quinta-feira, 20 de maio de 2010

Charlatões....

Gostar de economia, não transforma ninguem em economista, não é muito diferente de gostar de piano e achar que por isto é um pianista. Lembro de uma cena em uma sitcom americana em que um personagem era lembrado por sua mãe que quando jovem ele gostava da idéia de ser pianista, mas nunca demonstrou a disposição necessária para passar horas praticando e estudando teoria musical. Esta cena sempre me vem a mente, quando ouço comentários bem intencionados, porem superficiais, sobre econômia, indicativos de pouco conhecimento e dominio da literatura econômica. Em parte, resultado, da falsa idéia que conhecer a literatura marxista é suficiente para transformar alguem em economista. O mesmo, alias, vale para o seu oposto no campo ideológico. A literatura econômica é vasta e muito rica e dela sempre se aprende muito.

A história economica no bananão, principalmente a longa batalha contra a inflação, levou a um comportamento curioso: todos se consideram expert em economia. Do ponto de vista da cidadania esse interesse é louvavel, porem, as vezes, leva à situações estranhas, como por ex, convidar um ex-ministro da Fazenda para escrever artigos sobre economia, quando sabidamente ele nada conhece da área, em que pese o fato de ter sido um ministro razoavel devido a sua competência na area política e inteligência na hora de escolher bons assessores e quadros qualificados para posições chaves no ministerio.

Dificilmente alguem convidaria um ex-ministro da Saúde - com boa performance no cargo - para escrever sobre medicina: diagnosticos, tratamentos, etc. Ele naturalmente, seria qualificado, para falar sobre economia e administração da saúde.

Triste sina a do economista no grande bananão, conviver com charlatões que se passam por economistas ...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vitoria diplomatica e a quinta coluna

Como era de se esperar a quinta coluna demorou para reagir ao sucesso diplomatico obtido pelo Brasil na complicada questão nuclear iraniana. A boa repercussão na midia internacional - NY Times, FT, por ex - levou a paralisia momentanea e, quem sabe, a um momento de dúvida: o sapo barbudo poderia estar certo e eles errados?

Os norte-americanos - sempre eles - ajudaram a resolver o dilema com sua oposição energica ao acordo, por eles defendidos seis meses atras. A quinta coluna sentiu-se realizada: foi desperdicio de tempo e mais uma aposta errada da diplomacia lulista.

So mesmo tolos e ingenuos poderiam esperar uma reação diferente da aguia ferida, mas ainda com muito poder e única potência em um mundo que ainda é - apesar das aparências - mais unipolar que multipolar. Seguramente nosso setor diplomatico não se encontra neste grupo, o mesmo não se pode afirmar em relação a quinta coluna.

Foi sem dúvida uma grande vitoria da diplomacia brasileira e a reação americana e ,principalmente, a mudança de opinião no caso da Russia e da China, uma comprovação da tese que não será nada fácil ser aceito no restrito clube de países com influência real nas relações internacionais. Este fato, contudo, não é motivo para ficar cabisbaixo e deixar de tentar... Afinal nenhum Imperio é eterno ...

Mudando de assunto. Artigo, no Valor, de dois professores de conhecida escola de sociologia da grande são paulo é um bom exemplo do atual estado da miseria teorica e retorica vazia da turma que insiste em destruir a reputação da venerável escola de Cambridge(UK).

terça-feira, 18 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Europa e o grande bananão

A crise econômica na Europa continua e análises/propostas de solução são apresentadas por nomes importantes da comunidade de economistas brasileiros. Bresser Pereira, no jornal da Ditabranda, defende uma versão europeia da lei de responsabilidade fiscal brasileira. É uma boa idéia e com menos problemas políticos que a proposta defendida pelo autor dessas mal traçadas: divida pública da zona do europa e troca dos títulos dos países da zona do euro por titulos emitidos por esta nova autoridade europeia. É uma forma de default administrado e contrariamente ao que ele afirma, isto não implica ser um detrator da zona do euro - muito pelo contrário...

Mendonça de Barros, no Valor, comenta o impacto da mudança de posição do Bacen da zona do euro em relação a compra de títulos emitidos pelos países com problemas. Seria, para alguns, uma mudança drastica, perigosa e desnecessaria no mandato desta autoridade de defesa da moeda. Concordo com o Mendonça: esta é uma posição equivocada, já que a autonomia operacional do Bacen, não implica em suicidio da nação em momento de grave crise econômica para defender uma leitura equivocada de uma regra de política econômica. Dilema semelhante aconteceu durante a unificação alemã e nem por isto o seu Bacen perdeu a reputação de defensor da moeda.

É preciso, no entanto, não confundir alhos com bugalhos e usar a defesa da posição, correta, adotada pelo Bacen da zona do euro, com o argumento para defender a posição expressa pelo candidato da Nova Direita sobre a independência do Bacen. São argumentos totalmente diferentes.

domingo, 16 de maio de 2010

sábado, 15 de maio de 2010

Na morte de um combatente da paz, Bertolt Brecht

Á memória de Carl von Ossietzky


Aquele que não cedeu
Foi abatido
O que foi abatido
Não cedeu.
A boca do que preveniu
Está cheia de terra.
A aventura sangrenta
Começa.
O túmulo do amigo da paz
É pisoteado por batalhões.
Então a luta foi em vão?
Quando é abatido o que não lutou só
O inimigo
Ainda não venceu.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Economia e economistas...

Nâo há nada de errado em ser "economista" marxista, inclusive talebã, mas tem que ter formação em economia. O ideal é graduação, mestrado e doutorado; se não for possível - afinal aos 17/18 anos não é nada fácil escolher um curso/profissão - o minimo aceitável é graduação ou mestrado e doutorado em um dos programas da Anpec. Diletantes de qualidade são raros e, via de regra, pertencem a geração pre-Anpec.

Ah! já sei: este é um argumento corporativista. Seria se estivesse defendendo os direitos assegurados pela legislação que regulamenta a profissão de economista: sem graduação não se é economista. Mas, não é o caso. Engenheiro, medico, advogado, desde que com mestrado e doutorado em economia por um dos programas da Anpec.

Excluindo os cursos da área de saúde, não encontro justificativa para o corporativismo ainda reinante na maioria das profíssões. Em direito, por ex, sempre defendi que qualquer um que consiga ser aprovado no exame da OAB deveria ter o direito de exercer a profissão de advogado. Ah!,..., é diferente da economia, da administração,... Será mesmo? Como diria meu saudoso pai: pimenta nos olhos dos outros não arde.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sete na cabeça...

Os numeros e as previsões sobre o PIB não poderiam ser melhores e a reação do governo é, como era de se esperar, previsivel. Afinal se corretos justificariam a elevação recente da taxa de juros e movimento no mesmo sentido esperado ao longo do ano. A opinião desse Blog sobre o tema, assim como a previsão em relação ao PIB de 2010, já foi aqui expressa em post de 15 de abril, e felizmente, ganhou a companhia do Itau Unibanco e em breve - ao que se comenta - do Bradesco.

Há motivos para preocupação? Acredito que não,já que o Bacen tem demonstrado um comprometimento admirável com a defesa da moeda.

Confesso minha curiosidade em relação a reação do candidato da nova direita e, também, dos seus admiradores, os marxistas talebãs.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Tolices do candidato da nova direita

O candidato da Nova Direita resolveu honrar o grande público com suas idéias sobre o Banco Central. A escolhe do meio não poderia ser melhor, mas desta vez ele errou feio. O que deveria ser simplesmente uma fala do trono, transformou-se em uma demonstração da sua já famosa falta de delicadeza no trato com pobres mortais que por acidente se colocam em seu caminho. Na maior parte dos casos, trata-se de jornalistas sem grande influência, mas sua arrogância o levou a atacar um peixe grande. Não que ela tenha grandes conhecimentos de economia, mas seu público cativo tem uma opinião diferente.

Já as idéias dele são bem conhecidas e mostraram serem um grande equivoco, que, para felicidade geral da nação nunca foram levadas ao serio na admistração passada. Elas, é verdade, ainda encantam setores do empresariado saudosos daquilo que o esforçado economista da ditadura chamava de "tetas do Estado". Eles é claro concordam com o fim da autonomia do Bacen e mal podem esperar pelo retorno ao mundo maravilhoso das taxas de juros reais negativas do passado. É claro que isto é impossível com um Bacen comprometido com a defesa da moeda nacional, atuando firmemente contra o retorno do maior inimigo do pobre do assalariado- a inflação.

É verdade que o Bacen as vezes exagera na dose, mas isto não é justificativa para retornar ao passado e retirar-lhe a autonomia operacional.

terça-feira, 11 de maio de 2010

UE ganha tempo, mas verdadeiro teste está por vir

É bom estar em boa companhia. Munchau, no FT, apresenta argumento semelhante ao que apresentamos em outro post sobre a Grecia e a zona do euro.




"Não havia escolha. Diante de uma ameaça existencial, a União Europeia demonstrou que é capaz de agir com rapidez, se necessário. Os líderes europeus merecem respeito por enfim terem conseguido se adiantar à situação.
Isso posto, deveríamos também compreender que, ao tentar combater o problema simplesmente por meio de dinheiro, a maior parte do qual na forma de garantias, a UE simplesmente ganhou tempo para resolver a confusa situação de governança da zona do euro. O verdadeiro teste está por vir.
Há importantes paralelos com as garantias da UE ao setor financeiro em outubro de 2008, após o colapso do Lehman Brothers. Aquela decisão resolveu um problema de liquidez imediato no setor europeu, que estava à beira de uma catástrofe. Mas a decisão não resolveu as questões subjacentes de solvência do setor, que continuam a ser problema.
O mesmo se aplica a esse caso. Sabemos agora que Grécia, Portugal e Espanha sempre serão capazes de refinanciar suas dívidas públicas, mas a solvência em longo prazo do Estado espanhol continua não resolvida. O setor privado tem imensas dívidas. Os preços dos ativos que servem como caução continuam a cair.
O governo espanhol, como fiador do setor bancário, ficará sobrecarregado com dívidas crescentes em um período de estagnação da expansão econômica. Deveríamos ter em mente que solvência não se relaciona primordialmente à disposição de emprestar dos mercados. Isso se aplica à liquidez.
Você está solvente se consegue estabilizar sua dívida como proporção de sua renda. A posição de solvência do sul da Europa, portanto, não é afetada pela injeções de bilhões de euros.
Por isso, o atual acordo só será efetivo no curto prazo, a menos que seja seguido por reformas substantivas -a introdução de título de dívida europeu unificado, uma agenda de coordenação de reformas econômicas, políticas que reduzam os desequilíbrios econômicos, fiscalização mais estreita de políticas fiscais.
Em resumo, coisas sobre as quais a UE vivia -e continua vivendo- em negação.
Meu parecer é o de que quase nada disso acontecerá. Portanto, continuo cético quanto às perspectivas em longo prazo da zona do euro. Vai chegar um momento em que usar o dinheiro para resolver problemas, sem mudanças estruturais, deixará de fazer efeito ou mesmo de impressionar."

Wolfgang Munchau

Fonte: FSP

segunda-feira, 10 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

Autumn song, W.H.Auden

Now the leaves are falling fast,
Nurse's flowers will not last;
Nurses to the graves are gone,
And the prams go rolling on.

Whispering neighbours, left and right,
Pluck us from the real delight;
And the active hands must freeze
Lonely on the separate knees.

Dead in hundreds at the back
Follow wooden in our track,
Arms raised stiffly to reprove
In false attitudes of love.

Starving through the leafless wood
Trolls run scolding for their food;
And the nightingale is dumb,
And the angel will not come.

Cold, impossible, ahead
Lifts the mountain's lovely head
Whose white waterfall could bless
Travellers in their last distress.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Miscêlaneas

Ontem mencionei que o Stiglitz, aparentemente, havia se transformado em um economista pop. Outro que parece ter seguido pelo mesmo caminho é o Krugman. O ironico é que esse último é o criador da expressão que, hoje, cai como uma luva para descrever algumas de suas análises econômicas. Por enquanto o número é ainda muito pequeno, mas o suficiente, para que ambos tenham despertado o interesse dos leitores de economistas pop. Como sou um otimista incorrigivel não considero este evento de todo negativo. Quem sabe possa ser a porta de entrada para os textos que eles produziram no passado e que tornaram-se grandes classícos do pensamento econômico.

Mudando de assunto. Se é algo que a Europa não precisa nesse momento é de um governo sem um forte mandato no Reino Unido. Com uma relação divida/pib próxima dos países listados como bola da vez, a condição econômica do barco ancorado na esquina do mundo esta longe de ser confortável. Medidas duras, necessárias, e, portanto, inevitáveis não combinam com um governo sem uma maioria confortável no parlamento.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Stiglitz e o euro

O pessimismo do Stiglitz em relação ao Euro está longe de ser justificado, assim como sua analise de elevador: o que aconteceu com o brilhante economista, autor de "papers" fantasticos e um ótimo livro sobre socialismo? Tornou-se um economista pop o que, alias, explicaria seu sucesso, entre a turma que se passa por economista.

A crise financeira grega colocou em jogo a sobrevivência do euro. Quando a moeda unificada foi criada, muita gente se preocupava com sua viabilidade no longo prazo. Porque tudo transcorreu bem, essas preocupações foram esquecidas.
Mas a questão de como realizar ajustes caso uma parte da zona do euro fosse atingida por fortes efeitos adversos persistiu. Determinar uma taxa fixa de câmbio e entregar a autoridade monetária ao Banco Central Europeu eliminou os dois meios primários pelos quais governos nacionais estimulam suas economias a fim de evitar recessões. Como substituí-los?
Robert Mundell, Nobel de Economia, estabeleceu as condições sob as quais uma moeda unificada seria capaz de funcionar. A Europa não cumpria essas condições quando da adoção do euro; e ainda não o faz.
A remoção das barreiras jurídicas ao movimento de trabalhadores criou um mercado de trabalho unificado, mas as diferenças linguísticas e culturais tornam irrealizável uma mobilidade de mão de obra como a que existe nos EUA.
Além disso, a Europa não tem um meio de ajudar os países que enfrentam sérios problemas. Tomemos como exemplo a Espanha, que tem um índice de desemprego de 20% -e de mais de 40% entre os jovens.
O país tinha superavit fiscal antes da crise; depois, seu deficit inchou para mais de 11% do PIB. Mas, sob as regras da UE (União Europeia), a Espanha agora precisa reduzir seus gastos, o que provavelmente exacerbará o desemprego. Com a desaceleração da economia, a melhora na posição fiscal do país pode ser mínima.
Para os países de menor porte na UE, a lição é clara: caso não reduzam seus deficit orçamentários, existe um alto risco de ataques especulativos, com pouca esperança de ajuda adequada dos vizinhos, ao menos não sem dolorosas e contraproducentes medidas de restrição orçamentária pró-cíclicas.
As consequências sociais e econômicas do arranjo atual devem ser inaceitáveis. Os países cujos deficit dispararam como resultado da recessão mundial não devem ser forçados a uma espiral de morte como a Argentina há uma década.
Uma das soluções propostas é que esses países organizem o equivalente a uma desvalorização cambial -um corte uniforme nos salários. Creio que seja impossível, e as consequências distributivas seriam inaceitáveis. As tensões sociais seriam enormes. É uma fantasia.
Existe uma segunda solução: que a Alemanha deixe a zona do euro ou que esta seja dividida em duas subáreas. O euro foi uma experiência interessante, mas falta-lhe o apoio institucional para que funcione.
Há também uma terceira solução que a Europa talvez venha a compreender como a mais promissora de todas: implementar as reformas institucionais, incluindo a criação da estrutura fiscal necessária, que deveriam ter sido adotadas quando do lançamento do euro.
Não é tarde demais para que a Europa implemente as reformas e recupere os ideais, baseados na solidariedade, que embasaram a criação do euro.
Mas, caso a Europa não possa fazê-lo, talvez o melhor seja admitir o fracasso e seguir em frente, em lugar de pagar o alto preço em termos de desemprego e sofrimento humano que a preservação de um modelo econômico falho requereria.

Fonte: FSP

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Presente de grego

Mais um ótimo artigo do Martin Wolf.Pessimista? Não, apenas realista. Alguma forma de moratoria negociada/reestruturação da dívida parece inevitável. Vai ter impacto negativo no grande bananão? Acredito que não, exceto se for um preambulo para uma crise em escala maior englobando outros mercados. Esta é uma possibilidade,mas ainda não chegamos lá.


Momentos de desespero requerem medidas desesperadas. Depois de meses de dispendiosa postergação, a zona do euro fechou um enorme pacote de apoio à Grécia. Ao envolver o FMI, a pedido da Alemanha, os países europeus conseguiram alguns recursos adicionais e um programa melhor. Mas será que vai funcionar? Infelizmente, tenho sérias dúvidas.
Duas características do que foi decidido merecem menção. Primeiro, não haverá reestruturação da dívida; segundo, será suspenso o requisito de uma classificação mínima de crédito para os ativos garantidos pelo governo grego utilizados nas operações de liquidez, o que oferece alguma assistência aos vulneráveis bancos locais.
Assim, será que o programa é sensato, quer para a Grécia, quer para a zona do euro? Sim e não, em ambos os casos.
Comecemos pela Grécia. O país já perdeu o acesso aos mercados. Assim, a alternativa a aceitar esse pacote seria decretar uma moratória.
O país nesse caso deixaria de pagar os juros sobre suas dívidas, mas teria de reduzir seu deficit fiscal primário (ou seja, anterior aos pagamentos de juros) para 9% a 10% do PIB imediatamente. Isso resultaria em um aperto muito mais brutal do que aquele que a Grécia aceitou como parte do pacote.
Além disso, uma moratória traria o colapso do sistema bancário. A Grécia está certa em prometer mundos e fundos, a fim de ganhar tempo e eliminar de maneira mais suave o seu deficit primário.
Mas é difícil acreditar que a Grécia venha a ser capaz de evitar uma reestruturação da dívida. Primeiro, presumamos que tudo corra de acordo com o plano. E que a taxa média de juros sobre a dívida grega de longo prazo fique em apenas 5%.
O país precisaria, com isso, manter um superavit primário da ordem de 4,5% e dedicar o equivalente a 7,5% do PIB de sua arrecadação tributária para manter o serviço da dívida.
O público grego será capaz de suportar esse fardo ano após ano, sem descanso?
A Grécia está sendo solicitada a fazer o que a América Latina fez nos anos 80. Isso resultou em uma década perdida, da qual os únicos beneficiários foram os credores estrangeiros.
Além disso, já que os credores agora estão sendo pagos para escapar, quem os substituirá? O pacote certamente fracassará em seu objetivo de devolver a Grécia aos mercados, em termos administráveis, dentro de poucos anos.
Para a zona do euro, duas lições são claras: primeiro, a escolha é ou permitir moratórias de dívidas soberanas, por mais complicadas que sejam, ou criar uma união fiscal, com forte disciplina e fundos suficientes para permitir o amparo a economias devastadas.
Segundo, os ajustes na zona do euro não funcionarão sem que os países mais importantes realizem ajustes compensatórios. Se a zona do euro estiver disposta a viver próxima da estagnação em sua demanda geral, ela se tornará uma arena para medidas agressivas de desinflação competitiva e dependerá mais dos mercados mundiais como destino para seus excedentes de produção.
A crise que está em curso confirma a sabedoria daqueles que viam o euro como uma empreitada de alto risco. No entanto, agora que a zona do euro foi criada, é preciso fazer com que ela funcione. A tentativa de resgate à Grécia é só o começo da história. Há muito mais que precisa ser feito, em termos de resposta imediata à crise e de reforma da zona do euro, em futuro não muito distante.

Fonte: FSP

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ainda sobre a nova direita

No domingo a colunista do jornal da ditabranda, Eliane Cantanhêde, defendeu uma tese semelhante ao post de 20 de abril de 2010, mas com título diferente: direita, volver, o do blog era "a nova direita". Mas isto é apenas um detalhe. O fundamental é o trecho abaixo:


" Uma peculiaridade da campanha é que Serra, Dilma e Marina Silva vêm da esquerda. Mas serristas e dilmistas se estapeiam pelo apoio de siglas como PP, PTB, PRB e PSC (de Joaquim Roriz no DF), e uma certeza paira no ar: alguém vai ter que ocupar o espaço "de direita".
Uma coisa é a armação do tempo na TV e dos palanques, quando os candidatos tapam o nariz e correm atrás de partidos e caciques. Outra é ajustar o discurso e os compromissos para agradar o eleitor -inclusive de setores nada desprezíveis que rejeitam as teses e práticas da esquerda e têm, além de recurso$, influência política e peso eleitoral. Como o agronegócio no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.
Ou seja, agora é hora de montar o time, não importa se com gente de direita ou de esquerda, com ficha limpa ou ficha suja. Mas, depois, o foco sai dos partidos e dos políticos e vai para o voto do eleitor.
Marina manterá coerência, Dilma fará concessões e Serra terá que se moldar como "candidato da direita". Não é questão de convicção ou de opção.
Com poucos recursos para competir com Dilma entre os pobres e os nordestinos que endeusam Lula, Serra terá de tirar votos dela entre produtores rurais e na classe média urbana, conservadora e refratária ao PT. Com pose e discurso de esquerda é que não vai ser."

É o tipo de artigo que não agrada, com certeza, alguns eleitores-intelectuais, do candidato da Nova Direita que ainda tem dificuldade em reconhecer o fato obvio que é neste segmento do mercado eleitoral que ele deverá encontrar parcela significativa do seu eleitorado. Se será suficiente para elege-lo é uma grande incognita o que torna a eleição ainda mais interessante.

Cantanhêde, contudo, ainda parece acreditar que o partido do candidato da nova direita se encontra no campo da esquerda. Tese equivocada, me parece, ele é um tipico partido da direita ilustrada e envergonhada, os novos Carlos Lacerda,com roupagem chic e melhor dominio da literatura de esquerda.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A ideologia marxista

O ótimo artigo do Antonio Cicero, publicado na edição de sabado do jornal da ditabranda, é uma excelente análise do marxismo vulgar ou marxismo talebã , ainda muito popular na terra das jabuticabas exóticas. Ele explica a popularidade de um famoso axioma das jabuticabas exóticas : ser marxista é condição suficiente para lecionar economia, historia, filosofia, política, etc...



Já citei uma vez, nesta coluna, a observação do filósofo Theodor Adorno no ensaio "As Estrelas Descem à Terra" de que, ao semierudito, "a astrologia [...] oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais supõe pertencer a uma minoria que está "por dentro'". Na época, mostrei que tal descrição convém também à ideologia religiosa do apóstolo Paulo, assim como à de Martinho Lutero. Pois bem, o fato é que ela se aplica igualmente bem a ideologias seculares, tais como o marxismo vulgar.
Embora tencione dar uma chave para o entendimento do mundo, como uma religião, o marxismo, longe de se tomar como religião, considera-se inteiramente racional, declarando-se tanto filosofia quanto ciência da história e da sociedade. Isso faculta ao semierudito ter-se, do ponto de vista cognitivo, como superior também aos eruditos que, por diferentes razões, não tenham adotado a concepção marxista.
Como, além disso, essa concepção do mundo quer fundamentar uma teoria revolucionária, tendo em vista a superação do capitalismo e a instauração do comunismo, sociedade em que pretende que não haverá mais propriedade privada dos meios de produção, nem diferentes classes sociais nem os flagelos da exploração e da opressão do ser humano pelo ser humano, os marxistas, já pelo simples fato de se posicionarem a favor de tal revolução, consideram-se, a priori, superiores, também do ponto de vista ético, a todos que não o tenham feito.
Para esse modo de pensar, o mundo existente, em que domina o modo de produção capitalista, é inteiramente desvalorizado. Nele, qualquer progresso é tido como meramente adjetivo, quando não fictício. A democracia existente -qualificada de "burguesa"- não é valorizada senão enquanto caminho para a revolução. Só esta deverá trazer um progresso real.
Hoje, porém, nem os marxistas podem pretender saber como se daria a superação do capitalismo. Não ignoro que, se questionados, certamente falariam em "socialismo". Concretamente, porém, que poderia significar para eles tal palavra?
Seu socialismo certamente nada teria a ver com a social-democracia, pois esta, sendo compatível com o capitalismo, não representaria sua superação. Tratar-se-ia então do socialismo como a estatização dos meios de produção, tal como se deu, por exemplo, na URSS?
Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a propriedade social dos meios de produção, os revolucionários russos supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista.
Será possível identificar a estatização com o socialismo? Friedrich Engels diria que não, pois afirmava que "quanto mais forças produtivas o Estado moderno passa a possuir, quanto mais se torna um capitalista total real, tantos mais cidadãos ele explora. Os trabalhadores continuam assalariados, proletários. Longe de ser superada, a relação capitalista chega ao auge". Dado que a propriedade estatal dos meios de produção não garante a posse real deles pelos trabalhadores, ela é capaz de não passar de uma forma de capitalismo estatal.
A Revolução Cultural Chinesa pode ser entendida como uma tentativa de mobilizar as massas contra o estabelecimento de situação semelhante, na China. Seu líder, Mao Tse-tung, chegou a dizer: "Não se sabe onde está a burguesia? Mas ela está no Partido Comunista!".
É possível. Como, porém, a verdade é que as "massas" são inerentemente plurais, particulares, instáveis e manobráveis, o fato é que, na época moderna, qualquer "democracia direta" não pode passar de uma quimera. Não admira, portanto, que a Revolução Cultural se tenha tornado extremamente caótica e violenta, de modo que, por fim, tenha sido necessário, ainda nas palavras de Badiou, "restabelecer a ordem nas piores condições". O resultado é que impera hoje na China o mais brutal capitalismo, tanto estatal quanto privado.
Contudo, só a miopia ideológica impede de ver que, embora a "revolução" se tenha revelado um beco sem saída, o mundo em que vivemos encontra-se em fluxo incessante; e que a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. -que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão- constituem também as verdadeiras condições para torná-lo melhor.

Fonte: FSP

domingo, 2 de maio de 2010

sábado, 1 de maio de 2010

Rhapsody on a windy night, T.S.Eliot

Twelve o'clock.
Along the reaches of the street
Held in a lunar synthesis,
Whispering lunar incantations
Dissolve the floors of memory
And all its clear relations,
Its divisions and precisions,
Every street lamp that I pass
Beats like a fatalistic drum,
And through the spaces of the dark
Midnight shakes the memory
As a madman shakes a dead geranium.

Half-past one,
The street lamp sputtered,
The street lamp muttered,
The street lamp said, "Regard that woman
Who hesitates towards you in the light of the door
Which opens on her like a grin.
You see the border of her dress
Is torn and stained with sand,
And you see the corner of her eye
Twists like a crooked pin."

The memory throws up high and dry
A crowd of twisted things;
A twisted branch upon the beach
Eaten smooth, and polished
As if the world gave up
The secret of its skeleton,
Stiff and white.
A broken spring in a factory yard,
Rust that clings to the form that the strength has left
Hard and curled and ready to snap.

Half-past two,
The street lamp said,
"Remark the cat which flattens itself in the gutter,
Slips out its tongue
And devours a morsel of rancid butter."
So the hand of a child, automatic,
Slipped out and pocketed a toy that was running along the quay.
I could see nothing behind that child's eye.
I have seen eyes in the street
Trying to peer through lighted shutters,
And a crab one afternoon in a pool,
An old crab with barnacles on his back,
Gripped the end of a stick which I held him.

Half-past three,
The lamp sputtered,
The lamp muttered in the dark.

The lamp hummed:
"Regard the moon,
La lune ne garde aucune rancune,
She winks a feeble eye,
She smiles into corners.
She smoothes the hair of the grass.
The moon has lost her memory.
A washed-out smallpox cracks her face,
Her hand twists a paper rose,
That smells of dust and old Cologne,
She is alone
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain."
The reminiscence comes
Of sunless dry geraniums
And dust in crevices,
Smells of chestnuts in the streets,
And female smells in shuttered rooms,
And cigarettes in corridors
And cocktail smells in bars."

The lamp said,
"Four o'clock,
Here is the number on the door.
Memory!
You have the key,
The little lamp spreads a ring on the stair,
Mount.
The bed is open; the tooth-brush hangs on the wall,
Put your shoes at the door, sleep, prepare for life."

The last twist of the knife