. O crescimento dos evangelicos, por outro lado, é impressionante e um dado novo que poderá ter consequências interessantes no mercado eleitoral
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Entrevista com Ruy Fausto
Interessante entrevista, não publicada, com o Ruy Fausto, filosofo marxista e "darling" da esquerda universitária nos dois lados do rio pinheiros.
RESPOSTAS A UMA ENTREVISTA
Tomei distância em relação ao PT por causa do escândalo chamado de “mensalão”, e de outros casos ainda mais graves e tenebrosos. O que é o PT? Há algum tempo, meu colega André Singer, jornalista e ex-´portavoz do governo, escreveu um artigo sobre o tema, publicado na revista do Cebrap, artigo do qual se falou bastante. O texto, bastante rigoroso, era centrado numa análise das bases de classe do PT, e se apoiava em textos clássicos, como o 18 de Brumário, de Marx, e também em Gramsci. Ora, acho que se a elucidação do que é o PT deve passar por esse tipo de investigação focalizada nas relações entre as classes, ela não pode ficar nisso. A observação vale, também, para o caso de outros partidos brasileiros.
Que é o PT?
Acho que ele é muitas coisas. Por um lado, o que já complica, o PT é ele mesmo, e o Lula... Depois, dentro dele, existem, creio, pelo menos três elementos. Há ainda, lá dentro, grupos bastante radicais, cujos projetos, como sempre, não estão isentos de ilusões com as formas autoritárias (ou néo-totalitárias) de governo. Há, em segundo lugar, grupos empenhados em reformas, e com uma consciência democrática suficientemente arraigada. Há, em terceiro lugar, os setores que, na falta de um termo melhor, deveríamos chamar de “máfias”. O PT é, a meu ver, isso tudo. E, sendo assim, se uma análise das bases de classe do partido é válida e até (entre outras coisas) se impõe, ela evidentemente não dá conta de tudo o que existe no PT, principalmente do “terceiro elemento”.
No 18 Brumário de Brumário de Marx há lugar para as máfias, mas finalmente eles giram na superfície do que seria, essencialmente, um conflito de classes. Ora, isso representa uma limitação, para analisar uma experiência como a brasileira. Sem dúvida, as máfias atuam sobre o fundo de uma sociedade em que existem classes e diferenças de classe. Mas eu diria que seu movimento é, de certo modo, autônomo. Ou, mais precisamente, que elas apontam, antes de mais nada, para elas mesmas. Para isso, é necessário em primeiro lugar, que se fale delas (nas análises mais sofisticadas, por incrível que pareça, elas, freqüentemente, são pura e simplesmente esquecidas). Que se pode dizer hoje do PT? Que empurrado pelo que ele tem de melhor (e esse melhor “corta” tendências e personagens), ele pôs em prática programas sociais que deram certo, embora em escala limitada. É preciso ressaltar esse fato, e lutar para que esses programas sejam mantidos e ampliados. Mas ao mesmo tempo, deve-se dizer que não só eles vêm junto com uma política econômica que, sob certos aspectos, é contestável, mas que eles coexistem com o fenômeno do peso crescente de grupos suspeitos (e até pior do que isto) dentro do partido ou no perímetro das suas alianças. Dilma continuará a implementar as medidas econômicas populares do governo Lula. Muito bem. Mas, com Dilma, sobe ao poder, embora não só ele, um grupo ou grupos bem conhecidos pela vontade com que lidam com o dinheiro público, e pela “desenvoltura” dos seus métodos. Por outro lado, Dilma seria eleita em aliança com o PMDB, e com um candidato a vice sobre o qual se poderia dizer algumas coisas. Outro problema é o da política externa do PT. Não vejo como parte da esquerda pode se entusiasmar com essa política. Ela remete a um pretenso “anti-imperialismo” que cultiva gente do tipo de Ahmadinejad, alguém que metralha manifestantes, apedreja mulheres, falsifica eleições etc etc. E ela conduz o nosso presidente a comparar dissidentes cubanos com bandidos.
O provável novo governo petista continuará nessa via desastrosa? Dito isto, que atitude tomar diante da candidatura Dilma?
Manter e ampliar programas como a bolsa família, o micro-crédito etc é muito desejável, mas o peso político que ganharão certos grupos (agravado por uma vice-presidência entregue ao PMDB) é real. E não temos garantias de que a política externa de Dilma será mais atenta à crítica dos despotismos pretensamente socialistas ou terceiromundistas. O julgamento da candidata depende do peso relativo que se dê a cada um desses fatores. Mas é preciso analisar também os outros candidatos. Não sei se vale a pena continuar falando do PT, porque, como já disse, é impossível falar desse partido, e da sua candidata (e avaliá-los), sem comentar os outros partidos e candidatos.
Que tal se passarmos a esses temas? Voltaríamos depois ao PT, se houver tempo e espaço.
- Serra não é mais um homem de esquerda (foi ele mesmo que o disse), ele é mais ou menos um homem de centro. Isto, quanto a ele. Porque a sua candidatura, acho que ela pode ser considerada como uma candidatura de direita. Em primeiro lugar, houve, já antes do processo eleitoral, uma polarização de forças, e o conjuntos das forças sociais e políticas, digamos, conservadoras se concentraram em torno de partidos como o Dem e também o PSDB. Este já foi um partido de centro-esquerda, mas quaisquer que sejam as convicções de alguns, ou vários dos seus membros, ele não é mais de centro-esquerda. Isto significa, por um lado, que, mesmo que ele se comprometa a continuar certos programas postos em prática pelo governo Lula, um governo Serra teria muito menos, digamos, vocação para realizar políticas econômicas que ajudem os mais pobres. E isso no Brasil é urgente.
Porém, há uma coisa que me preocupa mais nesses partidos, PSDB inclusive. Fora o fato de que em matéria de “gente duvidosa” eles não ficam atrás do PT, existe hoje uma mobilização da extrema-direita, que se faz na periferia, senão no interior desses partidos. Dir-se-á que esse gente tem pouco peso, e no momento atual, não é uma real ameaça.
Mas, cuidado. Por trás de certo jornalismo de sarjeta, que se manifesta com a sua “finura” bem conhecida na campanha eleitoral, há dinheiro, instrumentos midiáticos, há o peso de seitas religiosas do tipo “Opus Dei” etc. Toco nesse assunto, porque, embora isto não seja ainda muito visível, existe, evidentemente, em escala mundial, uma reorganização da extrema-direita, cujo cerne é o movimento neo-conservador (seus membros são freqüentemente ex-gauchistas que inverteram os sinais). Ele atua nos EUA (articulando ex-gauchistas com mafiosos do tipo Karl Rove), mas também na Europa. Penetra na administração, nos partidos, e também nas universidades. Sua ideologia é uma mistura de “fanatismo do progresso” e fideismo medieval.
Ele explora essencialmente dois pontos fracos de parte da esquerda (ele só os vê na esquerda e não na direita e nele mesmo): as inclinações totalitárias, e a corrupção. Que aqueles que encarnam no Brasil essa tendência se movam em torno (ou mesmo dentro), de partidos que incluem um ex-partido de centro-esquerda como o PSDB, é um pouco assustador, embora o perigo não seja imediato. Mas importa registrá-lo, porque a médio prazo ele será efetivo.
A rigor, não é grave que um partido fique muito tempo no poder, isto se as regras democráticas forem respeitadas. O que se deve e pode fazer é: 1) denunciar toda eventual derrapagem institucional do eventual novo governo petista; 2) não embarcar na canoa da direita e principalmente da extrema-direita, que fará tudo para denunciar também conspirações inexistentes, em proveito próprio.
Complicado?
É complicado, mas uma política lúcida tem que responder à complicação do mundo.
Há três elementos essenciais. Combate pela defesa da democracia, em prol da crítica do capitalismo e contra a corrupção.
Mas primeiro preferiria completar o quadro da análise dos candidatos.
Plínio Arruda Sampaio consegue brilhar na TV, arranhando os adversários com críticas ao capitalismo nacional e mundial. Muito bem. Que Plínio inclua no seu programa pontos como a redução da jornada de trabalho, é positivo. Mas a visão global de Plínio, conhecemos. Ele é capaz de fazer as críticas mais detalhadas e sutis ao capitalismo, mas diante dos novos regimes de opressão e exploração, que surgiram há quase um século, e que não desapareceram da história (mesmo se sobrevivem, muitas vezes, em forma muito modificada), em relação a estes, Plínio e os seus amigos são de uma cegueira total. Eles crêem no que dizem os representantes destes regimes com a candura com que os ideólogos do capitalismo ocidental acreditam no democratismo de Bush. Para Plínio, é Marx na terra, e Deus (e Cristo) no céu. Dogmatismo que só prepara catástrofes. O paradoxo é que ele seria um melhor homem de esquerda se fosse mais sensível a certos temas que em principio são caros aos cristãos (respeito aos direitos do homem - também no plano internacional, luta contra a corrupção) e menos apreciador dessa iguaria indigesta que é o marxismo dogmático.
- Marina poderia ser a melhor candidata. Tem o mérito de ser de esquerda (ela o é, sem dúvida), e se revelar ao mesmo tempo anti-totalitária e anti-corrupção. Um dos seus pontos fracos é conhecido: sua religiosidade bastante tradicional. Outra coisa, e mais grave, é o que se passa com o partido verde. Se Marina se mostrasse (se mostrar) capaz de denunciar leilões de legendas e outros coisas desse tipo, que lá vicejam,ela seria, apesar de tudo, o melhor dos candidatos. - O novo governo deve continuar um programa de reformas. Em princípio, não creio que ameaçará internamente a democracia, embora no plano externo, eu não seja otimista quanto ao caminho que seguirá. O capítulo corrupção é certamente o mais pesado, mas é difícil prever.
Tentando resumir e generalizar. Aqueles três pontos, representam certamente as questões fundamentais. Nenhum deles é primeiro em relação aos outros. Eles se completam e se reforçam mutuamente. Um ponto que interessa diretamente a esses três elementos são as questões ligadas ao imposto de renda. A luta contra a sonegação, e a necessária alteração das cargas tributárias de maneira a beneficiar os mais pobres, abririam perspectivas muito favoráveis no programa da redução das desigualdades, na luta contra a corrupção, e no reforço da democracia.
Duas palavras finais sobre a corrupção. Sem dúvida, ela se encaixa mal nos velhos esquemas explicativos da esquerda tradicional. No artigo sobre o PT, a que me referi no início, a luta contra a corrupção entra de forma apenas adjetiva e sociologizante, como anseio (sempre suspeito) da classe média, ou como motivo de mobilização da direita. A análise intrínseca do que representa um partido que se pretende de esquerda mas que, ao mesmo tempo, tolera (para não dizer mais) a corrupção, está ausente.
Corrupção existe em todo lugar. Mas ela tem duas características inquietantes no Brasil. Uma, precisamente, é a de que ela atinge a fundo também os partidos de esquerda (na Europa, não é bem assim, há alguma corrupção também à esquerda, mas não dessa ordem). O outro é que se desenvolveu dentro da esquerda uma ideologia de tolerância “geral” em relação a tais práticas. E, mutatis mutandis, isso vale para todos os terrenos, grande política, universidade, vida pessoal. Aqui não é o lugar para dizer tudo o que teria a dizer sobre esse tema a propósito da universidade, ou mais precisamente, a propósito dos concursos universitários (não de todos). Disse-o numa entrevista à TV Escola, que dei no Rio há um ano (espero que a passagem não tenha desaparecido na versão final).
Para terminar, observo, voltando à grande política, que, além de outros méritos, uma mudança de atitude no campo da luta anti-corrupção daria a sustentação política necessária para promover reformas mais radicais do que as que se vai fazendo até aqui. Há sinais, aliás, de que uma mudança como essa poderá vir a ocorrer ou de que já esteja ocorrendo, penso numa campanha popular recente, que teve êxito e deu origem a um projeto de lei, hoje em vigor.
Fonte: Luis Nassif on line
domingo, 26 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
A viuva porcina
A midia golpista procura com ferocidade impressionante criar um clima que seja favorável ao seu candidato. A primeira pagina é, invariavelmente, um conjunto de manchetes com forte conteúdo negativo sempre relacionado ao Governo Federal. Muito alem, diga-se de passagem , da pratica, em países em que os jornais assumem, sem falsos pudores, o apoio a um determinado candidato. Via de regra isto não compromete o trabalho jornalístico e ajuda o leitor a escolher o seu jornal predileto. Nada mais transparente e democrático.
Na edição desta sexta-feira, o jornal da Ditabranda, depois de participar da campanha de desinformação em relação a venda de ações da Petrobras foi obrigado a reconhecer que ele foi um sucesso e colocou ao lado, em letras menores, à esquerda da manchete principal o bom resultado do desemprego e do rendimento médio mensal dos trabalhadores. Três noticiais positivas, apenas uma com o devido destaque que, mais uma vez, comprova o partidarismo daquele que poderia ter sido um grande jornal.
Na edição desta sexta-feira, o jornal da Ditabranda, depois de participar da campanha de desinformação em relação a venda de ações da Petrobras foi obrigado a reconhecer que ele foi um sucesso e colocou ao lado, em letras menores, à esquerda da manchete principal o bom resultado do desemprego e do rendimento médio mensal dos trabalhadores. Três noticiais positivas, apenas uma com o devido destaque que, mais uma vez, comprova o partidarismo daquele que poderia ter sido um grande jornal.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
De volta ao passado?
A atuação conjunta do Bacen e Tesouro para evitar uma maior valorização do Real ate pode ser uma medida louvável, porem esta longe de ser a solução do problema e , pior ainda, o custo fiscal não será nada barato. O que leva a seguinte questão: vale a pena? Sinceramente tenho dúvidas, mas devido a pressão - afinal este é periodo eleitoral - da mídia e de outros grupos era inevitável, assim como as criticas quando for apresentada a conta.
O fato é que este problema não abarca somente o Brasil e requer uma negociação a nível internacional antes que algum participante importante opte pela pela pior solução econômica: a desvalorização competitiva cujo resultado final nunca é benéfico para a economia mundial, alem dos resultados políticos bem conhecidos.
Será que da história nada se aprende?
O fato é que este problema não abarca somente o Brasil e requer uma negociação a nível internacional antes que algum participante importante opte pela pela pior solução econômica: a desvalorização competitiva cujo resultado final nunca é benéfico para a economia mundial, alem dos resultados políticos bem conhecidos.
Será que da história nada se aprende?
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Mesquita e a questão cambial
Bom artigo do Mario Mesquita sobre questão tecnicamente/teoricamente complicada e que vem sendo debatida com a superficialidade, tradicional, nos debates sobre política econômica no grande bananão
A questão cambial volta a ganhar destaque no debate público, e não apenas no Brasil -vide a intervenção recente das autoridades japonesas para enfraquecer o iene.
Uma característica do debate sobre taxa de câmbio é que este se presta a avaliações quantitativas tão precisas quanto errôneas.
As avaliações sobre o nível de equilíbrio da taxa de câmbio têm longo histórico. A metodologia tradicional utilizada com esse fim é a teoria da paridade de poder de compra (PPC), segundo a qual as taxas de câmbio devem igualar os preços de cestas de mercadorias equivalentes em diferentes países.
Um exemplo de aplicação da teoria PPC é o índice Big Mac, compilado pela "The Economist", no qual o conhecido sanduíche serve como cesta de consumo representativa.
Por esse índice, o real estaria sobrevalorizado em 31% ante o dólar norte-americano. Como a própria revista reconhece, esse é um indicador simplista, já que nem o Brasil só comercia com os Estados Unidos, nem todo mundo pode viver todo o tempo à base de Big Mac (afinal, as pessoas precisam se vestir, morar em algum lugar, estudar etc.).
Mas análises derivadas da teoria da PPC volta e meia são apresentadas sem as qualificações da revista britânica. Escolhe-se uma base de comparação, ajusta-se a taxa de câmbio nominal do período-base pela diferença entre a inflação acumulada no Brasil e em seus parceiros comerciais e logo chega-se a uma estimativa do que seria a taxa de câmbio nominal de "equilíbrio".
Se a taxa de câmbio do dia está apreciada, com o dólar, por exemplo, mais barato do que essa taxa de equilíbrio, então fala-se em defasagem cambial ou sobrevalorização.
A chave da questão é a escolha da base de comparação, que deve buscar períodos típicos, e não extraordinários. Por exemplo, é pouco razoável tomar como base o final de 2002, e decretar que, como o real se apreciou consideravelmente desde então (mais de 50%, descontada a inflação doméstica e dos parceiros comerciais, segundo séries na página do Banco Central) estaria "mega", "hiper" valorizado.
Ocorre que, no final de 2002, como se sabe, o Brasil estava apenas começando a sair de uma severa crise de confiança, e todos os ativos brasileiros estavam a preço de liquidação. Tomar dezembro de 2002 como base para a avaliação da evolução posterior da taxa de câmbio é, portanto, bastante inadequado, e leva a conclusões enganosas.
Mas a análise no espírito PPC tem os seus méritos, se aplicada com a devida cautela. Em vez de utilizar um período específico como base, parece mais razoável considerar a média da taxa de câmbio real por um período suficientemente longo, que inclua tanto momentos de bonança externa como de crise. Tomando por exemplo a taxa média para os últimos 22 anos como base, a taxa de câmbio estaria atualmente apreciada em cerca de 20%.
Note-se que nem chegamos ao final do artigo e já consideramos três números diferentes para o grau de valorização da moeda nacional.
Essa é talvez a maior limitação da teoria PPC -pode-se chegar com certa facilidade a avaliações quantitativas precisas, mas bem distintas entre si.
Outra teoria considera a interação entre a dinâmica da economia e do balanço de pagamentos para avaliar o nível das taxas de câmbio.
Simplificando bastante a análise, se a economia combina atividade econômica fraca com resultados em conta-corrente piores do que a média histórica, então trata-se de um caso de sobrevalorização cambial (Brasil 1998, por exemplo).
Se, por outro lado, temos crescimento acima da média com saldo em conta-corrente melhor do que o normal, configura-se um caso de subvalorização (Brasil 2004?).
Só que há uma ampla área cinzenta: períodos de crescimento fraco e resultado em conta-corrente melhores do que a média e momentos que combinam crescimento extraordinário com resultados em conta-corrente piores do que o normal, na qual julgar sobre ou subvalorização é bem mais complexo. Em resumo, há que se avaliar com muita cautela e certo ceticismo analítico estudos que ofereçam medidas muito precisas de sub ou sobrevalorização cambial.
Fonte: FSP
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Um poeta menor e um grande cronista
Domingo um poeta menor que passou boa parte da vida na melhor escola de formação de quadros da direita brasileira, o velho e decrepito PCB, atacou novamente o Presidente da República. À epoca seu partido defendia a ditadura sanguinária na União Sovietica, considerada a patria do socialismo; a invasão de paises que tentaram fugir do modelo de ineficiência, corrupção e negação de liberdade; para não mencionar a perseguição religiosa. Nada disto acontece no Brasil e parece que o único erro do atual Presidente foi ter liderado a construção de um Partido que condenou aquele que sobrevivia com o ouro de moscou ao lixo de história e, mais recentemente, colocar em pratica uma política social e econômica que finalmente esta resgatando os deserdados da terra e demonstrando que um capitalismo de face humana é perfeitamente possível. É claro que ainda há muito a ser feito, mas o caminho esta correto e as fraquezas humanas que tem levado à comportamentos inaceitáveis não podem e não devem ser toleradas.
Mas, hoje, é terça, dia da semana em que é publicado a coluna semanal do Coutinho, no jornal da Ditabranda. Não importa o tema, é sempre uma aula de estilo e apreço pela lingua portuguesa.Confesso, minha inveja , mas fazer o que, pelo menos ainda me resta o prazer de ler e reler para ver se aprendo um pouco. Naturalmente, sem nenhum resultado pratico....
Mas, hoje, é terça, dia da semana em que é publicado a coluna semanal do Coutinho, no jornal da Ditabranda. Não importa o tema, é sempre uma aula de estilo e apreço pela lingua portuguesa.Confesso, minha inveja , mas fazer o que, pelo menos ainda me resta o prazer de ler e reler para ver se aprendo um pouco. Naturalmente, sem nenhum resultado pratico....
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Mendonça de Barros e industria brasileira
Bom artigo do Luiz Carlos Mendonça de Barros sobre a industria brasileira. Acho que ele exagera o risco, futuro, de desindustrialização.
Em 2007 o Valor publicou um artigo escrito por mim e pelos economistas Paulo Miguel e José Roberto Mendonça de Barros, sobre a influência da China na indústria brasileira. Chamava-se "China - Um dragão de três cabeças."
A imagem que construímos - a China como um poderoso dragão de três cabeças - ainda não tinha assumido os contornos claros que podemos observar hoje. Era preciso um exercício de futurologia para entender como se daria a interação das duas economias. Hoje, quase três anos depois, as coisas estão muito mais claras para o analista.
Dizíamos então que uma das cabeças do dragão chinês - aquela que engolia quantidades fantásticas de produtos primários - seria responsável por uma expansão muito forte de nossas exportações. Uma das formas de medir os efeitos dessa primeira cabeça é pela evolução dos chamados termos de troca de nosso comércio exterior. Em 2000 cada US$ 100 de exportação brasileira comprava US$ 90 de produtos importados; agora, em 2010, os mesmos US$ 100 exportados compram US$ 120 de importação.
O aumento de nossas exportações fez com que o Brasil apresentasse saldos comerciais crescentes e, a partir de 2006, se transformasse em um país credor internacionalmente (reservas maiores do que a dívida externa total). Dizíamos que, com essa nova realidade externa, a economia brasileira começaria a viver um processo de abertura importante, com as importações de bens finais e intermediários crescendo de forma sistêmica.
A partir do momento que os canais de importação e distribuição se estruturassem as importações de bens industriais finais e de componentes cresceriam rapidamente pelo simples movimento de arejamento de uma economia ainda muito fechada. Esse movimento sempre gera um aumento da eficiência produtiva, pois as empresas nacionais são obrigadas a se modernizar para conseguir competir com as importações.
O que surpreende hoje são a rapidez e a intensidade com que isso ocorreu. O comportamento do preço do aço é didático nesse sentido: por décadas, sem a concorrência das importações, o preço do aço brasileiro sempre foi negociado com um ágio - de 20% a 30% - sobre os preços internacionais. Hoje essa diferença não ultrapassa 10%, valor compatível com os custos de logística para trazer esse produto do exterior. O mesmo vem ocorrendo com os preços de vários bens de consumo, principalmente os automóveis. Como sempre acontece no Brasil, os agentes econômicos reconheceram rapidamente as oportunidades abertas pela confiança na nossa moeda e pela intensa disponibilidade de produtos em um mundo desenvolvido em recessão.
Neste período - 2006 até os dias de hoje - o processo de abertura tem sido muito positivo tanto do ponto de vista macro como na vida dos consumidores brasileiros. No nível macro dois aspectos precisam ser ressaltados: a criação de outro canal de oferta de bens industriais e a diminuição do poder de controle de preços de setores importantes nas cadeias produtivas. Ambos vêm funcionando como instrumentos auxiliares no controle da inflação por parte do Banco Central e no aumento sistêmico da eficiência de nosso aparelho produtivo. No nível micro, o resultado mais importante do processo de abertura é certamente o aumento da oferta de bens de melhor qualidade e preços ao consumidor brasileiro.
Mas temo que a penetração das importações em nosso mercado esteja agora entrando em uma fase menos positiva. Com os canais de importação consolidados e com os agentes econômicos no Brasil já acostumados a olhar para o exterior, a queda da competitividade do aparelho produtivo, por aumento de custos internos, passa a afetar mesmo as empresas que são competitivas e eficientes. E se olharmos para frente o cenário não é nada animador.
De um lado está o imobilismo do governo no sentido de incorporar à sua agenda de prioridades a questão da competitividade. Isto fica ainda mais grave com o aumento da presença do Estado em áreas importantes e a baixa eficiência dos órgãos públicos responsáveis pela regulação e controle de setores ligados à logística. Do outro está o aparecimento de gargalos de oferta que até hoje não existiam. O mais importante deles é o mercado de trabalho com a escassez de mão de obra especializada começando a criar aumentos salariais muito superiores ao de outras economias com as quais competimos. Essa pressão de custo é ainda mais grave na medida em que o real forte leva a um aumento ainda maior quando os salários são medidos em dólares.
Se esse cenário não for revertido, vamos começar a perder segmentos produtivos, principalmente na indústria, que ainda são competitivos quando isolamos esses fatores externos às empresas. E a chamada desindustrialização deixará de ser um fenômeno de correção de desequilíbrios estruturais criados por uma economia muito fechada e passará a refletir a destruição de partes eficientes de nosso aparelho produtivo. Também nessas condições deixaremos de nos aproveitar da terceira cabeça do dragão chinês, aquela que importa bens industriais de valor intermediário.
Fonte: Valor
Em 2007 o Valor publicou um artigo escrito por mim e pelos economistas Paulo Miguel e José Roberto Mendonça de Barros, sobre a influência da China na indústria brasileira. Chamava-se "China - Um dragão de três cabeças."
A imagem que construímos - a China como um poderoso dragão de três cabeças - ainda não tinha assumido os contornos claros que podemos observar hoje. Era preciso um exercício de futurologia para entender como se daria a interação das duas economias. Hoje, quase três anos depois, as coisas estão muito mais claras para o analista.
Dizíamos então que uma das cabeças do dragão chinês - aquela que engolia quantidades fantásticas de produtos primários - seria responsável por uma expansão muito forte de nossas exportações. Uma das formas de medir os efeitos dessa primeira cabeça é pela evolução dos chamados termos de troca de nosso comércio exterior. Em 2000 cada US$ 100 de exportação brasileira comprava US$ 90 de produtos importados; agora, em 2010, os mesmos US$ 100 exportados compram US$ 120 de importação.
O aumento de nossas exportações fez com que o Brasil apresentasse saldos comerciais crescentes e, a partir de 2006, se transformasse em um país credor internacionalmente (reservas maiores do que a dívida externa total). Dizíamos que, com essa nova realidade externa, a economia brasileira começaria a viver um processo de abertura importante, com as importações de bens finais e intermediários crescendo de forma sistêmica.
A partir do momento que os canais de importação e distribuição se estruturassem as importações de bens industriais finais e de componentes cresceriam rapidamente pelo simples movimento de arejamento de uma economia ainda muito fechada. Esse movimento sempre gera um aumento da eficiência produtiva, pois as empresas nacionais são obrigadas a se modernizar para conseguir competir com as importações.
O que surpreende hoje são a rapidez e a intensidade com que isso ocorreu. O comportamento do preço do aço é didático nesse sentido: por décadas, sem a concorrência das importações, o preço do aço brasileiro sempre foi negociado com um ágio - de 20% a 30% - sobre os preços internacionais. Hoje essa diferença não ultrapassa 10%, valor compatível com os custos de logística para trazer esse produto do exterior. O mesmo vem ocorrendo com os preços de vários bens de consumo, principalmente os automóveis. Como sempre acontece no Brasil, os agentes econômicos reconheceram rapidamente as oportunidades abertas pela confiança na nossa moeda e pela intensa disponibilidade de produtos em um mundo desenvolvido em recessão.
Neste período - 2006 até os dias de hoje - o processo de abertura tem sido muito positivo tanto do ponto de vista macro como na vida dos consumidores brasileiros. No nível macro dois aspectos precisam ser ressaltados: a criação de outro canal de oferta de bens industriais e a diminuição do poder de controle de preços de setores importantes nas cadeias produtivas. Ambos vêm funcionando como instrumentos auxiliares no controle da inflação por parte do Banco Central e no aumento sistêmico da eficiência de nosso aparelho produtivo. No nível micro, o resultado mais importante do processo de abertura é certamente o aumento da oferta de bens de melhor qualidade e preços ao consumidor brasileiro.
Mas temo que a penetração das importações em nosso mercado esteja agora entrando em uma fase menos positiva. Com os canais de importação consolidados e com os agentes econômicos no Brasil já acostumados a olhar para o exterior, a queda da competitividade do aparelho produtivo, por aumento de custos internos, passa a afetar mesmo as empresas que são competitivas e eficientes. E se olharmos para frente o cenário não é nada animador.
De um lado está o imobilismo do governo no sentido de incorporar à sua agenda de prioridades a questão da competitividade. Isto fica ainda mais grave com o aumento da presença do Estado em áreas importantes e a baixa eficiência dos órgãos públicos responsáveis pela regulação e controle de setores ligados à logística. Do outro está o aparecimento de gargalos de oferta que até hoje não existiam. O mais importante deles é o mercado de trabalho com a escassez de mão de obra especializada começando a criar aumentos salariais muito superiores ao de outras economias com as quais competimos. Essa pressão de custo é ainda mais grave na medida em que o real forte leva a um aumento ainda maior quando os salários são medidos em dólares.
Se esse cenário não for revertido, vamos começar a perder segmentos produtivos, principalmente na indústria, que ainda são competitivos quando isolamos esses fatores externos às empresas. E a chamada desindustrialização deixará de ser um fenômeno de correção de desequilíbrios estruturais criados por uma economia muito fechada e passará a refletir a destruição de partes eficientes de nosso aparelho produtivo. Também nessas condições deixaremos de nos aproveitar da terceira cabeça do dragão chinês, aquela que importa bens industriais de valor intermediário.
Fonte: Valor
domingo, 19 de setembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Os jornalistas tucanos
Ótimo artigo do Marcos Coimbra na Carta Capital sobre o papel dos jornalistas tucanos na eleição 2010. Eles e os acadêmicos anti-petistas( maioria esmagadora ex-membros da melhor escola de formação de quadros da direita brasileira, o PCB) continuam a negar o obvio: ele é o candidato da Nova Direita e eles os tolos que sempre embarcam na canoa errada.
Quando, no futuro, for escrita a crônica das eleições de 2010, procurando entender o desfecho que hoje parece mais provável, um capítulo terá de ser dedicado ao papel que nelas tiveram os jornalistas tucanos.
Foram muitas as causas que concorreram para provocar o resultado destas eleições. Algumas são internas aos partidos oposicionistas, suas lideranças, seu estilo de fazer política. É bem possível que se saíssem melhor se tivessem se renovado, mudado de comportamento. Se tivessem permitido que novos quadros assumissem o lugar dos antigos.
Por motivos difíceis de entender, as oposições aceitaram que sua velha elite determinasse o caminho que seguiriam na sucessão de Lula. Ao fazê-lo, concordaram em continuar com a cara que tinham em 2002, mostrando-se ao País como algo que permanecera no mesmo lugar, enquanto tudo mudara. A sociedade era outra, a economia tinha ficado diferente, o mundo estava modificado. Lula e o PT haviam se transformado. Só o que se mantinha intocada era a oposição brasileira: as mesmas pessoas, o mesmo discurso, o mesmo ar perplexo de quem não entende por que não está no poder.
Em nenhum momento isso ficou tão claro quanto na opção de conceder a José Serra uma espécie de direito natural à candidatura presidencial (e todo o tempo do mundo para que confirmasse se a desejava). Depois, para que resolvesse quando começaria a fazer campanha. Não se discutiu o que era melhor para os partidos, seus militantes, as pessoas que concordam com eles na sociedade. Deram-lhe um cheque em branco e deixaram a decisão em suas mãos, tornando-a uma questão de foro íntimo: ser ou não ser (candidato)?
Mas, por mais que as oposições tivessem sido capazes de se renovar, por mais que houvessem conseguido se libertar de lideranças ultrapassadas, a principal causa do resultado que devemos ter é externa. Seu adversário se mostrou tão superior que lhes deu um passeio.
Olhando-a da perspectiva de hoje, a habilidade de Lula na montagem do quadro eleitoral de 2010 só pode ser admirada. Fez tudo certo de seu lado e conseguiu antecipar com competência o que seus oponentes fariam. Ele se parece com um personagem de histórias infantis: construiu uma armadilha e conduziu os ingênuos carneirinhos (que continuavam a se achar muito espertos) a cair nela.
Se tivesse feito, nos últimos anos, um governo apenas sofrível, sua destreza já seria suficiente para colocá-lo em vantagem. Com o respaldo de um governo quase unanimemente aprovado, com indicadores de performance muito superiores aos de seus antecessores, a chance de que fizesse sua sucessora sempre foi altíssima, ainda que as oposições viessem com o que tinham de melhor.
Entre os erros que elas cometeram e os acertos de Lula, muito se explica do que vamos ter em 3 de outubro. Mas há uma parte da explicação que merece destaque: o quanto os jornalistas tucanos contribuíram para que isso ocorresse.
Foram eles que mais estimularam a noção de que Serra era o verdadeiro nome das oposições para disputar com Dilma Rousseff. Não apenas os jornalistas profissionais, mas também os intelectuais que os jornais recrutam para dar mais “amplitude” às suas análises e cobertura.
Não há ninguém tão dependente da opinião do jornalista tucano quanto o político tucano. Parece que acorda de manhã ansioso para saber o que colunistas e comentaristas tucanos (ou que, simplesmente, não gostam de Lula e do governo) escreveram. Sabe-se lá o motivo, os tucanos da política acham que os tucanos da imprensa são ótimos analistas. São, provavelmente, os únicos que acham isso.
Enquanto os bons políticos tucanos (especialmente os mais jovens) viam com clareza o abismo se abrir à sua frente, essa turma empurrava as oposições ladeira abaixo. Do alto de sua incapacidade de entender o eleitor, ela supunha que Serra estava fadado à vitória.
Quem acompanhou a cobertura que a “grande imprensa” fez destas eleições viu, do fim de 2009 até agora, uma sucessão de análises erradas, hipóteses furadas, teses sem pé nem cabeça. Todas inventadas para justificar o “favoritismo” de Serra, que só existia no desejo de quem as elaborava.
Se não fossem tão ineptas, essas pessoas poderiam, talvez, ter impulsionado as oposições na direção de projetos menos equivocados. Se não fossem tão arrogantes, teriam, quem sabe, poupado seus amigos políticos do fracasso quase inevitável que os espera.
Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Brazil's huge new port highlights China's drive into South America
Bom artigo do Guardian sobre o interesse da China pelo Brasil. É o tipo de jornalismo de qualidade que, infelizmente, ainda é uma raridade no grande bananão
Blades slicing through the morning heat, the helicopter rose from the tarmac and swept into a cobalt sky, high above Rio's Guanabara Bay.
It powered north-east over deserted beaches, dense Atlantic rainforest and fishing boats that bobbed lazily in the ocean below. Then finally, 80 minutes on, the destination came into view: a gigantic concrete pier that juts nearly two miles out into the South Atlantic and boasts an unusual nickname: the Highway to China.
Dotted with orange-clad construction workers and propped up by dozens of 38-tonne pillars, this vast concrete structure is part of the Superporto do Acu, a £1.6bn port and industrial complex that is being erected on the Rio coastline, on an area equivalent to 12,000 football pitches.
Reputedly the largest industrial port complex of its type in the world, Açu is also one of the most visible symbols of China's rapidly accelerating drive into Brazil and South America as it looks to guarantee access to much-needed natural resources and bolster its support base in the developing world.
When Acu opens for business in 2012, its 10-berth pier will play host to a globetrotting armada of cargo ships, among them the 380-metre wide ChinaMax – the largest vessel of its type, capable of ferrying 400,000 tonnes of cargo.
Millions of tonnes of iron ore, grain, soy and millions of barrels of oil are expected to pass along the "Highway" each year on their way east, where they will alleviate China's seemingly unquenchable thirst for natural resources.
"This project marks a new phase in relations between Brazil and China," Rio's economic development secretary, Julio Bueno, said during the recent visit of about 100 Chinese businessmen to the port complex, which is being built by the Brazilian logistics company LLX and should receive billions of dollars of Chinese investment.
This new phase of engagement with Brazil and South America, is part of China's "going out strategy" – an economic and, some say, diplomatic push for Chinese companies, many of them state-run, to invest abroad, snapping up access to minerals, energy and food by pouring the country's colossal foreign reserves into overseas companies and projects.
China is expected to overtake Japan as the world's second largest economy this year and may already be the world's greatest energy consumer. Now it is set to become Brazil's top foreign investor, with its companies plowing $20bn into the country in the first six months of 2010, compared with $83m in 2009. A recent study by Deloitte predicted that Chinese investments in Brazil could hit an average of about $40bn a year between now and 2014, with companies throwing money at sectors ranging from telecommunications, infrastructure and farming, to oil, biofuels, natural gas, mining and steel manufacturing.
"Relations with Brazil in all areas have entered a new era," Qiu Xiaoqi, China's ambassador in Brazil, recently told the state news agency Xinhua.
The surge in China's South American spending is not just a Brazilian phenomenon. Ecuador has already signed around $5bn of bilateral deals with China this year, including $1.7bn to help build a hydro-electric dam and $1bn investments for oil exploration and infrastructure projects. That compared with Chinese investment of just $56m in 2009.
Chinese companies have sunk $1.4bn into mining operations in Peru this year, while in April Hugo Chávez announced that the Chinese, already major sponsors of Venezuelan oil exploration, had agreed to open a $20bn credit-line for the "Bolivarian revolution".
Michael Klare, author of Rising Powers, Shrinking Planet, a book about the growing tussle for global resources, described today's China as "the shopaholic of planet Earth".
"The Chinese authorities understand that to sustain the country's continued growth, they will have to ensure that its industries are provided with adequate supplies of energy, minerals, and other basic raw materials," he said. But the "going out" strategy went far beyond business transactions, he added.
"They seek to fashion a multipolar world in which no single power – read the United States – plays an overwhelmingly dominant role. To this end, they seek to bolster ties with rising regional powers like Brazil and South Africa."
In Sao Joao da Barra, the city nearest to Acu and one of Rio state's poorest regions, the Chinese presence is being felt even before Brazil's Highway to China is complete.
Keen to impress, LLX staff at the Açu port lay on hot water and Mandarin interpreters for visiting Chinese dignitaries. Sao Joao da Barra's town hall, meanwhile, has started offering free Mandarin lessons to locals interested in working with the wave of Chinese guests that is anticipated.
"You should see a 10-year-old boy saying, 'I understand … the Chinese are coming and when the Chinese industries come I want to work for them and if I speak Mandarin I'll have a competitive advantage on the others'," beamed Eike Batista, the billionaire entrepreneur behind the superport and one of the most vocal cheerleaders for Chinese advances into Brazil. "[It is] wonderful."
Leonardo Gadelha, LLX's CFO, said during a recent tour of the port: "This is part of a Chinese strategy of going to the market more and more. They are already a very considerable presence in Africa and we are now going through this moment in Brazil."
The Highway to China lay "in the middle" of this blossoming relationship with China, he said, adding: "We are betting that … this will continue growing."
Not all Brazilians, or indeed western governments, share such enthusiasm.
"There are many in Washington who worry about China's growing presence in Africa and Latin America and claim that this poses a threat to America's long-term strategic interests," said Klare, noting, however, that the US' "fixation" with Afghanistan and the war on terror meant there had been virtually no reaction.
In Brazil meanwhile China's arrival has prompted cries of neo-colonialism. "The Chinese have bought Africa and now they are trying to buy Brazil," the prominent economist Antônio Delfim Netto complained in a recent interview with the Estado de Sao Paulo newspaper, warning that it was a "grave mistake" to allow a foreign state to buy "land, minerals [and] natural resources" from another sovereign power.
Batista, Brazil's richest man, rejected such criticism, saying: "The association between Brazil and China is a two-way highway." Chinese companies such as Wuhan Iron and Steel had committed to helping build a $5bn steel mill at the port complex, rather than always shipping out primary resources to process at home, he pointed out. "You want to get three tonnes of raw iron ore, [so] produce one tonne of steel in Brazil," he said. "That philosophy is sinking in and is great for both sides."
Neither would Chinese companies be allowed to flood the complex with hordes of foreign workers as had happened in Africa, said Gadelha, the CFO.
"If it was up to them they would bring lots of Chinese workers as they are used to doing," he admitted. "[But] Brazil's legislation is very strict in this sense."
Batista suggested that rather than complaining about China's courtship of Brazil, western powers should urge their own companies to pay more attention to the region themselves.
"In the last 15 years or so the [American and European] CEOs have stopped coming here and that is why they are a little bit behind," he said. "We are pushing European companies and saying: 'You're not really understanding what is happening in Brazil'."
"Don't put Brazil in the same bag as our neighbours," he added. "We are not Central America. We are not Venezuela. We are not Argentina."
Fonte: Guardian
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