quinta-feira, 9 de abril de 2009

Em fevereiro, emprego na indústria recua 1,3%

Preocupante? Acho que não, por enquanto é o resultado esperado. É claro que para quem está no mercado procurando emprego não é um comentário agradável. Mas o fato é que a economia mundial está passando por uma crise de dimensão histórica e o impacto, por enquanto, ainda esta dentro do esperado para realistas, como o autor deste post

"Foi a quinta redução consecutiva na comparação com o mês imediatamente anterior, já descontados os efeitos sazonais. No confronto mensal (fev 09 / fev 08), houve queda de 4,2%, a maior desde o início da série (2001). No acumulado no ano, o resultado também ficou negativo (-3,4%). A indústria reduziu as horas pagas em 0,4%, em relação ao mês imediatamente anterior (livre dos efeitos sazonais), quinto recuo consecutivo nessa base de comparação. O índice chegou a -5,7% comparado a fev/08, o menor da série (2001), e a -4,7% no acumulado no ano. A folha de pagamento real voltou a crescer (1,9%) sobre o mês anterior (livre dos efeitos sazonais), após quatro resultados negativos consecutivos. Foram assinalados, ainda, avanços de 1,9%, na comparação mensal e 1,2% no acumulado no ano.


PESSOAL OCUPADO ASSALARIADO

Em fevereiro, o emprego na indústria recuou 1,3% frente ao mês imediatamente anterior, na série livre de influências sazonais, seu quinto resultado negativo consecutivo, levando a uma perda de 5,2% frente ao nível de outubro do ano passado. O índice de média móvel trimestral entre janeiro e fevereiro (-1,5%) acentuou o ritmo de queda observado nos meses anteriores: dezembro (-0,9%) e janeiro (-1,3%).

Em relação a fevereiro de 2008, a redução de -4,2%, terceira taxa negativa consecutiva nessa comparação, é a maior retração da série histórica, iniciada em 2001. O indicador acumulado nos dois primeiros meses do ano ficou negativo (-3,4%) e bem abaixo da marca registrada no último trimestre do ano passado (0,2%). O indicador acumulado nos últimos doze meses, em trajetória descendente desde agosto (3,0%) do ano passado, atingiu, em fevereiro, 1,0%.

No confronto com fevereiro de 2008 (-4,2%), treze dos quatorze locais e treze dos dezoito setores reduziram o contingente de trabalhadores. São Paulo (-3,6%), Minas Gerais (-5,5%) e região Norte e Centro-Oeste (-6,7%) exerceram as pressões negativas mais significativas no total do país. Na indústria paulista, a maioria dos segmentos (13) teve resultado negativo, com destaque para as contribuições de produtos de metal (-8,2%), borracha e plástico (-9,1%), de máquinas e equipamentos (-5,7%) e meios de transporte (-5,4%). Este último, com queda de 12,3%, tem o principal impacto negativo em Minas Gerais, enquanto na região Norte e Centro-Oeste, sobressaíram os recuos em madeira (-23,1%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-14,6%). Por outro lado, somente Pernambuco (0,8%) aumentou o emprego, nesta base de comparação.

Em termos setoriais, no total do país, os principais destaques negativos na média global foram vestuário (-8,9%), calçados e artigos de couro (-9,6%) e madeira (-14,8%). Em sentido contrário, minerais não-metálicos (1,5%), refino de petróleo e produção de álcool (4,6%) e papel e gráfica (0,7%) exerceram as pressões positivas mais importantes.

Vale notar que, confrontando os índices mensais de emprego de setembro do ano passado (2,1%) e de fevereiro último (-4,2%), observa-se que as indústrias com as maiores contribuições nessa perda de 6,3 pontos percentuais foram: máquinas e equipamentos (de 9,9% para -4,1%), meios de transporte (de 8,2% para -4,7%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (de 10,0% para -2,9%). São exatamente esses setores nos quais a redução no ritmo produtivo foi mais aguda nesse período.

O indicador acumulado no primeiro bimestre de 2009 decresceu 3,4% com treze ramos e os quatorze locais pesquisados contribuindo negativamente para formação da taxa global.

NÚMERO DE HORAS PAGAS

O número de horas pagas aos trabalhadores da indústria, em fevereiro, recuou 0,4% no confronto com o mês imediatamente anterior, na série livre dos efeitos sazonais, a quinta taxa negativa consecutiva nessa comparação, acumulando perda de 5,7% desde outubro do ano passado. O indicador de média móvel trimestral assinalou recuo de 1,3% em fevereiro, redução menos acentuada que a de janeiro (-1,7%).

No confronto com igual mês do ano anterior, o número de horas pagas caiu 5,7%, menor taxa da série histórica iniciada em 2001. No primeiro bimestre do ano, a queda de 4,7% ficou bem abaixo do resultado do quarto trimestre de 2008 (-0,2%), ambas as comparações contra igual período do ano anterior. O indicador acumulado nos últimos doze meses, em trajetória descendente desde setembro (2,7%), atingiu em fevereiro 0,6%, a menor taxa desde março de 2007 (0,6%).

No indicador mensal, o número de horas pagas caiu nos quatorze locais e em quinze dos dezoito ramos pesquisados. Em termos setoriais, as quedas mais expressivas para o cômputo geral vieram de vestuário (-10,3%), meios de transporte (-9,2%) e calçados e artigos de couro (-11,6%). Em sentido contrário, minerais não-metálicos (2,0%), refino de petróleo e produção de álcool (6,5%) e indústria extrativa (1,7%) exerceram as pressões positivas.

Ainda no mesmo confronto, os locais que assinalaram os impactos negativos mais relevantes no resultado nacional foram: São Paulo (-5,4%), região Norte e Centro-Oeste (-8,0%) e Rio Grande do Sul (-8,1%). No primeiro, treze atividades reduziram o número de horas pagas, com destaque para produtos de metal (-10,0%), borracha e plástico (-12,3%) e meios de transporte (-8,1%). No segundo local, as maiores pressões negativas foram exercidas por madeira (-23,3%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-19,5%); e na indústria gaúcha, os recuos mais expressivos vieram de calçados e artigos de couro (-15,5%) e alimentos e bebidas (-8,3%).

No decréscimo de 4,7% assinalado no primeiro bimestre do ano, foram determinantes os recuos dos quatorze locais e de treze segmentos. Os impactos negativos mais importantes, por local, vieram de São Paulo (-4,2%), região Norte e Centro-Oeste (-7,3%) e Rio Grande do Sul (-6,3%). No corte setorial, as principais reduções do número de horas pagas ocorreram em vestuário (-9,4%), calçados e artigos de couro (-11,1%) e meios de transporte (-7,2%). Por outro lado, as principais contribuições positivas, entre os ramos, vieram de refino de petróleo e produção de álcool (9,9%) e minerais não-metálicos (2,2%).


Os indicadores negativos do emprego e do número de horas pagas em fevereiro foram diretamente influenciados por fatores relacionados à redução generalizada na atividade fabril, que vem afetando especialmente os ramos produtores de bens de consumo duráveis, intermediários e bens de capital.

FOLHA DE PAGAMENTO REAL

Em fevereiro, o valor da folha de pagamento real da indústria, excluindo os efeitos sazonais, voltou a crescer (1,9%) em relação ao mês imediatamente anterior, após quatros resultados negativos consecutivos, período em que registrou perda acumulada de 4,9%. O índice de média móvel trimestral ficou praticamente estável (-0,1%) entre janeiro e fevereiro, após mostrar quedas mais acentuadas nos dois últimos meses: dezembro (-1,1%) e janeiro (-1,5%).

Em relação a fevereiro de 2008, o valor real da folha de pagamento cresceu 1,9%. No acumulado do primeiro bimestre, o aumento de 1,2% ficou abaixo do índice do quarto trimestre do ano passado (4,3%). No indicador acumulado nos últimos doze meses (5,3%), prosseguiu em trajetória descendente desde setembro passado (6,7%).

Na comparação fevereiro 09/ fevereiro 08, a folha de pagamento aumentou 1,9%, com incrementos salariais em dez dos quatorze locais pesquisados. As principais contribuições positivas vieram de Minas Gerais (12,6%), Região Nordeste (5,7%) e do Espírito Santo (22,5%). Nos três locais, o maior impacto na folha real veio da indústria extrativa, com, respectivamente: 133,4%, 14,9% e 74,4%, taxas que refletem o pagamento de participação nos lucros em importantes empresas do setor. Em sentido contrário, São Paulo (-0,6%) exerceu a pressão negativa mais importante, onde sobressaiu o decréscimo de máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-10,8%).

No corte setorial, ainda no índice mensal, a folha de pagamento cresceu em dez dos dezoito segmentos pesquisados, destacando-se a extrativa mineral (47,5%) e produtos químicos (3,0%) com os principais impactos positivos. Em sentido oposto, as quedas mais expressivas vieram de borracha e plástico (-8,0%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-6,4%).

No indicador acumulado no ano (1,2%), onze locais mostraram resultados positivos, com destaque para Minas Gerais (4,8%) e Espírito Santo (17,8%). Em sentido oposto, Rio Grande do Sul (-2,4%) e Paraná (-1,9%) exerceram as principais pressões negativas.

Entre os setores, dez aumentaram a folha no primeiro bimestre do ano, sobressaindo as contribuições da extrativa (29,5%) e de meios de transporte (1,5%). Por outro lado, as influências negativas mais importantes foram exercidas por máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-6,2%) e borracha e plástico (-6,0%).

IBGE
Comunicação Social
09 de abril de 2009"

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Tentação populista delfiniana

Ingerência política na gestão de uma empresa/banco publico dever ser sempre evitado e tem o efeito inverso do esperado: ao materializar o risco de expropriação, o agente econômico, perde o interesse em ser mais eficiente, já que o resultado será expropriado pelo agente político. No caso de um banco publico, mas com um percentual significativo de acionistas privados, a situação é ainda mais complicada: trata-se de desrespeito aos direitos dos minoritários.

Há, ainda, um outro risco: concessão de emprestimos a quem não tem condições de honra-lo o que levaria a fragilização de uma instituição que já passou por isto no passado recente. É bom lembrar, também, que durante o ditatura militar, principalmente no período do Bruxo, empresas públicas foram usadas como instrumentos de política econômica com os resultados por todos conhecido. Para que repetir o mesmo erro.


Se o Banco/empresa é publica tem que ser tão eficiente quanto uma privada: afinal não se trata de caridade - que, alias também tem que ser eficiente para atender um numero maior de necessitados -, é uma obrigação do gestor da coisa pública.

A demissão não necessariamente implica em abandono dos principios da boa gestão: dependendo da reação o governo poderá ser obrigado a voltar a atras na sua tentação populista delfiniana( ele pode negar, mas o dedo dele é visivel) de usar um banco público como instrumento politico, no pior sentido do termo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Boa noticia

Noticia ruim é manchete, ja quanto ela é boa merece um destaque bem menor na primeira pagina. Esta parece ser a regra do que se considera grande imprensa no grande bananão. A boa noticia é o resultado da produção das montadoras em março: cresceu 15,9%, com efeito positivo sobre a cadeia produtiva do setor. Resta saber qual será o impacto sobre a produção industrial. Algum impacto vai ter, naturalmente, mas é dificil saber qual a sua magnitude, mas é uma indicação que passado o panico inicial e com a ajuda da desoneração fiscal as coisas não estão piorando.

É, contudo, cedo demais para afirmar que o pior já passou. A recuperação da produção das montadoras pode ser passageira, apenas o resultado da antecipação das compras para aproveitar a desoneração fiscal. Mas, em tempo de más noticias, ela é motivo sim para comemoração, ainda que contida.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Culture & Barbarism, Terry Eagleton

Importante artigo, do Eagleton, um dos mais importantes autores dos estudos culturais, uma moda em voga no mundo acadêmico anglo-americano na última decada do seculo passado. Ele mudou muito e isto causou um certo choque na área, inclusive, entre seus adeptos no circuito perdizes-higienopolis. Leitura recomendável, principalmente para os militantes do anti-catolicismo, nova velha moda, no QG anti-católico.


Why are the most unlikely people, including myself, suddenly talking about God? Who would have expected theology to rear its head once more in the technocratic twenty-first century, almost as surprisingly as some mass revival of Zoroastrianism? Why is it that my local bookshop has suddenly sprouted a section labeled “Atheism,” hosting anti-God manifestos by Christopher Hitchens, Richard Dawkins, and others, and might even now be contemplating another marked “Congenital Skeptic with Mild Baptist Leanings”? Why, just as we were confidently moving into a posttheological, postmetaphysical, even posthistorical era, has the God question broken out anew?

Can one simply put it down to falling towers and fanatical Islamists? I don’t really think we can. Certainly the New Atheists’ disdain for religion did not sprout from the ruins of the World Trade Center. While some of the debate took its cue from there, 9/11 was not really about religion, any more than the thirty-year-long conflict in Northern Ireland was over papal infallibility. In fact, radical Islam generally understands exceedingly little about its own religious faith, and there is good evidence to suggest that its actions are, for the most part, politically driven.

That does not mean these actions have no religious impact or significance. Islamic fundamentalism confronts Western civilization with the contradiction between the West’s own need to believe and its chronic incapacity to do so. The West now stands eyeball-to-eyeball with a full-blooded “metaphysical” foe for whom absolute truths and foundations pose no problem at all-and this at just the point when a Western civilization in the throes of late modernity, or postmodernity if you prefer, has to skate by on believing as little as it decently can. In post-Nietzschean spirit, the West appears to be busily undermining its own erstwhile metaphysical foundations with an unholy mélange of practical materialism, political pragmatism, moral and cultural relativism, and philosophical skepticism. All this, so to speak, is the price you pay for affluence.

Para ler o resto do artigo clique aqui

domingo, 5 de abril de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

Dream Song 123: Daples my floor the eastern sun, my house faces north, John Berryman

Dapples my floor the eastern sun, my house faces north,
I have nothing to say except that it dapples my floor
and it would dapple me
if I lay on that floor, as-well-forthwith
I have done, trying well to mount a thought
not carelessly

in times forgotten, except by the New York Times
which can't forget. There is always the morgue.
There are men in the morgue.
These men have access. Sleepless, in position,
they dream the past forever
Colossal in the dawn comes the second light

we do all die, in the floor, in the morgue
and we must die forever, c'est la mort
a heady brilliance
the ultimate gloire
post-mach, probably in underwear
as we met each other once.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Memorias

Ontem um colega marxista perguntou qual a minha reação, enquanto neoclassico, a crise econômica. Outro colega, também, marxista disse que não sou neoclassico religioso. Achei curioso o comentário. Em Oxford era considerado marxista, não que eu fosse: à epoca já tinha concluido - depois de passar anos lendo o que era considerado o melhor da literatura marxista - que o projeto era uma canoa furada. Isto bem antes do muro cair. Entre os autores que li, o que teve mais impacto foi o Lucio Coletti.

Nunca fui comunista, ou seja membro ou simpatizante de qualquer um dos PCs da vida. Muito pelo contrário. Meus herois, neste campo, são figuras notáveis - melhor dizendo, exs. de fracassos notaveis - que ainda continuo a admirar, apesar de não mais acreditar naquilo pelo qual perderam a vida: Allende e Rosa Luxemburgo.

No período do meu idílio marxista - o curto, mas memorável período em que fui aluno do curso de graduação em economia da puc. Alias ela era o melhor lugar para se estar, respirava-se um clima acadêmico que é dificil recuperar - nunca nutri qualquer simpatia ou ilusão em relação ao leste europeu ou a Cuba. Esta última sempre chamei de a grande fazenda de Fidel Castro.

Gosto de economia e leio tudo que cai na minha mão, mas, naturalmente, tenho os meus prediletos: a maioria são os mesmos de quando comecei a estudar economia: os clássicos, Keynes, os keynesianos anglo-italiano e um ou dois capitulos de O Capital do Marx( acho o dezoito brumario muito mais interessante, mas é um livro de política. Marx não é um grande economista, é , no máximo,um ricardiano menor). E os recentes, mas nem tanto assim: Wicksell e os suecos, os austriacos e os economistas de Chicago. O que eles tem em comum? São ótimos economistas a quem retorno com frequencia e sempre aprendo algo de novo.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O inferno não é aqui

" O nosso primeiro trimestre passou em branco no que diz respeito a recuperação". Esta é a ultima perola de um dos raros comentaristas econômicos que vale a pena ler. Em sua coluna de hoje, na Folha, ele está mais despeitado que o próprio Krugman. Esperar sinais de recuperação é, naturalmente, uma grande tolice. Repetindo o argumento de outro post: a crise vai sim atingir a economia brasileira, mas o seu impacto deverá ser menor que em outras economias. E não será a primeira vez que isto acontece: vide a experiência da crise de 29. É claro que o mundo mudou e que, como mencionado em outro post, fazer comparações com o que ocorreu no inicio do seculo passado é arriscado. Contudo, resta o fato que a economia brasileira não apresenta as fragilidades de outras economias e por isto deverá sofrer menos.

O resultado das exportações e importações já era esperado. Eles refletem o que está acontecendo no comércio internacional e seria burrice esperar que o Brasil ficaria imune. A situação poderia ser muito pior e manter-se otimista não é cair no auto-engano, mas reconhecer que, dada a história econônica brasileira e os dados recentes, não há justificativa para apostar em um cenário pessimista.

Estranho, tambem, o argumento que ser pessimista não é muito popular. É justamente o contrário: ser otimista é correr o risco de ser carimbado como quinta coluna do Governo e muito pouco popular no meio acadêmico heterodoxo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

De janeiro para fevereiro, produção industrial avança 1,8%

A situação não piorou o que, no cenário mundial, já é uma boa noticia. Os números preocupam, é verdade, mas ainda não permite uma análise adequada do que nos espera no futuro. É preciso esperar a reação as medidas adotadas pelo Governo e uma maior clarificação do que vem sendo discutido/implementado pelos grandes players da economia mundial.


"Em fevereiro de 2009, a produção industrial avançou 1,8% frente a janeiro, na série com ajuste sazonal. Nacomparação com fevereiro de 2008, a retração foi de 17,0%. Com isso, o setor acumulou queda de 17,2% no primeiro bimestre de 2009, em relação a igual período do ano anterior. A taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos doze meses, perdeu ritmo na passagem de janeiro (1,0%) para fevereiro (-1,0%), registrando o primeiro resultado negativo desde setembro de 2002 (-0,4%). Em que pese o avanço na produção em fevereiro pelo segundo mês consecutivo, os índices em 2009 continuam abaixo do patamar produtivo observado no final do ano passado, evidenciado na evolução do indicador de média móvel trimestral, cuja variação para o total da indústria ficou em -3,3% entre fevereiro e janeiro deste ano.


Com o avanço de 1,8% observado no total da indústria entre janeiro e fevereiro, após aumento de 2,1% no mês anterior, o patamar de produção voltou a nível próximo ao de junho de 2004. Dos 27 ramos, 16 apresentaram crescimento, com destaque para veículos automotores (8,7%), refletindo principalmente a retomada na produção de automóveis. Esse setor acumulou alta de 52,2% nos dois primeiros meses de 2009, após as paralisações nos meses de novembro e dezembro. Também merecem destaque os seguintes aumentos: outros produtos químicos (8,0%), edição e impressão (10,3%), material eletrônico e equipamentos de comunicações (8,7%) e alimentos (1,4%). As principais pressões negativas vieram de farmacêutica (-6,9%); máquinas e equipamentos (-3,2%) e outros equipamentos de transporte (-4,2%).

Ainda na comparação com o mês anterior, o segmento de bens de consumo duráveis (10,5%) alcançou a taxa mais elevada entre as categorias de uso, registrando o segundo resultado positivo consecutivo, que levou a um crescimento de 50,6% frente a dezembro de 2008. A produção de bens de consumo semi e não duráveis (1,7%) reverteu o sinal após quatro meses de taxas negativas, período que acumulou perda de 7,6%. Bens intermediários (1,5%) assinalou o segundo avanço consecutivo em 2009, enquanto o setor de bens de capital (-6,3%) foi o único a reduzir a produção na passagem de janeiro para fevereiro.

O indicador mensal apontou recuo de 17,0% em fevereiro, com 23 ramos pesquisados assinalando decréscimos na produção. O índice de difusão, com queda em 77% dos 755 produtos investigados, também indica um menor dinamismo no setor industrial, ao registrar o menor nível da série histórica. Vale citar que fevereiro deste ano tem um dia útil a menos que igual mês do ano anterior. Entre as atividades com recuo na produção, os maiores impactos sobre o índice global, por ordem de importância, vieram de: veículos automotores (-29,8%); máquinas e equipamentos (-32,2%); metalurgia básica (-31,5%); outros produtos químicos (-22,3%); aparelhos eletrônicos e de comunicações (-44,4%); e indústrias extrativas (-18,8%). Os principais itens responsáveis pelo desempenho dessas atividades foram, respectivamente: automóveis e autopeças, carregadoras-transportadoras e compressores para aparelhos de refrigeração; lingotes, blocos, tarugos e placas de aço ao carbono; herbicidas para agricultura; telefones celulares e aparelhos de comutação para telefonia celular; e minérios de ferro. As contribuições positivas mais relevantes vieram de outros equipamentos de transportes (28,1%) e da farmacêutica (13,1%).

Ainda na comparação com fevereiro de 2008, os índices foram negativos para todas as categorias de uso. Bens de capital (-24,4%) registrou taxa mais negativa em fevereiro do que nos dois meses anteriores (dezembro e janeiro, ambos com –14,5%) e teve seu desempenho influenciado por todos os seus subsetores, com destaque para bens de capital para uso misto (-34,6%), para fins industriais (-34,4%), para construção (-70,3%) e para energia elétrica (-24,3%). Bens de consumo duráveis (-24,3%) permaneceu pressionado pelas reduções na produção de automóveis (-19,6%), celulares (-49,1%) e eletrodomésticos (-13,4%). O setor de bens intermediários (-21,0%) manteve seqüência de cinco taxas negativas, com praticamente todos os seus segmentos assinalando redução. Os principais destaques vieram dos produtos associados às atividades de metalurgia básica (-31,5%), outros produtos químicos (-22,4%), indústrias extrativas (-18,9%), veículos automotores (-39,2%) e borracha e plástico (-23,5%). Vale mencionar a pressão negativa vinda dos insumos para construção civil com recuo de 13,5%, menor marca desde junho de 2003 (-10,0).

A única categoria com desempenho acima da média global (-17,0%) foi a de Bens de consumo semi e não duráveis (-3,3%), que teve contribuição positiva vinda do subsetor de carburantes (0,8%), por conta da maior produção de álcool, enquanto os demais subsetores pressionaram negativamente: semiduráveis (-20,4%), outros não duráveis (-1,2%) e alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (-0,5%).

No indicador acumulado janeiro-fevereiro frente a igual período de 2008, o recuo de 17,2% refletiu a retração em 24 atividades. A fabricação de veículos automotores, com queda de 32,0%, mantém a liderança em termos de maior pressão negativa sobre o índice geral, onde a redução em automóveis e suas peças e acessórios foram os principais responsáveis. Em sentido oposto, entre os três ramos em crescimento, o maior destaque foi para outros equipamentos de transportes (33,9%). O perfil dos resultados para o primeiro bimestre de 2009 confirmou o menor dinamismo em todas as categorias de uso: bens de consumo duráveis (-27,6%), bens intermediários (-20,7%) e bens de capital (-19,5%), enquanto bens de consumo semi e não duráveis (-5,9%) reduz a produção de forma menos acentuada.

O indicador acumulado nos últimos doze meses, em trajetória de queda desde setembro do ano passado, perdeu 4,1 pontos percentuais nos dois primeiros meses do ano em relação ao fechamento de 2008. Nesse mesmo intervalo de tempo as categorias de uso tiveram os seguintes desempenhos: bens de consumo duráveis (de 3,8% para -3,2%), bens de capital (de 14,3% para 8,1%), bens intermediários (de 1,5% para -3,2%) e bens de consumo semi e não duráveis (de 1,4% para -0,1%). Entre os 76 subsetores, 69 perdem ritmo nessa comparação, com destaque para: extração de minérios ferrosos que passa de 1,9% até dezembro para - 6,8% ate fevereiro, defensivos agrícolas (de 18,8% para 3,4%), tratores máquinas e equipamentos agrícolas (de 31,6% para 15,8%), ferro-gusa (de 2,4% para - 6,7%), laminados e relaminados de aço (de 3,1% para -5,2%), automóveis (de 7,0% para - 0,4%), caminhões (de 19,0% para 6,6%), peças e acessórios para veículos automotores (de -1,4% para - 10,4%) e material eletrônico e equipamentos de comunicações (de - 0,7% para -10,9%).


Fonte: IBGE, 01 de abril de 2009

terça-feira, 31 de março de 2009

No caminho correto há uma pedra....

O pacote de redução de impostos vem a somar-se a outras medidas do governo para evitar que a crise ganhe uma dimensão que deixaria feliz os loucos de Cati, a turma do quanto pior melhor. São medidas, a meu ver, corretas e com grande chance de realmene evitar o pior. Há contudo, um porem: a perda de arrecadação está diminuindo, rapidamente, o grau de liberdade no uso de instrumentos de política fiscal o que, naturalmente, torna fundamental o repensar da política monetária. Como mencionado em outro post, o cenário mudou e quando isto ocorre é necessário o ajuste adequado no uso dos instrumentos da política econômica, incluindo a política monetária.

No caso da política fiscal, a queda na arrecadação e a desoneração fiscal podem tornar ainda mais complicado a obtenção de recursos para o plano habitacional recentemente proposto pelo governo. Ele é importante do ponto de vista macro e, principalmente, do social e não pode transformar-se em mais uma promessa para o dia de são nunca.

No imperio a decisão do Obama simplesmente confirma nosso diagnostico em um post antigo, o problema das duas montadoras americanas não tem solução tão facil quando se imaginava e o caminho da concordata continua sendo o mais provável. É o fim do imperio? ainda não. Vide a experiência britânica

segunda-feira, 30 de março de 2009

Tempo e paciência

Bresser tem razão em relação a importância do mercado, mas dificilmente se pode chamar de mercado o que esta sendo proposto no plano Obama. Dai ser no mínimo curioso a afirmação dele que "essa é uma bela ideia que usa do mercado para corrigir o próprio mercado". É hora de reler os conhecidos artigos do Hayek "Economics and Knowledge"(Economica, 1937) e "The Use of Knowledge in Society"( AER, 1945).

Tão pouco é relevante saber se as idéias são novas ou velhas: importa saber se oferecem respostas aos graves problemas da economia americana.

Bresser é um eterno otimista e isto não deixa de ser uma grande virtude, mas neste caso acho que é um otimismo sem fundamento, vazio. Este plano não vai dar certo porque parte de um diagnóstico errado e não em razão da competencia e ou incompetencia na sua gestão. Este é um detalhe importante, mas sempre esquecido pelos formuladores de planos econômicos, principalmente os do tipo salvadores da pátria.

O tempo da política nem sempre é compativel com o tempo da política econômica e apesar dos problemas políticos mencionados por Bresser e comentados em post antigo, o fato é que Obama tem cada vez menos tempo e seu capital politico por maior que seja, não é a prova de chuvas e trovoadas. Lembrai-vos do Bush do 11 de setembro.




"A medida para a compra de títulos podres nos EUA é inovadora e abre espaço para o próprio mercado atuar.

O programa anunciado na última semana pelo Tesouro americano, de subsídios aos investidores privados para que comprem títulos podres, está recebendo críticas fortes porque não resolveria o problema fundamental dos grandes bancos americanos, que é o da subcapitalização. Em vez de elogiarem o governo porque é uma ideia nova e bem estruturada do ponto de vista financeiro, representantes tanto da direita inteligente quanto da esquerda preocupada com a socialização das perdas protestaram.

Os primeiros reagiram negativamente porque, com essa medida, adiou-se a estatização dos bancos mais atingidos que julgam inevitável os segundos, porque é mais um subsídio ao setor financeiro.

Estou de acordo com Alan Greenspan e a "The Economist", segundo os quais a estatização provisória dos principais bancos provavelmente será, afinal, a solução. A experiência de longa depressão do Japão por não haver adotado essa política quando estourou a bolha financeira, em 1990, é bem conhecida. Compreendo a indignação do cidadão comum americano ao ver o governo aplicar bilhões de dólares no salvamento dos bancos. Mas compreendo também a prudência de Obama em não decidir imediatamente pela estatização.

Ainda que a direita inteligente seja a principal apoiadora da política, a direita comum, que é muito grande nos EUA, vê nela o fantasma do "socialismo". Com a política de compra de ativos por fundos privados, um ativo valorizado por 100 (número-índice representando dólares) pelo mercado por meio do leilão será comprado pelo fundo que ganhar o leilão. Este investirá 7 de seu próprio dinheiro e receberá 86 como empréstimo do setor privado garantido pelo Tesouro, o qual, por sua vez, investirá os 7 complementares, tornando-se sócio da operação. Usando o velho provérbio italiano, "si non è vero, è bene trovato".

Em um momento em que precisamos urgentemente de novas ideias -não porque as velhas ideias como a da expansão da liquidez ou a da política fiscal expansiva não sejam boas, mas porque se demonstram insuficientes ou muito caras-, essa é uma bela ideia que usa do mercado para corrigir o próprio mercado.

Clóvis Rossi transcreveu em sua coluna (25/3) crítica do correspondente do "El País" nos Estados Unidos de que, "de algum modo, a cobiça (dos potenciais investidores) e a alavancagem (desta vez com fundos públicos), demonizados como culpados da crise financeira, convertem-se em receita para o resgate". O texto é bom, e a indignação, compreensível, mas não é apenas com indignação que resolveremos a crise. Havia um problema fundamental de precificar os ativos podres dos bancos, e a ideia do leilão resolve com propriedade esse problema.

O Estado é a garantia maior com a qual pode contar uma sociedade, mas, sempre que seu governo consegue contar com o mercado para resolver problemas, principalmente de precificação, é muito bom, porque, nesse caso, o mercado é a instância competente e porque, dessa forma, ele se reanima e se fortalece -algo de que está muito precisado.

É possível que essa nova medida não seja suficiente para resolver o problema da subcapitalização dos grandes bancos americanos e que a nacionalização de alguns deles se revele afinal inevitável, mas é uma medida inovadora que abre espaço para o próprio mercado atuar e, se não resolver todos, resolverá uma parte dos problemas. O presidente Obama está pedindo "tempo e paciência" das pessoas diante da crise. Esperemos fazendo figa para que dê certo."

domingo, 29 de março de 2009

sábado, 28 de março de 2009

A Life , Sylvia Plath

Touch it: it won't shrink like an eyeball,
This egg-shaped bailiwick, clear as a tear.
Here's yesterday, last year ---
Palm-spear and lily distinct as flora in the vast
Windless threadwork of a tapestry.

Flick the glass with your fingernail:
It will ping like a Chinese chime in the slightest air stir
Though nobody in there looks up or bothers to answer.
The inhabitants are light as cork,
Every one of them permanently busy.

At their feet, the sea waves bow in single file.
Never trespassing in bad temper:
Stalling in midair,
Short-reined, pawing like paradeground horses.
Overhead, the clouds sit tasseled and fancy

As Victorian cushions. This family
Of valentine faces might please a collector:
They ring true, like good china.

Elsewhere the landscape is more frank.
The light falls without letup, blindingly.

A woman is dragging her shadow in a circle
About a bald hospital saucer.
It resembles the moon, or a sheet of blank paper
And appears to have suffered a sort of private blitzkrieg.
She lives quietly

With no attachments, like a foetus in a bottle,
The obsolete house, the sea, flattened to a picture
She has one too many dimensions to enter.
Grief and anger, exorcised,
Leave her alone now.

The future is a grey seagull
Tattling in its cat-voice of departure.
Age and terror, like nurses, attend her,
And a drowned man, complaining of the great cold,
Crawls up out of the sea.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Pesquisa mensal de emprego

Saiu o resultado de fevereiro e para surpresa dos cavaleiros do apocalipse os numeros e a realidade que eles traduzem continuam diferentes dos desejos travestidos de previsões desta turma.



"A taxa de desocupação de fevereiro foi 0,3 ponto percentual maior que a de janeiro (8,2%) último e 0,2 ponto percentual inferior à de fevereiro do ano passado (8,7%). A população desocupada (1,9 milhão) teve um acréscimo de 51 mil pessoas (2,7%) em relação a janeiro, e uma redução de 29 mil pessoas (-1,5%) se comparada a fevereiro de 2008. A população ocupada (20,9 milhões) recuou (-1,0% ou menos 211 mil pessoas) em relação a janeiro e cresceu (1,4% ou mais 283 mil pessoas) na comparação anual. O número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado (9,4 milhões) reduziu-se (-1,1% ou menos 109 mil pessoas) no mês e cresceu (3,4% ou mais 307 mil pessoas) no ano. Em relação a janeiro, o contingente de ocupados teve variação significativa apenas na Indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água (-3,2%). No ano, todos os grupamentos de atividade ficaram estáveis.

O rendimento médio real habitual dos trabalhadores (R$ 1.321,30) não teve alteração significativa (-0,1%) no mês e subiu 4,6% frente a fevereiro de 2008. O rendimento médio real domiciliar per capita (R$ 835,21) caiu (-1,0%) no mês e subiu 3,6% no ano. A massa de rendimento real habitual dos ocupados (R$ 27,9 bilhões) teve queda (-1,1%) no mês e alta (6,2%) em relação a fevereiro de 2008."( IBGE)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Causalidade equivocada

Como havia mencionado em outro post, gostei do artigo do Nakano na Folha de Domingo, mas discordo da análise em relação a política monetaria. Ele argumenta que "enquanto todos os demais BCs reagiam prontamente, expandindo fortemente o crédito doméstico e reduzindo os juros para contrabalançar a restrição no crédito externo, o nosso reagiu timidamente" e reconhece que "as reduções no compulsório tiveram pouco impacto num ambiente de incerteza aguda".

A pergunta obvia é porque a reação seria diferente no caso da redução da taxa de juros? A experiência internacional sugere que neste tipo de ambiente, a redução do juro não resolve o problema do crédito, pois o problema não é de liquidez, mas falta de confiança e da transformação da incerteza em panico. Neste caso a opção, racional, é pelo porto seguro, no caso brasileiro, a remuneração obtida no over. O equivoco é achar que uma remuneração menor mudaria o comportamento. Não foi a brusca contração do crédito que gerou "quase panico", mas este último que transformou uma redução esperada e normal, em ambiente de incerteza, na oferta do credito, em uma contração brutal. O único instrumento para minimizar, parcialmene, o problema é usar os bancos publicos e esta foi a política adotada pelo governo.

Panico e comportamento de manada, deixam marcas e leva algum tempo para o retorno à normalidade e é isto que está acontecendo.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Por que ainda estamos longe do sucesso

É sempre bom estar em boa companhia. O texto do Martin Wolf, publicado na Folha de hoje, defende, com muito mais elegância e inteligência, o mesmo argumento apresentado no meu último post, escrito nos primeiros minutos de terça feira e por isto aparece como segunda feira.

Minha preocupação cresce cada vez mais. Jamais esperei muito de europeus ou japoneses. Mas esperava que os EUA, sob um presidente novo e popular, agissem de maneira mais decidida. Em lugar disso, o Congresso está cedendo a um frenesi de populismo, e o governo se limita a esperar que tudo termine bem.
Emergiu nos EUA uma hostilidade explosiva ao setor financeiro. O Congresso debate taxar os bônus de executivos. E o procurador-geral de Nova York quer que sejam revelados os nomes. Isso equivale a um convite ao linchamento.
Se aprovadas, essas ideias levariam a um êxodo de pessoal qualificado dos bancos, destruiriam a confiança em acordos com o governo e ameaçariam o Estado de Direito. Que ideias assim sejam debatidas abertamente é um sinal claro das dimensões da raiva.
O mesmo cenário está envolvido no programa anunciado anteontem. Por ele, o governo fornece virtualmente todo o financiamento e arca com quase todo o risco, mas utiliza o setor privado para formar os preços dos ativos. Em troca, os investidores privados obtêm recompensas -talvez generosas- com base no desempenho.
Interpreto essa ideia como "esquema de alívio a fundos abutre". Mas vai funcionar? Depende do significado de "funcionar". Não se trata de um mecanismo real de mercado, porque o governo subsidia os riscos. Os preços podem não ser baixos o bastante para atrair compradores ou altos para satisfazer vendedores. Mas o esquema pode melhorar a situação lastimável das carteiras de operações dos bancos. Isso certamente não pode ser mau, pode? Na verdade pode, caso sirva como obstáculo a soluções mais fundamentais, porque ninguém -e especialmente não o Tesouro- acredita que esse esquema porá fim à subcapitalização crônica do setor. Por que esse esquema pode ser um obstáculo à recapitalização necessária? Primeiro, o Congresso pode decidir que ele torna a recapitalização menos importante; segundo, e mais importante, é provável que o plano torne a recapitalização pelo governo ainda menos popular.
Se o esquema funcionar, alguns fundos terão retornos extraordinários. Temo que isso sirva para convencer muitos americanos de que o governo é uma quadrilha que opera a favor de Wall Street. Agora imaginem o que pode acontecer caso, após a conclusão dos "testes de estresse" dos grandes bancos, o governo decida -surpresa! surpresa!- que é preciso oferecer mais capital. Como convencer o Congresso a desembolsar os recursos necessários?
A provisão de dinheiro público aos bancos é inaceitável para o público, e o controle pelo governo dos bancos é inaceitável para os banqueiros, que continuam influentes. Parecemos estar vivendo um impasse. A única saída é que a maior transparência propiciada pelos novos fundos venha a permitir que os grandes bancos levantem capital privado. Caso isso seja realizado na escala requerida -e estamos falando de até trilhões de dólares-, o novo plano seria um imenso sucesso. Será que os investidores estarão dispostos a fornecer as vastas somas requeridas por instituições com um histórico claro de gestão inepta? A confiança, quando destruída, nunca retorna rapidamente.
A conclusão, logo, é deprimente. Ninguém pode confiar em que os EUA já tenham solução confiável para o desastre bancário. Pelo contrário: com o público furioso, um Congresso em pé de guerra, um presidente tímido e um plano que depende de injetar dinheiro público em instituições subcapitalizadas, os EUA vivem um impasse.
Cabe a Obama encontrar uma saída. Quando se reunir com seus 19 colegas chefes de governo na semana que vem, não poderá alegar já tê-lo feito. E, se isso não basta para assustar, não sei o que bastaria.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ainda sem solução...

A bolsa americana ganhou algum folego a brasileira e outras seguiram na mesma dança: luz no fim do tunel, diria o mais otimista. Tolices, naturalmente. Não há nada de novo no plano proposto por Obama. É a velha e requentada proposta do governo Bush. Como explicar a boa reação dos mercados? Simples, o subsidio, implicito na proposta, vai deixar feliz os bancos sem problemas. O grande perdedor continua sendo o contribuinte americano.

A proposta não resolve o grande problema: a capitalização dos bancos, apenas tenta resolver o problema de confiança existente no mercado. Como ele não surgiu do nada - é o resultado de uma percepção correta da situação de alguns bancos - dificilmente deixará de existir, no máximo, poderá reduzir, por um período curto de tempo, retomando com mais força. É ai que mora o perigo.

Obama, aparentemente, não tinha outra saida. A solução correta sabemos ser a colocada em pratica na Suecia nos anos 90. Ela contudo implica em grande intervenção no mercado, mas precisamente em alguma forma de estatização, ainda que provisoria, dos bancos com problemas. O clima político, como mencionado em outro post, em relação a maior intervenção do Estado na economia, ainda mantem se prisioneiro do famigerado período da guerra fria e impede qualquer discussão adulta do problema.

Marolinha que virou tsunami

Não é todo dia que um membro importante da oposição elogia o diagnóstico do Presidente Lula. Aliás ele é mais generoso que, alguns, dos membros do próprio governo e, também, do seu partido. Gostei da análise, exceto da parte referente a política monetária - em um post futuro voltarei a este tópico - que, ironicamente, é a parte que cabe a oposição neste grande latifundio em que se transfornou o governo atual. O embate com a area monetária não é novo e repete o mesmo padrão do governo anterior.

Tinha razão nosso presidente quando disse que a crise financeira mundial chegaria ao Brasil suavemente e seria transitória. Estávamos construindo um círculo virtuoso de crescimento baseado no aumento de emprego e de salários, acompanhado de elevação na produtividade, desenvolvendo um dinamismo baseado na expansão do mercado interno. Mas a incapacidade de diagnosticar e a excessiva cautela das autoridades monetárias fizeram a marolinha virar tsunami. O FMI estimou a queda do PIB global no quarto trimestre de 2008 em 5% (taxa anualizada), 6% nos EUA e na zona do euro e 13% no Japão. Pelo mesmo critério, a queda do PIB no Brasil, no mesmo período, foi de 15,2% -o país foi um dos que sofreram maior redução na produção e no emprego, e queda de 45,3% nos investimentos! Dada essa queda, vamos amargar recessão neste ano, e, se as respostas na área monetária e creditícia continuarem tímidas como a última decisão do Copom, não demoramos a concluir que o PIB poderá ter contração, que poderá superar quatro pontos percentuais.
No agregado, pelo canal do comércio, a crise chegou ao Brasil como uma marolinha. Numa economia fechada como a nossa, a queda nas exportações e nos preços das commodities teve impacto mínimo na contração da demanda agregada porque as importações sofreram forte desaceleração. Pelo canal da destruição de riqueza, com queda nas Bolsas, prejuízos nos fundos de investimento e aplicações em derivativos tóxicos, o impacto também não foi grande. O canal da desalavancagem ficou circunscrito a poucas empresas -as que apostaram em derivativos exóticos- e a pequenos bancos.
Foi pelo canal do crédito e da incerteza que a crise chegou ao Brasil. Enquanto todos os demais BCs reagiam prontamente, expandindo fortemente o crédito doméstico e reduzindo os juros para contrabalançar a restrição no crédito externo, o nosso reagiu timidamente. Argumentou-se que o crédito externo representava pequena parcela do crédito bancário total e que o problema de liquidez estava restrito a pequenos bancos. Esqueceram do efeito multiplicador de crédito e que houve parada total no fluxo de recursos que vinha pelo mercado de capitais. As reduções no depósito compulsório tiveram pouco impacto num ambiente de incerteza aguda em que o próprio BC, pagando 13,75% ao ano para aplicações no over, criava alternativa óbvia de aplicação. E, como previsto, as medidas não conseguiram compensar o crédito externo. Assim, a contração brusca de crédito para as empresas foi brutal, gerando um quase pânico, levando-os a paralisar os investimentos, a cancelar os pedidos e a frear a produção preventivamente, já que a demanda não havia caído, como as vendas do comércio comprovam, a não ser naqueles setores diretamente afetados pelo crédito, como o automobilístico.
O erro grosseiro do BC já custou 800 mil postos de trabalho. Em mais dois ou três meses, aqueles que perderam o emprego vão reduzir a demanda, provocando queda na produção e gerando novas demissões. Infelizmente, o erro de política monetária obrigará o governo a acionar mais ativamente a política fiscal, que, aliás, não tem muito espaço.

Yoshiaki Nakano

domingo, 22 de março de 2009

sábado, 21 de março de 2009

Não é socialismo, idiota

Semana complicada, politicamente, para a nova administração americana. O chamado "escandalo" do bonus deu pano pra manga, debates acirrados na CNN e munição para a velha direita na Fox. Alias a turma deste canal tem um conhecimento muito precário de economia e um discurso ideológico anti-estado tipico do período da guerra fria. Se a visão deles prevalecer - e este risco existe - a crise vai ganhar um contorno ainda pior... Assistindo aos comentários desta turma começo a entender o clima político que levou a reversão da política fiscal nos anos 30 e ao grande desastre econômico do período.

A realidade do inicio deste seculo, como já mencionei em outro post, é bem diferente da do seculo passado, mas há um ponto em comum: a burrice e o discurso ideológico da direita americana continua a ser o grande inimigo da boa política econômica. É bom lembrar, mais uma vez, que não se trata de socialismo - um sistema que já se mostrou economicamente inferior a economia de mercado - ou algo parecido, mas de tentar evitar um cenário econômico e social ainda pior. E isto por um simples motivo: a conta, inevitavelmente, ficaria para a turma do andar de baixo.