Sábado, 11 de Julho de 2009

Verso 6, Paul Van Ostaijen

Eu não posso colecionar selos
Eu não posso colecionar fotos de mulheres
Eu não posso colecionar namoros
nem sabedoria
eu já não posso nada mais
eu já não posso nada mais
Porque não apago a luz
e não vou pra cama
Eu quero provar
estar nú
pelado quem sabe sim púrpura gelada
e palidez
Não é assim o próprio princípio principiante
Eu não quero saber nada
eu não quero perguntar
porque
eu não me tornei um colecionador de selos
Eu começarei por dar meu fracasso
Eu começarei por dar minha falência
Eu me darei um pobre despedaço de terra
uma terra pisoteada
uma terra de urzes
uma cidade ocupada
Eu quero estar nu
e começar

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Leituras da Caritas in Veritate

Por enquanto são raros os artigos brasileiros( encontrei apenas 2) sobre a Caritas in Veritate, já em lingua inglesa encontra-se um número bem maior. A mesa redonda organizada pelo World Catholic Report apresenta um conjunto bem interessante de análises da Encíclica. Beckwith, abaixo, apresenta uma leitura bem interessante.


That theological anthropology is the proper starting point in discovering the good for which human beings were designed is the animating principle behind Pope Benedict XVI’s encyclical Caritas in Veritate (or “Charity in Truth”). For without true knowledge of the human person, one cannot know how to properly direct one’s love (or “charity”) to one’s fellow human being. As Benedict writes, “Without truth, without trust and love for what is true, there is no social conscience and responsibility, and social action ends up serving private interests and the logic of power, resulting in social fragmentation, especially in a globalized society at difficult times like the present” (5).

For Benedict, who and what we are, the question of theological anthropology, is the key to a proper understanding of our relationship to one another, our economic progress and regress, the nature of the family and marriage, humanity’s stewardship for the environment, the rule of law, intergenerational justice, as well as our openness to human life at its outset, its end, and the time in between. Yes, Caritas in Veritate mentions all these topics as well as several others. But the answer to the question of what constitutes integral human development—i.e., what are we and what is the good for us as individuals and as a whole?—is the unifying principle that connects them all.

The categories that dominate our public discourse in the United States—left, right, liberal, conservative, etc.—play no role in illuminating the message of Caritas in Veritate. This is why it is a fool’s errand to attempt to artificially divide Catholic social teachings into its left and right wings, as if the Church’s rejection of economic libertarianism and proclamation of the principles of subsidiary and solidarity is a call to socialism or the government ownership of the means of production, or that the Church’s embracing of the exclusivity of male-female marriage and its defense of the sanctity of all human life from conception until natural death means that the Church does not believe in individual liberty.

This “binary model,” as Benedict calls it (41), unnaturally limits our vision of the multilayered and interdependent goods that lead to integral human development, and thus, results in true freedom for the individual to pursue the good. According to the Pope, if we believe that our faith and all that it entails for theological anthropology and the good life is true, we can coherently claim that liberty, rightly understood, prohibits us from rejecting certain unassailable truths about ourselves without which liberty loses its point.

For the Church, the Sermon on the Mount cannot be separated from “Honor thy Father and Mother,” “Thou shalt not commit adultery,” and “Thou shalt not steal.” This is not a seamless garment. For it is not an artifice constructed by our wills. It is a living organism, made by God, whose parts work in concert for the benefit of the whole. Thus, the “justice” in social justice refers to a rightly ordered polity, not to the outcomes and/or processes advocated by the ideologies of a Ludwig Von Mises or a Karl Marx. In Christian theology, you can gain the whole world and lose your own soul (Luke 9:25). To paraphrase St. Paul, that’s a stumbling block to the Austrians and foolishness to the Marxists.

Francis J. Beckwith é Professor of Philosophy and Church-State Studies, e Resident Scholar in the Institute for the Studies of Religion, Baylor University.


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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Not waving but drowning

Importante artigo do The Tablet sobre um conhecido problema que volta a assustar: o odio aos imigrantes, o novo ovo da conhecida serpente dos anos 20 e 30 do século passado.



Public sentiment and political rhetoric is hardening against migrants in Italy, and legislators are proposing to restrict their rights radically. This means that the Vatican, bishops and church charities are set on a collision course with the Italian state, host of the G8 Summit

"Dying of Hope" was the title of an ecumenical prayer service held in the Rome Basilica of Santa Maria in Trastevere on 25 June to remember all those who have died attempting to flee to Europe from poverty, hunger or oppression.

The president of the Pontifical Council for Migrants and Itinerant Peoples, Archbishop Antonio Maria Vegliò, presided at the event, which was jointly organised for the third consecutive year by the Sant'Egidio lay community, the Italian branch of Caritas, the Jesuit-run Centro Astalli, the Federation of Evangelical Churches in Italy and the national Christian Workers Association.

In the first four months of this year alone, some 350 men, women and children have drowned trying to cross the stormy strait between North Africa and Sicily. Conservative estimates for the number of victims who have lost their lives while attempting to enter Europe over the past two decades have reached almost 15,000.

The prayer service was held to mark World Refugee Day and to draw attention to a situ­ation which many religious and human rights organisations say has reached crisis point here in Italy. Days earlier Pope Benedict himself had prayed for the "difficult and sometimes dramatic situation of refugees". He noted during his visit to Padre Pio's shrine in San Giovanni Rotondo that "there are many people who seek refuge in other countries fleeing from situations of war, persecution and disasters, and their reception poses many difficulties, yet it is nevertheless a duty".

But just a week earlier, Italy's lower house of parliament passed a bill proposing harsh fines (up to 10,000 euros) for immigrants who are caught without the correct documents and a jail sentence for anyone offering accommodation to "illegal" immigrants. The proposed law (expected to be passed by the Senate this week) also increases the length of time that such immigrants can be kept in government holding centres from two to six months and, most controversially, contains provisions for a national framework enabling the setting up of "citizens" patrols - critics call them vigilante groups - to help authorities combat crime

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Uma combinação inacreditável

Alexandre "eram os Deuses astronautas", tem razão: não se pode atribuir a forte queda da produção a política monetária, o que não implica, contudo, negar o seu impacto sobre a produção. Ele, contudo, não é tão forte quando cantado em verso e prosa pela turma de sempre. Não acredito ser um caso de desonestidade intelectual, mas de desconhecimento dos rudimentos da teoria econômica. Eles gostam de serem chamados de economistas, mas, aparentemente, nunca tiveram tempo e disposição para as horas b. necessarias à formação em economia. É pura pose... passear com livros sem os ler... é a Sindrome do Visconde de Sabugosa...


Há quem receba mais atenção do que merece; há quem receba menos, como é o caso do IBGE. De fato, além de acelerar a divulgação da produção industrial, o IBGE tem trazido novas aberturas que auxiliam o trabalho de análise econômica. Dessas, uma em particular mostra o comportamento de setores industriais de acordo com sua intensidade exportadora, isto é, aqueles que tipicamente superam de forma significativa o coeficiente médio de participação das exportações no produto (20,8%) e os que costumam exportar uma fração menor de sua produção.
Ao contrário do que se imagina, os segmentos produtores de commodities são importantes tanto para o setor de alta intensidade exportadora como para o de baixa intensidade, respondendo por cerca de 65%-70% do peso no caso de seus principais produtos. Já os produtos mais sofisticados, como automóveis e aviões, representam parcela importante da produção do setor exposto ao mercado externo, enquanto outros, como celulares e computadores, apresentam peso considerável no setor com menor exposição. A divisão entre commodities e produtos diferenciados não é, pois, a mesma que existe entre alta e baixa intensidade exportadora.
Dado esse pano de fundo, convido os 17 leitores a analisar o comportamento dos dois setores a partir do início da série (ver gráfico). O primeiro fato que salta aos olhos é o avanço francamente superior do setor intensivo em exportações. Entre 2002 e o terceiro trimestre de 2008, sua produção cresceu à taxa média de 6,4% ao ano, ante 3,3% no caso dos segmentos de baixa intensidade exportadora, diferença que se mantém mesmo se escolhermos outros períodos amostrais.
Em outras palavras, apesar da conversinha sobre como a apreciação cambial -associada à forte valorização das commodities no período- estaria levando à desindustrialização do país, a realidade insiste em mostrar precisamente o oposto. Foi o setor de alta intensidade exportadora que liderou a vigorosa expansão industrial dos últimos anos e, dentro dele, o melhor desempenho veio de segmentos produtores de bens diferenciados, como automóveis, caminhões e aviões.
Obviamente, dado o cenário de forte contração do comércio internacional, que registrou queda de 40% entre o terceiro trimestre do ano passado e o começo de 2009, foi também esse setor quem mais sofreu com a crise, agravada ainda pelo colapso das importações argentinas (55% entre julho de 2008 e maio de 2009), destino de quase 20% das exportações industriais brasileiras. Tal resultado, diga-se, é congruente com o que já havíamos mostrado nesta coluna, isto é, que a queda das exportações explicava a maior parte da redução da produção industrial.
À luz desses dados, seria surpreendente a insistência de certos economistas em ignorar o contexto externo e atribuir a forte queda da produção à política monetária. Só não surpreende porque há muito se sabe que tal "análise" deriva, em partes iguais, de incrível despreparo técnico e inigualável desonestidade intelectual.

Fonte: FSP

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Caritas in Veritate

Finalmente saiu a Caritas in Veritate, a encíclica do Bento XVI dedicada a questôes econômicas e sociais. Quem espera uma critica a economia de mercado, globalização, finanças internacionais, etc, na linha da turma de sempre, certamente, vai ficar desapontado. Leitura obrigatória, não somente aos católicos, mas, a todos aqueles que apreciam a produção intelectual de alta qualidade.


36. A actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil. Esta há-de ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política. Por isso, tenha-se presente que é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico — ao qual competiria apenas produzir riqueza — do agir político, cuja função seria buscar a justiça através da redistribuição.

Desde sempre a Igreja defende que não se há-de considerar o agir económico como anti-social. De per si o mercado não é, nem se deve tornar, o lugar da prepotência do forte sobre o débil. A sociedade não tem que se proteger do mercado, como se o desenvolvimento deste implicasse ipso facto a morte das relações autenticamente humanas. É verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo, não porque isso esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido. Não se deve esquecer que o mercado, em estado puro, não existe; mas toma forma a partir das configurações culturais que o especificam e orientam. Com efeito, a economia e as finanças, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos egoístas. Deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de per si bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas consequências, não o instrumento por si mesmo. Por isso, não é o instrumento que deve ser chamado em causa, mas o homem, a sua consciência moral e a sua responsabilidade pessoal e social.

A doutrina social da Igreja considera possível viver relações autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de solidariedade e reciprocidade, mesmo no âmbito da actividade económica e não apenas fora dela ou « depois » dela. A área económica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada.

O grande desafio que temos diante de nós — resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira — é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser transcurados ou atenuados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade.

71. Esta possibilidade da mentalidade técnica se desviar do seu originário álveo humanista ressalta, hoje, nos fenómenos da tecnicização do desenvolvimento e da paz. Frequentemente o desenvolvimento dos povos é considerado um problema de engenharia financeira, de abertura dos mercados, de redução das tarifas aduaneiras, de investimentos produtivos, de reformas institucionais; em suma, um problema apenas técnico. Todos estes âmbitos são muito importantes, mas não podemos deixar de interrogar-nos por que motivo, até agora, as opções de tipo técnico tenham resultado apenas de modo relativo. A razão há-de ser procurada mais profundamente. O desenvolvimento não será jamais garantido completamente por forças de certo modo automáticas e impessoais, sejam elas as do mercado ou as da política internacional. O desenvolvimento é impossível sem homens rectos, sem operadores económicos e homens políticos que sintam intensamente em suas consciências o apelo do bem comum. São necessárias tanto a preparação profissional como a coerência moral. Quando prevalece a absolutização da técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios: como único critério de acção, o empresário considerará o máximo lucro da produção; o político, a consolidação do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas. Deste modo sucede frequentemente que, sob a rede das relações económicas, financeiras ou políticas, persistem incompreensões, contrariedades e injustiças; os fluxos dos conhecimentos técnicos multiplicam-se, mas em benefício dos seus proprietários, enquanto a situação real das populações que vivem sob tais influxos, e quase sempre na sua ignorância, permanece imutável e sem efectivas possibilidades de emancipação.

Para ler o texto completo da encíclica clique aqui

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Pequena história do mundo

É uma pena que as coisas são um pouco mais complicadas que o retrato em branco e preto apresentado por Bresser Pereira, no artigo abaixo. O seu discurso, no entanto, não é muito diferente do discurso de outros membros da mesma geração da esquerda católica, ainda vagando, sem rumo, em um mundo pós-marxista.



Neste ano , devido à crise global, as taxas de crescimento dos países ricos serão fortemente negativas, as da América Latina serão moderadamente negativas e os países asiáticos continuarão a crescer, ainda que a taxas um pouco menores. Não há novidade nesse fato. Como os países asiáticos contam com nações e elites independentes, que adotam políticas econômicas segundo seus interesses nacionais e não segundo a recomendação dos países ricos, desde o fim da Segunda Guerra crescem muito mais que o Brasil e a América Latina.

Isso fica mais claro se eu contar uma pequena história. No século 16, enquanto os europeus colonizaram as Américas, na Ásia limitaram-se a estabelecer entrepostos comerciais porque as grandes civilizações asiáticas eram suficientemente poderosas para evitar a colonização. A Inglaterra e a França, porém, estavam em pleno processo de desenvolvimento capitalista e completaram sua Revolução Industrial no início do século 19. Assim, tornaram-se fortes o suficiente para, nesse século, reduzir a Índia e a China à situação de colônia formal (caso da Índia) ou informal (caso da China). Nos 150 anos seguintes, esses países, dominados pelo imperialismo, viram suas economias regredir fortemente e uma imensa pobreza dominar todo o continente. Enquanto isso, os países latino-americanos ganhavam independência da Espanha e de Portugal com o auxílio da Inglaterra.

Em agradecimento a essa ajuda desinteressada, nossas elites aceitaram para seus países a condição semicolonial. Entretanto, as nações latino-americanas contavam com um Estado para definir e implantar políticas nacionais, de forma que lograram algum crescimento. Em 1950, enquanto a Ásia apresentava níveis baixíssimos de crescimento, os países da América Latina tinham um razoável nível de renda por habitante, e alguns países, como o Brasil, estavam em plena industrialização.

Mas esse quadro mudaria nos 60 anos seguintes. Nos primeiros 30 anos, países como o Brasil e o México, que haviam alcançado alguma autonomia nacional, ainda lograram adotar políticas nacionais e se desenvolveram. Desde a grande crise da dívida externa dos anos 1980, porém, esses países, e principalmente o México, se dobraram ao Norte, voltaram à condição de países dependentes ou semicoloniais -agora subordinados aos EUA- e se submeteram às políticas neoliberais.

Enquanto isso, os países asiáticos cresciam a taxas aceleradas desde os anos 1950, primeiro com um modelo de substituição de importações, depois com um modelo voltado para as exportações, mas usando sua própria poupança, e, o que é mais importante, sua própria cabeça -sua própria visão do que é o interesse nacional. Em consequência, nestes últimos 30 anos os países asiáticos dinâmicos cresceram a taxas entre três e quatro vezes mais do que a América Latina. Cresceram porque suas elites asiáticas -em vez de "europeias" como as nossas- não se submeteram ao Norte. Cresceram porque adotaram políticas econômicas que neutralizavam as duas tendências que impedem o desenvolvimento econômico dos países em desenvolvimento: a tendência de os salários crescerem menos que a produtividade e a tendência à sobreapreciação da taxa de câmbio.

E assim vamos ficando para trás.

Nosso "consolo" é que os países ricos também estão ficando para trás, porque, como vimos nesta crise, acabaram se tornando vítimas da globalização financeira e das políticas neoliberais que nos recomendavam. Pobre consolo, triste pequena história do mundo.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Bireli Lagrene and Philip Catherine, 18th Jazz Festival(1982) em Frankfurt(Main),Alemanha